Alguns dias depois...

A chuva não havia parado um minuto sequer desde aquele dia. As ruas estavam com água pelas canelas. Não havia sido possível abrir a banca naqueles dias. E praticamente não havia ninguém nas ruas.

Nicole havia feito um esforço de sair aquela manhã, tinha recebido algumas encomendas e o garoto que fazia isso não apareceu. Precisava do dinheiro.

Sarah continuava em casa, evitando sair seguindo a orientação de Nicole. Ela estava na cozinha se concentrando na tarefa de picar alguns legumes. A faca que usava para essa tarefa escorregou e caiu no chão.

Sarah podia sentir as cosmo energias vindo de outros lugares. E seu próprio cosmo parecia se ligar com aqueles cosmos. Ela sabia que era sobre aquilo que Nicole havia falado, mas não conseguia evitar. Não queria evitar. Ela sabia, de alguma forma, que precisava fazer aquilo. Precisava guiar aqueles cavaleiros de ouro. Sim, eram os cavaleiros de ouro. Eles estavam em algum lugar no mar. Havia também outra cosmo energia, muito mais poderosa que a deles, vindo daquele lugar. Em sua mente a imagem de um jovem de cabelos azuis se formava ao sentir aquele cosmo. Aquele cosmo parecia rivalizar com o seu. "Athena". Essa palavra retumbava em sua mente, e parecia responder a ela imediatamente. "Athena".

Novamente a imagem de batalhas que aconteciam veio-lhe a mente. Era como se ela tivesse abandonado seu corpo e sua alma houvesse sido transportada para outro lugar. "Athena"

Aquela palavra se tornava mais e mais forte em sua mente. Ela abriu os olhos, arregalando-os. Uma revelação espantosa tomou conta de sua mente.

- Eu... sou Athena.

"Não, não é possível." Pensou. A verdadeira Athena estava no Santuário. Todos sabiam disso. Mas aquela frase que ela própria dissera parecia tomar conta de seus pensamentos.

A porta se abriu violentamente. Nicole entrou e correu até ela, agarrando-a pelo braço.

- Sarah, eu disse pra você não fazer isso! – gritou

Nicole agarrou sua mão e a puxou correndo para a porta dos fundos da sua casa. Agarrou um manto que estava pendurado num gancho perto da porta e vestiu-o em Sarah.

- Sarah, você tem que fugir! Fuja! Os soldados estão vindo para cá! Estão falando que sentiram algo muito poderoso nessa casa e estão vindo atrás de você! Vá embora!

Nicole empurrou Sarah para fora de casa e em seguida correu na direção oposta, abandonando também a casa. Sarah começo a correr pelas ruelas estreitas, a chuva ensopando-a, desviando de soldados e se escondendo em becos. A água estava em seus joelhos. Mesmo assim não parou de correr, e quando finalmente parou, estava no centro de Atenas. Estava exausta, sentia frio. Através de seu cosmo ela ainda sentia de certa forma que algo de errado acontecia longe dali. Ela pode sentir que o cosmo de um dos cavaleiros de ouro desapareceu, mas as circunstâncias em que isso havia ocorrido lhe eram muito estranhas. Escondeu-se em um beco escuro ao lado de um arranha-céu, cheio de latas de lixo.

- Por que isso está acontecendo? O que foi que eu fiz de errado? Será que eu sou mesmo Athena?

Ainda assim podia ouvir e sentir cosmos que clamavam por sua ajuda. Mais uma vez elevou seu cosmo. E mais uma vez sentia como se sua alma tivesse sido levada para longe de seu corpo. Ela teve um vislumbre de um homem de cabelos loiros curtos que se atirava em direção a um enorme pilar. E em seguida outra batalha começava. Havia uma ânfora diante dela. A sua frente podia ver claramente o mesmo homem de cabelos azuis vestindo uma armadura e empunhando um tridente. Com seu cosmo, ela consegue atrair a alma dele para a ânfora, lacrando-a.

Porém, o mar começa a desabar. Ela percebe que um deles, com um grande poder de telecinese, consegue transportar os demais cavaleiros sobreviventes para fora daquele lugar, mas, por algum motivo que não consegue entender, ele próprio não consegue escapar e acaba se sacrificando.

A chuva finalmente para. A água já estava quase atingindo sua cintura. Ela se sente exausta, desolada e terrivelmente sozinha. Pensava naqueles cavaleiros que não conseguiram se salvar.

Sim. Era verdade. Ela era Athena. Agora sabia disso mais do que nunca. Mas por que estava naquele lugar, e não no Santuário? Será que o Grande Mestre sabia daquilo?

Tudo o que Sarah sabia é que precisava ir para o Santuário, seja lá qual fosse a situação, e descobrir a verdade.

Mas sabia que corria um grande risco. Precisava ter muito cuidado quando retornasse a aquele local.


