Olá,

Desculpa, desculpa, descuuuuulpa... Foi a faculdade, eu juro, e a falta de inspiração... Eu coloquei o meu email no meu perfil pra vcs mandarem mensagens me cobrando se ficarem muito bravos. Então, respondendo os reviews que eu recebi, não, eu não vou parar de escrever. Eu sei q demoro pra postar os capítulos seguintes , mas eh q eu não estava conseguindo me organizar direito com a facu. Vou tentar ser mais rápida, ok? E eu prometo que termino essa fic, mas acho q vcs ainda vão ter q me aguentar por muuuuuuito tempo, porque quero fazer uma coisa caprichada. E como compensação, eu preparei uma surpresa pra vocês: eu criei um face só pra fic e coloquei imagens dela lá, incluindo a planta da escola e fotos dos prédios. Vejam lá, facilita enquanto vocês leem.

Então, esse capítulo também é mais uma introdução da vida da Sakura em Londres, mas já voltam mais alguns dos personagens de SCC.


Capítulo 3 – ESCONDERIJO SECRETO

- Cecilia.. eu já aprendi minha lição... – Sakura disse ofegante. – Por favor... por favor... Me deixa... deixa eu parar. Eu não consigo!

Sakura estava deitada de costas no tapete do salão hexagonal. Estava com a roupa molhada de suor. Pela ausência de janelas, não sabia ao certo que horas eram, mas tinha a impressão de que já estavam ali havia mais de três horas. Cecilia estava sentada na cadeira atrás da escrivaninha, olhando para a garota com um sorriso ameaçador.

- Deveria ter pensado nisso antes de se atrasar. São poucas as coisas que eu odeio mais do que pessoas atrasadas. Levanta daí agora e continua!

- Não se... se acostumou ainda? Atrasos são minha marca registrada.

- Por que você não economiza no sarcasmo e termina isso logo pra nós não termos que ficar aqui a noite toda? Vamos, garota, está quase conseguindo.

- Quase conseguindo nada. Isso é impossível. Quem é que consegue ficar equilibrado por 10 segundos no encosto de uma cadeira velha e torta com um vaso de cristal na cabeça e uma pilha de livros em cada uma das mãos? Vamos ficar aqui pra sempre. – Sakura levantou para sentar no tapete e olhou para sua treinadora de maneira ressentida. – Prepare-se pra ficar aqui por toda a eternidade, sensei.

- Você não está conseguindo porque não está tentando de verdade. Acha que tudo isso é uma perda de tempo pra sua vida e que não precisa melhorar. Mas você precisa, pois nem sempre haverá pessoas do teu lado pra te defender. Além do mais, você fala como se tivesse alguma coisa melhor pra fazer.

- Tess me chamou pra sair com ela.

- E daí? Ela sempre te chama e você nunca vai.

- Bem... – Sakura viu nisso uma oportunidade e resolveu mentir. – Eu estava pensando em ir dessa vez.

- Sério? – Cecília estava agora com uma expressão desconfiada. Olhou a garota de cima a baixo desse modo e depois de alguns segundos o sorriso ameaçador retornou. - Tudo bem então, paramos por aqui hoje. Quero te ver no mesmo horário amanhã. Mas... – acrescentou, vendo os olhos da discípula brilharem de alívio. – Vou ficar de olho pra ver se você vai mesmo com a Tessa Kinney. Até amanhã meu anjo.

Sakura saiu da sala exausta e sem se despedir. Droga, agora teria que ir com Tess de verdade! A noite prometia ser um fiasco. Tess ía querer ficar fora até de madrugada. Ah, mas quando dessem dez horas Sakura já estaria em "casa" quer a colega de quarto fosse junto ou não. Além disso ía ficar sentada o tempo todo de preferência, sem dar um suspiro sequer. Não beberia, não falaria com ninguém, não tocaria em ninguém.

Ainda faltava um tempo pra precisar ir procurar Tess e informar sua "decisão". Por hora, só o que queria era ficar em paz. E conhecia o lugar perfeito para isso.


