Disclaimer: Não é meu. E comprar direitos autorais só depois de 70 anos da morte do autor, segundo a Lei de Propriedade Industrial.

Rir da desgraça, chorar pela tristeza, remoer-se pelo erro, deleitar-se pela vingança... São sensações que não me lembro exatamente como são, mas que posso saborear em minha língua como pudim. Os elfos aprenderam a fazer esse doce a mando de minha mãe. Só porque eu gostava.

E hoje, não sei bem por quê, não consigo mais comer pudim. Talvez, entre todas as coisas que me lembrem Narcissa, esta sobremesa seja a mais marcante. E também porque ela mesma me fez um pudim de aniversário, quando completei dez anos. E foi o melhor doce que já comi na minha vida.

Mas Deus deve estar rindo de mim, por ver que essas lembranças passam diante de meus olhos e não consigo fazer nada, menos ainda sentir.
O que resta disso é apenas uma vaga nostalgia, entretanto, nada que eu possa me apoiar pelo simples deleite do reviver a sensação. O mais estranho é que quando vejo a sangue-ruim fico com vontade de comer pudim. Mas assim que o doce perfeito com calda vem a minha frente, sinto nojo.

Tanto nojo quanto tenho Dele. Só não supera o nojo que tenho 'dela'.

Ou a idéia disto... Porque a mim, só resta o físico, o enjôo, a náusea, o vômito.

Insensibilidade

Por Lally Y K (Mudança de nick meramente estratégica)

Beta-readers: Kikis e Naru-L

Capítulo 3 – Gritos no silêncio

(Midnight hour – Running away)

Desde o encontro esquisito com Malfoy durante a patrulha noturna, Hermione procurou se distanciar do garoto muito mais do que de costume. Era óbvio que já tinha motivos para manter-se longe dele, mas o seu comportamento fez com que sentisse uma espécie de empatia para com o rapaz. E aquilo era muito estranho.

Algumas vezes, quando vinham as malditas dores, geralmente de madrugada, quando todos dormiam e não tinha ninguém para ampará-la, ela ia até a janela e observava o cenário, quer ele fosse chuva, vento, noite estrelada, ou noite escura, com o rosto banhado em lágrimas e a mão firmemente apertada contra o peito. E não raro, o rosto angular do loiro vinha à sua mente, por mais que lutasse para que aquela imagem desaparecesse.

Ron a interceptara duas vezes naquela semana, perguntando o porquê de estar esquisita. Sua única resposta fora um sorriso falso e a preocupação com os exames finais. Ele a provocou como sempre e disse-lhe que do jeito que estudava, seria um recorde em notas altas. Então, pediu licença para encontrá-lo na sala comunal na hora do jantar, pois iria à biblioteca.

Com passos vagarosos, ela se aproximava do seu lugar favorito em Hogwarts. Segurou a varinha com a mão direita, girou-a entre os dedos, depois fez movimentos circulares com o punho, segurando-a com a mão inteira e, quando se cansou, guardou-a dentro do bolso da capa. Estalou os dedos, e bagunçou as mechas castanhas ao tentar desembaraçar um fio particularmente irritante.

Distraída com seu cabelo, Hermione não percebeu que Draco vinha da direção oposta, com ambas as mãos abarrotadas de livros. Esbarraram logo de frente e a garota emitiu um gemido de frustração, antes de cair sentada.

"Me desculpe, eu estava-"

"Percebe-se, Granger." Ouviu a voz rouca e baixa do loiro, que juntava os livros e colocava-se de pé. Os olhos acinzentados fitaram-na com um misto de desdém e indiferença antes de oferecer-lhe a mão para ajudá-la a levantar.

"Draco Malfoy me ajudou a levantar?" Ouviu-se dizer, após aceitar a ajuda. "Acho que existe alguma coisa errada por aqui."

"Somente sua abominável presença, Granger." Esboçou um sorriso cínico e voltou a segurar os livros com ambas as mãos.

"'Maldições e feitiços antigos'?" Ela franziu as sobrancelhas, ignorando o insulto do rapaz. "Mas isso fica na Seção Proibi-"

"Faça um grande favor para si mesma, Granger." Ele aproximou-se dela até ficar a centímetros de seu rosto. Nessa hora, ela odiou o rubor que tomou conta de seu rosto e o tremor em suas pernas ao sentir os olhos claros estudarem-na meticulosamente. Frios, muito frios. "Fique longe de mim."

E com passos largos, Draco se afastou dela, deixando-a completamente atordoada. Uma onda de raiva invadiu-a e conteve a vontade de gritar e esmurrá-lo até tirar aquela maldita expressão de superioridade que parecia uma máscara diária. Tão logo esse sentimento passou, veio a imensa curiosidade... Por que ele estava com aqueles livros da Seção Proibida?