Morar nas ruas era uma das coisas mais difíceis pelas quais Sarah havia passado. Precisava se esconder em lugares abandonados e sujos. Não tinha o que comer e ha dois dias que não tomava um bom banho. Seu manto estava ficando encardido e esfarrapado. Havia saído de casa sem um tostão se quer.

Sentia muita falta de Nicole. Também não tinha tido notícias dela desde aquele dia. Não sabia se estava bem, ou onde havia ido parar. Sentia-se muito, muito sozinha. Não havia conseguido um lugar para dormir naquela noite.

Havia se perdido na cidade e ainda não havia se quer chegado perto do Santuário. Obviamente ela não tinha muita noção dos seus poderes como Athena ou de como usá-los. Ela parou em frente a um restaurante. Olhava pela janela as pessoas comendo. Seu estômago roncava.

O dono do estabelecimento percebeu a garota do lado de fora. Pela aparência mal cuidada, julgou que fosse uma mendiga. Ele se aproximou dela e rudemente a enxotou.

- Hey menina, se não tem como pagar, vá embora! Está assustando os clientes!

- Você deveria ter muito mais educação! – falou uma voz atrás dele. Um rapaz de cabelos azuis e olhar duro se aproximou.

- Quem você pensa que é para falar assim seu moleque? – retrucou o dono do estabelecimento.

- Há! A comida desse restaurante deve ser uma porcaria, assim como o dono. – respondeu ele, se aproximando da garota. – Venha, eu vou te levar pra comer em um lugar muito melhor do que aqui.

Sarah e o rapaz se afastaram, ignorando os protestos do dono do restaurante.


Sarah devorava o prato de comida. Nunca a comida lhe parecera tão boa. O rapaz de cabelos azuis a olhava com bastante carinho. Ele comia bem devagar, em comparação a ela. Sarah percebeu o olhar dele e parou de comer daquele jeito, sentindo-se sem graça.

- Desculpe.

- Não se preocupe com isso. Também já passei por essa situação. Eu sou órfão. Já morei nas ruas uma vez.

- Eu sinto muito.

- Tudo bem.

- Você parece ter vindo de muito longe.

- Eu vim. Eu sou do Japão.

- Desculpe, não queria ser intrometida...

- Tudo bem. Aliás, deixa eu me apresentar. O meu nome é Ikki. Muito prazer.

- Muito prazer Ikki. Meu nome é Sarah.

Os dois apertaram-se as mãos. Uma sensação estranha passou pelo corpo de ambos, como se aquele encontro tivesse um significado muito maior do que aparentava. Separam as mãos saindo daquele transe.

- Então Ikki, por que veio de tão longe?

- Eu estou procurando uma pessoa. – Ikki levou a mão no bolso da calça e retirou uma fotografia, dando-a em seguida a Sarah. – Já viu esse rapaz em algum lugar?

Sarah pegou a fotografia com cuidado. A foto mostrava um rapaz de cabelos verdes bastante alegre e jovial.

- Me desculpe. Nunca o vi. – respondeu, devolvendo a fotografia.

Ikki suspirou e guardou a foto de novo no bolso.

- É meu irmão mais novo. Ele se chama Shun. Ele está desaparecido. Eu segui algumas pistas, mas acabei me perdendo por aqui.

- Eu sinto muito. Queria poder fazer mais para ajudá-lo. – Sarah abaixou a cabeça. Ela certamente o faria, se fosse a Athena do Santuário, e não a garota perdida nas ruas.

- Não se preocupe. Cada um faz o que pode. – sorriu tristemente.

Cada um faz o que pode. Essa frase incomodava muito Sarah. Se ela era Athena, por que não podia fazer nada a respeito? Ou será que estava se enganando? Não. Ela era Athena. E iria dar um jeito naquela situação.

Ikki e Sarah se despediram naquele dia. Sarah havia tomado uma decisão. Se ela fosse mesmo Athena, iria enfrentar o que quer que fosse e venceria. Se não fosse, azar.

Sarah desta vez não se perdeu. Rumou certinho em direção ao Santuário, se aproximando de seus arredores. O sol já havia se posto, e o céu estava estrelado.

Uma sensação estranha percorreu seu corpo enquanto caminhava. Sentia uma cosmo energia muito forte e terrível que parecia ter despertado a pouco tempo. Mas não era só isso. Muitas cosmo energias sombrias rondavam o Santuário. Além disso, haviam algumas dentre elas que ela já havia sentido antes. Algo de muito errado estava acontecendo. Apertou o passo e começou a correr.

Estava quase alcançando o Santuário quando algo aconteceu. Uma luz cortava os céus e um poder tremendo vinha dela. Uma esfera de luz dourada ergueu-se sobre tudo. Rodopiava aumentando de tamanho e parecia que a energia transformava tudo o que tocava em pó. A terra tremia e o chão rachava em diversas direções. Sarah não podia acreditar no que estava vendo. Era como se fosse o fim de tudo. A esfera foi ganhando velocidade e enfim eclodiu e seu poder de destruição se alastrou por tudo, uma luz tão forte que fez o céu ficar branco. Então tudo se apagou.