A Trinity Academy parecia realmente uma fortaleza impenetrável. Tinha sua grande área cercada por um muro de pedras acinzentadas que devia ter pelo menos uns quatro metros de altura. A estrada que levava a Londres saía da parte sul desse muro. Ficava bloqueada por um portão majestoso de metal brilhante que era diariamente aberto às 6h e fechado às 22h30. Fora desses horários, precisava-se de uma autorização especial da diretoria para atravessar, autorização essa que era raramente conseguida e que vinha acompanhada de uma cara assassina e reclamações de uma semana do zelador Ferrars, um homem velho e robusto de cabelos grisalhos, que chegavam a altura do pescoço, e grandes olhos azuis.

Cercando os muros do colégio havia uma floresta grande e sombria, que há muitos anos era conhecida como "Floresta do Silêncio". Pinheiros numerosos, de um verde muito escuro, pareciam competir para ver qual cresceria mais e chegaria primeiro ao céu. Os arbustos e a vegetação rasteira pareciam igualmente duelar para ver quem ocuparia a maior área, deixando pouco espaço para as pequenas e delicadas flores vermelhas e brancas que cresciam na primavera. Havia aqui e ali algumas poucas regiões onde a vegetação era mais escassa, como se alguém tivesse tentado fazer várias trilhas na floresta mas sucumbido à sua imensidão. Também havia um portão no muro de acesso a essa floresta, igualmente de metal, porém era muito menor e enferrujado, além de ficar permanentemente fechado. A justificativa era a de que os alunos não encontrariam nada de proveitoso sozinhos na floresta, e que poderiam se perder ou ser atacados por algum animal ou se machucar em uma pedra ou serem sequestrados por algum maníaco da floresta.

Quando Sakura passou a morar no colégio, Cornelius procurou de todas as maneiras limitar ao máximo seu tempo livre. Durante a semana ela passava a manhã e o começo da tarde nas aulas e esportes, treinava o restante da tarde com Cecília e depois das 17h tinha o tempo livre para fazer suas tarefas de escola ou algum trabalho de modelo, desde que fosse de pequeno alcance, nada muito chamativo. Aos sábados ela treinava natação uma boa parte da manhã, depois tinha o dia livre para fazer seus afazeres ou trabalhar, porém se Cornelius percebesse que Sakura estava com muito tempo ocioso a colocava para ajudar na cozinha, assim ela sempre procurava estar fora de vista. Aos domingos ela treinava o dia inteiro com Cecília, e era sempre liberada a noite com recomendações de ir direto para a cama.

Em um final de tarde de sábado, fazia pouco mais de cinco meses ano, Sakura havia acabado de chegar com Tess de sua primeira sessão de fotos. Sentia-se diferente, era como ser mais uma vez alvo das gravações de Tomoyo, mas sem Tomoyo e sem câmera de vídeo. Como sua mãe teria se sentido depois da primeira sessão de fotos? Feliz? Assustada? Atordoada? Começou a se sentir deprimida, e sem querer voltar para o quarto pois sabia que Cornelius a mandaria para a cozinha ajudar a lavar as enormes pilhas de louça, resolveu andar um pouco pela escola para encontrar um lugar onde pudesse ficar sozinha.

