Invocavi Maledictus Ventis (I Invoke Cursed Winds) III
-Que inferno...
-Tão tolo...
-Não compreendo, o porquê de você me perseguir... Achei que estava...
-... Tudo bem? Você, além de tolo é idiota. Olhe-se, e diga-me o que vê.
-A pior pessoa do mundo. – Choramingou.
-Não. Eu vejo potencial. Um poder... Inigualável. Você lembra... ?
-Se houvesse um dia do passado que não me libertasse...
-Nós éramos considerados um Deus. Aqui no Santuário, esse título, só servia a nós, só cabia a nós, Saga.
-Essa ambição levou o meu irmão. – O pranto já era vivo.
-Chorando? Eu tenho vergonha de você. É humilhante. Como eu desejo aniquilar você, como eu desejo tomar o seu corpo como meu, Saga. Sem lágrimas. Você chora por ele, e Kanon se tornou alguém tão poderoso quanto nós. Só que temos diferenças.
-CALE-SE! Ele é o meu gêmeo!
-Kanon não tem a mim. Se tivesse, e eu desejaria que tivesse... Assim eu não estava aqui, implorando para que você olhe nesse maldito espelho e veja o poder que você e está desperdiçando aqui, no meio dessas lágrimas!
-Eu vou acabar com você, maldito. Acabou com a minha vida, e vai levá-la de novo! – Diante do espelho, ergueu a Adaga Dourada bem ante de seu pescoço.
O outro gargalhou com gosto. -Então, bebê, procure um berço e chore. E você além de tudo, lamenta, porque sabe que suicídio não vai me parar. Uma vez conseguiu, com aquele cetro maldito de Athena... Mas nós... Juntos... Com o poder dos Deuses, vamos fazer com que a Vitória fique do nosso lado.
Empunhando sua vontade, sua ambição, Ares fez com que Saga levantasse o braço que não segurava a Adaga e o fez apoiar no grande espelho que havia em Gêmeos. -Olhe, Saga! Olhe para si! – A respiração do geminiano estava rápida, ao mesmo tempo que cansada. Não queria, mas se forçava a olhar para si no espelho. Via seu reflexo, não mais como gêmeo de Kanon, mas uma versão mais definhada de si. Houve um choque em seu olhar. -Não...
-Vê? Essa criatura é o que você vai se tornar se não fazer do meu jeito. Você vai ser a minha presa. Vou caçar você, até que eu possa tomar o seu lugar.
-Você é um imbecil, Ares. Eu vou lutar contra você, até o meu último respirar. Não tenho mais nada a perder, pelo contrário, eu me recuso, por Kanon e por Athena, trazer todo aquele inferno para o Santuário novamente! – Seu tom havia tornado um timbre maior, gritando contra si, no espelho. -Eu que irei caçar você! Não me importa que me achem louco! Eu vou destruir VOCÊ!
-Todos aqui o desprezam. Será fácil você ser exilado, preso, abandonado. E se estou certo, os seus colegas não sabem exatamente, quem é o Mal por vir. Vai ser ótimo ver as caras deles ao descobrir que Saga vai tornar a ser Grande Mestre e destruir o Santuário e a Terra.
Piscar, naquele momento parecia ser uma tarefa difícil. Quanto mais sentia e ouvia Ares, mais sabia que ficaria difícil controlá-lo. Tinha que arranjar uma maneira fácil de desfazer dele, de fazê-lo dormir.
A Adaga caiu, sonora. -Não... – Sentia a sua força, esvaecer. Como se não fosse um Guerreiro de Ouro. Como se algo o sugasse intensamente, naquele momento. -NÃO! – Bateu com as duas mãos no espelho, quebrando-o em muitas partes. -Não vou permitir!
-Você é meu, Saga de Gêmeos. Nós dois, juntos, vamos fazer esse Mundo à nossa imagem e semelhança.
-QUE DROGA, NÃO!
-Você não vai fugir.
O geminiano mais velho levou ambas as mãos, feridas, para o rosto, tentando se desvencilhar dos pensamentos e da posse de Ares. -Você não vai... – Segurou com força algumas mechas de seus cabelos.
Caiu de joelhos ante ao espelho quebrado. Apertava os olhos, sentindo uma forte dor em seu peito, interior, não física. -Kan... Kan... Socorro... – Clamou, fracamente, por cosmo. Tão fraco, sabendo que não seria ouvido daquela forma. Juntou um pouco de seu cosmo que também dava indícios de cansaço.
