A garota do parque faleceu no dia seguinte ao incidente. Estranhamente (não para mim), ela tinha perdido todo o sangue do corpo. E mesmo depois desta conclusão, os policiais ainda não acreditaram no que eu tinha visto.

Tirando esta notícia trágica, tudo parecia normal durante o resto da semana, com exceção do garoto lindo, alto, forte, gostoso (segundo as palavras de Ruth) e metido, me encarando a maior parte do tempo que estávamos no mesmo ambiente. Não sei o que ele tinha visto em mim, mas aquilo estava passando do limite.

- Ele está olhando de novo. - Ruth falou pela segunda vez em 5 minutos. Estávamos no refeitório e eu comia, muito a contragosto, uma salada de rúcula e um bife muito mal passado.

- Eu sei.

- O que você vai fazer com relação a isso?

- Não sei! – Quase gritei.

- Porque você não o encara de volta?

- Tá louca?

Sempre fui muito tímida com relação a rapazes. Como que eu poderia agora encarar aquele garoto? Não suportaria nem dois segundos. Apesar de alguma coisa me dizer que ele não estava me paquerando.

- Como é o nome dele mesmo?

- Jacob. – Ruth respondeu.

Esfreguei minha testa e então mexi no meu cabelo até que ele cobrisse meus olhos. Alguns minutos se passaram e quando eu estava me deliciando com a sobremesa (quem é que resiste e doce de leite, hein?), Ruth quase me fez cair da cadeira.

- Ele está vindo para cá. – ela sussurrou.

- Você está brincando. – Falei erguendo a cabeça.

- Não é brincadeira.

Virei o pescoço com tanta velocidade que ele até estalou. O gemido ficou nos lábios porque tinha coisa mais importante acontecendo. O moreno me encarava e caminhava para minha mesa. E o pior, toda a escola estava observando.

- O que você vai fazer? – Ruth perguntou ainda sussurrando.

- Não sei! Puta merda, viu!?

Os segundos pareceram eternos, o tal Jacob se aproximou e... passou direto?! Quase fiz xixi na calça e ele passou direto? Quem ele pensa que é?

- Que estranho! – Ruth falou, coçando levemente o queixo. – Achei que ele fosse parar, dizer alguma coisa, sei lá.

- Aquele cara é estranho. – Falei antes de voltar a comer, o que provou ser um pouco difícil por causa da tremedeira em minhas mãos.

Sinceramente não achei que ele fosse parar. O que um cara como aquele teria visto em mim? Mas por que então ele me encarava o tempo todo, quando estávamos no mesmo espaço? Eu não sabia a resposta, Ruth também não e aposto que a escola toda também não. Afinal, se soubessem não estariam olhando pra mim daquele jeito meio assustador.

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- O plano é o seguinte, Jen: quando terminar a aula, você se dirige para o corredor da sala dele, espera ele sair e aí, assim que ele passar por você, você o para e pergunta o que ele quer. Simples!– Ruth falava enquanto caminhávamos de volta à sala.

- Você tá louca? Eu nunca vou fazer isso. – disse escandalizada.

- É o único jeito Jen. Você não está curiosa?

- Nem um pouco. – menti.

- Já que você é covarde, precisamos encontrar outra solução então.

- Não temos que encontrar solução nenhuma. Olhe pra mim Ruth. – pedi com urgência.

- O que foi?

- Tem alguma coisa no meu rosto? Está sujo de caneta? Olha meu nariz? Tem remela no meu olho? Tem alguma coisa esquisita nos meus dentes? Tem algo diferente em mim? – bombardeei Ruth de perguntas.

- Não para todas as perguntas. – ela simplesmente respondeu.

- Não tem motivo pra esse cara ficar me encarando.

- Vou ser sincera contigo Jen. – Ruth falou e eu me assustei. – Nós duas sabemos que não somos muito queridas pelo sexo masculino. Claro que não somos feias. Você é linda, seu cabelo é perfeito, mas não somos ricas e muito menos populares e os garotos como ele preferem estes tipos de meninas. Tem alguma coisa entranha e precisamos descobrir logo, antes que as patricinhas acabem com a sua vida. Cada vez que o Jacob olha pra você, elas lançam olhares que, se fosse possível, te encheria de verrugas.