Pelo que se lembrava das aulas extras que fazia, e que ajudava a organizar – quase todas as disponíveis em Hogwarts, diga-se de passagem – não se lembrava daquele título peculiar ser necessário para alguma pesquisa. Pelo aspecto gasto e antigo dos livros que estavam nas mãos do loiro, todos eram da área restrita da biblioteca.

O olhar da garota voltou-se para o lugar por onde o loiro desaparecera. E naquele instante, sabia o que fazer na próxima patrulha com o Slytherin.

(Fim de cena)

"Ei, Ginny." Hermione aproximou-se da amiga alguns dias depois do incidente da biblioteca.

"Diga?" A ruiva levantou os olhos azuis para a garota que segurava uma pilha imensa de livros. Limitou-se a sorrir ironicamente antes de ir para o lado e dar espaço para que Hermione se sentasse. "Não estou precisando de ajuda em nenhuma lição de casa, obrigada."

"Eu imagino que não, senão teria vindo me perguntar." Ela falou muito seriamente e Ginny desatou a rir. "Alguma coisa errada?"

"É você!" Ela meneou com a cabeça. "Francamente Hermione, largue esses livros e vá ter uma vida social. Meu irmão está solitário."

Ela girou os olhos com o comentário e optou por simplesmente não respondê-lo. "Então, você tem percebido hm..." A garota suspirou e desviou o olhar. "Malfoy estranho ultimamente?"

"Malfoy?" Uma das sobrancelhas ruivas se levantou. "Por que diabos eu iria notar qualquer coisa estranha nele?" Então, a expressão dela se iluminou. "Não diga que ele está com verrugas por conta daquela poção! Quero rir."

"Não, não." Ela riu ao imaginar a pele pálida infestada de protuberâncias vermelhas, e bolhas d'água estourando... "A atitude dele."

"Ele é o maior cuzão de Hogwarts. Qual o problema?"

"Honestamente Ginny, devia ter mais modos para falar."

"Que seja, mãe." A garota girou os olhos e voltou a encará-la. "O que tem ele?"

"Eu acho que ele está estranho, acredito que fui só eu quem notei." Ela bateu as unhas na mesa por alguns instantes, pensativa e então voltou a colocar ambas as mãos no colo, inquieta.

"Por que diabos você iria prestar atenção naquele idiota?" Ginny inspecionou-a cuidadosamente. "Não vá me dizer que está atraída pelo magnetismo arrogante dele."

"É lógico que não!" Hermione não conseguiu conter o rubor incandescente nas bochechas. "E de onde você tirou que ele tem qualquer magnetismo?"

"Ele é bonito oras." Ela deu de ombros. "Bastante bonito. Pena que a beleza se equipara a idiotice. Senão eu até passearia pelos corredores da..."

"Espero que Harry não te ouça!"

"Ora, Hermione, eu tenho um namorado, não uma venda. Não é porque o cara é o maior cuzão da escola que deixo de notar que ele é bonito." Antes que a outra protestasse, Ginny articulou. "E não vou falar nomes bonitinhos só porque você acha feio xingar. Fale isso para os primeiros anistas"

"Você não tem mais conserto." Ambas riram descontraidamente e a mais velha começou a folhear um dos volumes que carregara consigo. "Acha mesmo ele bonito?"

"Lógico. Olhos claros, cabelo lisinho, pele branca, alto, bunda redonda..."

"Ginevra Weasley!"

"Mas repito..." A ruiva continuou como se não tivesse sido interrompida. "Por que esse súbito interesse em Malfoy? Meu irmão também é bonito."

"Não estou interessada naquele... naquele..."

"Filho da puta?"

"Obrigada." A garota ruiva deu um sorriso triunfante. "Eu amo Ron. Entretanto, fiquei intrigada porque esbarrei nele alguns dias atrás e ele parecia compenetrado em alguma coisa que não N.O.Ms."

"Você realmente tem talento para ser monitora-chefe." Ela ergueu uma sobrancelha questionadora. "Está preocupada com o desempenho escolar do único cara que ameaça seu primeiro lugar em toda Hogwarts!" Hermione girou os olhos. "É bem provável que ano que vem você seja eleita a única do sétimo ano."

"Vou considerar isso um elogio."

"Como queira." Sorriu. "Bem, se descobrir mais alguma coisa nas suas inspeções com Malfoy me conte." Hermione novamente ergueu uma das sobrancelhas. "Eu gosto de fofocas."

Então, a garota deu um suspiro derrotado. A conversa com Ginny não fora de grande ajuda, como esperava. Mas pelo menos o senso de humor distorcido da amiga a ajudou a esquecer, ainda que por pouco tempo, as milhares de preocupações que carregava sobre os ombros.

(Fim de cena)

"Mas veja bem, se você não quer fazer somente essa disciplina que mal há de desistir se estamos no começo do ano?"

