Hogosha
Capítulo 3
O Ginko corria ofegante pela escuridão da floresta. Era difícil orientar-se na montanha durante o dia, mas de noite parecia impossível. Ele fez uma pausa para descansar, e então notou que mais abaixo um luar dourado iluminava a superfície do lago. Ele estava a aproximar-se do lago quando viu alguém na margem, Iwako. Ela estava nua, e tinha aplicado a substancia negra pela sua pele, formando linhas onduladas que se estendiam do torso à sua cara e membros.
O Ginko tentou chama-la, mas ela mergulhou nas águas douradas do lago.
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A Iwako deixava-se afundar nas águas sombrias do lago. "Tenho que esvaziar os meus pulmões, e talvez a poeira desista e volte ao Kinchiri." Ela deixou bolhas de ar sair da sua boca, deslizando cada vez mais profundamente. "Será que terei de encher os meus pulmões de água?"
Ela reparou que a superfície do lago foi perturbada, e viu a silhueta do Ginko nadar sem a ver. "É demasiado cedo, se voltar agora continuarei com a poeira no meu corpo..." A Iwako pousou-se suavemente no leito do lago, e sentiu as algas acariciar as suas costas. A água fria entorpecia os seus membros enquanto o seu espírito mergulhava na escuridão. Mas de repente estremeceu.. "O Ginko está sem protecção, se ele continuar a nadar assim ficará condenado como eu!"
O seu coração acelerou, e ela retomou vigor nadando em direcção do Ginko. Este reparou nos movimentos da poeira dourada que se afastavam da Iwako, e voltou-se para ela. A Iwako abraçou-o firmemente. "Talvez assim a poeira não entre no seu corpo...", antes de perder o fôlego e engolir água, acabando por perder consciência.
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Uma brisa fresca agitou os cabelos brancos do Ginko quando ele avistou a aldeia. Apesar do ar perfumado pelas primeiras flores do ano, os picos da montanha ainda estavam cobertos pela neve que brilhava sob o sol. Ginko notou imediatamente que a aldeia tinha mudado. Muros de sustentação tinham sido construídos para estabilizar as encostas à volta da povoação, e um novo edifício erguia-se perto da orla da floresta.
A sua contemplação foi interrompida pelos gritos de um camponês que corria pelo arrozal na sua direcção:
- Senhor Ginko! Que prazer vê-lo de novo!
- Keiji! Contente de o rever!
Ofegante mas com um largo sorriso, o Keiji começou a andar ao lado do Ginko. Estava feito homem, e os trabalhos do campo tinham-lhe esculpido um corpo robusto.
- Como vão as coisas para si, Keiji? Parece que está de boa saúde!
- Não me posso queixar! No ano passado as colheitas foram boas, e este ano já acabamos a plantação. Aliás, pela primeira vez o meu filho mais velho pôde ajudar na faina! Espero que o senhor nos possa visitar para tomar um chá, para que eu lhe apresente a minha família.
- Seria com prazer... E a Iwako, como vai ela?
- Ha! Muita coisa aconteceu desde a sua partida! Pouco antes do ancião morrer ele designou-a como chefe da aldeia. Ela tinha iniciado uma escola para as crianças da aldeia, mas agora também ensina miúdos que vêm de outras localidades. Muita gente vem visita-la, alguns até são mushishis como o senhor. Ao princípio ela ensinava em casa, mas desde que ela adoptou alguns órfãos da vila e que o número de alunos aumentou, foi necessário construir uma verdadeira escola para acolher toda a gente. Acho que ela gostará de saber que o senhor está de volta!
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Um jovem rapaz serviu o chá, e a Iwako agradeceu-lhe:
- Muito obrigada, Jiro. Por favor não deixes ninguém entrar no salão, não quero ser incomodada.
Ginko observava Iwako. Ela não tinha mudado de aparência, e seu corpo guardava o mesmo aspecto infantil. A sua cara e os seus cabelos conservavam a sua simplicidade sem adornos, mas agora estava vestida com um quimono de seda decorado com delicados motivos florais. Um largo sorriso iluminou a sua cara:
- Há tantos anos que não te vejo, Ginko. Realmente tiveste saudades de mim?
O Ginko sorriu:
- Quem sabe? Em todo o caso tenho um bom pretexto para te visitar.
Ele abriu a sua mala, e tirou de uma gaveta um frasco cheio de uma massa preta.
A Iwako ficou surpreendida:
- Passaste este tempo todo à procura disso?
- Bem, eu tinha-te dito que era precioso, mas lá consegui acumular o suficiente para te ser útil.
Iwako sorriu jocosa:
- Não me digas que isto é um pedido de desculpas?
- Talvez seja... Afinal de contas quando te trouxe à superfície do lago, largas quantidades poeira dourada jorravam da tua boca, e tive medo que tu morresses. Naquele dia não te quis ajudar porque simplesmente não consegui compreender que tu já tinhas maturidade para escolher a tua própria via.
O Ginko pousou o frasco sobre a mesa:
- Queria simplesmente devolver-te uma escolha que te pertencia.
A Iwako pegou no frasco, e lágrimas rolaram pelo seu rosto. Ela sorriu antes de lhe responder:
- Quando eu notei que não estava a crescer, e que ia ficar para sempre prisioneira neste corpo de criança, fiquei tão revoltada que estava pronta a morrer para escapar a esse destino. Mas quando decidi ajudar-te no lago compreendi que para mim existiam coisas mais importantes do que isso. Mais tarde percebi que o facto de ter feito essa escolha foi para mim uma maneira de transformar um destino que me foi imposto numa escolha voluntária, com as suas consequências.
Sabes, eu acabei por encontrar os textos que tu tinhas mencionado: Há vários séculos existiu nesta região uma outra aldeia, onde viveu o sábio que os escreveu. Mas um dia uma derrocada soterrou a sua aldeia, que desapareceu para sempre… Quando os nossos avôs fundaram a nossa aldeia, já ninguém se lembrava destes eventos.
Estou grata pelo que fizeste, mas acho que já não preciso do teu presente, porque encontrei o meu lugar, mesmo que não seja aquele com que sempre sonhei. Tal como o sábio de antigamente, aceitei ser o Hogosha, a guardiã do Kinchiri na montanha e protectora desta aldeia.
