CAPÍTULO 3 – A Revolução toma Hogwarts
Segunda-feira foi um dia de muitas atividades e algumas estranhezas em Hogwarts. Harry Potter cumpriu sua palavra e reuniu-se com os duendes de Gringotts, recendo controle sobre as propriedades da família, o título de chefe da família Potter e a feliz descoberta de que sua família já possuía algumas propriedades que ele poderia proteger para usar como refúgio e... lar (essa palavra trouxe uma grande emoção ao menino).
Enquanto isso, parte da população masculina, aquela ainda sem um par para o Baile de Natal, ficou surpresa ao ver que várias garotas, incluindo algumas de grande beleza (e outros atributos), haviam assinado a lista para passarem as férias de final de ano em casa, apesar de todo esforço dos professores em convencê-las a ficarem.
Também causou estranheza, e mesmo certa preocupação, em vários alunos e professores, descobrirem que várias meninas estavam formando alguns laços de amizades nada convencionais, ignorando completamente as tradicionais restrições de ano e casa.
No jantar daquele dia, outra surpresa. Uma significativa fração das meninas de Sonserina simplesmente não apareceu para a refeição. O chefe da casa, professor Snape, investigou o assunto questionando as garotas presentes à mesa, e descobriu, alarmado, que as meninas faltantes não eram vistas desde logo depois do almoço, não tendo comparecido às aulas.
Completando uma lista das ausentes, sua surpresa e agitação subiram a novos níveis, e ele correu avisar Dumbledore acerca do sumiço e da estranha particularidade que reunia todas aquelas garotas: eram todas pertencentes a famílias de reconhecidos apoiadores (quando não membros) dos Comensais da Morte e Voldemort.
Snape e Dumbledore assumiram, logo após o término do jantar, a ingrata tarefa de contatar as famílias das crianças envolvidas para avisar sobre o desaparecimento delas. Descobriram, estupefatos, que cada uma delas havia renegado suas famílias, que exigiam a imediata entrega das mesmas a seus cuidados para que fossem devidamente 'disciplinadas'. Explicar que elas simplesmente desapareceram no interior do castelo sem deixar rastros foi uma tarefa difícil, recebida com protestos irados e muitas vezes impublicáveis.
Era claro que a estranha similaridade da situação dessas meninas em relação à de Harry Potter não passou despercebida a nenhum dos adultos e quase nenhum dos alunos. Os poucos que não admitiam o envolvimento do Menino-Que-Sobreviveu com o caso das Sonserinas só tinham um argumento em que se apoiar: Harry era o quintessencial Grifinório, e não se envolveria com elas. Para alguns, como Dumbledore, não era apenas certo de que Harry estava envolvido no caso, como era o caso todo uma prova cabal de quanto o menino estava mudado.
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Os duendes não gostaram da ideia de usar o termo 'amizade' no juramento das garotas. Era um termo um tanto abstrato demais para um caso em que clareza era fundamental. No seu lugar, sugeriram 'cooperação', que julgaram ser mais claro e bem menos impositivo que 'servidão'. Foi assim que Harry Potter ganhou a companhia constante de dez garotas a partir de segunda-feira, e uma mais, Luna Lovegood, na terça, após ter recebido permissão de seu pai para se juntar ao grupo permanentemente. A garota realizou feliz seu juramento, mas sem a necessidade de renegar sua família, enquanto que as demais pediram e receberam a anuência de Harry para assumirem o sobrenome Potter. Essa mudança de nome foi magicamente registrada nos registros do Ministério e de Hogwarts, confirmando o temor de Dumbledore sobre o paradeiro das meninas.
Não demorou muito para que a notícia chegasse à imprensa. Harry Potter já vinha sendo severamente castigado por sua inesperada participação no torneio, sua recusa em colaborar com a mídia e o Ministério e seu desaparecimento. Agora passou a ser acusado também desde a sedução e corrupção de menores de idade (agravado pelo fato de ele agora ser considerado um adulto aos olhos da lei) chegando até mesmo a insinuações da possibilidade de rapto e estupro de jovens de puro sangue. Nem mesmo durante a época das acusações dele ser o herdeiro de Slytherin sua imagem frente ao público chegara a níveis tão baixos.