"Eu prometi que iria fazer, é simples." Ela tomou outro gole de suco e passou a mão pelos cabelos. "Confesso que ficarei bastante atarefada, mas já foi pior no terceiro ano."

"Certo..." Ron coçou o queixo de leve e acariciou de leve a cintura da namorada. "Espero que ao menos nos fins de semana sobre tempo para irmos a Hogsmeade."

"Mas e as patrulhas Ron?" Ela deu um gritinho estrangulado no fundo da garganta. "Honestamente, foi uma péssima idéia Dumbledore elencar oito monitores..."

"Hermione, não tem segredo, e elas são feitas a noite..." O garoto fitou-a um pouco magoado.

"Mas mesmo assim! Precisamos descansar para não perder nenhum detalhe, vai saber o que está acontecendo por aí. Precisamos nos preocupar se também não existem Comensais infiltrados em Hogwarts, exercendo influência..."

"Hermione." Ele pousou a mão sobre o seu ombro e fitou-a direto nos olhos. "Não acha que está levando muito a sério esse tipo de coisa? Foi só um teste do diretor para garantir a segurança dos alunos, mas não precisa perder sua vida por conta disso."

"Você diz isso porque não tem noção de responsabilidade!"

"Certo..." Ele levantou-se, com o rosto ligeiramente vermelho, indicando irritação. "Então vá explicar essas noções para alguém que se interesse. Estou fora."

"Ron, espere!"

Ela tentou seguí-lo, mas o rapaz já tinha cruzado o salão principal e saído. A garota deu um suspiro derrotado e repreendeu-se mentalmente. Por mais que achasse que ele tivesse que se empenhar, nunca se expressara de modo tão ríspido. Ainda mais depois de terem assumido seu relacionamento.

Enquanto dizia, porém, um acesso de raiva e ódio tomou conta de seus pensamentos e ela disparou as palavras antes mesmo de conseguir censurá-las. Suspirou. Teria um enorme trabalho em conseguir se desculpar, ainda mais porque aquela noite era patrulha dele com Parkinson. E ele voltava de extremo mau humor quando a outra garota era sua companheira...

(Fim de cena)

Seria melhor se mantivesse as coisas do jeito que estão. Deve ser obediente àquele que já se foi e seguir seus desejos, sem desfocar do que realmente interessa. Ele espera por você.

Draco observou as chamas consumirem o pergaminho com um brilho de desinteresse. Naquele momento, que era dono de sua vida e vontades, vinha algum idiota, ou melhor, uma idiota e tentava dobrá-lo? Tinha curiosidade por grafologia, até mesmo lera um livro que tratava sobre os diversos tipos de letras, e o quanto isso dizia de uma pessoa.

Aquela era firme, precisa, calculada, porém misteriosa. Pertencia a uma mulher porque tinha certeza que nenhum garoto faria tantas voltas nas primeiras letras ou deixaria as vogais tão precisas e retas sem precisar usar uma régua. Era tipográfica, o que significava que a pessoa era extremamente ligada às aparências, sem se mostrar a fundo, o que evidenciava o mistério que estava em torno da garota. A pena era nova e a tinta de excelente qualidade, o que só podia ser de alguém de sua casa.

Não quis perder tempo pensando em quem gostaria de manipulá-lo, porque talvez esse indivíduo não o conhecesse bem o suficiente para saber que ele não se intimidava por palavras. Com certeza, ela não sabia que sua mãe estava morta por ele ter desobedecido palavras de cartas covardes como aquela.

Pelas suas próprias mãos. Quando cerrava os punhos, sempre lembrava da sensação da pele quente de Narcissa sob seus dedos. O quão macia era, e como ela amornava o restante de seus dedos quando tocou a superfície acetinada.

Um gosto azedo veio a sua boca e despejou todo o conteúdo de seu jantar na pia, já que não foi rápido o suficiente para chegar ao vaso sanitário. Respirou fundo algumas vezes e deslizou as mãos pelos cabelos, enquanto deixava a água corrente levar embora os restos mal digeridos de comida. Colocou as palmas embaixo d'água e molhou avidamente o rosto, após enxaguar a boca para eliminar a sensação acre em suas papilas gustativas.

Era sempre assim que terminava suas reflexões sobre a morte de Narcissa. Observou seu próprio reflexo pálido e não conteve um pequeno sorriso sarcástico. 'Patético, Draco. Simplesmente patético.'

Voltou para o quarto em passos lentos, na tentativa de ignorar a náusea que o deixava ligeiramente entorpecido e se jogou na cama. Fechou os olhos e novamente o sorrisinho displicente iluminou seu rosto doentio sem que agora o visse no espelho; Voldemort não iria tê-lo.

Muito menos agora.