A chamada Charlton House, para onde Sakura estava se dirigindo, era uma espécie de casarão inglês, antigo e suntuoso, situado na parte norte do terreno da escola. Algumas poucas aulas, como História e Inglês, eram ministradas ali, pois como Cornelius dizia, "ajudava a criar um clima propício para o aprendizado de tais matérias". Por dentro, no salão principal, a maior parte de sua iluminação vinha das janelas e o restante de velas, por isso durante a noite era difícil distinguir sequer a própria mão ali dentro, o que mantinha os estudantes afastados fora do horário de suas respectivas aulas. Charlton possuía também vários quartos, sendo que a maioria não era usada. Porém os que eram, cerca de meia dúzia, estavam confortavelmente decorados, e tinham inclusive energia elétrica, sendo utilizados pelo diretor (quando este estava no colégio, o que por algum motivo era raro, e a própria Sakura nunca o havia visto), vice diretor (no caso Cornelius), a secretária Harriet Blanton (uma senhora que Sakura achava muito simpática), o inspetor geral Frost (que parecia tão assustador quanto a senhorita Blanton parecia simpática) e mais um que ficava a disposição de Cecília. Os outros funcionários moravam na cidade e chegavam todas as manhãs assim que o portão abria, com exceção do zelador Ferrars que vivia na pequena casinha próxima ao portão principal.

Sakura queria falar com Cecília. Quando não estavam treinando, a sensei era uma ótima ouvinte e conselheira. A garota acreditava que grande parte de sua melhora era devido a ela. Porém, como sabia que ela não estava no colégio, resolveu se esconder no quarto dela esperando que ela voltasse. Provavelmente estaria trancado, mas a própria Cecilia havia ensinado Sakura a abrir fechaduras, "só por garantia". Os quartos desocupados também seriam uma boa opção de esconderijo, mas a garota tinha medo do que poderia encontrar dentro deles. Após alguns minutos de caminhada, chegou às portas duplas de madeira que davam no salão mal iluminado e as empurrou. Ninguém estava ali, o que era comum. Nem Cornelius ficava muito por ali, só aparecia tarde da noite para dormir e no dia seguinte saía muito cedo para seu escritório, inclusive aos domingos. Era portanto o melhor lugar para se esconder do vice-diretor. Cecília também raramente estava no quarto, e aos sábados desaparecia o dia inteiro para algum lugar que não dizia qual era nem onde ficava.

A garota já tinha andado uns 5 metros em direção às escadas que levavam aos dormitórios quando ouviu um barulho de várias coisas despencando vindo do lado de fora do casarão, o que a fez dar um grito. Com medo de que pudesse ser um fantasma (embora Cecília já tivesse dito um milhão de vezes qua fantasmas não apareciam para as pessoas a não ser que tivessem um ótimo motivo), deciciu voltar para a luz do sol o mais depressa possível. Quando saiu pelas portas, olhou em volta para tentar ver o que tinha acontecido antes de começar a correr. O lado direito, onde ficava o caminho por onde tinha vindo, parecia tranquilo, deserto e normal, como sempre. No lado esquerdo estava o majestoso carvalho que Cornelius dissera ter mais de 1000 anos. Mais para trás do carvalho, nos fundos do pavilhão, havia algumas caixas de madeira e latas de metal caidas no chão. Aquele local era uma espécie de depósito oficial do colégio de coisas velhas não suficientemente lixo para serem jogadas de qualquer jeito no lixo.

- Ah, deve ter sido só o vento que derrubou as tralhas do Cornelius. Esse lugar precisa de uma faxina! – Sakura comentou para si mesma, mais para se livrar do medo. Repentinamente, a garota capturou pelo canto do olho o movimento de alguma coisa pequena próxima aos seus pés. Abaixou-se e se viu diante de uma das coisas mais estranhas que já havia presenciado.

Próxima aos seus pés, estava uma criaturinha que não era maior que sua mão fechada. De certa forma, assemelhava-se a um pequeno macaco, de pelo esverdeado, quase da cor das folhas do carvalho. Sua cauda era comprida e com um acúmulo de pelos no final que parecia uma pequena chama verde. Estava apoiado sobre seus dois pés que eram de uma tonalidade mais clara, a mesma cor de suas pequenas mãos e de sua barriga. No alto da cabeça tinha duas orelhas relativamente grandes em relação ao resto do corpo que em muito lembravam as de um gato. Não tinha nariz, mas sim dois orifícios pequenos, que deviam ser as narinas, acima da boca. Ao longo do queixo tinha outro acúmulo de pelo verde que lembrava uma barba. Seus olhos eram bem redondos e de um azul congelante, e possuíam uma expressão assustada.