Mas o Menino-Que-Sobreviveu desprezava a fama que tinha com a imprensa, o governo e o próprio mundo mágico em geral, e sequer se preocupava em saber o que dele diziam. Sua atenção estava voltada para assuntos bem mais sérios do que a volúvel opinião popular, e aos poucos os resultados foram aparecendo.
Em primeiro lugar, seu padrinho, o fugitivo Sirius Black, estava agora comodamente instalado em uma propriedade dos Potters em Gales e se recuperava de sua longa estadia em Azkaban e mais de um ano como procurado número um no mundo mágico.
Segundo, Sirius auxiliara Harry e os élfos a criarem 'espelhos de comunicação' como os que os Marotos utilizavam em seu tempo em Hogwarts, mas com algumas modificações. Um pequeno espelho, instalado e mantido oculto nas salas de aula, transmitia som e imagem para imensos telões mantidos em salas criadas na Câmara Secreta, uma para cada disciplina, permitindo que os insurgentes pudessem acompanhar as aulas como se estivessem presentes.
Terceiro, os élfos estavam ajudando com os deveres de casa. Não a fazê-los, mas a garantir que eles chegassem aos professores e, uma vez corrigidos, voltassem às mãos dos alunos.
Quarto, os élfos que vigiavam os outros campeões haviam trazido para ele o conhecimento sobre a natureza da segunda tarefa, e ele já tinha um grupo devotado de bruxinhas pesquisando formas de completa-la.
Quinto, o mapa do maroto mostrara onde o verdadeiro Moody estava preso, e a constante espionagem sobre o falso revelara a natureza do plano de Voldemort, deixando Harry mais tranquilo ao descobrir que apenas correria perigo na terceira Tarefa.
Sexto, além dos élfos Harry agora contava com a companhia de um dedicado grupo de garotas para ajuda-lo e os benefícios dessa companhia eram muitos, e ele já nem ruborizava tanto quanto anteriormente depois de ser alvo de tanta zombaria e flertes.
Ainda havia muito por fazer, mas eles tinham um plano e tinham um ao outro para apoio. Tinham acesso a muito conhecimento, uma parte do qual perdido há séculos (nas obras coletadas ou escritas por Salazar), outra parte nunca antes acessada por humanos (com os élfos). A sensação de progresso e de realização era enorme, e dava forças para que continuassem no rumo certo com determinação.
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Embora Harry não se preocupasse muito com sua reputação, as meninas resolveram agir para, ao menos, colocar algumas dúvidas sobre o quanto de veracidade havia nos relatos de O Profeta Diário. Luna estava escrevendo uma série de artigos, cada um uma entrevista com uma das garotas 'desaparecidas', explicando a real situação delas e a felicidade em que viviam tendo escapado de um triste destino que lhes seria imposto por seus próprios familiares.
Talvez se Dumbledore tivesse tido tempo de ver O Pasquim daquela manhã, ele pudesse ter utilizado aquele primeiro artigo da série para defender um pouco sua posição. Mas seus três visitantes naquela manhã chegaram antes mesmo que ele pudesse tomar seu desjejum, quanto mais colocar-se ao par com sua correspondência.
O Ministro Fudge entrou no escritório do velho mago acompanhado por Lúcio Malfoy, representando os preocupados pais das garotas desaparecidas, e sua subsecretária chefe Dolores Umbridge, indo direto ao ponto.
"Dumbledore! Esta situação não pode mais continuar! E como você não tem nenhum resultado a apresentar, é meu dever como Ministro intervir para o bem de nossa sociedade."
"E como, exatamente, você pretende encontrar Potter e as meninas desaparecidas, Cornélio?" perguntou o diretor, interessado em conhecer qual a mirabolante, e errada, solução o Ministro poderia ter imaginado.
