Atrás da cama havia uma janela e tanto, feita com madeira grossa e vidros também grossos. A janela devia ter mais de 3 metros de largura por 2 metro de altura, com uma cortina toda bordada a mão, do mesmo linho branco que havia na cama. Sempre que as nuvens saíam, aparecia a Lua e sua tênue luz passava ainda mais levemente por entre o linho, criando um clima quase mágico no quarto, contrastando com as cores escuras da madeira e mostrando silhuetas interessantes para alguém no processo de dormir.
O banheiro era do lado exterior do quarto, no fim do corredor que eu não pretendia caminhar durante a noite, aproveitei o toucador para escovar os dentes e, vencida que estava pelo cansaço, coloquei o relógio para despertar às 7h do dia seguinte; peguei minha roupa surrada de dormir e me cobri com o lençol, imaginando viagens, animaizinhos, seres mitológicos e outras maravilhas que somente uma mente cansada é capaz de conceber...
Indo dormir com esses pensamentos, somente bons sonhos poderiam aparecer, correto? Bem, a grande parte deles foi mesmo, mas num momento mais próximo, comecei a sonhar com corrida e cansaço. Com aqueles sonhos que quanto mais nos aproximamos da porta, mais longe ela fica. Apenas um som durante a corrida, uma voz amiga que dizia "cuidado!", com um tom nada ameaçador e que soava como um pano de fundo para todo aquele processo caótico. Do que corria, não saberia dizer, mas bem na hora que estava para ser alcançada pelo perseguidor, acordei com um som estridente, mistura de grito e grunhido; como se algum animal tivesse virado presa na floresta próxima. Levantei assustada e, sentada na cama, dei uma olhada novamente para a janela e busquei o relógio. Eram 3h, já não se via a Lua, apenas sua claridade passando através da janela e do linho e, como o som não se repetiu, devagar voltei a dormir, com aquela sensação de cautela em minha mente e corpo. Não consegui mais descansar e acordei como se tivesse acabado de fechar os olhos com o som do despertador.
Do lado de fora o Sol ainda não tinha aparecido, mas sua claridade já se fazia presente de algum modo. Preparei minhas coisas para tomar um merecido banho e abri devagar a porta. Não se ouvia nenhum som, não porque não tivessem pessoas, mas porque a porta era grossa demais! Assim que transpassei o batente, uma pequena arruaça tomou conta do ar. Percebi que além de mim, mais outras quatro pessoas estavam hospedadas, sendo que todas elas comentavam sobre o estranho som da madrugada. Era possível discernir o som de três vozes masculinas e uma feminina. Corri para o banheiro ao fim do corredor depois de constatar que a porta do mesmo estava entreaberta e, portanto, que eu não ficaria "presa" do lado de fora dele, esperando algum estranho sair.
Ao entrar, novamente, tudo muito asseado, apesar de notar-se que havia sido recentemente usado pela água que ainda escorria da banheira. Como seria de se esperar, o chuveiro era baixo demais para toda a minha altura (eu não comentei anteriormente, mas sou alta pra uma mulher, tenho 1,89m e peso cerca de 82kg) e, com isso, seria necessário usar mesmo a banheira. Abri o registro do chuveiro e deixei muita água escorrer antes de tampar a banheira e deixá-la encher até quase a metade. Não tinha muita intimidade com banhos em banheira, mas como estava ali para novidades e aventuras, essa seria mais uma delas!
Entrei com cautela e notei que havia sais de banho ao lado da banheira, peguei o frasquinho escrito "Lavander", sabendo como um arroz se sente quando é temperado e rindo da metáfora que minha mente havia criado resolvi mergulhar a cabeça dentro da banheira, esticando um pouco as pernas pra frente e confesso que gostei da sensação. Esfreguei a cabeça com o xampu que tinha levado e finalizei com o condicionador, saindo em seguida e tentando deixar tudo tão limpo quanto havia encontrado.
Amarrei a toalha nos cabelos e, sendo ralinhos como eram, sabia que em breve estariam secos e levemente encaracolados. Passei desodorante e me vesti com uma jardineira jeans, meias bem compridas, que poderiam ser puxadas caso fosse necessário fazer a vez de uma calça comprida e um sapato de trilha. A camiseta alaranjada sob a jardineira era de manga comprida, de algodão leve e, com isso, terminei a primeira tarefa do dia, abrindo a porta e partindo para meu quarto.
Assim que passei pelo quarto ao lado do meu, percebi que alguns passos depois ele se abriu e alguém rumou para o banheiro, mas não me virei para checar quem era e, com isso, a minha mente disse: somos então em cinco ou seis, além dos Crow…
Na mochila que preparei no quarto coloquei duas garrafinhas de água, bolachas, uma maçã e repelente de insetos, além de protetor solar. Resolvi adicionar um chapéu na mochila também, para qualquer emergência. Peguei a chave do quarto e desci para o café da manhã.
