Lágrimas e Sangue


N/A: Bem.... como eu prometi, né? Esse capítulo é dedicado pra Say e pra Loo (de novo) e pra Jasmin Tuk (gah! Você fez uma pobre alma muito feliz, viu?) que foram as almas caridosas que me mandaram reviews.... -_-"

N/A2: Esse capítulo tem uma citação ao filme Seven, e... bem.... Leiam aí!

N/A3: Ahn... se alguém tiver pesadelos com as cenas feias desse capítulo, pode ter certeza que eu estou rezando por vocês.

N/A4: Huahuahauhauahuahua... eu já disse que eu adoro N/As??? Bem, só pra não perder o costume.... Me deixem reviews!! Dessa vez quem me deixar uma ganha o capítulo 4 antes de eu publicar!

N/A5: Huhu... a última! Recomendem a minha fic pras outras pessoas! Eu preciso de incentivo pra continuar escrevendo, os meus capítulos prontos estão acabando! XDDDD



III - Uma Caixa

"Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado

Este amor que é como um rio; um rio
Noturno, interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo...

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão e treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo."


(Soneto do amor como um rio, Vinícius de Morais)


***
Aquilo não era nada bom.

Virgínia estava deitada em sua cama, que era pouco mais que um monte de trapos, encarando o teto já a um bom tempo.

Sabia muito bem que quando Draco colocava alguma coisa na cabeça, nem mesmo Você-Sabe-Quem e Dumbledore juntos poderiam faze-lo desistir da idéia.

Mas ainda assim não concordava.

Tudo bem, era o pai dele. Mais cedo ou mais tarde teriam que se falar. Mesmo porque, ninguém havia conseguido tirar nada de útil de Lúcio (o máximo que Dumbledore conseguira fora "Conheço um ótimo barbeiro em Londres, posso conseguir um desconto se vocês trocarem o sabor desse maldito chá"), e Draco provavelmente era a última esperança.

Mas ninguém iria obriga-lo a falar com o pai se ele não quisesse. De fato, ninguém ousaria falar sobre o pai com Draco, afinal, ele já sofrera o suficiente na época da escola. E por alguns meses gloriosos ela realmente chegara a pensar que ele não queria falar com Lúcio. Porém, ledo engano.

No dia anterior, Draco fora falar com Dumbledore, alegando que queria ver o pai, e de nada adiantaram as suas súplicas durante todo o tempo que estiveram juntos desde então.

Ele queria falar com o pai, e praticamente ignorava-a cada vez que tentava faze-lo mudar de idéia. Isso quando não a mandava fazer coisas não muito educadas, ou ir para lugares um tanto quanto... grosseiros.

Ah, é claro que o humor de Draco era péssimo. Na verdade, às vezes chegava a ser insuportável.

.....

Certo, ela adorava o humor dele e cada coisa de estranha que havia nele.

Bem, a verdade era que ela o amava, e se ele não fosse assim... simplesmente não seria Draco Malfoy.

Malfoy.... Malfoy... Malfoy...

Como odiava aquele sobrenome... Se ele tivesse nascido em qualquer outra família, as coisas poderiam ter sido tão diferentes...

Poderiam ter se conhecido antes, poderiam ter sido amigos desde o começo, poderia não haver ódio entre as famílias, poderiam ter sido felizes.

Mas sim, ela era feliz.

Apesar da guerra, do ódio, do mau humor, da frieza... Ela era feliz com ele como nunca fora com qualquer outra pessoa.

Duvidava até que se algum dia Harry tivesse correspondido seu amor poderia tê-la feito tão feliz. Na verdade, agora, depois de tudo o que vivera com Draco nesses poucos meses em que estavam realmente juntos, chegava a achar Harry um pouco... sem graça.

Bem, talvez isso fosse algum tipo de má influência de Draco, mas, em todo caso, aquela coisa de ser sempre o herói, o íntegro, a honestidade em pessoa, fazer sempre a coisa certa... Chegava a parecer irreal.