- Então... – Sakura disse pensativa. – O que exatamente será que é você, pequenino?

Quando ela procurou se aproximar mais para ver melhor, a criatura saiu correndo, usando somente as perninhas e mancando, em direção às "tralhas de Cornelius". Percebendo que estava ferida, Sakura foi atrás, se metendo entre as caixas para procurar.

- Espera... Eu não vou te machucar. Eu só quero ajudar você... – dizia enquanto procurava. Encontrou a criatura atrás de uma lata enferrujada de tinta e a agarrou pela cauda. Imediatamente ela começou a emitir sons estranhos, que pareciam uma mistura de rato com macaco, e a se debater tentando se soltar. – Por favor, quieta, eu não vou te fazer mal. – A criatura pareceu se tranquilizar um pouco, e fez uma cara curiosa para Sakura. – Espera aí, você consegue me entender?

O ser verde repentinamente de soltou e voltou para o meio das caixas, correndo depois para um corredor atrás do pavilhão cuja existência Sakura nunca havia notado por estar encoberto pelas tralhas. A garota seguiu atrás e se viu em um corredor limitado de um dos lados pelo muro de pedras da escola e do outro pela parede externa de janelas fechadas do casarão. Só agora ela reparou como era estranho aquelas janelas estarem fechadas, uma vez que por dentro estavam lindamente cobertas pelas cortinas do salão. O chão estava quase totalmente tomado pela grama alta, como se ninguém tivesse ido ali em muito tempo. Sakura foi seguindo atrás da criatura voadora até que esta passou por cima de um portão de madeira velha. Tentou abrí-lo mas estava emperrado.

- Ah, você não vai fugir de mim. – a garota tirou sua chave do pescoço e depois de repetir as palavras que liberaram o báculo usou a carta SALTO para passar o portão. Quando aterrissou do outro lado, não acreditou no que seus olhos estavam vendo.

Sakura estava dentro de um lindo e pequeno bosque com várias árvores para todos os lados. Entre as árvores a garota viu dois caminhos de pedras claras que se juntavam. O bosque era limitado pelas mesmas paredes de pedra dos muros da escola, em algumas partes reforçadas por cercas vivas tão espessas que mesmo o cinza do muro havia se perdido. A um lado estava um laguinho de águas cristalinas e perto deste um balanço pendurado em uma árvore, e em outro estava uma pequena cabana de madeira de aparência gasta, para onde a criatura estava se dirigindo enquanto Sakura a seguia.

A cabana era simples. Havia uma varanda em todo o redor da construção. Tinha duas portas, uma na frente e outra nos fundos, e alguns pares de janelas. Por fora, parecia totalmente abandonada. Sakura se aproximou da porta, girou a maçaneta e esta se abriu, revelando o que deveria ter sido a sala/cozinha. Quase não tinha móveis, somente uma mesa, três cadeiras, um fogão a lenha muito velho e um armário igualmente gasto. Algumas prateleiras estavam penduradas pelas paredes. Do cômodo partiam duas portas, uma à direita e outra à esquerda. A da esquerda Sakura verificou ser um banheiro extremamente simples. A da direita levava a um pequeno quarto com somente uma cama de madeira sem colchão, um criado mudo e um guarda roupa.

- É mesmo só uma casa abandonada, nada de mais. – a garota disse. – É, eu acho que agora eu enlouqueci de vez. É melhor encontrar o Cornelius e me oferecer para lavar a louça.

Foi só quando Sakura estava quase saindo da sala que notou uma coisa estranha: havia uma mochila laranja embaixo de uma das cadeiras. E olhando melhor, havia flores frescas em um vasinho em cima da mesa.

- Mas espera aí... – parou a frase no meio ao perceber algo pontudo encostado em suas costas.

- Você tem dez segundos para dizer quem é vocè e o que está fazendo aqui. – disse uma voz masculina irritada por trás da garota.

