Capítulo 3

Numa rua não muito longe da clínica Kurosaki, estavam o Quincy e o Sado a conversar quietamente.

– Também reparaste que a Inoue-san está estranha certo?

– Sim! Ontem quando estávamos no festival, tenho a certeza de ter sentido uma oscilação na reiatsu dela.

– Também sentiste! - Falou aliviado, por ter mais alguém preocupado com a amiga. – Para além de nós a Rangiku-san também sentiu. Eu penso que ela sabe o que se passa com a Inoue-san!

– Não sei se vai valer a pena perguntar a alguma delas. Quando a Inoue quiser contar, ela própria o fará! Apenas fico preocupado com o facto de ela ser muito sensível. Ela vai ficar muito magoada por causa do Ichigo! - O rapaz, apesar do seu tamanho e da sua expressão se manter quase sempre a mesma, notava-se bem que estava bastante preocupado com a amiga e o seu bem-estar.

– Nem me fales disso! Nós temos de a proteger e apoiar em tudo o que for necessário! Encontrava-se determinação no seu olhar. Podiam até dizer que ele gostava da ruiva em termos românticos, mas quem apenas o conhecia bem sabia que ele se preocupava muito pela rapariga pois era uma das suas amigas mais próximas.

– Tens razão!

Depois de mais alguns minutos de conversa seguiram para casa. Num pequeno apartamento, uma jovem de cabelo ruivo, andava num frenesim pela casa, por não saber o que vestir.

− O que será que devo vestir? Um vestido ou calças! Se a Ran-chan estivesse aqui poderia aconselhar-me! Já estava a arrancar cabelos quando se decidiu pelo vestido. – Estou pronta! Agora só falta encontrar-me com a Tatsuki-chan!

Saiu de casa calmamente e caminhou por alguns metros até chegar numa das pastelarias mais conhecidas da cidade, pelas suas docerias.

− Tatsuki-chan!

− Orihime! Deu-lhe um abraço bem forte e cheio de saudades da amiga. – Então como correu o festival?

− Bem! Forçou um sorriso, ou pelo menos tentou, porque a amiga fez uma cara feia de quem não acreditou. Normalmente o seu sorriso falso não era notado por ninguém, exceto uma pessoa. E essa estava bem à sua frente.

− O que se passou Orihime?

− Nada… Tentou outro sorriso mas não teve sucesso.

− Não digas nada porque eu sei que se passou alguma coisa! Falou bruscamente e irritada pela ruiva não lhe dizer logo a verdade.

− Eu… Eu não… Sem saber como escapar do olhar da morena, nem fugir da conversa, simplesmente deixou cair uma lágrima, que explicou tudo, sem ser preciso uma palavra.

− Aquele maldito! Apesar de furiosa, amaldiçoou o Ichigo baixinho por estarem num local público. – Ele não te merece Orihime. Não vale a pena ficar assim por quem não merece! Tentava evitar que a Inoue ficasse ainda mais triste e deprimida mas sentia-se tão enraivecida que apenas tinha vontade de matar o Ichigo à pancada.

− Eu sei que devo esquecê-lo, mas isso não vai acontecer de um dia para o outro! Falava baixo, praticamente sussurrava. Havia perdido até a vontade de falar por causa da tristeza que lhe apertava o coração. A cabeça estava cabisbaixa, fazendo com que o cabelo tapasse os olhos. A ruiva não queria que a Tatsuki a visse daquela maneira tão frágil e abatida, porque isso apenas iria aumentar a sua angústia. Se havia coisa que ela não gostava era de arrastar os outros para os seus problemas.

− Tens razão, isso eu admito, mas promete-me que irás tentar! Eu não quero ver-te assim, sabes que me deixa triste!

− Eu sei, e por isso eu tenho que te pedir desculpa. Eu não quero arrastar-te para os meus problemas! Para além disso, eu já sei o que vou fazer em relação ao Ichigo! Fez uma breve pausa para acalmar as lágrimas que estavam já a querer soltar-se. – Vou fechar o meu coração. Não quero ser magoada novamente!

− Eu não gosto dessa ideia Hime, mas como tua melhor amiga devo apoiar-te em todas as tuas decisões! Conversaram por mais algum tempo até irem para casa.