Já Draco... não era nem de longe uma pessoa exatamente honesta. Ele mentia até demais, e o que mais a irritava era que ela sempre acreditava em cada palavra que ele dizia, por mais absurda que fosse.

O Potter Perfeito.

E Draco, com todos os seus defeitos, conseguia fazer com que ela o amasse cada vez mais.
O que fazia com que o amasse, na verdade, eram seus defeitos, e seus erros, e a imperfeição.

A imperfeição que o fazia perfeito.

E mesmo assim, agora, ela estava angustiada, sentindo um medo terrível, embora não soubesse o motivo.

Sentia que alguma coisa de ruim ia acontecer se Draco fosse falar com o pai. Alguma coisa terrível.

Mas isso era impossível.

Nada poderia fazer mal a Draco, a não ser ele mesmo, e isso era o que ela mais temia.

Sabia que nada de ruim poderia acontecer, que Lúcio estava desarmado e nada poderia contra Draco.

Sabia que aquela base era impenetrável, que estavam perfeitamente seguros e bem escondidos de Voldemort.

Sabia que nada de mal poderia acontecer naquele castelo, nem com Draco nem com ninguém.

Foi mais ou menos nesse momento que ouviu a explosão.


***

Ela corria como uma desesperada, se desviando dos corpos que encontrava pelo caminho, sem nem parar para ver se os conhecia, e fugindo dos corredores onde ouvia mais explosões.

A coisa toda lhe dava uma terrível sensação de dejà vu, e ela sabia que não era por acaso.

Mas dessa vez não havia capa para protegê-la, e não havia a esperança furiosa de encontrá-lo vivo: ela sabia que ele estava vivo. Chegou a agradecer aos céus por aquela sala ser tão bem protegida.

E o que ela não conseguia parar de se perguntar era: como é que eles haviam descoberto onde era a base?

Pergunta que tinha uma resposta muito simples. Simples demais, infelizmente: alguém contara a eles. O que em outras palavras poderia ser dito: havia um traidor no meio deles.

Mas isso não importava, não conseguia pensar, tinha que chegar naquela sala antes deles.
Se encontrassem Draco, estaria tudo perdido, iriam matá-lo e dar a cabeça dele de presente a Você-Sabe-Quem.

Não era segredo o quanto ele queria Draco, e o quanto Lúcio queria vingar-se do filho. E qualquer dúvida que existisse fora eliminada depois daquele dia horrível em que Draco fora capturado pelos Comensais.

Ah, a sala não aparecia...

Por que eles tiveram que deixa-la tão longe?

Bem, era óbvio, e não adiantava ficar se lamentando, precisava chegar até ele logo.

"Apenas corra."

Corra, corra, corra...

Estava andando em círculos!

Não era possível, não podia estar perdida, precisava encontrar Draco!

"Não chore agora, Virgínia, não chore... Apenas continue correndo."

Mas não podia mais.

Suas pernas mal conseguiam mantê-la em pé, correr era impensável.

Com um último esforço, caminhou até o corredor mais próximo, onde a batalha já podia ser ouvida. Talvez se chegasse até um dos corredores principais, onde os Comensais já haviam conseguido entrar, conseguisse se situar, e então rumar para a sala onde Draco estava.

Virou o corredor.

Vazio.

Vazio!

Finalmente, encostando-se na parede de pedra fria, desabou no chão, incapaz de continuar contendo as lágrimas.

E tudo o que podia ouvir era a voz gritando em sua cabeça...

Inútil... inútil... inútil...

_ CALE A BOCA!

_ O que você disse? _ pôde ouvir claramente uma voz aguda e debochada, e virou-se para ver uma garota que devia ter aproximadamente a sua idade apontando a varinha para ela.

Inútil e burra.

E tudo que sentiu foi uma dor tão aguda quanto aquela voz, antes que tudo se diluísse em escuridão.

***

Tentou não rir por tudo que tinha, mas era impossível.

_ Você vai me matar? _ perguntou, com a voz debochada. _ E como você pretende fazer isso, me espancando até a morte? Porque se o seu plano era me causar uma overdose de biscoitos sinto muito, mas não funcionou.

