CAPÍTULO III

Tinham ficado deitados, escondidos entre os arbustos, desde a partida do avião.

— Precisamos partir. — Declarou Harry se levantando.

— Ótimo! Parece que ia criar raízes aqui! — Pansy gemeu e começou a se levantar com dificuldade, pois sentia cãibras.

— Não faz nem duas horas que estamos aqui — disse Harry secamente, sem dar importância aos gemidos dela.

Pansy estremeceu e passou os dedos pelo cós da calça sentindo as pedras preciosas cortando sua carne. Esse homem é incapaz de qualquer sentimento, pensou Pansy, ainda mais irritada ao ver que ele não mostrava sinal de cansaço.

— Pois, para mim, parece uma eternidade — disse, em voz alta.

— O que há com a sua cintura?

— Nada! Estou suada e morta de fome — disse, cheia de mau humor tentando desviar a conversa. Precisava ser cuidadosa, ele não podia desconfiar de nada.

— É por sua própria culpa. Se tivesse ficado esperando na Ministério, a esta altura estaria jantando no avião.

— Daqui a pouco vai começar a me culpar por esta guerra!

— Não, não vou. — Ele se levantou e começou a olhar atentamente através da escuridão à volta deles. — Não há sinal dos comensais e parece que não há nenhuma guarda no aeroporto. Está na hora de sairmos daqui.

Harry agarrou o pulso de Pansy e começou a puxá-la em direção à cidade.

— Você não está pensando em voltar para lá! — Ela tentou se libertar, horrorizada quando viu que começavam a andar em direção aos becos, entre muros altos. — Está maluco! Devíamos estar indo para o outro lado, em direção à fronteira.

— Vamos chegar lá mais tarde — disse Harry, puxando-a com força, sem dar importância aos seus esforços e protestos. — Primeiro vamos conseguir comida. Estamos com fome e precisamos levar alguma coisa na viagem até a fronteira. Não há nada daqui até lá e não podemos viajar cem quilômetros sem alimentos.

— Deve haver alguma cidadezinha...

— Que teremos de evitar. Será que não percebeu que há perigo por toda parte?

Harry continuou procurando caminhos entre os becos escuros, sem parar um minuto sequer, com passos quase felinos, como se estivesse enxergando no escuro.

Pansy seguiu Harry chateada com ele, com toda aquela situação. Ela não tinha que acatar as ordens do garoto de ouro, não tinha que ouvir acusações dele e nem ser arrastada por ele. Ele não era nada para ela além de um falso marido! Por que não o ouvira e ficara aguardando! Merlin, como era teimosa! Mas não podia deixar as pedras, ela precisou fazer o que fez, e esse pensamento lhe deu um pouco mais de tranquilidade.

Depois de caminharem por alguns minutos eles finalmente chegaram a um lugar que parecia ser o jardim de uma casa. Pansy pôde ver paredes altas à sua frente e um canteiro de arbustos. Passaram por ele, arranhando-se nos galhos ásperos.

— Ai! — gemeu Pansy, quando sentiu o chão faltar sob seus pés e tropeçou contra Harry.

— Quieta! Olhe por onde anda!

— Como posso olhar? Está escuro!

— Estamos entrando numa passagem subterrânea. Fique com as mãos na minha cintura e venha atrás de mim.

Pansy relutante pôs as mãos sobre o cinto dele e continuou a andar com passos largos. Foi tropeçando atrás dele, furiosa pela sua falta de consideração, mas nem por isso se atreveu a soltá-lo, morrendo de medo de perder contato com ele naquela escuridão e perder-se de vez.

— Pode soltar agora, chegamos. — Disse Harry quando eles chegaram num terreno plano e pouco iluminado.

Ele tirou as mãos dela da cintura dele com rapidez, como se o contato queimasse, mas longe de se sentir bem, ela se sentiu repentinamente fraca, pois estar tão próxima de Harry despertava sensações estranhas e inebriantes.

— Sente-se! — Ele a guiou até um banco e Pansy passou as mãos pelo rosto, tentando desesperadamente acalmar aquele clamor que tomava conta de seu coração. Suspirou profundamente, tentando parecer normal enquanto sabia que ele a observava.

— Está se sentindo mal? — Pela primeira vez, uma ponta de preocupação apareceu na voz dele.

— Não. Acho que estou cansada apenas e não estou acostumada com este calor.

— Eu tinha um comigo, mas não consigo encontrá-lo — Disse Pansy revirando os bolsos em busca de seu lenço — Devo ter deixado cair em algum lugar, mas não faz mal, já estou me sentindo melhor.

Ficou feliz por não ter encontrado o lencinho. Não podia se arris car a ser tocada novamente, a proximidade de Harry despertava nela sentimentos que não podia deixar transparecer.

— Eu vi você com um lenço — afirmou ele rispidamente.

— É... Acho que caiu enquanto estávamos escondidos perto da pista do aeroporto. — Pansy agora se lembrava bem de que tinha usado o lencinho para enxugar as lágrimas que estava tentando esconder dele. — Onde é que estamos? — perguntou, para desviar o assunto.

— No lugar mais seguro possível. — Harry deu um sorriso brinca lhão que o fez parecer jovem como em Hogwarts. — No porão do Ministério.

— O quê? — Ela se levantou de um salto, fazendo o banco de madeira balançar perigosamente.

— Psiu! Fale baixo! — Harry segurou o banco a tempo dele cair no chão.

— Você me disse que o Ministério tinha sido evacuado! — come çou Pansy, baixinho — e essas vozes?