(Fim da cena)

O final de semana de Hogsmeade chegou afinal. Hermione não estava nos melhores dias com Ron, apesar de ter pedido desculpas, conversado um dia inteiro com ele e até mesmo largado sua lição de casa – o que foi mais duro – para dar atenção a ele enquanto tagarelava sobre Quadribol e jogava xadrez de bruxo com Harry – que sempre perdia miseravelmente.

O tempo estava ligeiramente nublado, com um vento frio cortando os rostos dos alunos que subiam nas carruagens que levavam ao vilarejo bruxo. Ela fitou de relance os amigos que continuavam a falar como se não estivesse presente e deu um pequeno sorriso ao vislumbrar como seus eles estavam despreocupados e livres.

Até mesmo Harry, que ganhara uma ligeira marca em sua testa por pensar demais em todos os milhares de problemas que carregava sobre os ombros, estava tranqüilo. Alguma coisa em beber cerveja amanteigada e se empanturrar de doces da Dedosdemel fazia o humor de todos levantar consideravelmente.

Entretanto, a garota não parecia imersa àquela atmosfera. Para dizer a verdade, só estava na carruagem para tentar fazer as pazes de vez com o ruivo, que parou de lançar olhares magoados em sua direção. Preferia ficar no refúgio do dormitório feminino e, refletindo sobre qualquer coisa que não fosse a maldita ida ao vilarejo.

Havia alguns dias que sentia o coração um pouco mais leve do que o de costume, quase podendo desfrutar de um descanso das dores constantes que a faziam perder o apetite, ter rápidas síncopes e dispersar-se no meio de aulas importantes. Essa letargia fê-la lembrar do loiro de Slytherin, que estava mais evasivo do que o de costume.

Desde o episódio dos livros, nunca mais esbarrou com ele nos corredores e, nas poucas vezes em que prestou atenção, sua cabeça loira mantinha-se baixa, quase inquieta em seus pensamentos, ouvindo e esboçando sorrisos às idiotices dos seus colegas de Casa. Ocasionalmente, estalava um beijo sem vontade nos lábios de Parkinson, e não continha o girar de olhos ao vê-la rir de um modo bastante infantil e feminino.

Quase sempre se afastava e murmurava alguma coisa. Zabini assentia de leve e observava o rapaz se afastar em passos rápidos e silenciosos. Somente uma vez fora pega observando-o, e os olhos castanhos do amigo de Draco se estreitaram levemente, não de raiva, mas por pura curiosidade. Ela ruborizou e desviou o rosto, bem a tempo de ouvir alguma coisa idiota que Ron falara e então lhe ofereceu um sorriso fraco.

Os dias tinham sido maçantes, e finalmente, quando tinha a oportunidade de descansar, estava a caminho do último lugar que queria ir. Conteve a expressão emburrada e deixou-se encostar no ombro do ruivo que continuava a tagarelar com Harry sobre algum modelo de vassoura que ultrapassara a firebolt 'Homens são tão estúpidos...' pensou consigo mesma. Desviou da análise de Ginny, que direcionava o olhar azul em sua direção bastante intrigada.

Meneou com a cabeça e chacoalhou os ombros suavemente, como se quisesse demonstrar o quão desinteressada estava na conversa. A ruiva ofereceu um sorriso condolente e pigarreou de leve.

"Ei, vamos falar de outra coisa? Vocês dois estão um saco."

"Mas achei que gostasse de Quadribol!" O moreno protestou, claramente inconformado por ter que interromper seu discurso sobre a vassoura perfeita.

"Eu gosto, mas Hermione não e daqui a pouco ela vai considerar a idéia de pular da carruagem atraente já que vocês dois sequer prestaram atenção que ela está aqui!" Os dois abaixaram a cabeça em um gesto arrependido e a garota sorriu triunfante. "Ela já entendeu o recado."

"Tudo bem, passou." Ela assegurou, olhando ora para um, ora para outro, depois de oferecer um sorriso cansado. "Que iremos fazer esse fim de semana?"

(Fim da cena)

"Quatro cervejas amanteigadas!"

Os amigos se acomodaram no ambiente hospitaleiro do Três Vassouras e deram um bom gole da bebida antes de retomarem as conversas animadamente. O vento soprava ameno naquele dia, ainda que o uso de capas resistentes se fizesse necessário, porque geralmente à noite o frio não era tão amistoso.

Entre as feições conhecidas dos colegas de Hogwarts, Hermione encontrou em um canto, quase solitário, Draco Malfoy. Os amigos conversavam a sua volta como um bando de gorilas, gesticulando e dando risadas altas, o que proporcionava um desconforto aos que estavam em uma mesa próxima. Ele parecia um tanto deslocado do cenário, com um copo de wisky de fogo pela metade nas mãos e as maçãs do rosto ligeiramente avermelhadas, colorindo a vida quase apática da palidez de seu rosto.