- Quem sou eu? – Sakura disse chocada. – Quem é VOCÊ?

- Seis segundos agora...

- Eu sou... eu sou Alison Kinney. Eu...

- Sério? Parece que você não tem certeza. – agora a voz masculina aparentava também diversão.

- Sei exatamente quem eu sou. Sou uma estudante deste colégio. Se não acredita pode olhar minha carteirinha. Agora você pode por favor tirar seja lá o que estiver segurando das minhas costas?

Depois de um momento de hesitação, ele largou o que Sakura percebeu ser um galho. Ela virou-se lentamente e se viu diante de um garoto que devia ter mais ou menos a sua idade e aproximadamente a sua altura. Tinha cabelos loiros que caíam em ondas sobre a testa e olhos azuis de aparência cansada, da cor do céu em um dia de verão sem nuvens. Era magro mas sem parecer fraco. Seu nariz era reto e as maçãs do rosto eram altas. Usava uma camiseta de mangas compridas azul desbotada, calças pretas gastas e um par de tênis pretos velhos de uma marca cara e conhecida.

- Então? – ele disse, esperando.

- O quê? – Sakura perguntou, ainda olhando para os olhos dele.

- A carteirinha!

-Você acha mesmo que eu estou mentindo? – ela disse indignada. Então tirou a carteirinha do bolso e entregou a ele. – Está aqui, mas também vai ter que me falar quem é você e por que está na minha escola. E... – acrescentou, vendo a criatura esverdeada agarrada à manga da camiseta dele. – O que é isso aí? Que bicho estranho é esse?

- O que? – ele olhou para onde Sakura estava apontando. Sua voz agora aparentava nervosismo – Bicho? É só um chaveirinho de pelúcia. Não é...

- Não tente me enganar. Eu vi essa coisa correndo e pulando ali fora. E sei que não é nenhum animal, não tem nenhum animal normal assim. É uma criatura mágica não é?

- Eu não sei do que você está falando. – ele disse de modo defensivo.

- Ah, você sabe sim. Aliás, prestando atenção agora, eu consigo sentir seu poder mágico.

- Como você...? Não, claro que não é... Espera. Eu sabia que tinha sentido uma coisa diferente quando você se aproximou. Você também tem poderes mágicos, não é? Você também é uma bruxa.- agora ele parecia assustado.

- Bem, bruxa não é exatamente como eu me definiria... Mas então, quem é você? Eu já me apresentei.

- Por que quer saber?

- Por nada em especial, talvez porque é educado perguntar o nome das pessoas quando você as conhece. – ela disse irônica.

- Eu dispenso sua educação. Agora porque você não sair daqui, por favor? – ele parecia irritado de novo.

- Por quê? É você que está na minha escola, se alguém tem que sair é você. Então me diga logo quem é você e o que você está fazendo aqui. Ou eu posso chamar um inspetor se você preferir. – ela sorria ao dizer a última frase.

- O quê? NÂO! – ele gritava agora. - Vá embora daqui e esqueça que me viu. Não me obrigue a usar magia em você.

- Você poderia TENTAR usar magia em mim, mas duvido que conseguiria me afetar. – Sakura falou enquanto aumentava seu poder mágico. – Ou você fala, ou eu derrubo você e levo pro inspetor.

O garoto se assustou com a dimensão dos poderes de Sakura. Seu nível de magia era um dos maiores que já havia sentido, mesmo entre os bruxos mais experientes. Ele próprio também era muito poderoso por causa de sua descendência, mas nunca tinha colocado muito empenho em aprender a usar sua magia. Pensou em correr, mas teve certeza que ela o alcançaria antes que pudesse fugir, e mesmo que ele por um milagre conseguisse, ela ainda tinha sua descrição física para entregá-lo a diretoria. Dessa forma, se deu por vencido.

