Capítulo 3

Enfrentando a realidade

Tinham passado quase vinte minutos e nenhum dos dois dizia nada. Severus tentava convencer-se de estar em um pesadelo, ocasionalmente atrevia-se a olhar a Harry de relance e notava seu total nervosismo, o garoto movia histérico sua perna, e suas bochechas continuavam tingidas de vermelho. Severus não compreendia como é que alguém pudesse ruborizar-se tanto, mas para sua surpresa, descobriu que não lhe irritava como dantes.

— Deve de ter uma explicação, Potter.

— Seguro. —bufou depreciativo. — Você se equivoca, não há gravidez.

— Há, cria-me.

— Ah si? Um milagre então?

— Não seja sarcástico, Potter, não se dá conta do delicado da situação?

— Em sério? —questionou com irônico alarme.

— Às vezes me tenta a ideia de deixar que solucione só seu problema.

— Não é má ideia sabe? Desde que ocorreu essa tolice da gravidez tem feito minha vida um desastre.

— Bem, então se vá, o deixarei em paz!

Harry pôs-se de pé e Snape viu-lhe abandonar o dormitório fechando furioso a porta. Sentiu-se tentado a ir atrás dele, mas não o fez, ainda que precisou de todo seu autocontrole para continuar em seu lugar. Era melhor lavar-se as mãos nesse problema, quando Dumbledore voltasse de sua viagem ele inteiraria de todo e que ele se estressara lidando com a obstinação de Potter.

No entanto, apesar de sua determinação, Severus não conseguiu conciliar o sono essa noite de modo que abandonou a cama e voltou a repetir o exame no sangue de Harry, praticamente já não tinha mais que resíduos, mas foi suficiente para o realizar. Se a expressão lhe permitia, Potter estava gravidíssimo.

Lhe sobressaltaram uns suaves toques à porta, olhou o relógio e ainda não eram nem as quatro da madrugada. Bem, não tinha muitas opções para adivinhar. Abriu a porta sem surpreender-se ao ver a Potter atrás dela, no entanto, sim se surpreendeu de sua aparência. Podia ver-lhe as pálpebras inchadas ainda atrás de seus óculos, seu nariz enrijecido e suas bochechas ainda humedecidas.

— Não diga nada! —grunhiu Harry fazendo-se passo ao interior do dormitório de Snape.

Severus permitiu em silêncio, ademais, assim era mais fácil. Se para Harry Potter era difícil mostrar-se vulnerável, para ele era ainda pior, se sentia totalmente incapaz de manejar os sentimentos de um adolescente.

— Não tem caso o negar verdadeiro? —cuspiu Harry caminhando furioso de um lado a outro. — Tenho os sintomas, achei que se dizia-me que era casualidade então tudo regressaria à normalidade, mas não. Não sê que demônios passou, mas passou e preciso remedia-lo.

— Quando Dumbledore regresse falaremos com ele e buscaremos a melhor solução.

— Não, não quero que se inteire! Não quero que ninguém mais o saiba nunca!

— Lamento informar-lhe que tarde ou cedo será mais que evidente.

— Snape, você sabe de poções, deve ter alguma que me ajude.

— Que está tratando de dizer?

— Que o tire, quero que o tire agora mesmo!

Isso sim que Snape nunca o esperou. Não podia negar que sim se lhe tinha ocorrido essa solução ainda que se resistia ao pensar, sobretudo porque estava plenamente convencido de que Harry Potter se negaria terminantemente.

— Está seguro?

Não teve resposta. Severus viu que o garoto se deixava cair em um cadeirão se cobrindo o rosto com ambas mãos.

— Imaginou-se como pôde ocorrer, Snape? Pois eu sim. —confessou-lhe com a voz entrecortada. — Imagino a alguém o suficientemente monstruoso para me forçar, me fazer presa de suas baixezas e depois o solucionar com um obliviate antes de se marchar no meio de estrondosas gargalhadas zombadoras… Ou talvez me drogaram antes, quero pensar que assim foi, que não me dei conta de nada, que não senti a asquerosidade de me ver submetido a um degenerado, mas sei que não é assim. Minha vida nunca se caracterizou pelos caminhos menos difíceis. Teve que ter sido horrível e quiçá tenha que agradecer não o recordar.

— Há modos de averiguá-lo… não sei que tanto se tenha modificado a sua memória, mas provavelmente a legeremancia…

— Não! Não quero saber nada, não quero recordar, só quero saber que todo tem terminado, tirar isso de meu corpo e regressar a minha vida como era antes.

— Quiçá deva tomar-se em uns dias para decidi-lo com calma, Potter.

— Tomar-me dias? —repetiu pondo-se de pé e levantando sua camisa para deixar seu ventre à vista, Snape conteve uma exclamação de assombro, a gravidez já era notável ainda que ainda podia dissimular-se com a roupa. — Achei que estava comendo a mais, mas já seria demasiado ingênuo continuar pensando o mesmo.

— Está muito avançado. —murmurou pesarosamente.

