Título:Ame no Orchestra
Autora: RyekoDono
Resumo: Mello e Near. Duas personalidades distintas e de emoções tão variadas quanto os instrumentos de uma sinfonia.

08. Cobertor

Mello não era gentil. Nunca quis ser gentil. Nunca soube ser gentil.

O rapaz era seco, inteligente demais para não ser um pouco amargo. Alguém de poucos sorrisos saudáveis, poucas disputas saldáveis. Alguém de hábitos tóxicos.

Era assim com Matt, desde o começo. Ele tratava o amigo com desdém, descontava suas raivas e frustrações e nunca pedia desculpas. Mello sempre esperava que Matt voltasse ignorando a briga anterior, com um de seus consoles embaixo do braço.

(Ele nunca entendeu como isso sempre acontecia).

Era assim com Near.

Mello via as outras crianças do orfanato e as enxergava dessa forma; como crianças. Near, independente da altura, da condição física e dos modos suaves, nunca seria uma criança na visão do loiro.

Near era seu odiado rival e Mello seria muito pouco gentil se tivesse oportunidade para tanto.

No primeiro xingamento, porém, ele não conseguiu o que queria. Chamando o albino de 'monstro', Mello tinha esperanças de fazê-lo chorar. Muito distante da realidade. Near o encarou, desviando os olhos dos seus brinquedos e falou com a maior racionalidade:

"Monstro? O que exatamente você quis dizer com isso?"

Um monstrinho racional. Mello não gaguejou, ele também era uma pessoa racional. O loiro contraiu seus olhos com ódio nas esferas azuis e não respondeu.

A resposta perfeita veio 15 minutos depois, tão apropriada que ele quis retornar para o salão e recitá-la sem contexto.

Mello não era gentil, mas também não era idiota. Ele engoliu a humilhação, engoliu o olhar inexpressivo sobre si e descobriu que xingamentos não funcionavam com aquele idiota.

Funcionavam com quase todos os outros. À exceção de Matt, as crianças do lugar o odiavam, admirando sua inteligência à distância. Mello sempre as veria como crianças e nunca passaria por sua cabeça que eles dividiam a mesma idade.

Crianças não pensavam as coisas que ele pensava. Crianças não faziam as coisas que ele fazia.

Quando a violência se tornou algo mais, Mello encontrou uma brecha na defesa intransponível de Near. Roubando todo o ar daquela boca, apertando seu pulso até deixar a marca roxa de seus dedos ou machucando o canto de seus lá deixar a marca roxa de seus dedos ou machucando o canto de seus lábios. Era uma vingança mesquinha e Near não se deixava afetar. O olhar do albino nunca dizia nada, e apenas os dedos fechados em seu ombro passavam alguma reação.

Não demorou muito para que os beijos virassem um exercício de pseudo-canibalismo, o que alguém menos racional chamaria de pegação. Lambidas, mordidas e arranhões transformaram a brincadeira de rolar na cama algo mais aos gostos de Mello. Ainda assim, a primeira vez que o rapaz o machucou de verdade foi quando eles fizeram sexo.

Não foi uma violência proposital. Assumindo que camisinha era para idiotas e ainda constrangido com a finalidade de lubrificantes, Mello não havia se preparado. Parecia um ato simples, ainda que a primeira vez tenha sido particularmente desagradável para ambas as partes. Mello se sentiu atrapalhado quanto a posição de pernas, braços e cabelos na frente do rosto. As mechas criavam uma imagem que poderia ser sensual, não fosse os fios se enfiando dentro de suas bocas, atrapalhando os lábios do loiro de descerem pelo seu pescoço. Foi uma noite curta, confusa e deixou um par de lágrimas escorrendo pelo rosto do albino.

Ainda assim seus olhos não disseram nada.

Mello continuou não sendo gentil (ainda que com menos brusquidão). Seus encontros na biblioteca eram breves e eles tinham de esconder gemidos com beijos fortes, verdadeiras disputas por oxigênio. Nas noites em que conseguia driblar a vigilância e dividir o quarto com o rival (ante o olhar insatisfeito e o ciúme não admitido de Matt), a realidade era um pouco diferente.

O loiro tinha mais tempo para não ser gentil. E Near tinha mais horas para olhá-lo com a expressão nula. Vícios que se traíam na madrugada, mas apenas por um momento. Eles vigiavam as próprias fraquezas. Se Mello ameaça um toque suave, levado pelo momento, Near imediatamente o provocava, aproximando os lábios de seu ouvido e sussurrando seu nome. "Mihael Keehl", ele dizia. Não Mello. Mihael. E o loiro deixava a marca de suas unhas nas costas brancas por aproximadamente uma semana.

Se Near se permitia um olhar desprotegido, talvez levemente admirado pelas circunstâncias; (A iluminação do rosto de Mello, a imagem de sua blusa caída no ombro e o corpo juvenil já interessante.). O loiro fazia questão de corrigi-lo com um sorriso maldoso. "O que foi, Nate River?" - Dizia ele, segurando o queixo do albino com força. - "Tem alguma coisa no meu rosto?".

Eles se corrigiam. Se machucavam. Near continha sons, tanto os de prazer quanto os de dor. Já Mello, que não tinha a palavra 'conter' em seu vocabulário, às vezes simplesmente não sabia o que fazer. Mesmo que desejasse que Near o tocasse da mesma forma que ele o tocava (antes da penetração), seu orgulho nunca permitiria. Era sempre ele que tinha que estar por cima, marcando a pele fácil de ser marcada, independente da sua disposição.

Não havia conversas durante as madrugadas, apenas provocações e promessas. Mello prometia superá-lo, Near prometia sempre vê-lo tentar e de certo havia apenas os orgasmos, os beijos atravessados e as marcas na pele do mais novo.

Eles não eram um casal gentil. Não havia gentilezas ou suspiros entre eles. Talvez apenas uma pequena cortesia...

Se Mello se jogava no colchão e acabava por dormir, exausto, ele sempre acordava com uma coberta sobre o corpo nu. Nas noites em que Near adormecia, Mello vasculhava o armário do rapaz atrás de um cobertor, e cobria o albino adormecido com razoável delicadeza.


Nota: A parte do 'pseudo-canibalismo' foi só porque eu não agüento mais ver gente descrevendo Lemon como se fosse um maldito Buffet... Eu sei que lambidas e mordidas são o máximo, mas 'saboroso' não é um adjetivo digno e um beijo, - a não ser que o Mello tenha enfiado o chocolate na boca para eles dividirem, simplesmente NÃO TEM gosto de açúcar.