- Meu nome é Trevor Kieran Maloney. Eu estudo nessa escola também. Também tenho uma carteirinha se você quiser ver. Esta é a Quimera. – ele disse, apontando para o ser verde. - Eu a chamo de Quinn. Ela é uma... não sei, nunca pensei muito sobre isso. Por favor, não conte pra ninguém que me viu aqui, eles não me deixariam mais voltar.

- O que é aqui exatamente?

- Meu último refúgio nesse lugar corrompido. – Trevor disse aparentando remorso. Percebendo que ele não queria entrar em detalhes, ela mudou de assunto.

- Entãaao... Se você é aluno daqui, como é que eu nunca te vi pela escola?

- Eu faço o tipo invisível. E eu também não me lembro exatamente de você.

- Eu tento ser invisível. Parece que estou fazendo um bom trabalho. – ele não riu da piada. – Há quanto tempo você estuda na Trinity?

- Com certeza mais que a maioria dos outros alunos. Aposto que mais que você, srta. Kinney.

- Me chama de Sakura. – ela disse, pensando que tinha saudade das pessoas lhe chamando assim. – Você não tem ideia do quanto eu prefiro que me chame assim.

- Ok, Sakura, a feiticeira da Trinity Academy. Nome legal.

- Hum... ela fala? – Sakura disse enquanto passava a mão na cabeça de Quinn. A pequena criatura pareceu assustada a princípio, mas logo soltou um barulho que lembrava um pouco um ronrono.

- Quem fala? Quinn? Não, por que falaria?

- Por nada. – ainda não era hora de falar sobre Kero. - E a sua família?

Os olhos azuis de Trevor se tornaram sombrios antes de responder:

- Não sei. Quem se importa? No norte talvez, ou na Irlanda, nunca se sabe. E a sua?

- Ah... os meus pais morreram em um acidente de carro há algum tempo. Minha mãe era japonesa e meu pai inglês, ele era irmão do vice diretor do colégio. Antes do acidente eu morava em uma fazenda no interior do Japão e...

- Nossa, que discurso mais ensaiado. Só pra você saber, eu percebi cada vez que você mentiu pra mim desde que começamos a falar. Não se espante, eu sou bom nisso. Mas tudo bem, se você precisa mentir até sobre isso eu não vou te forçar a nada. – ele a olhou de forma desconfiada. – Sobrinha do Cornelius Kinney, hein? Sei... Bem, você então não vai me entregar mesmo, né?

- Se esse lugar é tão importante pra você, e você diz que vão te proibir de vir se souberem, quem sou eu pra tirar coisas importantes das pessoas? – os olhos verdes se abriram interrogativamente. – Mas ninguém nunca vem aqui?

- Além de mim? Não... O diretor proibiu o acesso a esse... digamos jardim há muito tempo. Tempo demais pra eu poder aguentar.

Conforme foram conversando, Sakura não conseguiu descobrir muita coisa, pois Trevor era muito calmo e reservado. Descobriu porém que ele tinha a mesma idade que ela, que gostava de cozinhar e que tinha um irmão menor. Em troca só conseguiu arrancar de Sakura a história que Cornelius inventara e poucos detalhes de sua vida escolar.

A partir desse dia passaram a ser cada vez mais amigos, porém não publicamente. Por algum motivo, Trevor não queria que ninguém pensasse que ele e Sakura eram mais do que conhecidos, apesar de ele ser um solitário assim como Sakura era antes de começar a andar com Tess. Encontravam-se então na cabana onde conversavam, se ajudavam nas lições, perguntavam coisas um sobre a vida do outro, que nem sempre eram respondidas. E seguiam suas vidas. Para não levantar suspeitas entre sua família fictícia quando desaparecia por algum tempo, ela dizia que estava lendo um livro no jardim ou fazendo alguma tarefa.

- Boa tarde, Trev. Foi bom o seu dia hoje? – Sakura entrou na cabana mas logo se distraiu com um cheiro delicioso que vinha do forno antigo. – Minha nossa, esse é o cheiro mais delicioso que eu já senti em toda a minha vida.