Os olhos cinzentos pareciam quase sem foco, e então o amigo de olhos castanhos, Zabini, cutucou-o e fitou-o com uma sobrancelha arqueada. Malfoy, em resposta, esboçou um sorriso sarcástico que sempre enfeitava sua face zombeteira, virou o resto do conteúdo sem ao menos piscar e murmurou meia dúzia de palavras antes de se levantar, enfiar as mãos no bolso do espesso casaco e sair do local.

Sequer uma vez dignou-lhe um olhar de esguelha, muito embora tivesse certeza que ele sabia que estava sendo observado. Ginny olhou-a incerta e em resposta Hermione meneou a cabeça, mas ofereceu um sorriso com promessa de comentários quando estivessem sozinhas. Então, a garota levantou da mesa após tomar o último gole de sua cerveja amanteigada a tempo de os garotos prestarem atenção – pela primeira maldita vez no dia – e Ron segurá-la de leve pela cintura.

"Ora, onde você vai?" O ruivo olhou para cima e Hermione sorriu em resposta.

"Livraria." Ela sorriu e balançou o saquinho com moedas. "E depois vou para Hogwarts, estou cansada e hoje tem patrulha com Malfoy."

"Ew..." Os dois garotos fizeram uma careta, mas Ginny apenas sorriu de modo conspirador ao mesmo tempo em que os olhos azuis brilharam com malícia. "Boa sorte então, nos vemos no jantar."

(Fim da cena)

Quando estava do lado de fora do Três Vassouras, a primeira coisa que a morena fez foi procurar uma cabeça muito loira entre os alegres bruxos de Hogsmeade. Perambulou sem pressa pelos caminhos, ocasionalmente levantava rapidamente o braço com um sorriso genuíno no rosto, ao reconhecer algum aluno ou colega. Depois de dez minutos, encontrou a livraria e fuçou no bolso do casaco a lista de livros que lembrou ter visto nas mãos de Malfoy. Entrou sem fazer barulho e logo se viu entretida pelos títulos e volumes que nunca vira; parecia que a loja tinha exemplares muito mais exóticos do que no Beco Diagonal.

Hermione folheou alguns livros que lhe pareceram mais atraentes e, quando quase perdeu a noção do tempo em um sobre artimância, ouviu a voz arrastada e baixa do loiro dizer que exemplar que procurava; infelizmente, não conseguiu ouvir o título que ele procurava, apenas o final de sua frase.

"..., por favor?" Ele ficou de pé, encostado no balcão sem olhar para nada realmente. Em suas mãos, tinha uma sacola negra que parecia conter uns dois ou três livros grossos. Draco olhou para trás e ergueu uma sobrancelha questionadora ao ver a garota fitando-o com intensidade, seus olhos, suas compras e sua expressão. Deu um pequeno sorrisinho de lado e em passos largos aproximou-se da garota. "Vê alguma coisa que te agrada, Granger?"

"Não estou com vontade de vomitar, Malfoy." Ela disparou mesmo que o rubor leve em suas bochechas dissesse o contrário. Segurou um dos volumes contra o peito e dirigiu-se ao balcão, esperando pelo atendente.

"Pois eu discordo." A voz veio bem perto de sua orelha e a garota por alguns instantes ficou rígida. "Percebi seu olhar no Três Vassouras e que me procurava enquanto perambulava pelas ruas."

"Fique longe de mim." Ela deu alguns passos para o lado e fitou-o fuzilante. Oh não, agora não... Pensou, enquanto o peito doía e o sangue em suas veias se esquentava com uma raiva que não parecia ser sua. "O que faço ou deixo de fazer não é da sua maldita conta!"

"Ora, Granger, apenas estou curioso. Seu namoradinho de merda não te deu atenção? O seu amigo esqueceu que você existia?" Ele olhou para cima como se divagasse sobre a questão e depois voltou a encará-la com os olhos gélidos e inexpressivos. "Patético. Vergonhoso e patético."

"Patético é você que..."

"Bobagem." Ele balançou a mão em sua frente, interrompendo-a. "Não estou interessado em conversar com você. Só quero saber por quê está me seguindo."

"Não estou te seguindo!"

"Ótimo." Os olhos cinza se estreitaram e o garoto tirou as moedas do bolso, entregou-as ao vendedor da loja e ignorou-a no processo.

Depois que o garoto saiu da loja, Hermione pagou os dois livros que pretendia levar e saiu correndo atrás da cabeça loira, seguindo-o muito de perto. Observou-o conversar com alguns bruxos velhos, abrir páginas dos livros que comprara, ouvir algo que parecia assertivas negativas de suas perguntas e um rápido balançar de cabeça em agradecimento.