"É evidente que seu quadro de funcionários é pequeno demais para cuidar de toda essa escola, Alvo" prosseguiu o Ministro. "Veja o caso de Minerva, por exemplo. Excelente professora, com certeza. Mas além disso ela também é chefe da casa Grifinória e subdiretora da escola. Isso não está certo, Alvo, não há como ela possa cuidar dessas três funções com eficiência sem sofrer um tremendo desgaste. É por isso que estamos aqui hoje, preocupados com toda essa situação. Madame Umbridge gentilmente aceitou assumir a posição de subdiretora de Hogwarts, e será um importante elo de ligação entre a escola e o ministério. Para garantir um padrão mais elevado de segurança e disciplina, um destacamento de vinte aurores, metade de cada gênero, estará à disposição dela para atingir esse nobre objetivo. Enquanto ela se adapta ao novo cargo, nosso estimado senhor Malfoy concordou em liderar os aurores em uma busca completa por Harry Potter e essas pobres meninas que ele provavelmente... ah... bem, você sabe o que andam dizendo..."
"Cornélio, não acho realmente necessário..." tentou argumentar Dumbledore, mas o ministro não estava disposto a dar uma chance ao velho mago tentar mudar sua opinião.
"Dumbledore, essa situação chegou a um limite! Sua própria posição como diretor de Hogwarts está sendo revista! Não estamos pedindo sua opinião, estamos apenas comunicando o que decidimos fazer! Seus alunos devem estar agora mesmo recebendo essas notícias pelo Profeta Diário de hoje. Considere uma cortesia de nossa parte o fato de estarmos aqui avisando você das mudanças para que não seja surpreendido por elas no Grande Salão."
"Por quanto tempo pretende manter essa interferência em Hogwarts, Cornélio?" perguntou Dumbledore. "O que faremos quando o tempo continuar passando sem que seu esquadrão encontre indícios dos alunos desaparecidos?"
"Não se preocupe, Alvo, nós os encontraremos" respondeu Lúcio suavemente, sorrindo por estar conseguindo dar um golpe no orgulho do velho barbudo. "É evidente que seu pessoal é pouco e mal treinado para esse trabalho, mas estamos falando de vinte dos mais experientes aurores de nossa força. Eles farão seu trabalho."
Ignorando totalmente a intervenção de Lúcio, Dumbledore continuou olhando para o ministro e exigiu: "Um prazo, Cornélio. Dê-me um prazo para essa indesejada e inoportuna interferência terminar se progressos reais não forem feitos."
"Bom, sempre pode haver imprevistos, como todos sabem..." tentou argumentar Cornélio, mas Dumbledore interrompeu categoricamente: "Um prazo, Cornélio?"
"Até o final do ano letivo" concedeu Cornélio. "E Minerva não poderá voltar a acumular três cargos no próximo ano. Dois no máximo, não me importam quais."
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Naquela noite o grupo, consideravelmente ampliado por novos ingressantes sutilmente sondados pelas participantes originais, discutiu a intervenção do governo em Hogwarts. Harry agora já não era o único garoto envolvido, oito outros meninos foram convidados e aceitaram participar, incluindo Neville, Dean, Justino e Blaise entre os quarto-anistas. Se a escola já estava sofrendo sob a direção de Dumbledore, a interferência externa só podia significar mais complicações e menos qualidade de ensino.
O grupo até cogitou não intervir e simplesmente deixar os adultos brigarem entre si, mas Harry queria alguma vingança contra Lúcio Malfoy pelo tratamento que ele dera a Dobby, o perigo provocado pelo basilisco e os danos que causara em Gina. Susana imediatamente contou a todos algumas histórias que ouvira da tia sobre Umbridge e logo foi decidido que os dois seriam considerados inimigos, os aurores sendo poupados até que cometessem alguma ofensa.
A primeira ação deles contra os dois indesejáveis foi simples, mas efetiva. Os dois foram apresentados a uma substância trouxa muito eficiente: o pó-de-mico, um pó criado a partir dos pelos urticantes da vagem Mucuna pruriens, e causadores de uma forte coceira. As crianças estavam fazendo apostas sobre quantos 'Finite Incatatem' os dois lançariam no pó-de-mico, achando serem vítimas de feitiços e não uma simples substância trouxa, até perceberem a inutilidade da ação. Malfoy ficou dentro do esperado, e Padma e Amanda dividiram alguns trocados ganhos com a aposta, mas ninguém acreditou que Umbridge pudesse ser tão estúpida e teimosa a ponto de extrapolar as mais pessimistas estimativas.