- Você tem razão. – concordei, sentindo um calafrio.

Voltamos para aula e eu estava completamente distraída. Não sabia o que fazer. Deveria procurar o tal Jacob ou deixá-lo vir até mim? E se fosse brincadeira? Minha mente era um labirinto de confusão e eu me encontrava completamente perdida. Nada fazia sentido.

A aula passou lentamente. Tão lentamente que cansei de olhar para as horas no relógio. E quando ouvi o sinal tocando, soltei um suspiro de alívio e, assim como os outros alunos, juntei meu material e deixei a sala como se a professora de filosofia fosse apenas um objeto de decoração.

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Ruth e eu caminhávamos em direção à saída da escola. O corredor era longo, estávamos em silêncio e era bom. Ruth pensava na prova de amanhã e eu no que fazer da minha vida. Mas durou pouco porque o silêncio foi interrompido, estranhamente, por uma música da Madonna.

- Atende o celular. – Ruth falou.

- Mas não é o meu!

- Claro que é!

- Desde quando meu celular toca música da madona?

- Desde hoje, quando você me emprestou e eu troquei a música.

- Mas você é enxerida, hein?! – falei puxando o celular da mochila.

- Que nada! Aquela outra já estava cansando.

Aquela outra que Ruth falava era "Send me an angel" dos Scorpions, uma banda alemã, simplesmente fantástica e que eu amava. Principalmente aquela música em particular.

Meio a contragosto, atendi o celular.

- Alô.

- Oi Jennifer! Aqui é a Lucy. – a voz surgiu eufórica do outro lado da linha. Olhei Ruth sorrindo para o nada, enquanto enfiava a mão no bolso da minha calça e tirava de lá um chiclete, que eu tinha guardado para adoçar a boca antes de chegar em casa.

- É a sua irmã. – falei, arrancando o que me pertencia de sua mão.

- Você quer falar com ela, Lucy? – retornei para a ligação.

- Se fosse possível! É que o celular dela está desligado. Provavelmente descarregado.

- Tudo bem. Estou passando. Tchau. – despedi passando o telefone para minha amiga, que ficou conversando durante vários minutos.

- E então? – perguntei assim que ela desligou.

- Amanhã é aniversário do papai e Lucy vem me pegar para comprarmos o presente.

- Agora?

- É. Ela disse que vai me pegar aqui. Quanto antes resolvermos isso, melhor. Você não se importa de ir para casa sozinha?

- Claro que não!

- Que bom! Você também não se importa de me devolver o chiclete, não é? – Ruth me perguntou na maior cara de pau.

- Devolver o quê? Esse chiclete é meu. E por sinal, é o último.

- Mas Jen, minha taxa de açúcar está baixa. Preciso de algo doce. – Ruth insistiu, fingindo um começo de mal estar. Quem olhasse agora, pensaria que ela tinha hipoglicemia. Mas eu sabia que era tudo teatro. Ruth era louca, aficionada por qualquer coisa doce.

- Vou fingir que acredito. Toma! – falei entregando o chiclete.

- Ai que bom! Valeu mesmo Jen. Fico te devendo.

- Tá. – concordei enquanto Ruth desembrulhava e colocava na boca, se deliciando.

- Nossa, é de morango! Eu adoro morango. E tem caldinho!!! – Ela falava enquanto mastigava.

- Não precisa ficar narrando não, viu?! E vê se mastiga de boca fechada!

Ruth sorriu. E eu também.

- Agora tenho que ir. – Ruth caminhou para a saída.

- Tudo bem. Vai logo sua ladra de chiclete. – falei brincando.

- Depois te ligo. – Ela entrou no carro de Lucy, que acenou para mim.

Estava sozinha agora.

