Antes da Rebelião –– 3ª Parte

Proposta

Os dias seguiam tranqüilos. Nada os perturbava no longo tempo que estavam no planeta azul. Cabia-lhes, portanto, a inigualável bênção de desfrutarem da companhia um do outro.

Castiel, porém, se mantinha alerta; não queria que o seguro refúgio fosse invadido pelos irmãos, que certamente tomariam satisfações, de maneira nem um pouco amistosa, acerca dos atos destrutivos de Samael. Sobretudo Miguel, que teve a filha morta Ciclos antes.

– Você sabe a verdade. Com certeza acreditarão no que venha a dizer, fique calmo.

– Duvido – respondeu Castiel, em um pessimismo nada confortador. – Você já teve algumas atitudes um tanto atrevidas a respeito do posto que Miguel ocupa...

– Ei, ele me deixou em seu lugar enquanto ia falar com Deus ou enquanto se atinha a missões de extrema relevância... E, então, precisei tomar decisões; não poderia esperar que retornasse para deixar tudo com ele. Não seria justo – explicou, interrompendo-o.

– Tudo bem, eu sei disso. Só me preocupo com o que venha a ocorrer agora – o olhar do jovem anjo era triste, como se intuísse algo ruim.

– O que foi? – o maior se aproximou dele e o abraçou. – Por que está assim? Achei que seria bom trazê-lo para cá.

– E foi, é ótimo estar aqui! Só não quero que... Que tudo se... – ele não concluiu a frase. Os olhos se encheram d'água e, em um movimento repentino, se afastou do outro. – Que tudo se complique – completou, finalmente, enquanto as lágrimas caíam. – Não gostaria de que me visse como alguém fraco, por favor... – murmurou, como se falasse apenas para si. – Fui preso por quem considerava meu irmão... Zacharias, que foi tão covarde... tão estúpido! E fui torturado por outro... Ainda não sei por que motivos, mas confesso que me senti acuado demais. Quando você apareceu, o observei matar Raviel de maneira fria, porém entendi porque se indignou. Apenas quis me proteger, não é? – o maior assentiu. – Pois então... Não quero que se prejudique com as questões que ocorrem comigo... Se sou fraco para solucioná-las é por que eu...

– Pare, por favor – pediu, depois de pegá-lo no colo e de acomodá-lo adequadamente. – Não suportarei ver você se maltratar dessa forma tão rude – Samael limpou as lágrimas que cobriam a face do menor e prosseguiu: – Sei o quão frágil se sente pela tortura que lhe foi imposta, inclusive não tenho a mínima noção de como farei para que se recupere do flagelo grosseiro... E o Pai sequer me contatou mentalmente para cooperar – passou a acariciá-lo com ternura. – Mas quero que saiba que estarei sempre junto a você... Nada vai dar errado, me ouviu? Acredita em mim? – Castiel fez um aceno de cabeça e se aquietou. Sentia-se bem nos braços daquele que, por incrível que pareça, era o único capaz de fazê-lo feliz.

– Posso treinar você, o que acha? – perguntou, o tom lânguido; o olhar profundo engolfou o outro.

– Fala sério? Teria paciência para isso? – argumentou, como se ninguém quisesse, de fato, ajudá-lo.

– Claro, por que não? – sussurrou. O jovem, por sua vez, suspirou e comentou:

– Nunca tive aptidão para tal, pelo menos é o que me diziam... E eu não me atrevi a tocar mais no assunto com ninguém. Como Azrael saiu em missão logo após a sua ausência – Castiel apontou para o companheiro – Eu não me cerquei de alguém que quisesse me instruir em técnicas de luta.

– Mas eu quero – rebateu, convicto de que era o melhor a ser feito. – Considero importante que você se sinta seguro para reagir a qualquer hostilidade, entende o que digo? – o menor assentiu. – Então esperaremos mais um dia pelo tempo da Terra, a fim de que descanse bem. Começaremos a treinar amanhã. Ok?

– Sim. Obrigado por demonstrar paciência... – o anjo parou de falar, surpreendido com o modo carinhoso com que Samael o olhava.

– Não é paciência... É vontade de ver você bem – concluiu, depois de se abaixar para beijá-lo.

Maravilhado com a maneira gentil com que era tratado, Castiel tomou a iniciativa: levantou-se do colo do maior e sentou ao lado dele. Em seguida, retomou o beijo com ardor. Não permitiria que ninguém – nem mesmo os irmãos –, os atrapalhassem.

– Esse lindo lugar é nosso, até que digam o contrário – encarou o jovem com profundidade. A impressão que tinha era a de que os olhos azuis de Samael lhe transmitiam um brilho ainda mais intenso do que o costumeiro.

– Concordo – respondeu, certo de que permaneceriam na Terra por muito tempo.

E assim seguiam os dias. Contente por residir em um local tão majestoso, Castiel externava tais sensações a cada segundo, minuto, hora. Aprendia inúmeras lições, desde ter maior agilidade ao lutar até voar em uma altitude mais elevada. Tudo era novo para o anjo e ele nem sempre obtinha o resultado que desejava. Frustrava-se com isso, mas seu instrutor não se cansava de treiná-lo com um esmero e uma dedicação dignas de um verdadeiro Arauto de Deus.

Porque embora sustentasse sensações inovadoras – perigosas e um tanto rebeldes – Lúcifer se considerava parte da Criação do Todo-Poderoso. Apenas lamentava que existissem outros seres alados além dos dois, os quais queriam desviá-lo do caminho que pretendia seguir, já que não admitiriam o relacionamento de ambos, por motivos que diziam ser óbvios.

Inicialmente, apesar da revolta e do rancor crescente em seu peito, não pretendia fazer mal a qualquer irmão. No entanto, seria capaz de transpor tais limites para proteger o anjo mais lindo e puro da Criação: Castiel. Sim, porque ao contrário do que imaginavam os vários companheiros angélicos – que o caracterizavam como um ser arrogante e egoísta ao extremo – não se sentia tão auto-suficiente assim.

Era, portanto, o jovem companheiro que provocava essas conclusões na mente aguçada de Samael Estrela da Manhã.

Era por ele, e tão-somente por ele, que cometeria as ações mais violentas e que, paradoxalmente, teria gestos de bondade insuperáveis. Sim, amava Castiel como nunca amou ninguém – exceto a Deus, que criou e que projetou o anjo com todo cuidado. Amava aquele ser digno de admiração por dias e dias infindáveis.

Quanto ao jovem anjo, demonstrava maior confiança com o árduo treinamento que recebia. Sentia-se, com o passar do tempo, cada vez mais pronto para enfrentar um provável ataque dos irmãos angélicos.

Nota do Beta: Gente! Além de ensinar o Cas a fazer coisas não tão de anjo, o Tio Lú ainda ensinou o nosso mensageiro celeste favorito a lutar? Legal! E o Cas chegou mesmo no coração do Lúcifer, hein? Ele está disposto a enfrentar o Céu pelo anjinho! Agora, pra onde será que vai dar essa estória? Vamos lendo, pessoal, vamos lendo! Go, Cas, Go! Go, Lúcifer, Go!

Nota da autora: Querido Cassboy, suas notas são pequenas, mas significativas. Gosto muito desta fic, e por isso resolvi reposta-la, com sua colaboração. Porque como eu não tinha beta, colocava as fics sem corrigi-las como mereciam. E, agora, estou feliz com o resultado! Espero que os leitores também estejam gostando e que postem reviews, por favor! Beijos a todos!