O grupo passou a se divertir em bolar e aplicar todo tipo de pirraça contra os dois indesejáveis: sapatos e roupas íntimas que diminuíam em dois ou três números quando em uso, sapatos que gritavam de dor cada vez que pousavam no solo, contínuo mau cheiro, comida que sempre tinha sabor de mingau de aveia não importa o que fosse, penas que traduziam tudo o que escreviam para o húngaro, cadeiras que sempre pareciam serem de pregos, ruídos e insultos que só os dois ouviam... As crianças realmente deram vazão a toda sua criatividade a ponto de Lúcio, já no dia seguinte, alegar compromissos urgentes e partir correndo para longe de Hogwarts, deixando a teimosa Umbridge sozinha à frente de um esquadrão de aurores que cada vez mais considerava a subsecretária um caso de loucura.
Sirius queria estar com as crianças na Câmara participando de tudo aquilo, mas as crianças estavam felizes demais com sua recém-conquistada liberdade para permitir a presença de um adulto entre elas. No entanto, os gêmeos Weasleys foram aceitos e logo a cruzada contra Umbridge se intensificou exponencialmente.
Hermione acabou tendo que se refugiar permanentemente na Câmara quando Dumbledore tentou convoca-la para uma reunião em seu escritório. Por sorte, a garota havia aceitado uma sugestão de Harry e Susana, e havia escrito a seus pais pedindo que eles dessem à filha o direito de agir como melhor entendesse. Após o espelho espião plantando no escritório de Dumbledore mostrar o diretor conversando com Snape planejando como extrair da mente da menina informações sobre Harry, tudo o que ele recebeu da menina em seu escritório foi uma cópia do documento, e a certeza de que Hermione não voltaria a ser vista na escola tão cedo.
Depois desse episódio, Dumbledore e Snape foram eleitos como novas vítimas do 'esquadrão pirraça'. Por aclamação unânime, Draco Malfoy foi também incluído, e o grupo voltou a passar dias divertindo-se em tornar a vida deles um inferno.
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Apesar de todas as ações contra sua pessoa, Dolores Umbridge não se deixou vencer facilmente. Sem conseguir acesso aos seus principais objetivos na escola, ela, em represália, passou a tornar a vida de todos os demais alunos um inferno. Ela sabia da cláusula sobre aprovação imediata de que Potter estava se beneficiando, mas estava convencida de que o menino teria que reassumir sua condição de aluno normal no ano seguinte, e aproveitava de sua posição como subdiretora para assegurar que ele e seus comparsas tivessem uma posição enfraquecida e mesmo humilhante no ano seguinte.
Suas ações foram engendradas como 'Decretos Educacionais' sancionados pelo Ministério, e eram um exercício de preconceitos e elitismo nunca antes visto na milenar escola mágica. O tradicional emblema da casa a que os alunos eram afiliados recebeu uma mudança: fundo azul para os puros de sangue, marrom para os meio-sangue e amarelo para os nascidos trouxas (não que ainda restasse algum à vista, mas Umbridge queria que a mudança fosse permanente). Como o número de alunos frequentando o Grande Hall diminuíra, as quatro mesas foram reorganizadas: uma para os alunos visitantes, uma para os puros de sangue, uma para os meio-sangue e uma (atualmente vazia) para os nascidos-trouxa.
Os melhores lugares em sala de aula, e a preferência de trânsito pelos corredores, eram conferidos pelo critério de pureza de sangue. O mesmo critério também era utilizado nas refeições, com a quantidade e qualidade dos pratos servidos sendo proporcional à pureza do sangue. Por fim, concessão de pontos e punições passou a ser prerrogativa da subdiretora, que aplicou os mesmos critérios elitistas: uma resposta certa em aula dava um ponto aos nascidos-trouxas, três aos meio-sangues e cinco aos puros de sangue.
Hogwarts não estava nem um pouco feliz com as mudanças, e começou a rebelar-se contra as ações da subdiretora, e a inação do diretor, de forma sutil e progressiva, paulatinamente tirando poder sobre o castelo das mãos de Dumbledore e sua assistente e colocando esse poder nas mãos de quem o castelo via como seu legítimo representante.