Malfoy parecia ligeiramente cansado. Ela, por outro lado, sentia uma grande frustração, raiva e um quê de arrependimento. Podia entender a frustração, afinal, não entendia o porquê de o rapaz ser tão sorrateiro com uma compra de livros excêntricos. Mas os outros dois sentimentos pareciam deveras inapropriados, para não dizer impertinentes, por estarem presentes sem razão. Ou ao menos um motivo que fosse razoavelmente plausível.

Alguma coisa em discutir com ele fazia seu sangue ferver mais do que quando brigara com Ron. Era como se a sua própria raiva duplicasse, e junto a ela vinha um ódio profundo, que com certeza não era o que sentia pelo inimigo. Era algo mais sujo, pútrido, quase como se não fosse dela.

Uma bruxa loira falou com Malfoy e dessa vez a sua expressão cansada substituiu-se por uma de algo muito parecido com esperança, que era o que aquecia o seu próprio peito. Ela entregou-lhe um pedaço de pergaminho, que ele guardou com cuidado no meio de um dos livros que comprara. Após o encontro de exatos dez minutos, Draco apertou de leve o ombro da mulher e virou-se, para fazer o caminho inverso, uma vez que estava muito afastado da entrada da cidade.

Hermione estava em uma rua travessa, encoberta pela sua capa negra, ainda sem entender completamente a situação. Agora, Malfoy voltava e parecia bastante satisfeito com o que lera no pergaminho que a bruxa loira lhe entregara. O loiro passou pela rua que ela estava e andou reto. Hermione andou na direção oposta, optando por seguí-lo através de uma rua paralela, mas subitamente um murmúrio atrás de si fê-la ficar imóvel.

"Sabe, Granger, não é sábio espionar e depois dar as costas ao inimigo." A voz veio rouca e quente contra sua orelha. Depois de murmurar um contra-feitiço, Draco segurou-a contra seu corpo com o braço direito, enquanto a mão esquerda mantinha a varinha firmemente encostada contra sua têmpora. "Acredito que os termos do nosso encontro na livraria não ficaram claros."

"O que você quer, Malfoy?" A garota se sentia ligeiramente entorpecida pela quantidade de sentimentos dentro de si misturados ao medo pela proximidade e poder que Draco exercia sobre ela. Com o aperto dele daquela maneira, ela podia perceber que a diferença entre suas alturas se evidenciava, dando-lhe uma sensação maior de impotência. Sua varinha estava no bolso interno do casaco, se ao menos pudesse encontrar alguma outra saída...

"Quero saber por que estava me seguindo, é óbvio." Ele abaixou um pouco mais a voz e empurrou-a quase gentilmente, fazendo-a andar para frente, em direção às florestas. Ela ainda tentou se debater, mas por todos os motivos do mundo ele era mais forte, e todas as chances de fugir se esvaíram quando Draco amarrou seus pulsos e tornozelos contra uma árvore e roubou sua varinha.

"Eu não estava te seguindo, seu porco maldito!" Ela gritou e tentou se mexer, para descobrir que as cordas machucavam seu pulso, deixando-os ardidos. Mordeu o lábio inferior em apreensão, tentando acalmar a fúria crescente dentro de seu peito. "Apenas foi coincidência estarmos nos mesmos lugares e..."

"Granger." Ele interrompeu-a com um gesto de sua mão e aproximou-se. "Não ofenda a minha inteligência." Observou atentamente o rosto raivoso e aterrorizado da garota sem nenhuma emoção mostrar no seu rosto o que se passava no interior. Não há o que mostrar se não há o que sentir. "Eu podia te matar, sabia?"

"Provavelmente vai realizar seu grande sonho e varrer os nascidos trouxas do mundo, não é?" Ela despejou com veneno, sem deixar de notar como os olhos cinza, vazios e inexpressivos se estreitaram levemente, mas continuavam com a mesma maldita frieza irritante que tanto a intrigava. "Vá em frente, você conhece muito bem as imperdoáveis. Tenho certeza que o papai te ensinou."

"Crucio."

A vaga descrição de mil facas que perfuram a pele incessantemente, em diversas partes do corpo, parecia pouco. Não sabia de onde vinha tanta vontade do vácuo que representava o loiro arrogante à sua frente, mas podia claramente sentir, e Merlin, como sentia, a dor dilacerando seus músculos sem que, no entanto, uma gota de sangue sequer saísse de suas veias. Gritar parecia doloroso, abrir os olhos, pensar, qualquer coisa nesse sentido.

Não sabia se foram instantes ou minutos que se passaram, entretanto, quando a sensação se esvaiu, ela deixou o peso do corpo cair, sem conseguir sustentação nas pernas trêmulas, atadas contra a árvore. Os pulsos doeram miseravelmente e um fraco gemido de dor escapou de seus lábios enquanto o suor e a ardência se misturavam nos punhos e lhe proporcionava uma fraqueza sem limites.