_ Na verdade o plano original tinha mais a ver com o chá.

Ah, agora estava falando com o seu filho.

Odiava admitir, mas aquela encenação tinha chegado realmente a assustá-lo.

Estava começando a rir de novo, mas toda a graça que parecia ver na loucura de Draco pareceu se diluir quando viu o garoto tirar a varinha do bolso e aponta-la para ele.

_ Você... você está com... Abra a porta...

Mas Draco continuou apontando a varinha para ele.

Agora estava indo longe demais.

_ Muito bem, Draco, essa sua brincadeirinha já perdeu a graça. Abra a porta.

O garoto levantou uma sobrancelha, com uma expressão cômica. Se tivesse uma bala Lúcio daria a ele, mas como tudo que tinha eram biscoitos se limitou a ouvir o que o filho tinha para dizer:

_ Você não acredita realmente que eu vá abrir a porta, acredita?

_ Eu esperava que sim, mas se você prefere sair quebrando um buraco na parede, a opção é sua.

Fazia tempo demais que não conversava com ele. Tinha se esquecido de como essas conversas pai e filho eram agradáveis.

Bem, quando chegasse em casa compraria uma vassoura nova para ele.

Ou um punhal novo, quem sabe.

Draco ia abrir a boca para responder, quando repentinamente parou e começou a olhar para os lados como um louco.

Lúcio estava a ponto de fazer um comentário sobre isso, quando se deu conta do motivo: um barulho muito baixo, que lembrava uma explosão, mas que para penetrar no feitiço isolante deveria ter sido monstruoso.

_ Acho que os nossos amigos chegaram para o chá.

***

Acabe logo com isso e saia desse lugar.

....

Ah, por que era tão difícil?

Duas palavras e estaria tudo terminado.

Mas não conseguia falar. Mal estava ouvindo o que o pai dizia, apenas respondia automaticamente, cada resposta adiando mais o que pretendia fazer e fazendo-o parecer mais inseguro.

E seu pai ainda achava que ele estava brincando!

Será que era tão difícil assim perceber que não, que ele realmente pretendia enfiar um raio verde naquela cara idiota?

Tudo o que ele queria era uma vida normal!

Queria poder dizer que lutava por alguma coisa, que tinha algum ideal, que tinha sonhos...

Mas ele sabia que apenas estaria enganando a si mesmo.

A grande verdade, por pior que fosse, era que ele não dava a mínima para aquela guerra, para quem iria vencer, quem iria morrer, se ela um dia acabaria.

A paz não traria nada de novo para ele, e pelo menos na guerra ele era útil.

Útil até demais.

Para o que exatamente ele não sabia, mas sabia que era importante, e que confiavam nele, sabiam que era uma pessoa boa, e que estava no lado certo daquela coisa toda.

Bem, se eles queriam se enganar, o problema era deles.

Diga as palavras e saia daí.

Mas por quê?

Por que tinha que sair dali, ele tinha todo o tempo do mundo.

Se quisesse simplesmente ficar conversando o resto do dia com o seu pai, quem poderia impedí-lo?

E aquele barulho infernal que ele não sabia de onde vinha.... estava enlouquecendo-o.

Saia logo, covarde.... Você sabe que não tem coragem, então saia logo daí...

Não tinha coragem?

Quem ele era afinal?

Era Draco Malfoy, e já matara milhares, não estragaria tudo agora.

Abriu a boca, e quando ia pronunciar as palavras...

.... o maldito barulho!

Por isso deveria ter saído daquele lugar, o barulho!

Eles haviam chegado.

E ele falhara.

E por que diabos ainda estava ali?

Eles iriam entrar, libertariam seu pai, e ele seria novamente apenas um peão no meio daquela guerra, e depois de tudo, talvez até fosse morto!

Deu as costas para o pai, numa atitude impensada e absurdamente estúpida, e lançou o feitiço para destrancar a porta.