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Hermione ficara em uma difícil posição mas, com ajuda de Harry e da Sala Precisa, conseguiu marcar um encontro com Viktor para conversarem. Para sua feliz surpresa, a jovem celebridade búlgara compreendeu e apoiou a menina, prometendo cooperar.
Na manhã de Natal os assinantes de O Pasquim receberam uma edição especial sobre o baile em homenagem ao Torneio Tri-Bruxo. Dezenas de fotos, a crédito de Colin Creevey, para imensa felicidade do pequeno fotógrafo, ilustravam não só o luxo e gala do baile, que contou com a presença dos quatro campeões, mas também revelavam ao público, pela primeira vez, a grandiosidade da Câmara Secreta de Slytherin, com suas imponentes colunas em forma de serpentes e a gigantesca estátua ao fundo. Ao pé da penúltima página da publicação, uma única foto mostrava o Grande Salão de Hogwarts, ricamente ornado mas quase vazio de pessoas, enquanto o texto comentava o desânimo e falta de animação do baile alternativo realizado por aqueles que não haviam sido convidados para o evento principal. A tristeza de Alvo Dumbledore e a raiva de Dolores Umbridge eram evidentes na fotografia.
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O dia da segunda tarefa do Torneio chegara, mas nenhum dos participantes havia sido visto no castelo desde antes do baile. Para surpresa de todos, os quatro surgiram do nada segundos antes do horário marcado para o início da prova, já devidamente trajados para o evento, e burlando a vigilância de aurores e professores ao redor do local.
Dumbledore não pôde agir para se aproximar de Harry, já que teve que assegurar que uma irada madame Umbridge não decretasse a prisão do menino antes do início da prova. Filch disparou seu pequeno canhão, e três dos participantes caíram na água, disputando a corrida para chegar a seus entes queridos, enquanto um deles simplesmente aproveitou de uma poltrona reclinável para descansar e aguardar os eventos.
"Harry" gritou Dumbledore de sua posição no camarote dos juízes, "Você precisa participar da prova, ou poderá perder sua magia!"
"A prova consiste em buscar algo no lago que eu tema perder, Alvo" respondeu o garoto, "...mas não há nada no lago que eu tema perder!"
"Harry, seu melhor amigo..." tentou intervir novamente o velho mago, para ser bruscamente interrompido.
"Nenhum de meus amigos está preso no fundo do lago, velho!" respondeu Harry irreverentemente.
No entanto, antes que Dumbledore pudesse revidar novamente, Fleur deixou o lago, ferida e em prantos.
"Arry, Gabrielle está no lago... eu não consegui... grindylows... eles atacaram..."
"Eu vou busca-la!" gritou Harry, já correndo para o lago. E ele continuou correndo, e correndo, e correndo... até o meio do lago, para surpresa de toda plateia, como se as águas do lago tivessem se solidificado. Ali, no centro, ele esticou os braços, e uma enorme rocha logo se materializou em suas mãos, ajudando o menino a afundar rapidamente.
Segundos depois uma enorme bolha de ar estourava na superfície, e dela emergiu o menino, carregando a pequena Gabrielle em suas costas, os dois rindo e saltitando de volta para a margem, onde Fleur esperava ansiosamente enquanto madame Pomfrey curava os ferimentos da veela usando sua varinha e visivelmente irritada com a recusa da campeã em ir até a tenda médica.
Ao tempo em que Harry retornava para a margem, Cedric apareceu um pouco à frente com seu pai Amos e Viktor com seu amigo Ivan. Todos entraram com grande pressa na tenda médica, que foi imediatamente cercada pelos aurores por ordens de Umbridge.
Público e juízes esperaram um grande tempo pelo retorno dos campeões para receberem suas notas até que Umbridge, cansada e enfezada, ordenou aos aurores que entrassem e os trouxessem à força, se necessário. Tudo o que encontraram na tenda foi uma adormecida madame Pomfrey, em uma das camas reservadas aos campeões e seus reféns.