— É verdade. Todo o pessoal estrangeiro foi embora. Agora os comensais estão usando o prédio como quartel-general.

— Quer dizer... — Pansy engoliu em seco, chocada com as palavras que estava ouvindo. — Você sabia disso e voltou para cá? E me trouxe também? — Perguntou ela horrorizada.

— É o último lugar onde pensarão em procurar pela oposição. — Harry continuava com o mesmo tom brincalhão.

— Oposição? — A palavra teve o poder de afastar toda a tontura que estremecia o seu corpo. — Por acaso está pensando em ficar aqui para organizar uma resistência?!

— Não. — Para alívio de Pansy, Harry balançou a cabeça e seu rosto ficou muito sério. — Minha missão em Dublin está terminada. Qualquer resistência aos rebeldes deverá ser feita por parte das forças governamentais. A minha parte está feita.

— E qual era a sua parte? — Apesar da sua determinação em parecer totalmente indiferente a Harry, Pansy estava interessada. —Afinal, tenho o direito de saber o que faz o homem com quem me casei. — A aura de mistério que havia em torno dele ao mesmo tempo a atraía e repelia.

— Vim a Dublin a pedido do governo daqui e do nosso, para retirar a família real com vida, no caso de a guerra explodir de fato.

Eles estavam sentados no banco e Harry falava baixinho, sem qual quer ênfase, como se esse tipo de serviço fosse a coisa mais comum na vida dele. Também não parecia aborrecido com as perguntas de Pansy e mostrava-se disposto a dar todas as informações que ela quisesse.

— A família real Inglesa? — Ela ficou surpresa com a revelação inesperada. — Não é de admirar que Blaise se mostrasse tão misterioso sobre o que você fazia aqui. Pensei que perseguisse os comensais.

— Bem, inicialmente essa era a minha missão, mas depois de um ano eu já tinha informações suficientes e então outros aurores assumiram a missão, e agora estão espalhados pelo país. Mas antes que eu fosse embora a família real veio e então eu tive que ficar para garantir a segurança deles, e a missão anterior foi minha cobertura. — Ele se levantou. — Agora vou sair um pouco. Precisamos de comida.

— Não me deixe aqui sozinha! E se você não voltar?

— Não se preocupe, eu voltarei. E não saia daqui.

Muito tempo depois, Pansy roía as unhas nervosamente. Ela nem ouviu Harry chegando, visto que ele apareceu ao lado dela com os mesmos passos silenciosos que o levaram para fora do porão.

— Que tal? — perguntou ele, orgulhosamente, mostrando os braços carregados. — Pão, queijo, presunto, frutas... uma garrafa de vinho.

— Onde foi que conseguiu tudo isso?

— Como membro do Ministério, tinha todo o direito de me servir da despensa.

— Não devia ter se arriscado. E se...

— Os tolos que estão lá em cima ainda não conhecem o prédio, estão muito ocupados brincando de soldados. Não descobriram que há uma outra cozinha no andar de cima para servir o salão de banquetes. Vamos, pegue um copo de papel, começaremos com um gole de vinho.

— Assim está bom. — Pansy fez um sinal negativo com a mão. — Não estou acostumada a beber.

— Beba, vai lhe fazer bem, você vai relaxar um pouco. É um vinho feito aqui mesmo, doce e não muito forte.

Encorajada pelas palavras dele, Pansy tomou um golinho da bebi da. Era realmente doce e mais parecia um licor, o que a levou a beber com vontade, sedenta, sentindo um calor se espalhar pelo corpo, reno vando suas energias.

Passados alguns minutos ela e Harry estavam comendo e conversando como se nunca tivesse havido qualquer antagonismo entre eles.

— Como conseguiu retirar a família real daqui? — perguntou Pansy, depois de recusar outro pedaço de presunto.

— Eles foram de avião, junto com o pessoal do Ministério.

Pansy mexeu distraidamente no anel de ouro de Harry que estava em seu dedo e parou abruptamente.

— Pretende voltar a Dublin depois que tudo terminar?

— Não, não pretendo voltar. Tenho que cuidar de minha casa e ficar com Ginny, já está na hora de voltar à toca — disse, com um sorriso, como se estivesse feliz com a ideia.

— Ah, é mesmo, Luna me falou de sua casa herdada por seu padrinho e que sua namoradinha o devia estar esperando. — Pansy apanhou o copo para tomar o último gole de vinho e franziu a testa, surpresa. — Que engraçado, ainda está cheio! — Podia até jurar que já tinha bebido muito mais da metade.

— Beba! Eu vou embrulhar o que sobrou da comida para a viagem — disse Harry, sem dar atenção à observação dela.

Sua voz parecia estar muito longe e, quando Pansy olhou para ele, viu que seu rosto parecia fora de foco. Ela piscou com força e não conseguiu segurar um bocejo.

— Estou... ficando... com sono.

— Ótimo. — Harry reaproximou-se dela. — Não tente lutar contra ele, entregue-se. — Ele a amparou nos braços quando ela tentou se levantar e cambaleou. — O vinho vai fazer você dormir até eu voltar.

Pansy sentiu que ele a deitava sobre alguma coisa quente e macia. Provavelmente tinha pegado um cobertor num dos quartos do Ministério. Seu último pensamento antes de adormecer, antes de perder totalmente a consciência, foi cheio de rancor contra Harry. Ele mal tocara na bebida! Mais uma vez tinha usado de um método pouco escrupuloso para fazê-la obedecer à sua vontade. Nunca iria perdoá-lo por isso!