Sem jeito, passou os dedos nos cabelos loiros, bagunçando-os. Riu, com a face corada, pela gracinha do amigo. -Tudo bem, mais tarde nos falamos, Milo. – Despediu-se dele e do irmão mais novo, para continuar descendo as escadarias.
Mas enquanto se aproximava de Gêmeos, foi mais lento e cauteloso em seus passos. Algo ali, não estava bem. Seu cosmo sentia o de Saga, fraco, mas presencial, portanto luta, ele não travava. E assim, Aiolos, para verificar a segurança do Templo e do colega, adentrou a Casa.
Sabia da ausência de Kanon, já com dias corridos. Saga mantinha-se profissional, mas era visível o desgaste causado pela ausência do irmão, por isso, tinha empatia por ele nesta situação. Mas algo a mais estava fora de contexto naquele lugar.
O Templo estava escuro, bagunçado.
Adentrou um pouco mais, e notou que entre a bagunça, vidros e mais vidros quebrados, louças. Tecidos desarrumados. Seus passos agora foram mais silenciosos, o suficiente para alcançar o corredor. Avistou e reconheceu Saga, ao chão, murmurando algumas coisas que não conseguiu entender. Estava visível que ele não se sentia bem. Notou os cacos de espelho em volta do outro.
-Saga, por Athena. – Ao tomar em consciência a situação, ajoelhou-se no chão, deixando o seu arco de lado, colocando as mãos nos ombros dele. -Saga! O que aconteceu? Venha, deixa eu ajudar. – Uma mão sua pegou no braço dele a outra em sua cintura, mas antes de mencionar levantá-lo, assustou-se ao ver o rosto dele manchado de sangue, o que presumiu ser próprio, e lhe olhar em pranto. -Saga!
-Solte-me traidor de Athena! – Ares o empurrou, fazendo Aiolos cair sentado e Saga permanecer de joelhos.
O sagitariano sentiu o sangue fugir do rosto por completo ao ouvir aquele tom, aquelas palavras. Ficou atônico por alguns segundos. -Você. – Sua voz chegou a falhar.
Em um lampejo de consciência, encontrou os olhos conhecidos naquela escuridão. -Aiolos? Eu imploro, acerte a sua flecha em mim. – Pediu, mostrando nervoso e impaciência, nisso, estendeu a mão para pegar o arco dourado do outro, para lhe entregar.
-Sa..ga... O que... ? – Olhava em choque, ainda sem saber o que fazer primeiro. Ouviu aquele pedido, e em um momento, fechou o semblante. -Que besteira. Você está se sentindo mal, isso é saudade do Kanon, eu sei. – Em seguida, resolveu se mexer, tornou a ajudá-lo a se erguer, agora com sucesso. -Viu, só? Eu entendo isso... Quando o Aiolia viaja, fico acabado... – Deu um sorriso carinhoso. Pouco depois, segurou o arco. -Vem, vamos para o seu quarto. – Aproveitou para olhar, o local, estava preocupado com aquela situação do Templo, preocupado com o colega.
De forma tão repentina quanto o momento anterior, Ares se desvencilhou de seus braços, e rapidamente pegou a Adaga, mas dessa vez, deixou a ponta da lâmina roçando ao pescoço do sagitariano, que não se esboçou por isso.
-Saga, você é forte, é capaz. Não precisa disso... Sabe...
-Você não sabe de nada! Você destruiu os meus planos e agora eu vou destruir você. Um simples movimento da minha mão, e o Leão irá chorar mais uma vez! – Aquelas palavras doeram no grego, serem ouvidas.
-Você é... Ares, o Cavaleiro de Ouro de Gêmeos. Porque usar uma arma branca, ao invés de seu próprio e grande poder? – Naquele momento, Aiolos, mesmo assustado, estava controlado.
-Aiolos, por favor... A sua flecha... Eu sou o Mal que está por vir... Não... Posso... Não... Dá... – Naquele instante, o outro sentiu os olhos marejarem.
-Saga... Não.
-Uma vez em sua vida, seja útil, Saga! Faça a cabeça do traidor rolar. Faça o que Shura de Capricórnio não foi capaz de fazer.
Aiolos observava a cena, atônito. Presenciar aquilo, depois de tantos anos, depois de tanta conquista, e tanta dor deixada para trás, era algo próximo ao terror. Saga era uma cobaia de algo ruim, e não podia ajuda-lo.
