Disclaimer: Os personagens e história aqui retratados não me pertencem. São de exclusividade da verdadeira assassina de Sirius Black.
Sinopse: Todos ignoraram os sintomas da depressão. Seria muito tarde para salvá-lo?
Nota: A depressão é uma doença séria e atinge hoje números escandalosos. Prevê-se que, em 2020, a depressão será a segunda maior causa de mortalidade - ao lado das doenças cardíacas. É geralmente associada a traumas psicológicos ou físicos muito graves.
III. Tristeza
Triste. Era assim que ele se sentia. Harry James Potter era triste. Desde quando ele podia se lembrar dele mesmo, ele era triste.
Subjugado e maltratado pelos únicos parentes vivos, ele fora uma criança quieta e triste. Sempre andando pelos cantos e se enfiando nas beiradas, tentando não ser notado, tentando ser esquecido. E então veio Hagrid e o conhecimento do mundo ao qual verdadeiramente pertencia.
Ele achou que seria feliz.
Até descobrir a verdade por trás do passado dele. E a desesperança que beirava seu futuro.
Ele aceitou, desde o primeiro momento, o fardo de ser o Menino-que-sobreviveu, o Eleito, o Escolhido.
Não que tivesse, de fato, escolha. Mas era algo pessoal – além do que as outras pessoas poderiam entender.
Voldemort tinha matado seus pais e era justo, além de predestinado, que fosse ele a terminar com a vida do bruxo das trevas.
A guerra veio, a guerra foi.
E agora, Harry Potter se perguntava qual era o lugar dele no mundo. A qual mundo ele pertencia de verdade. Ele ainda seria alguém importante ou seria mais um rosto? Ele não sabia e não queria descobrir.
Ainda deitado no quarto que os Weasley tinham separado para ele nA'Toca, Harry tentava juntas os cacos que tinham sobrado do mundo dele. A saudade de Sirius e Edwiges e Fred e Lupin e tantos outros, batendo na face dele com uma mão fria e invisível.
Ele não sabia quando aquela dor iria embora. Para falar a verdade, ele achava que não seria nunca. Porque aquela dor era parte de quem ele era. Aquela tristeza fazia parte do caráter dele desde o dia em que seus pais morreram. Se não fosse esse fato, Harry não seria quem ele era.
Quem seria Harry Potter então?
Deitado em sua cama, Harry pensava que tudo na vida dele era triste. Ele não conseguia se lembrar de nenhum momento realmente feliz. Parecia que as lembranças felizes dele tinham sido apagadas, restando apenas a tristeza. As mortes. Tantas mortes. E a dor.
Como alguém poderia sobreviver com esse peso nos ombros?
Como alguém poderia querer sobreviver com toda essa tristeza lhe corroendo por dentro?
-§-
"Você está acordado?" – uma vozinha doce fez Harry abrir os olhos de imediato. Alcançando o óculos rapidamente, Harry mirou com atenção a menina loira de cabelos sujos que estava sentada no pé da cama dele, o olhando com a expressão avoada de sempre, os grandes olhos azuis arregalados para ele.
"Hum...oi Luna" – ele balbuciou, ainda tonto pelo recente despertar. Ela sorriu de volta, um sorriso doce e quase reconfortante.
"São três horas da tarde" – ela informou quando Harry procurou o relógio usado de outro que tinha recebido da Sra. Weasley quando completou 17 anos – "Você perdeu o almoço."
Ele acenou com a cabeça e desistiu de achar o relógio. "Você almoçou aqui?"
Luna meneou a cabeça. "Ginny me chamou. Ela está triste" – contou.
Harry sentiu alguma culpa com a informação. Ele e Ginny tinham brigado fazia três dias e, desde então, eles não tinham se visto mais. Ela ficava no quarto o dia todo e ele também. Não se encontravam pelos corredores da casa e Harry ainda não descia para fazer as refeições com o resto da família.
"Eu sei como ela se sente" – ele murmurou.
Luna arregalou ainda mais os olhos azuis, como se tentasse examinar Harry com mais pericia. "Ela está triste com você e sente saudades de Fred" – a menina contou.
Harry suspirou pesadamente, deixando os braços caírem sobre a cama.
"Eu também perdi minha família na guerra, Luna. Ginny acha que eu não entendo."
"Seus pais já estavam mortos antes da guerra" – Luna apontou com perspicácia.
"Eu também sinto falta deles" – Harry retrucou.