- Oi, Sakura. Preparei uma coisa pra gente hoje no velho forno. Incrível que ele ainda funcione depois de tanto tempo. – ele disse para si mesmo. - Só espero que a fumaça não chame muito a atenção.

- Não se preocupe com isso, já já vai escurecer e ninguém vai reparar em nada. Além disso, eu acho que 95% dos alunos dessa escola não olham pra mais nada além de seus espelhos.

- Olha, talvez você não seja uma negação completa em matemática afinal. Você sabe até calcular porcentagem. – Trevor disse, olhando fixamente para Sakura com os seus olhos azuis calorosos.

- Há há, muito engraçadinho. Que estranho, quando eu te conheci pensei que você não tinha nenhum senso de humor. Só depois percebi o quão enganada eu estava. – ela parou de falar e notou que ele continuava olhando pra ela do mesmo jeito havia algum tempo. – O que foi? Algo errado comigo? Quer dizer, além do normal?

- Não! – ele finalmente desviou o olhar. - Não tem nada de errado com você... – Trevor então se encaminhou para o forno e tirou algo de dentro. – Estão prontos. Só precisa esfriar um pouco.

Os dois jovens conversaram então sobre seus respectivos feitos do dia. Sakura já tinha suficiente confiança em Trevor pra ter lhe contado sobre Cecilia e os treinos e que estava ali porque aparentemente precisava ser protegida de alguma coisa. Também já tinha lhe contado sobre Tomoyo e um pouco sobre sua vida no Japão. Afinal, durante algum tempo ele foi o único amigo que ela tinha. Mas não lhe disse nada sobre Shoran. Nem sobre o que tinha feito antes de deixar o Japão. Nem entrou em muitos detalhes sobre sua verdadeira família.

Por outro lado, Trevor quase nunca falava sobre ele mesmo, e ela achou uma boa hora para perguntar.

- Então Trev, onde você nasceu? – Sakura percebeu que ele estava um pouco desconfortável e acrescentou. – Nós somos amigos... aliás, de um jeito estranho você se tornou meu melhor amigo. Eu só quero te conhecer melhor.

- Melhor amigo, é? – ele se tornou pensativo e olhava através de uma das janelas quando disse. – Ok então. Depois de tanto tempo, acho que você merece saber. Eu nasci na Irlanda. Morei lá com minha mãe até ter uns 9 ou 10 anos, em uma pequena aldeia. Eu gostava de lá. Era tudo tão bonito. Os campos se estendiam verdes, as vezes cheios de flores, até se perder de vista. A água do lago era azul bem clara. As pessoas eram simpáticas e agradáveis. Morávamos numa casinha perto da padaria que era da minha mãe. Eu trabalhava lá com ela. Foi com ela que eu aprendi a cozinhar. – ele sorria enquanto contava essa parte, ainda olhando pela janela. - Minha mãe era a melhor cozinheira do mundo todo. Posso te garantir, eu comi em muitos outros lugares depois, restaurantes caros e chiques, e ninguém se comparava a ela. E foi ela que me deu a Quimera. Disse que era pra me fazer companhia no futuro. Mas bem, continuando... – ele limpou a garganta. – Tudo estava bem até que meu pai apareceu e me levou embora. Simples assim. Eu ainda lembro da minha mãe chorando quando isso aconteceu, mas não fez nada pra impedir. Não sei se havia algo que ela pudesse fazer. Então ele me levou pra casa dele, pra viver com a família dele, minha querida madrasta megera e o filho deles, um bebê ainda pequeno. Tinha outras pessoas morando na casa também. Meu pai tentou me educar pra... não importa. A questão é que ele chamou tutores, professores, qualquer um que pudesse me moldar do jeito que ele queria. Mas eu não facilitei as coisas pra eles. Até fugi algumas vezes. Não gostava de nada, eu só queria voltar pra minha mãe. Pensando bem, eu até gostava do meu irmão. Ele era especial. Minha madrasta Cassandra não gostava que eu ficasse muito perto dele porque ela tinha ódio de mim. Ela me batia sempre que tinha oportunidade, por qualquer coisa que eu fizesse. Se eu me atrasasse 1 segundinho sequer para o almoço ela me batia. Se eu mexesse em algo da casa ela me batia. Se eu sorrisse demais ela dizia que eu estava rindo dela e me batia. No começo eu chorava muito, mas depois me acostumei e não derramava mais nenhuma lágrima. Isso só parecia enfurecê-la mais. Ela dizia que olhar para mim a deixava com nojo. Até que um dia, não muito tempo depois, meu pai se cansou da situação e me mandou pra cá. Ele disse que afinal tanto fazia se eu era educado em casa ou em uma instituição de respeito, com profissionais qualificados para me "ajudar" com minha rebeldia. Acho que foi Cassandra que colocou essa ideia na cabeça dele. E cá estou eu.