Harry voltou a deixar-se cair no cadeirão, mas já sem se cobrir o rosto que mostrava sua angústia em toda sua potência.

— Sim pode ajudar-me verdade?

— Com uma condição.

— Qual?

— Conheço um medimago, será discreto, quero que me assegure que não terá risco para você.

— Acha que tenha maior risco que continuar com isto? Já li o que pode passar, minha magia se desestabilizará, e não creio necessário lhe recordar que a guerra pode desatar em qualquer momento, estando como estou não poderia me defender.

— Não acho que isso seja um problema, há inumeráveis pessoas dispostos a lhe proteger até que esteja apto para se enfrentar ao Lord.

— E acha que seria fácil para mim me manter a salvo enquanto os demais morrem por mim?

— Potter, se você está disposto a morrer por elas porque não lhes deixar o benefício de fazer o mesmo em seu lugar?

Snape viu que Harry franzia os lábios manifestando seu desgosto pela ideia, mas como não protestou abertamente, pensou que devia aproveitar o momento. Sentou-se em frente a ele resolvido a ganhar essa batalha.

— Aceita minha condição?

— Aceito-a, mas advirto-lhe que se se nega depois a me ajudar sou capaz de tirar essa coisa por mim mesmo.

Severus assentiu decidindo que já se preocuparia mais tarde por essa possibilidade. Não conseguia culpar a Harry de querer terminar a gravidez, ele não o tinha mencionado, mas estava convencido de que compartilhavam o mesmo temor, essa nada remota possibilidade de que o produto fosse resultado de um maleficio, ou quiçá que o pai se tratasse de um servidor do Lord Escuro, se é que não dele mesmo.

Teve que sacudir sua cabeça para sacar essa ideia daí, lhe perturbava demasiado, até tal grau que sentia seu estômago rugir de raiva.

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O fariam essa mesma noite, quando todo mundo se fosse à cama. Severus passou a tarde comunicando-se com o medimago que conhecia para fazer a cita fora de horas de consulta habituais, e ainda que não considerava necessária a recomendação não se absteve de lhe recordar que devia guardar absoluta discrição a respeito do que veria essa noite.

O resto do dia passou-a tentando fazer sua vida normal, revisando exames, corrigindo ensaios, preparando classes e alguma que outra poção. No entanto, o problema de Harry Potter não saía de sua mente, nada conseguia o distrair o suficiente para sentir que o tempo passasse mais rápido.

Tal como o planejaram, pouco dantes de meia-noite Harry voltou ao despacho de seu professor de Poções. Severus notou mais tranquilo, provavelmente porque achava que o êmbolo no que estava se resolveria essa mesma noite.

Usaram a rede flu diretamente para o consultório do medimago que já os esperava. Este cumpriu sua palavra e não se mostrou nem surpreendido nem curioso com respeito à identidade da famosa personagem que acompanhava ao Pocionista.

— Deverei fazer-lhe umas perguntas antes de dar minha opinião. —disse depois de saber o motivo de consulta.

— Não, não há nada que dizer. —assegurou Harry sem dissimular sua pressa. — Só nos diga que temos que fazer para resolver isto sem complicações.

— Ele está em boas condições de saúde. —terceirizou Snape. — Assegurei-me disso, mas a gravidez está bastante prolongada, precisamos saber os riscos de praticar um aborto a estas alturas.

— De acordo, sem perguntas. No entanto, deverei examinar lhe, jovem Pot… jovem. —corrigiu-se sabendo que não devia usar nomes. — Só para verificar a idade gestacional.

Snape sentiu a mirada de Harry negando-se a fazer mais, mas este fingiu não se dar conta e aceitou a condição do medimago em seguida.

Foram conduzidos a uma sala contigua, toda branca e muito pulcra. Snape sentiu que a mão de Harry se aferrava a seu braço com força, talvez achando que o momento tinha chegado, mas não se retratou. Ele, pessoalmente, lhe ajudou a se montar sobre uma cama e permaneceu a seu lado enquanto o medimago saía um instante.

— Acha que estarei bem para a segunda-feira? —perguntou Harry com a vista fixa no teto. — Não quero que ninguém note nada raro em mim.

— Primeiro o primeiro, Potter. Ainda tenho esperanças.

— De que?

Severus não lhe respondeu, o medimago voltou a entrar levando consigo um aparelho em uma mesa com rodas. E ainda que Harry não era experiente, pressentiu do que se tratava.

— Não! —gritou tentando pôr-se de pé. — Não quero o ver!

— Fecha os olhos então, Potter. —sibilou Snape sujeitando dos ombros impedindo-lhe abandonar a cama. — Só assim saberemos se o aborto não põe em perigo sua vida.

— Nestes momentos já não me importo, só quero que o tire.

A voz de Harry soava muito atormentada ante os ouvidos de Snape, de modo que, surpreendendo-se a si mesmo, suavizou a força de suas mãos e quase com ternura as levou ao rosto de seu aluno lhe secando o suor com seus dedos. Sentiu de imediato como se relaxava e fechava seus verdes olhos. Fez uma senha ao medimago para que começasse enquanto rogava não se estar equivocando.