Certo, agora o guarda giraria a chave e ele poderia sair dali, e deixar que os outros encontrassem Lúcio, não faria a menor diferença.

....

E a porta não foi destrancada.

Tinham fugido e deixado-o ali, esperando que quem quer que fosse arrombasse a maldita porta.

Começou a soca-la, gritando para o guarda que deveria estar ali, mas sabia que era inútil antes mesmo de começar.

Feitiços isolantes de som.

Lançou na porta todos os feitiços dos quais se lembrava, até mesmo tentou incendiá-la, mas sem produzir o menor efeito.

Caiu no chão, derrotado, lamentando sua estupidez, e esquecendo-se de tudo ao seu redor, inclusive Lúcio.

Infelizmente, só se deu conta de que não estava sozinho quando sentiu os dedos de seu pai abrindo sua mão para pegar sua varinha.

***

Dor.

Era tudo o que sentia, uma dor terrível, queimando seu corpo...

Abriu os olhos lentamente, o que não mudou em nada a sua situação, já que continuou sem enxergar coisa nenhuma.

Lentamente, as coisas foram tomando forma de... nada.

Bem, não exatamente nada.

O "nada" em questão era um monte de... parede preta.

Com algumas... coisas andando nelas...

E tinha alguém lá também, de costas para ela... por um instante chegou a pensar que fosse Draco. Mas não, Draco não tinha os cabelos longos. Não tão longos. E... a "pessoa" não possuía aquele inconfundível tom de loiro acinzentado que pertencia apenas aos Malfoy. Aqueles cabelos eram mais... amarelos... ou dourados... não saberia dizer.

Onde é que já os vira antes?

Ah, é claro!

A garota.

Ela provavelmente agora estava presa, e eles a torturariam até que dissesse o que eles queriam ouvir, ou até que ela morresse.

"Tanto faz."

A garota virou-se para ela, e ao constatar que estava acordada, deu um sorriso irônico e ficou encarando-a, com uma cara que fez Virgínia querer ter uma varinha à mão, ou mesmo forças para levantar e socar aquela boca com aquele sorrisinho superior.

Reunindo todas as forças que tinha, tentou levantar-se, assim pelo menos não teria que ficar encarando a garota do chão.

Mas nunca lhe pareceu mais difícil.

Suas pernas pareciam milhares de vezes mais pesadas do que realmente eram, e antes mesmo que conseguisse se firmar já estava no chão novamente.

A garota revirou os olhos e cruzou os braços, resmungando alguma coisa que soou a Virgínia como "patético".

Aquilo decididamente a irritou.

Tentou levantar de novo, dessa vez apoiando na parede, e mesmo que sem muita firmeza conseguiu ficar de pé.

Esperou que a outra falasse alguma coisa, mas ela apenas deu uma risada de deboche e começou a bater palmas sem muita emoção.

_ Se eu estivesse com a minha varinha eu ia adorar ver você rir da minha cara de novo!

_ O fato é que você não está, então cale a boca e só responda o que eu perguntar.

Ela fuzilou a garota com o olhar, mas ficou quieta. Aquela Comensal medíocre teria o que merece quando ela conseguisse sair dali...

_ Ótimo. Me diga, onde é que vocês mantêm os prisioneiros nesse lugar?

Ela não disse nada.

_ Será que você é tão insignificante que não sabe nem ao menos isso?

_ Eu não diria mesmo que soubesse.

_ Sinto informar, mas você não tem muita escolha.

_ Ah, e o que você vai fazer? Me matar?

_ É, talvez. Mas não agora. _ Virgínia a encarou. _ Pense por esse lado: se você não me disser por bem, eu vou te torturar e você vai ter que me falar. E, em último caso, eu posso conseguir um pouco de Veritaserum e você vai acabar dizendo de uma maneira ou de outra. Então porque você não economiza o meu tempo e o seu e diz onde Lúcio Malfoy está?

Malfoy... Draco!

Nunca conseguiria chegar até ele nesse estado, e se a garota estava perguntando, provavelmente nenhum dos Comensais sabia onde Lúcio estava, então tinha uma possibilidade de que Draco ainda estivesse lá...