"Sabe, você poderia ter evitado." Ele murmurou, enquanto olhava a garota quase pender para o chão de exaustão. "Não repita uma palavra sobre minha família."

"Aposto que se divertiu em ver minha dor, Malfoy." Ela respondeu seca e voltou os olhos castanhos, brilhando de ódio e fúria. "Que enquanto me via sob o efeito do Cruciatus teve a sua maior satisfação. Imaginou depois como seria se fosse com Ron... Se fosse com Harry. Ou quem sabe os três, agonizando de uma vez. Como lhe parece esse quadro?" O rapaz ficou em silêncio e Hermione esboçou um sorriso cruel. "Consegue visualizar, Malfoy? Claro que sim, é seu pequeno sonho sujo desde que nos viu colocar os malditos pés nessa escola."

"A imagem em minha mente é realmente agradável, Granger." Ele começou lentamente e olhou-a tão profundamente que ela teve a sensação que Malfoy podia enxergar cada cantinho obscuro de sua alma. "Mas, para seu azar, e principalmente para o meu, não me diverti muito."

"Uma pena." Retrucou sem realmente ter o que dizer. "Fique imaginando porque Ron e Harry nunca perderiam um duelo contra um merda como você."

"Crucio."

"Recomendo que fique quieta Granger..." Ele falou um pouco mais alto, já que agora ela gritava e se debatia no ar, uma vez que estava longe o suficiente do tronco para não bater nele. "Finite Incantatem." Aproximou-se da garota lentamente e coçou de leve o queixo, antes de segurar o rosto dela nada gentilmente. "Vai ser boazinha e me contar porque estava me seguindo?"

"Apodreça no inferno, Malfoy." Ela respondeu, virando o rosto várias vezes para escapar de seu toque abrasivo, ainda que o gesto doesse profundamente. "Sei que me odeia tanto quanto te odeio, estou presa, sem poder me defender. Acabe logo de uma vez com isso."

"Você é uma sabe-tudo prepotente..." Ele quase sorriu com o olhar, ainda que não movesse um músculo sequer da face, a não ser para falar. "Mas algumas vezes consegue errar. Eu não te odeio. Pelo menos não agora."

"Então vai me dizer que subitamente se sentiu atraído pela 'sangue-ruim nojenta cabelo de vassoura'? Ficou retardado?" Ela riu sarcasticamente. "Honestamente, você me decepciona. Toda sua pose de menino mau vai cair depois dessa revelação."

"Eu estou em meu perfeito juízo, Granger." Ele respondeu calmamente, fazendo círculos no ar com a ponta da varinha. "E não se esqueça que ainda posso te matar. Do jeito sujo ou bruxo."

"Estou pouco me fodendo para suas ameaças. Se fosse fazer alguma coisa, já teria feito." Olhos castanhos e cinzentos se encontraram, e apenas um deles brilhava com uma fúria desenfreada. "Está com o rabo entre as pernas esperando pelo pap-"

"Crucio." Ele disse entredentes. "Crucio." O corpo dela tremeu e os gritos se tornaram mais altos. "Crucio." As lágrimas escapavam do rosto claro, mas, nem de longe a imagem comovia a Draco. Era quase... terapêutico. "Crucio. Crucio. CRUCIO!"

A imagem de Narcissa veio a sua mente como em um flash cegante e o rapaz arregalou os olhos, atônito, antes de voltar o olhar para a garota que torturava.

Malfoy respirou fundo e observou que Hermione estava prestes a perder os sentidos. Quase relutante, finalizou o feitiço e fez um gesto com a varinha para desamarrar os pulsos – agora vermelhos e com sangue – e os tornozelos. Ela caiu com tudo no chão, batendo a cabeça contra a raiz alta que ele tinha amarrado seus pés e logo um corte sangrou na têmpora. Ela parecia atordoada com a dor, suada e cansada, mas estava bastante consciente.

Ele ajoelhou-se na sua frente e passou um lenço no rosto ensopado de suor e pressionou, quase gentil, o pano contra o corte que pulsava e expelia o líquido rubro. Os olhos dela o miravam num misto de confusão e ressentimento. Estava lúcida o suficiente para questionar e fraca demais para se rebater. "Isso dói." Sussurrou entre os lábios secos pelo frio.

"Logo passa. Coma chocolate quando voltar à Hogwarts." Ele soltou o lenço e a mão pequena e alongada substituiu-o, pressionando o curativo improvisado contra o corte. "Vou perguntar pela última vez, Granger. E é bom que me responda, antes que eu realmente te mate. Minha mãe não vai te salvar dessa vez." Draco suspirou e pôs-se de pé. "Por que estava me seguindo?"