Passaram-se mais duas semanas e o Ichigo estava quase sem reiatsu. A Inoue estava a caminhar pelo seu parque preferido, que ficava a poucos metros da sua casa, para refrescar a mente e pensar sobre tudo o que havia acontecido desde que conhecera o Ichigo. Ainda não o tinha esquecido. Óbvio que iria levar algum tempo para isso acontecer, dias, meses, ou até anos. " Talvez se eu tivesse confessado os meus sentimentos logo desde o início, ele iria me notar. Parece que a partir do momento em que a Kuchiki-san apareceu eu perdi a guerra!" Estava tão distraída nos seus pensamentos, que apenas notou algo familiar quando viu um brilho laranja. Podia até ser coincidência mas, é como se costuma dizer, pensa-se no diabo e ele aparece. Num dos bancos do parque estava o ruivo. A Inoue ia para se aproximar dele, mas quando viu que o amigo não estava só, deixou-se estar atrás de uma árvore. Estava acompanhado pela pequena shinigami de cabelo preto.

Assistiu com tristeza e solidão o momento carinhoso dos dois. Os olhares ternos trocados e as lágrimas de tristeza e saudade eterna da princesa Kuchiki diziam-lhe que não se poderia intrometer. No entanto quando viu o ruivo, limpar-lhe as lágrimas, oferecer-lhe um belo sorriso e depois beijá-la apaixonadamente, sentiu-se mal, o coração parecia que estava a morrer e as lágrimas vieram fortemente para lhe manchar a pele. Não conseguia ouvir o que diziam, mas pelos lábios percebeu uma promessa. "Eu nunca te esquecerei e esperarei até estar contigo outra vez."

− Porquê? Será que não mereço um pingo de felicidade? Dizia para si mesma. Todas as esperanças que tinha, ainda que mínimas, haviam desaparecido por completo, para deixar apenas um lugar vazio e solitário.

Antes de ficar para ver outra cena daquelas, correu o mais depressa possível, para a segurança da sua casa. Assim que lá chegou e fechou a porta, desabou no chão. Lágrimas grossas saíram dos seus olhos sem parar e os soluços pareciam não ter fim. Segundos depois apenas se ouviam os gritos de choro da ruiva. Naquele momento sentiu-se a pessoa mais sozinha do mundo. Sentia-se mergulhar na escuridão e não ter uma única luz para mostrar a saída.

Esteve horas na mesma posição. Quando as lágrimas cessaram o sol já estava a desaparecer do horizonte. Levantou-se, com dificuldade por causa das dores que tinha no corpo, e dirigiu-se para a casa de banho. Assim que se olhou ao espelho, assustou-se com a imagem da mulher que estava no reflexo. Pálida, olhos inchados e vermelhos, expressão doente.

− Fraca, eu sou uma pessoa fraca! Eu prometi à Tatsuki-chan. Por isso vou cumpri-la a qualquer custo! Abriu a torneira da banheira e esperou até encher. Tomou um banho relaxante durante mais ou menos uma hora. – Quem me dera que a Ran-chan aqui estivesse. Ela saberia como me animar! Amanhã a Kuchiki-san vai-se embora! E daqui a alguns dias tenho de ir buscar os meus exames!

Depois do banho vestiu-se e saiu. Iria convidar a melhor amiga para um passeio. No dia seguinte, o Ishida, O Sado, a Inoue, o Ichigo e a Rukia encontravam-se de manhã à frente da clínica Kurosaki. Estava na hora da despedida. O Sado, a Inoue e o Ishida ficaram a observar a despedida do Ichigo e da Rukia. Estavam em silêncio mas a Inoue chorava por dentro. Lágrimas de tristeza, solidão, mágoa, angústia, desilusão e arrependimento. Apesar de assistir com dor ao amor claro dos dois à sua frente, arrependia-se de não ter feito nada para evitar aquele momento. Na mente dela ainda existia a ideia de que se tivesse destruído o Hogyoku, o Ichigo não perderia os poderes. Afastou os pensamentos quando viu as lágrimas da Rukia e o olhar cego do Ichigo. Cego porque já não conseguia ver a Rukia e dirigia o olhar para o céu, mesmo ela estando à sua frente.

Após a despedida, o Ichigo ainda tinha um sorriso. Para quem devia estar triste, estava bastante alegre. A Inoue soube o que era. Esperança. Ele pretendia cumprir a promessa de esperar por ela.

– Vocês querem entrar? O ruivo convidou-os a entrar em casa dele. Algo muito raro.

Os rapazes aceitaram. Perdida em pensamentos, apenas voltou à realidade quando falaram para ela.

– Inoue? O ruivo chamou preocupado.

– Hum… Desculpem não ouvi!

– Queres entrar?

– Não! Não posso, tenho alguns assuntos para resolver! Até amanhã pessoal! - Saiu a passos largos, deixando para trás os amigos confusos e preocupados. O Ishida e o Sado trocaram olhares de quem dizia, "Está a passar-se alguma coisa!", que não passaram despercebidos pelo ruivo.

– Está a passar-se alguma coisa?

– Não se passa nada! - Falou Ishida com um semblante sério e caminhando para a clínica para que o Ichigo não lhe pergunte mais nada.