"Mas você não os conheceu, certo? Então, você não sabe o que é ter seus pais e depois perdê-los".
"Então você acha que eu não sinto a falta deles?" – Harry perguntou irritado.
"Claro que sim. Mas você já pensou que talvez, sinta falta de uma memória? De uma lembrança apenas?"
Harry não respondeu. Ele sentia sim falta dos pais, é claro. Mas talvez Luna tivesse razão em alguma coisa. De fato, ele não tinha convivido com os dois para saber como era ter pais. Ele tinha uma lembrança e uma imagem – o reflexo do espelho de Ojesed – e era nisso que se apegava para falar dos dois. Ginny, por outro lado, tinha vivido com Fred por 16 anos. Era bem diferente.
"Eu sinto muito" – ele falou, por fim.
"Está tudo bem. Vocês só precisam conversar. Ela gosta de você."
Um meio sorriso se formou nos lábios dele. "Eu gosto dela também. Eu só..." – ele não completou.
Harry não sabia como dizer a Luna que não podia ficar perto dela – e nem de ninguém – naquele momento.
"Você está triste" – Luna afirmou quando Harry se silenciou.
"Eu sou triste, Luna."
"Você não me parecia triste antes" – ela retrucou.
"Era porque antes eu precisava parecer bem. Agora que tudo acabou, eu posso ser quem eu sou de verdade. E eu sou triste."
"Por que?" – ela o olhou confusa.
"Porque eu me sinto assim. O tempo todo agora. É como se eu nunca tivesse me sentido de outra forma. Tudo que gira ao meu redor é triste. Porque isso tem sido assim desde que meus pais morreram e eu não sei como sair daqui" – ele respondeu, cansado.
Os olhos azuis de Luna se desfocaram por um momento. Não que ela não entendesse o que ele sentia, claro que entendia. Mas Luna não conseguia ver as coisas como Harry. Aliás, ninguém conseguia. Era normal que ele sentisse tristeza; mas o que ele sentia estava ultrapassando qualquer limite. Ele podia sentir-se triste, o que ele não podia era sentir apenas isso.
"Acho que você precisa voltar a ver beleza nas coisas, Harry. Para que essa tristeza que você possa ir embora" – ela aconselhou antes de se levantar da cama dele e partir.
Harry ficou pensando no que ela havia dito. Sim, ele queria, ele queria mais do que tudo, voltar a ver a beleza das coisas, voltar a sentir alguma alegria – qualquer uma. Mas ele não conseguia. Porque todos os pensamentos dele o remetiam á tristeza. Ele estava se afundando e se afogando naquele sentimento destruidor. Ele nem mesmo se lembrava o som da própria risada. Ele não ria mais.
Ele estava apenas triste. E queria que as pessoas respeitassem a tristeza dele.
IV. Irritação e Raiva.
Ele nunca fora um menino irritado. Claro, Harry Potter tinha seus momentos, mas eram raros.
E então, ele começou a se irritar com facilidade. Ás vezes, respondia torto para os tios – mas ele não se importava muito com isso, os tios mereciam aquilo. Depois, Ron e Hermione foram as vitimas da irritação dele. Qualquer comentário dos dois que contrariasse o que ele pensava, o irritava.
Ele cerrava os dentes e respondia qualquer coisa apenas para se distanciar dos dois. Não que ele não gostasse dos amigos – pelo contrário – Harry achava difícil existir alguém que ele amasse mais do que aqueles dois.
E quando eles largaram tudo para partir com ele, Harry não podia ter ficado mais agradecido. Talvez ele nunca pudesse agradecer de verdade, talvez ele nem soubesse como.
Intimamente, ele desejava que os dois soubessem daquilo. Desejava que os dois soubessem que eles eram os destinatários das poucas coisas boas que Harry ainda sentia.
Harry queria contar que ele pensou nos dois quando caminhou para morte. E que a voz deles – gritando seu nome quando todos pensaram que estava morto – foi música para os ouvidos dele.
Mas de alguma forma, nem mesmo a lembrança disso, nem a presença de Ron e Hermione, traziam algum conforto. Pelo contrário, às vezes Harry queria gritar com eles dois, para que parassem de lhe perguntar a cada minuto do dia como ele se sentia. Harry queria que eles o deixassem sozinho; não queria fazer planos de futuro, não queria pensar como seria voltar a Hogwarts novamente.