Teria que arriscar.

_ Certo. Eu te mostro onde ele está.

***

_ SOLTE ESSA MALDITA VARINHA!

_ É MINHA!

_ DRACO, SOLTE A VARINHA PRA EU ABRIR ESSA PORTA!

_ EU JÁ TENTEI! O QUE FAZ VOCÊ PENSAR QUE VOCÊ VAI CONSEGUIR E EU NÃO?

_ SOLTE A VARINHA!

_ NÃO!

_ ORA, EU VOU TE MOSTRAR!

Lúcio empurrou Draco no chão e pegou a varinha, olhando com o canto dos olhos para o filho no chão, que o olhava com uma cara péssima.

_ Você vai ver... _ ele murmurou.

Apontou a varinha para a porta, e quando ia abrir a boca para dizer as palavras mágicas...

.... a porta se abriu.

***

Virgínia ia na frente, com a garota em seu encalço, lhe apontando a varinha.

Rezava para que não se perdesse de novo, porque aí com certeza estaria morta.

Pelo visto a batalha já estava no fim, as explosões eram raras, porém viam-se muitos mais corpos no chão.

Não fazia idéia de onde ficava a sala onde estava presa, mas depois de virar alguns corredores, com a garota na frente, já podia se localizar. Mas, por incrível que pareça, não acreditava que pudesse chegar naquela sala de novo.

Agora ela andava lentamente, porque por mais que tivesse melhorado, seu corpo ainda estava dolorido. Bem, talvez estivesse andando um pouco mais lentamente do que o normal, apenas para irritar a garota, que de tempos em tempos mandava que se apressasse.

O corredor estava um pouco diferente, e ela não conseguia deixar de pensar que estava no caminho errado. Mesmo assim, continuou em frente.

O que foi uma sorte, porque um pouco depois já podia reconhecer a porta da sala de segurança máxima.

Parou na frente da porta, e estendeu a mão para a maçaneta, pronta para abri-la.

Girou a maçaneta, foi empurrar a porta e... ela não abriu.

_ Essas portas costumam ficar trancadas, sabe? _ a garota disse, e passou a frente dela, dizendo algum feitiço qualquer que fez com que a porta se abrisse.

Ela empurrou a porta, com Virgínia atrás, olhando, e a cena que as duas viram foi deveras estranha.

Lúcio Malfoy estava apontando a varinha para a garota, com uma cara aturdida e, mais atrás, Draco estava sentado no chão, com uma expressão assassina.

_ Alguém quer chá?

***

Draco estava com uma vontade inacreditável de pegar a chaleira e jogar na cabeça do pai.

Estava se preparando para levantar, mas quando tinha acabado de sentar, a porta milagrosamente abriu.

Ah, não.

O mundo estava contra ele ou o que? Ele tinha socado a porta por um bom tempo, e ainda gritado todos os feitiços que conhecia, e a maldita porta não abrira!

Agora seu pai, sem pronunciar palavra alguma, fizera a porta abrir!

Ótimo, não se importava.

Que o pai saísse pela porta que ele conseguira abrir, ficaria naquela sala até que conseguisse abrir a porta sozinho!

Porém, enquanto estava no meio de suas considerações absurdas, sentiu alguma coisa... ou alguém... agarrando-se no seu pescoço.

Depois de alguns segundos constatou que a coisa, ou melhor, a pessoa, era Virgin, que entrara correndo pela porta que seu pai abrira...

Ei! Lúcio não abrira porta nenhuma!

Que estupidez pensar que seu pai conseguiria, quando ele próprio não conseguira!

Obviamente Virgin abrira a porta pelo lado de fora, e entrara para procura-lo.

Bem, ótimo, ele não queria passar a vida trancado naquela sala se alimentando de biscoitos.

Tinha a vaga impressão de que ela estava dizendo alguma coisa, mas, de fato, não se importava.