O cheiro de ovos fritos e de café subia até os primeiros degraus e não pude deixar de salivar. Os outros já estavam quase terminando seu "breakfast" ao qual eu não teria tanta intenção de deixar "fast"... Queria mesmo relaxar nessas férias e se fosse necessário, andaria um pouco por lá sem guia, caso eles não quisessem esperar.
Ao terminar os degraus, todos olharam para mim e eu soltei um "Good morning" sorridente, mesclado com minha mão direita que acenava e a maioria respondeu a contento. Apenas um dos homens olhava para fora e nem notou minha presença, enquanto os outros dois e a mulher, que pareciam todos colegas, foram bem receptivos; eram jovens, deviam ter uns 25 anos. As mesinhas comportavam cerca de quatro pessoas, então, a mais próxima da janela estava com esse homem silencioso, uma outra ocupada pelos três colegas e eu fui até a mesa maior onde estavam os comes e bebes e sentei na mesinha mais próxima dela, onde podia ver pela janela e também interagir com os outros visitantes, caso quisessem. Contudo, depois do cumprimento, eles voltaram a conversar entre eles, algumas vezes relembrando o ruído da noite anterior enquanto o outro continuava a olhar para fora, este era mais velho, cerca de uns 30 anos e, em alguns minutos, ouve-se outra pessoa descendo a escada.
Eu estava de pé, havia deixado a mochila numa das cadeiras e estava com uma xícara de café com leite no centro de uma bandeja e pegando uma panqueca com xarope de Bordo (Maple Syrup) que tem total sabor de Canadá; acabei olhando quem descia e era outro homem muito mais velho, com cerca de 50 anos, vestia calça jeans bem surrada e uma blusa preta dentro da calça com um cinto de cowboy; calçava uma espécie de coturno e tinha também uma mochila nas costas, bem vazia; ao terminar de descer as escadas, olhou em direção oposta a minha e comentou, entre dentes "'orning", ao que respondemos "morning" e, depois disso, olhou na minha direção, medindo minha altura - ao que já estava acostumada no Brasil, mas não num país onde as mulheres são altas também - e pude perceber o quanto ele era baixo, devia ter 1,60m, olhos azuis e tinha cabelos e barba pretos.
"Nossa! Se Wolverine realmente existisse, esse aí seria um forte candidato!" - pensei, voltando a me concentrar na bandeja e rumando para minha mesa.
Ele caminhou para a mesona de café da manhã em seguida e pegou várias panquecas também, com café preto e pão com ovos. Parou em frente à minha mesa e perguntou se poderia sentar ali, ao que eu anui com a cabeça, pois estava comendo uma panqueca quase inteira! Que delícia!
"Primeira vez no Canadá?" - ele perguntou, enquanto também cortava algumas panquecas e enchia a boca.
"Na verdade, segunda! Mas eu só fiquei em Toronto da primeira vez que vim…" - aproveitando para olhar um pouco melhor meu interlocutor.
Ele acenou positivamente com a cabeça e olhando bem, não tinha nenhuma falha na barba que terminava na altura do osso zigomático; seu cabelo era curto a médio, não era possível amarrar, mas se molhasse era possível que caísse um pouco nos olhos. Voltei a comer e bebia um gole do meu café quando ele inquiriu:
"'Cê 'tá bem longe de casa, não? Esse sotaque eu não reconheço. Europa?" - e aí foi a vez dele me checar, olhou minha mochila, depois viu minhas mãos e subiu pelo braço, encarando-me em seguida.
Dei uma risada, imaginando que realmente seria difícil me "mesclar", e o quanto eu não fazia nunca o biotipo do que imaginam de brasileira. Terminei de mastigar, engoli tranquilamente e fiz questão de olhar de volta, para captar a surpresa:
"Que nada! Sou 100% brasileira! Por essa não esperava, hein?" - e sorri, notando os olhos azuis arregalarem levemente e a cabeça maneando levemente para os lados:
"Realmente, foi surpresa!" - ele limpou a mão na calça e estendeu, se apresentando: "Sou James"
"Howlett?" - inquiri sorrindo e completei, estendendo a mão:
"Já devem ter falado o quanto você lembra o personagem dos quadrinhos, né?"
"Humpft! Na verdade, não comentam muito não" - e sacudiu friamente, voltando a comer.
Fiquei sem saber o que fazer e biquei minha caneca de café, sem tirar os olhos dele, que não me olhou mais…
Do balcão do "check-in" ouviram-se passos e uma voz mais jovial que saudava a todos, dizendo que era o nosso guia. Era minha deixa para levantar e sair daquela situação incômoda que eu mesma havia me colocado. Enquanto levantava, pedi licença e ajuntei:
"Desculpe se o ofendi, sr. James… Não foi minha intenção… É que sou muito fã do personagem, acredite, foi um elogio!" - e sai, sem esperar resposta, levando minha bandeja comigo e deixando na pilha de itens para lavar.