E isso o irritava – Deus, como ele se irritava. Ele tentava se controlar, engolindo as palavras ferinas que o cérebro dele soltava. Ele fechava os olhos, recriminando-se por ser tal mal-agradecido. Mas estava ficando cada vez mais forte. E Harry já estava com alguma dificuldade de controlar o gênio irritadiço que tomava conta dele a todo momento.
E então, raiva tomava o lugar da irritação. Raiva de tudo, de todos. Raiva incontrolável e irracional.
Harry não gostava de se sentir assim, mas a raiva dele era mais forte do que a racionalidade dele. E então, ele se deixava levar pela raiva, para, minutos depois, se arrepender e se culpar por ser fraco.
-§-
"Então Kingsley entrou em contato com o Ministro da Magia na Austrália. Não foi difícil, quer dizer, eles têm todo o controle das pessoas que entram e saem do país, certo? Eles encontraram meus pais e Kingsley me ajudou a reverter o feitiço. Estava tão nervosa e era tão complexo que provavelmente não conseguiria reverter sozinha. Meus pais quase não acreditaram que eu tinha feito aquilo. Eles ficaram assustados e orgulhosos ao mesmo tempo" – Hermione narrou sem respirar.
Ron – que estava sentado no sofá ao lado dela – apertou as mãos da menina e lhe sorriu. "Eu duvido. Você é muito talentosa" – ele comentou em tom galante.
Os dois ficaram muito envergonhados quando se olharam e logo, suas mãos se soltaram. Harry balançou a cabeça, pensando se algum dia os dois tomariam jeito.
"Fico feliz que esteja tudo bem agora" – Harry sorriu fracamente para a amiga. Não que ele não estivesse feliz por ela, claro que estava. Mas não era uma felicidade genuína. Era mais como um alivio em saber que pelo menos a vida dela estava certa. O que ele menos precisava, naquele momento, era de mais uma morte para se culpar.
Hermione percebeu que Harry tentava ser agradável. Ela não se importava se ele não estava genuinamente feliz por ela. Uma parte dela entendia claramente que ele não teria nunca a sorte que ela tinha. Outra parte, se preocupou com a falta de emoção com a qual Harry se mostrava.
Ron tinha lhe escrito, pedindo que ela os viesse visitar. Tinha contado também como Harry andava esquisito. Sempre calado, sempre sozinho.
Hermione apareceu nA'Toca, alguns dias depois. Ela queria rever todos os Weasley – um em especial. E queria ver Harry também.
E quando ele desceu – finalmente, conforme o comentário de Ron – Hermione se assustou.
Ele estava magro demais, tão magro como ela nunca tinha visto. Sua expressão era vazia e sues olhos verdes tinham perdido o brilho. Ela perguntou e insistiu em saber como ele estava, como se sentia. Ele respondia de forma vaga e algumas vezes, irritada.
Ela reparou – enquanto narrava a busca pelos pais – que ele não parecia confortável. Ele não respondia nada e nem comentava e tampouco se emocionou com as dificuldades encontradas por ela pelo caminho. Aquele não era Harry. Não era o melhor amigo dela.
Ginny se juntou a eles, momentos depois. Sentou-se ao lado de Hermione, escutou com atenção a narrativa da amiga, a abraçou e contou como estava feliz por ter dado tudo certo.
Hermione esperava que Harry e Ginny se sentassem juntos. Ela imaginava que, aquela altura, os dois já tivessem se acertado. Mas Ginny nem mesmo olhou para Harry.
E Harry dava olhadas furtivas para a menina, com uma expressão de culpa e dor no rosto.
Quando Molly pediu que Ginny a ajudasse a alimentar as galinhas, Hermione achou que fosse o momento para conversar com Harry.
"Então" – ela pigarreou – "Você não vai me falar qual o problema?"
Ron olhou de um para outro, claramente sabendo o que viria a seguir. Ele sentou-se mais perto da menina, pronto para defendê-la, caso necessário.
"Já disse que não tem problema nenhum" – Harry respondeu, revirando os olhos.
Hermione olhou para Ron e recebeu um aviso de cautela. Ela deu de ombros e continuou. "Você e Ginny não estão se falando."
"Obrigada por me avisar" – Harry sorriu debochado. Sabia que ela não daria sossego para ele. E sabia que logo logo, ele soltaria palavras que a machucariam.