Quando ela finalmente o soltou, ele pôde ver que ela estava com uma aparência péssima. Bem, talvez não estivesse pior que ele. Afinal, seu pai havia jogado-o no chão, e depois de tudo, seu cabelo deveria estar horrível.

Virgin olhava para ele, com uma cara que confirmava suas suspeitas a respeito de seu cabelo.

Olhou para o pai, pensando que com certeza Virgin nem se importara com ele, e que deveria estar muito longe da sala agora.

Mas não. Para sua surpresa, ele ainda estava lá, parado à porta. E pelo visto tinha alguém com ele. Uma garota.

Tinha a impressão que a conhecia...

Ela virou-se para ele, com uma das sobrancelhas arqueada, e ele a reconheceu.

Era Hailie.

***

Chá?

Por que ela iria querer chá?

E por que estava pensando no chá? Draco estava lá dentro!

Entrou correndo na sala, ignorando as duas varinhas que estavam apontadas para ela, e no primeiro momento quase desmaiou de novo.

Foi uma explosão de luz, depois de toda a escuridão do lado de fora.

E não era apenas luz, a sala toda, inclusive o chão, estava pintada de branco.

E, no meio da sala, estava Draco.

Ignorando completamente sua expressão sombria, ela correu até ele e agarrou seu pescoço.

Agora estava tudo bem, ela estava com ele de novo, e nada poderia dar errado.

Ela o largou e se afastou apenas o suficiente para poder olhar para ele.

Ele a encarou por alguns momentos, mas não disse nada. Então desviou o olhar para a porta, e ficou observando Lúcio falar com a garota.

Mas por que ele não estava olhando para ela? Por que não estava falando com ela, por que não estava dizendo o que estava acontecendo ali?

Então a garota virou-se para eles, com a mesma expressão debochada.

Deu uma daquelas risadas insuportáveis, e falou alguma coisa para Lúcio, mas baixo demais para que ela e Draco pudessem ouvir.

Então Lúcio veio caminhando até eles, com a varinha em punho, olhou para ela e disse:

_ Au revoir, chérie.

E tudo o que ela viu foram os olhos de Draco, olhando nos seus, antes que mergulhasse na dor novamente.

***

Apenas escuridão...

Corra...

Corra...

Corra...


Não sabia porque estava correndo, tudo o que sabia era que não podia parar...

Não pare...

Não pare...


Então ouviu um som... Algo como batidas...

Alguém batendo na porta!

Precisava abrir, mas não...

Não pare...

Não abra...

NÃO ABRA!

***

Acordou, novamente com o corpo terrivelmente dolorido, mas dessa vez sabia o que estava acontecendo.

Esperou encontrar novamente a garota, ou mesmo Lúcio, mas desejava com todas as suas forças que Draco também estivesse ali.

Abriu os olhos, mesmo apavorada com a idéia de que eles a tivessem separado dele.

Estava sozinha.

Sem Lúcio, sem a garota... sem Draco.

Estava numa sala completamente vazia, seus sapatos estavam desaparecidos e as suas roupas reduzidas a trapos.

Levantou-se para sair de lá, abriu a porta e a visão que teve quase a fez vomitar.

Corpos, dezenas de corpos espalhados pelo chão.

Claro, já se acostumara com os cadáveres, mas nunca vira nada como aquilo.

Os corredores vazios, nenhum som, absolutamente nada... e o chão forrado de corpos... corpos sangrentos, corpos de olhar fixo, corpos sem movimento... um enorme tapete de morte regado de sangue.

E o cheiro... o cheiro era terrível...

E como iria sair dali?

Não conseguia suportar a idéia de pisar naqueles corpos, não conseguia imaginar como seria tocá-los...

Mas precisava sair daquele lugar, encontrar alguém, qualquer um.

Fechou os olhos, levou uma das mãos ao nariz, cobrindo a boca, e esticou os pés para fora da sala. Não havia outra maneira, era inútil tentar achar outra saída, ou um meio de não tocar nos corpos... Se ao menos tivesse sua varinha!