Desanimada, continuei caminhando, sentindo o vento frio soprar por meus cabelos e o cheiro podre da fumaça liberada pelos automóveis. Conforme os minutos foram passando, senti uma sensação estranha tomando conta do meu corpo, como se alguém estivesse me seguindo, me observando. Poderia jurar que se prestasse um pouco mais de atenção, ouviria os passos rápidos atrás de mim. Era esquisito e um pouco amendrotador.

Com medo, decidi correr pela calçada e, assim que virei a esquina, esbarrei em alguém. Fui a única a cair no chão.

- Preciso falar contigo.

Ergui o corpo rapidamente.

Um dos membros dos "intocáveis" estava ali. Mas não era qualquer um. Era o que andava me encarando. Tinha uma perna apoiada no muro, os braços cruzados sobre o peito. Extremamente alto, talvez 1,90m; magro, porém forte; a pele morena como se confirmasse sua descendência indígena, os cabelos negros e bem curtos. Realmente era bonito. Não o conhecia, mas algo nele me fazia pensar em mistério. Sua presença tinha alguma coisa de imponente, um pouco arrogante, mas majestoso.

- Comigo? – a voz saiu fraca para meu gosto.

- Com você. Precisamos conversar. – ele falou intimidador.

Ele era ainda mais bonito de perto. Exótico. Uma beleza completamente sensual. Bem mais sensual do que o Orlando Bloom (meu ator preferido). Seu perfume, uma mistura de madeira, terra e tabaco, me deixou completamente desnorteada.

- Não sei o que assunto você poderia ter para conversar comigo. – Falei séria. O primeiro passo era fazê-lo perceber que eu não era como aquelas meninas ridículas que suspiravam quando ele passava (Ok, só um pouquinho)

- Vou ser breve. Sinceramente não gostaria que estivesse metida nisto. Mas já que aconteceu...

- O que aconteceu? – perguntei curiosa.

- Tudo por causa de uma curiosidade fora de hora, meio estranha até. Ficar espiando casais se agarrando... – ele disse, balançando a cabeça em sinal negativo.

As lembranças voltaram à minha mente. A noite que eu vi uma garota ser assassinada. Eu sabia ter sido por um vampiro e ninguém me convenceria do contrário. Mas o que ele queria dizer com espiando?

- Espera aí! Eu não estava espiando ninguém. – falei ofendida.

- Sinceramente não me interessa. O que interessa são os problemas em que você se meteu. Não sei se você percebeu, mas ele anda te seguindo.

- Quem anda me seguindo? – Aquele garoto estava começando a me assustar.

- Quem você acha? Quem gostaria de te ver morta depois de testemunhar um assassinato?

- O assassino. – sussurrei engolindo seco.

A realidade me atingiu como uma bofetada. O desespero tomou meus pensamentos. O que poderia fazer? Aquele homem era um vampiro, ou talvez não, mas de qualquer forma era um louco, poderia até ser um estuprador. Meu Deus...

- O que eu vou fazer? – Perguntei em voz alta, mas não esperei resposta da parte dele.

- Você não pode voltar para casa.

- Quê? Você tá louco? Pirou na batatinha? Eu nem te conheço! - Falei começando a andar. Tinha mais o que fazer do que ficar conversando com caras esquisitos e com síndrome de super-herói.

- Não é uma coisa muito legal, mas não tem outro jeito. Você sabe que sua vida corre perigo.

Parei. Se fosse verdade mesmo o que ele dizia, eu não poderia simplesmente ir para casa e fingir que estava tudo bem.

- Como você sabe de tudo isso?

- Isto não é um assunto para ser discutido aqui. Te encontro em frente a sua casa dentro de uma hora.

- Eu não posso sair assim. Nem te conheço! E se você for um psicopata?

- Você precisa confiar em mim. Sou a única pessoa que pode te ajudar. Então até mais e não se atrase. – Ele falou, caminhando na direção oposta à minha.

- Você não sabe onde eu moro. – gritei antes de vê-lo desaparecer na esquina.

- Eu descubro.