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No dia seguinte ao da segunda tarefa, O Pasquim retratou mais uma vez, em edição especial, o baile homenageando os campeões e o dia de São Valentim. Na penúltima página, mais uma vez uma foto do semideserto Grande Salão de Hogwarts durante o jantar daquele dia foi exibida, informando que, dessa vez, os excluídos do baile decidiram não realizar um evento paralelo, talvez decepcionados com a pouca atenção dada ao primeiro. Em honra a Gabrielle, aniversariante do dia, o baile foi dessa vez realizado na Sala Precisa, decorada para imitar o Grande Salão do Palácio Beauxbatons. Novamente foi notada a total ausência de adultos ao evento, e a total felicidade dos participantes.
Na manhã seguinte, enquanto as crianças ainda descansavam das festividades da noite anterior, madame Umbridge teve uma crise de nervos ao ver, no café-da-manhã, a reportagem de O Pasquim. Privada de sono e descanso, estressada pelas buscas inúteis pelo castelo, zangada com seu insucesso em encontrar e punir os responsáveis por seu contínuo infortúnio, com a pele irritada por uma contínua coceira e o corpo fragilizado por tantos pequenos mas constantes acidentes, e humilhada por ter reduzido a frequência normal de alunos na escola a meros sessenta e dois estudantes, a grande maioria Sonserinos, a nova humilhação estampada em O Pasquim foi demais para a orgulhosa senhora, que precisou ser estuporada por sua própria guarda de aurores e levada ao Hospital Mágico, onde deu entrada para um merecido descanso e tratamento.
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Se Umbridge acabou colapsando, Severo Snape e Draco Malfoy não estavam em muito melhor situação. Harry descobrira os poderes que o castelo lhe ofertara e usou-os para tirar de Snape a capacidade de dar ou retirar pontos, além de reverter todos os pontos concedidos ou retirados por ele ao longo do ano. Isso fez com que Sonserina desabasse da primeira para a última posição na disputa pela Taça das Casas, e acabou com todo o prazer que o seboso morcego das masmorras tinha em perseguir os alunos de outras casas.
Já o príncipe albino de Sonserina estava com uma aparência vampiresca, com olheiras profundas, cabelo e vestes em desalinho e um tique nervoso que o fazia olhar para trás continuamente, como se esperasse ser emboscado a qualquer momento. Talvez esse tique fosse uma consequência de ele ter sido constantemente emboscado, quem sabe?
A saída de Umbridge e seus aurores do castelo não melhoraram em nada a situação dos alunos que ela tanto favorecera, muito ao contrário. Com mais tempo livre, o grupo podia agora expandir suas brincadeiras para também incluir esses alunos. Somente em maio a calma voltou à Hogwarts, isso porque muitos alunos do grupo estavam absorvidos em um nobre objetivo.
Junho trouxe os exames nas semanas imediatamente antecedendo à terceira tarefa do Torneio Tri-Bruxo e, para espanto de Dumbledore e dos professores, um considerável número de quarto-anistas inscritos para os OWLs e sexto-anistas para os NEWTs, incluindo o famoso Menino-Que-Sobrevivera, que usou a desculpa dos exaustivos exames para fugir de qualquer aproximação que o velho diretor tentava.
Foi durante essas tentativas que Dumbledore finalmente percebeu o quanto havia perdido de seu controle sobre o castelo, que parecia ter criado consciência própria e se engajado em auxiliar o jovem herdeiro dos Potters a escapar de seu assédio. Tudo parecia estar conspirando para que ele se perdesse naquilo que fora seu lar por décadas: escadas que mudavam para a direção oposta, tapeçarias por detrás das quais o menino sumia sem deixar rastros, portas que se recusavam a abrir para o velho mago... nada funcionava como deveria!
E o pior é que Harry, assim como todo seu grupo de revoltosos que antecipara os importantes exames, tinha obtido boas notas. Emancipado e com vários OWLs assegurados, não haveria como forçar o menino a continuar sua educação em Hogwarts se ele decidisse abandonar a escola. Mas era fundamental que Harry aceitasse seu destino e a orientação que Dumbledore queria lhe dar. A profecia assim o exigia, para o bem da sociedade mágica britânica! Severo havia para ele como a marca negra havia se fortalecido nos últimos meses. Voldemort estava próximo de retornar, e o tempo estava se esgotando rapidamente!