"Harry, Ron me contou que você quase não sai do quarto. Não quer saber de comer. Está sempre sozinho" – Hermione apontou, recebendo de Ron um cutucão. Harry olhou feio para os dois e interrompeu a fala da amiga, pedindo que ela desse um tempo para ele.
"Olhe, eu estou bem, ok? Eu só preciso ficar um pouco sozinho" – ele gritou.
Hermione se assustou com o tom agressivo de Harry e Ron apertou-lhe o braço, prestativo. Mas ela não se deu por vencida. O comportamento de Harry era inadmissível e ela falaria isso para ele, mesmo sabendo que ele não ia gostar de ouvir.
"Eles estão preocupados com você, Harry. Acham que tem algo errado. Você precisa nos falar, para que possamos te ajudar" – ela se levantou e se aproximou dele.
"Eu não pedi para ninguém se preocupar comigo" – ele gritou novamente, irritado. Podia sentir a raiva pelas palavras da amiga correndo pelas veias dele. Deus, ele só queria sossego. Será que ninguém entendia isso?
Dessa vez, foi Hermione quem se enfureceu. Chocada pela ingratidão dele, ela sentiu os olhos queimarem. Eles estavam ali para ajudá-lo, sempre pensando nele, sempre querendo fazê-lo feliz. E ele respondia com agressividade e irritação.
"Eles não merecem isso de você. Eu não mereço isso de você. Essas pessoas estão preocupadas porque te amam, porque são a sua família. Você deveria cuidar deles, Harry. Como eles fazem com você. Como eu estou fazendo" – ela sibilou, magoada.
O impacto das palavras de Hermione causou em Harry um sentimento ruim. Ela tinha razão. As palavras dela entraram no coração dele como uma faca entraria. Ele sentia que tinha levado um tapa no rosto, as bochechas queimando de culpa e vergonha.
Mas, ao invés de pedir desculpas e reconhecer seu erro, Harry ficou com ainda mais raiva. Ainda mais irritado do que antes, ele se preparou para responder.
"Você não tem uma própria família para cuidar? Não basta a sua, ainda quer cuidar da família dos outros? Você não cansa de querer controlar tudo?" – ele respondeu, devagar, soltando as palavras como se estivesse soltando flechas na direção da amiga.
Chocada, Hermione sentiu as bochechas sendo lavadas pelas lágrimas dela. Nunca esperou ouvir aquilo de Harry. Jamais esperaria que ele pudesse falar com ela daquela forma, usando aquelas palavras.
Virou-se lentamente para olhar Ron, que mantinha uma expressão incrédula, olhando para Harry com decepção.
Ele se levantou de imediato e abraçou Hermione, arrastando-a de perto de Harry. A menina aceitou o abraço e chorou por longos minutos com Ron.
Harry largou-se no sofá. Sentiu uma sensação ruim na garganta e o arrependimento imediato por ter falado aquilo. Não era verdade, Harry não pensava aquilo e ele sabia que só tinha falado daquela forma para machucar a amiga, da mesma forma que ele se sentia machucado. Por Deus, ele era tão grato por saber que todos eles gostavam e queriam cuidar dele. Ele nunca pensaria isso de verdade. O que estava acontecendo com ele?
Ron o olhava, ocasionalmente, balançando a cabeça negativamente, antes de murmurar alguma coisa no ouvida da amiga, enquanto a abraçava mais forte.
Harry suspirou e se levantou, aproximando-se dos dois. Tentou tocar as costas dela, mas não conseguiu. Ron puxou o corpo de Hermione para longe de Harry.
"Escute, eu não quis dizer isso. Eu não sei o que deu em mim. Sinto muito" – ele falou, olhando para Ron, querendo que as desculpas dele o atingissem também.
Ron balançou a cabeça. "Agora não é um bom momento, cara" – ele sussurrou. Hermione não respondeu nada e tampouco olhou para ele.
"Vamos" – ela pediu para Ron e eles deixaram a sala.
Harry olhou os dois subindo juntos e abraçados para o quarto de Ron e sentiu-se péssimo. Com raiva dos dois por estarem juntos e serem tão cúmplices e por ele estar ali, sozinho. Raiva de Ginny que não permitia que ele se aproximasse e se desculpasse. Raiva por não entender de onde vinha aquela raiva toda. Mais raiva ainda por ninguém entender aquilo para ele.
E principalmente, com raiva dele mesmo, por estar afastando deliberadamente, todos aqueles que ele amava tanto.
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