-Aiolos, isso não pode... Sair daqui... Ele não pode... Sair daqui... – Com a força que Ares incumbia, a lâmina era cada vez mais pressionada contra a pele dele, fazendo o grego exclamar de incômodo.
-Isso. Não seja traidor contra um futuro deus novamente, não levante essa flecha. Que ironia, olha o que há no seu pescoço, Sagitário. – No momento seguinte, fez a sua mão livre segurar o pulso dele.
-Saga de Gêmeos. Pense em Kanon. Pense em tudo o que ele significa e faz você sentir. Não permita que Ares tire essas lembranças de você. – A voz de Aiolos havia se tornado imperiosa, algo anormal em seus dias. -Não permita que ele destrua o que existe de bom em você. Saga, me ouça. Saga... Escute a voz do seu irmão!
A expressão de frieza e maldade, o olhar maligno, deu lugar a olhos umedecidos, que deixavam lágrimas cair de novo. -Aiolos... É por ele... Que eu peço... Use a sua flecha e acabe de uma vez com isso. Se eu... Usar a adaga em mim... Não terá completo efeito...
-Saga... Não... Permita isso. – Depositando ainda mais força, contrária a de Ares, conseguiu desvencilhar seu pulso da mão dele, e consequentemente, jogar a lâmina longe de ambos. -Viu...? Como é capaz? Por ele?
-AIOLOS! USE A MALDITA FLECHA! – Como ele não compreende? Não é bondade, misericórdia, ou assassinato... É salvar a Humanidade mais uma vez!
-Que fim, Saga... Pedindo ao traidor uma nova chance. Você me envergonha! – Mais uma vez, Saga levou as duas mãos à cabeça e fechou os olhos, apertando-os em aflição.
Não podia permitir isso, mas ao mesmo tempo, sabia que só assim poderia evitar algo pior naquele momento. E como ele, deixou algumas lágrimas escaparem, de nervoso e temor diante da situação. Não houve necessidade de se afastar, quando empunhou o arco.
-Não... Consigo controlar, Aiolos. Você... Você sabe... Não é? Shion não lhe contou... Você viu por si mesmo... Viu... Que eu, mais uma vez, causaria... – Não conseguiu continuar. Fechou os seus punhos com força, e graças à maldade em sua posse, seu cosmo começou a se intensificar. Deixar Ares tomar os seus poderes, sabia que isso era o fim. Seu corpo estava cansado, mas ainda assim, se concentrava, tanto em Kanon como em sua força interior.
Ergue as mãos, deixando então o seu olhar fixo aos olhos de Aiolos. Porém, ele fechou os olhos no momento seguinte. Ares preparava-se para a Explosão Galáctica, e Aiolos, o tinha como mira com a flecha, juntamente com o seu cosmo também em evidência.
Ambos sabiam naquele momento que esconder algo dos outros colegas, já era impossível.
-Perdoe-me Saga. – Murmurou, desejando que houvesse outra maneira.
-EXPLOSÃO GALÁCTICA!
O elmo de Leão tilintou ao cair no chão. Levou a mão a cobrir a boca, ao sentir os cosmos dos mais velhos, e a agitação Casas antes. Em sua rapidez, desceu à Gêmeos, antes que os outros Cavaleiros tomassem a frente.
Deparou-se com o amado irmão ao chão, assim como Saga. -Aiolos! – Correu em sua direção, vendo a dificuldade que ele teve de se manter apoiado com a ponta do arco no chão. O rosto do mais velho estava machucado, assim como uma de suas ombreiras quebradas, exibindo o ombro bem ferido.
Fitou Aiolia com o olhar choroso. -Olia... Não precisava disso... Não...
-Olos, shh... Calma. – Abraçou o irmão enquanto o acalentava, e olhou em volta, atento a quaisquer reações do outro. Viu a adaga dourada ali próxima e se perguntou como o outro teve acesso. -Irmão, levanta... – Tentou ajuda-lo, com sucesso. -O que aconteceu... ?
-Aiolia... – Fungou, para respirar fundo. Deixou o arco escorregar e cair ao chão. -Ares... Está de volta.
Assim como ocorreu no sagitariano, o leonino sentiu o sangue fugir igualmente do rosto ao ouvir aquele fato. Em reação, suas mãos, onde tocavam Aiolos, o fizeram ainda mais firme, e o mais velho, sentiu essa reação.
Não posso lhe perder novamente... – Pensou ao buscar os olhos do mais velho.