No primeiro momento que seus pés tocaram a carne macia e fria, precisou de todo o auto controle que possuía (o que não era muito) para não começar a chorar e desmaiar ali mesmo.

Todas aquelas vidas!

Correu o máximo que podia, se dirigindo para a Sala Principal de reuniões, se concentrando o máximo que podia para não tropeçar e cair naquele lugar imundo.

Correu, sentindo seu estômago dar voltas, mas percebendo que a quantidade de cadáveres ia diminuindo à medida que chegava na parte mais protegida da base, ao que agradeceu mentalmente, já que não sabia o que seria dela se precisasse ficar em contato com eles por mais tempo.
Passou por incontáveis corredores, atravessando inúmeras salas...

Finalmente no corredor da Sala Principal, se dirigiu desesperada até a porta, mas constatou sem muita demora que estava completamente vazia.

Mas onde eles estavam então?

Não podia ser a única sobrevivente!

Não podia estar sozinha naquele lugar!

Por que eles poupariam justo ela? Por que não a mataram também?

A enfermaria!

Se existia um lugar onde poderia haver alguém era a enfermaria, então foi para onde se dirigiu, perguntando-se como ainda agüentava correr.

Depois de várias voltas, conseguiu finalmente chegar até lá, desejando por sua própria vida que tivesse uma alma viva que fosse lá dentro, agradeceria mesmo que fosse um Comensal, quem sabe acabasse com sua vida logo e ela pudesse se libertar daquele pesadelo interminável. Estar sozinha numa base enorme, povoada apenas por cadáveres, estava se tornando desesperador.

Entrou na enfermaria, e sentiu que um peso enorme era retirado de suas costas quando viu que o lugar estava totalmente lotado.

Nunca pensou que ficaria tão feliz em ver tantas pessoas feridas juntas.

Correu de encontro à enfermeira mais próxima, e já disparou a pergunta:

_ Onde está Dumbledore?

_ Virgínia, estavam todos loucos atrás de você! Você está bem, menina? _ a enfermeira parecia absolutamente confusa.

_ Onde está Dumbledore?

_ Sente-se, você parece péssima, qualquer coisa que você queira com Dumbledore pode esperar... _ como poderia esperar? Ela não tinha tempo a perder!

_ Onde está Dumbledore?

_ Está na ante-sala aqui ao lado, mas você pode..._ mas ela não esperou para ouvir o que a mulher ia dizer, saiu correndo e entrou na ante-sala sem nem preocupar-se em bater.

Encontrou-se num lugar escuro, iluminado apenas por algumas velas, sem janela nenhuma e apenas uma porta oposta à que usou para entrar.

Pôde ver instantaneamente Dumbledore, seus irmãos, seus pais, Harry e mais algumas das pessoas de confiança de Dumbledore. Mas faltava alguém...

_ Cadê o Rony?

E todos os olhares da sala se voltaram para ela. Seus pais pareceram estar vendo um fantasma e correram para ela no mesmo instante.

Aglomeraram-se em volta deles também Harry, Hermione, todos os seus irmãos, suas amigas, e logo ela mal podia lembrar-se do que fora fazer ali.

Estava tudo bem de novo, estavam todos ali...

Rony? Ah, ele estava verificando o estado da base junto com mais algumas pessoas que ela nem se deu ao trabalho de prestar atenção ao nome...

Mas não estava certo... faltava alguma coisa...

_ Draco!

E novamente a sala parou, e todos olharam para ela, mas dessa vez não era surpresa que ela via naqueles olhares, era pena.

Ela não podia suportar o que estava por vir, porém já sabia antes que lhe fosse dito...

_ Gina, _ era o seu pai. _ a base ainda está completamente desorganizada, esse ataque foi arrasador. Algumas pessoas estão desaparecidas, mas nós ainda não verificamos todos os cadáveres, existe uma grande possibilidade de que ele esteja...

_ Ele não está morto! Não pode estar! Eu estava com ele, só que eles me fizeram desmaiar, mas ele estava vivo! Eu sei que ele está vivo!