O homem colocou um gel sobre o ventre nu de seu paciente enquanto movia o transductor de um lado a outro.

— O feto desenvolve-se sem problemas, está igual de são que o pai. —informou-lhes profissionalmente. — Agora verificarei o nível de magia e a idade que tem.

Snape assentiu sem deixar de pentear agora o cabelo de Harry o apartando de sua testa, o sentia tremer de medo e via seus lábios se mover em silêncio, pensou que provavelmente sussurrava alguma canção ou recitava versos que lhe ajudassem a estar ausente e não escutar.

O medimago deixou o transductor a um lado trocando-o por sua varinha mágica, então pronunciou uma espécie de conjuro sobre o ventre de Harry. A tela do aparelho reluziu brilhantemente e uma barra nela ia se alumiando de vermelho até que atingiu o ponto máximo.

— Vá, realmente seria um mago excepcional. —comentou o homem. — Nunca me tinha tocado presenciar que a barra se alumiasse por completo.

— Isso quer dizer que tudo está bem.

— Assim é, pode proceder ao aborto sem risco algum.

Severus viu que Harry se mordia um lábio, mas continuava sem abrir os olhos, e aproveitando que seu aluno não o via, fez uma senha ao medimago para que continuasse com a revisão. Este duvidou uns segundos, mas a férrea ordem muda de Snape era impossível de desobedecer. Suspirou fundo e realizou um novo conjuro.

Um rápido golpe como de tambores ressoou na estância. Harry abriu os olhos e incorporou-se como impulsionado por um resorte.

— Que é isso? —perguntou alterado.

— É o coração. —lhe aclarou o medimago. — São e forte… até agora.

— Pare-o, não quero o ouvir!

O medimago ia fazê-lo, mas Severus, com outra de suas miradas impediu-lhe e inclinando-se para Harry falou-lhe com a voz mais suave que tinha.

— É seu filho, é a vida de seu filho a que escuta.

— Não! —refutou tampando-se os ouvidos. — Não me faça isto, por favor, não quero!

— Só o escuta um minuto, Potter, e depois tomará uma decisão. Se segue pensando em interromper esse som, então se fará o que diga.

Harry já não se resistiu, não teve força para o fazer. O medimago girou o monitor para que olhasse a tela e então um suave arquejo brotou de seus lábios ao ver perfeitamente clara a carinha de um bebê de quase quatro meses de formação.

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Uns minutos tinham passado, o medimago deixou-os sozinhos olhando a gravação do bebê. Severus olhou de relance como Harry sorria sem apartar seus olhos da tela e com seus dedos acariciava a imagem de seu filho. As batidas continuavam escutando na habitação, nenhum dos dois quis que o medimago os apagasse.

— Que lindo é. —sussurrou Harry sem mostrar senha de cansaço de tanto admirar a tela, ainda que sua voz tremia um pouco, Severus supôs que estava assustado. — Não posso achar que esteja dentro de mim.

— E cedo o terá em seus braços.

Harry sorriu, mas não respondeu nada.

— Não lhe perguntamos ao medimago que é.

— Verdadeiro. —reconheceu Severus. — Quiçá se giramos a tela vejamos melhor.

— Não, melhor não, que seja surpresa.

Snape assentiu e voltaram a ficar em silêncio olhando a imagem que nesses momentos movia seus mãozinhas provocando que Harry suspirasse febrilmente fascinado.

— Snape… porque quis que mudasse de opinião? —perguntou ao cabo de uns minutos.

— Acho que conheço-lhe o suficiente para saber que se tomava uma decisão sem todas as bases em seu cérebro, em algum dia poderia se arrepender. Potter, você respeita a vida inclusive a de seus inimigos, por isso achei que devia reagir antes de se permitir manipular pela ansiedade e indignação.

— É provável. —assentiu sem deixar de olhar o monitor.

Novamente voltaram ao silêncio, e uns minutos depois, a luz na mirada de olhos verdes se mitigado de maneira alarmante.

— Snape… verdade que não parece um monstro?

— Não, Potter, nem parece nem é.

— Não há maldade nele verdade?

— Como poderia a ter? Tem tudo de seu pai… será arrogante, descuidado, mau portado e sobrado de si mesmo, mas não malvado.

Severus olhou então a Harry, já não tinha sorriso nos lábios de seu aluno e temeu que voltasse a pensar em desfazer do bebê, mas antes de que pudesse dizer nada mais, o garoto apartou finalmente a mirada da imagem de seu filho e buscou os olhos negros.

— Obrigado. —sussurrou recuperando seu sorriso. — Devo-lhe uma.

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Nota tradutor:

Esse Snape foi foda! Isso sim, vamos dizer não ao aborto!

Vamos para os reviews?

Vejo vocês no próximos capítulos

Ate breve.