"Queria saber porquê estava com aqueles livros." A voz soou miúda e baixa, entretanto, ela teve certeza que fora ouvida porque o loiro assentiu lentamente. "E como sua mãe me salvou?

"É simples." Ele olhou-a num misto de indiferença e algo muito semelhante à ironia. "Eu matei minha mãe nessas férias, Granger. Apertei o pescoço dela lentamente, até asfixiá-la, durante uns dez, quinze minutos." Hermione levou uma das mãos ao pescoço e a outra na frente da boca, com uma súbita náusea invadindo-a. "E meu pai morreu trancando meus sentimentos sabe-se lá onde. Eu não te odeio porque não sinto absolutamente nada quando olho pra você. E não senti nada quando enterrei os corpos da minha mãe e do meu pai. Não senti nem ao menos remorso por ter acabado com a existência patética deles."

"Malfoy..."

"E estava procurando uma maneira de reverter..." Ele continuou como se ela não tivesse dito seu nome. "Porque é ruim não odiar Granger. É péssimo não conseguir odiar Potter pela sua síndrome de herói, odiar Weasel por ser um idiota que só se arrasta pelas sombras do melhor amigo, odiar você por ser uma sabe-tudo prepotente e intrometida..." Draco coçou o queixo novamente e fitou-a no fundo dos olhos novamente. "E principalmente, Granger, odiar a mim mesmo por ser incapaz de odiar a tudo. Por não ter remorso do que fiz. Por não ter sequer uma centelha de nada."

As lágrimas vieram aos olhos dela sem que contivesse, mas não pela dor nos membros que ardiam pela maldição Cruciatus. Ou mesmo pelas palavras ácidas que ele lhe direcionava, porque uma vez que alguém sempre toca no mesmo ponto, forma-se uma proteção, como se fosse uma concha, e a dor começa a ser normal, constante, e então uma hora ela simplesmente passa desapercebida. Não era por pena também, ele era orgulhoso demais para merecer a pena. E forte também, de certa forma.

Mas nela doía, fundo, sem nenhuma proteção. Havia tanto remorso, tantos sentimentos naquele vazio de ser humano... Tantos sentimentos que ele queria expressar, a saudade e arrependimento, o ódio, a auto-flagelação, o desprezo, a angústia... E a ele, só lhe restara o puro e simples nada. E nela ardia, machucava, dilacerava, como se ela mesma sentisse a dor que ele não podia sentir. E que ansiava tanto, por um pouquinho que fosse, ter tanta dor, para que ao menos pudesse saber que estava vivo, que não estava vazio.

Mas estava. E ela chorou pela dor dos dois, a dela por camaradagem, a dele que parecia infiltrar em seu coração. Chorou pelo garoto que parecia tão perdido em sua própria ausência. Pelo vazio, pelo nada que estava resumido seu peito. E por todos os motivos juntos, os ombros se sacudiram em soluços incontroláveis, os olhos não focavam. Quando estava quase anoitecendo, ela dormiu, ou desmaiou – não sabia ao certo – de exaustão.

Malfoy observou a cena com olhos neutros. E percebeu que, ao tocar a pele úmida de seu rosto, o estômago não se revoltou como achou que aconteceria.

Que vontade de comer pudim.

(Fim da cena)

Ela foi deixada do lado de fora do Três Vassouras. Enquanto Draco se afastava, Ron correu em sua direção blasfemando contra o loiro pelo estado em que a garota se encontrava; com o rosto manchado de lágrimas, sangue em seus pulsos e aparentemente inconsciente.

"Cuide de sua namorada, Weasel. Talvez se prestasse atenção, ela não teria voltado desse jeito."

O loiro enfiou as mãos nos bolsos do casaco e lentamente desapareceu do vilarejo de Hogsmeade, sem que Ron pudesse esboçar alguma reação.

Mas o nojo sempre passa uma hora. E depois da náusea, vem a sensação de alívio. Como se fosse melhor vomitar o que quer que estivesse incomodando, para então livrar o peso do estômago.

Ou do coração.

A ser continuado...

N/B Kikis: Caros leitores, não culpem a autora. Qualquer demora excessiva do capítulo (deste e anterior) é minha responsabilidade ;P. Podem jogar as pedras.

N/B: Naru-L – Sempre culpem a Kikis. Não a Lally por demorar para escrever ou minha gentil pessoa por demorar para corrigir... No final, Kikis é a que sempre demora mais! Estamos em algum tipo de competição aqui? XD

N/A: Surtos a parte das minhas queridas betas... XD

Agradeço à Kikis, Naru-L, Monique, Jackie B. Malfoy, Vick Weasley, Claudia Malfoy, Su.Snape, misskrum e Brwendally Malfoy e Kik pela atenção.

A você, caro leitor, cabe o papel de julgar se essa fanfic é digna ou não de um review.