_ Você não pode saber, Gina. _ Harry. Sempre Harry. _ O fato é que ele está desaparecido, e pode estar em qualquer lu... _ ele não terminou.

Eles não se importavam... ninguém ali se importava!! Afinal, era apenas o filho do Comensal! Não importava as vidas que salvara, as batalhas que lutara, nada importava! Para todos eles era o garoto mimado e intragável! Deveriam estar dando graças por ele estar...

_ ELE NÃO ESTÁ MORTO!

Um barulho... tinha alguém batendo na porta.

Não a porta da enfermaria, mas sim aquela que dava para o lado externo da base.

E depois de andar no meio de todas aquelas pessoas, Virgínia percebeu que agora a porta estava do seu lado. Estendeu a mão para abri-la e ver quem afinal poderia estar batendo naquela hora.

Não abra...

Uma caixa.

Não tinha ninguém do lado de fora, apenas uma caixa, quadrada, de tamanho médio, com um bilhete preso na tampa.

Ela pegou-a, um tanto pesada...

Tirou o bilhete que estava preso a ela e entregou para Harry, que estava ao seu lado.

Colocou a mão na borda da tampa, pronta para puxa-la.

Não abra...

Puxe a tampa, Virgínia.

Não abra...

E ela levantou-a, lentamente, e de imediato um cheiro estranhamente familiar invadiu suas narinas, mas ela não conseguia identificar do que era...

E quando conseguiu absorver a imagem do que tinha dentro, levou de imediato as mãos à boca,. e por mais que tentasse não pôde parar as lágrimas.

No primeiro olhar não entendera o que estava vendo, era apenas um... não saberia dizer... Mas assim que seu cérebro compreendeu o que era aquilo...

Uma cabeça.

Um rosto irreconhecível, completamente desfigurado.

Sangue, sangue demais.

E cortes, cortes profundos em cada centímetro da pele. Cortes recentes, em alguns deles o sangue nem coagulara ainda... e escorria lentamente, penetrando nos cabelos, e tornando-os de um tom rubro ainda mais forte que os seus próprios.

Porém, por mais que aquele rosto fosse irreconhecível... por mais que as feições fossem indistinguíveis... por mais que aquilo já fosse o suficiente para deixa-la aterrorizada, eles fizeram mais.

Os olhos estavam fechados, mas o pouco do cabelo que ela pôde reconhecer já foi o suficiente para fazer com que seu coração se despedaçasse completamente.

Aqueles cabelos de um loiro acinzentado inconfundível, que ela poderia reconhecer de qualquer maneira, e nenhuma poderia ser pior que aquela.

Seus dedos insistiam para que ela levantasse as pálpebras e visse a cor daqueles olhos, mas não conseguiria. Não poderia tocar novamente naquela carne sem vida, sentir aquela pele fria e cadavérica novamente.

Mas era sua única esperança.

Levantou as mãos trêmulas e tocou a pele manchada de sangue...

Fria.

Fria como o gelo, mas ainda macia... Ergueu as pálpebras, que cederam facilmente revelando...

Olhos cinzentos.

Não zombeteiros, ou irônicos, ou divertidos... mortos.

As lágrimas agora corriam incontrolavelmente pelo seu rosto, e não conseguiu prender o grito que chegou à sua garganta.

Harry, ao ouvi-la, imediatamente deixou que o bilhete caísse de suas mãos e olhou dentro da caixa. No mesmo momento colocou a tampa de volta e levou-a para longe dali.

Mas foi inútil.

Se tivesse ficado jogada no chão, não sentiria a menor diferença.

Por que nada mais importava, tudo o que podia sentir era a dor.

Dor...

Ele estava morto.

Nada faria diferença agora, sua vida não fazia mais diferença.

E o bilhete ficou esquecido no chão, uma única frase escrita caprichosamente em um cartão branco, e talvez fosse melhor que os seus olhos não o tivessem encontrado.

Porque ela guardaria para o resto da vida aquela imagem na cabeça, assim como aquela frase.

"Para que a Ordem lembre eternamente do último troféu do traidor"