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Apesar das preocupações do velho diretor, as crianças não estavam tão estressadas com o possível retorno de Voldemort. Eles estavam cientes dos planos do Senhor Obscuro, e sabiam que eram capazes de cuidar da situação sozinhos, se fosse necessário. Mas não era. Susana conversara seguidamente com sua tia Amélia, chefe do Departamento de Execução da Lei Mágica, e agora contavam não só com o apoio desse importante departamento, mas também dos Inomináveis pertencentes ao Departamento de Mistérios, que Amélia havia convencido a também ajudar.
No dia da terceira tarefa, os quatro competidores entraram no labirinto um por vez, seguindo a ordem de pontuação total no Torneio, mas não se aprofundaram muito. Enquanto isso, élfos comandados por Harry interceptaram e capturaram o falso Alastor, levando-o para a Câmara Secreta, e criaram uma brecha nos arbustos que delimitavam o labirinto, permitindo a entrada discreta e despercebida de Amélia e seus acompanhantes: cinco inomináveis e um esquadrão de aurores.
Usando a taça do Torneio como chave-de-portal, o grupo todo, incluindo vários élfos sob o comando de Dobby, logo chegavam ao cemitério onde Voldemort planejara fazer seu regresso. O pequeno homúnculo que era agora o antes poderoso Senhor das Trevas e seu assistente Pedro Pettigrew foram rapidamente capturados, e uma grande serpente foi morta no local, causando um estranho espetáculo ao se revelar como um dos horcruxes criados por Voldemort.
Agora convencidos da identidade daquele homúnculo e da maneira como ele evitara passar para 'o outro lado', os inomináveis agiram rapidamente para neutralizar aquela ameaça, dosando o homúnculo com a Poção da Morte em Vida.
Os inomináveis logo depois deixaram o local, após darem fim a todos os restos mortais da família Riddle, levando consigo o homúnculo e a poção que iriam utilizar no renascimento de Voldemort. Amélia partiu em seguida com os aurores e Pettigrew, garantindo a Harry que cuidaria de limpar o nome de seu padrinho e punir adequadamente o verdadeiro traidor de sua família.
Finalmente, os quatro campeões utilizaram outra vez a taça para retornarem a Hogwarts e completar aquele conturbado e equivocado torneio com um quádruplo empate. Tamanho foi o tumulto que a chegada conjunta dos quatro campeões causou que o público demorou muito a perceber que o retorno deles causara o início de uma nova fase do plano.
Por toda parte na plateia, crianças pequenas, filhas de Comensais ou simpatizantes de Voldemort e ainda jovens demais para atenderem Hogwarts, estavam sendo discretamente retiradas para a Câmara. Suas irmãs e primas haviam estado em comunicação com elas e sugerido que elas adotassem a mesma solução: repudiar suas famílias e ligarem-se ao Menino-Que-Sobrevivera.
Quando os primeiros pais começaram a perceber o sumiço de suas crianças já era tarde demais. Fudge havia ordenado a prisão dos quatro competidores 'para esclarecimentos', o que os fez imediatamente desaparecer do local.
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Na Câmara Secreta, enquanto Harry procedia à adoção das novas crianças em sua família, o auror retirado Alastor Moody acabava de ouvir toda a história dos acontecimentos recentes pelas meninas, depois de ter sido resgatado de seu próprio baú pelos élfos, enquanto olhava com uma expressão maligna para o acorrentado e ainda inconsciente Barty Crouch Jr.
"Sim, pode deixar comigo, eu levarei esse verme e o entregarei ao DELM" disse ele ao fim do relato. "Por sorte não há tanta pressa... Sinto-me ainda um pouco fraco depois de passar confinado esses últimos meses. Sabe como é, pode ser que eu demore algumas horas até conseguir chegar lá..." completou ele, olhando maliciosamente para o pobre Barty Jr.
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Alvo Dumbledore estava mais uma vez decepcionado. A intervenção do Ministro causara a fuga imediata de Harry junto com os demais competidores, sem que ele tivesse tido uma chance de se aproximar do menino.
E por onde andaria seu amigo Alastor? Ele tinha combinado com o velho auror de manter um olho, o mágico, sobre o jovem Potter, exatamente para que ele não conseguisse escapar tão facilmente! Onde foi parar aquele ranzinza de perna de pau?