Por algum tempo, Sakura não sabia o que dizer. Quase se arrependeu de ter pedido detalhes da vida de Trevor. Devia ser muito doloroso rememorar tudo aquilo, mesmo que agora o rosto dele aparentasse indiferença.

- Eu sinto muito Trev, eu não queria...

- Está tudo bem, você não precisa ficar com pena de mim. Afinal, foi exatamente para evitar a sua pena que eu não quis te contar antes. Eu nem me importo mais.

- E... você nunca mais viu a sua mãe depois que o seu pai te levou?

- Vi sim... – ele olhou para Sakura e sorriu. – Eu vi ela algumas vezes depois. Mas isso já faz muito tempo. Tempo demais para eu poder aguentar. – então se levantou para pegar a forma sobre a mesa. – Acho que os biscoitos já estão bons para comer. Pega aqui.

- Trevor Maloney, quer casar comigo? – Sakura disse enquanto mordia outro pedaço do biscoito. – Essa é a coisa mais deliciosa que eu já comi. Quero comer isso todos os dias pelo resto da minha vida. Por favor, aceite meu pedido e cozinhe sempre para mim.

Trevor somente riu e ficou pensando no quanto sua vida parecia cada dia mais complicada.

- Ah, espera um pouco, Trevor. Você quase me distraiu com seus biscoitinhos. Como você tem poderes mágicos? – Sakura perguntou, estreitando os olhos.

- E eu pensando que ía te fazer esquecer de tudo que não fosse seu amor incondicional pela minha culinária. – ele sorriu. – Meu pai é um bruxo.

- Ah, tá. E a sua mãe?

- Não, ela não. Pelo menos, ela nunca insinuou que tinha poderes ou os usou perto de mim. Mas sempre deixou claro quem e o que eu era. Sempre. Eu querendo ouvir ou não. – por fim ele olhou para Sakura e abriu um sorriso contagiante. – Quer mais biscoitos?


Mais tarde, Sakura chegou ao seu quarto no dormitório feminino e encontrou Tess já se arrumando, usando um vestido preto brilhante, sem mangas e colado ao corpo, que ía até o meio da coxa. Soltou um suspiro pensando em como tinha se metido nessa confusão e começou:

- Oi, Tess, eu...

- Oh, aí está você. Já separei um vestido que vai te cair incrivelmente bem e vou inclusive fazer sua maquiagem. Se arruma logo, vai ser incrível.

- Espera, eu disse a você que eu não iria, como você sabia que eu iria?

- Pressentimento, Alison, pressentimento. – ela disse enquanto passava blush rosado, se admirando no espelho da penteadeira. Percebendo que Sakura não se mexia, Tess se virou para a amiga. – Olha, Sakura... – Tess só a chamava de Sakura quando estava se sentindo realmente culpada. - ... me desculpa pelo que eu disse mais cedo. Eu sou meio impulsiva às vezes, você sabe, e sou nova nesse negócio de ter uma amiga, mas isso não é desculpa para o que eu fiz. Eu prometo que nunca mais vou fazer isso de novo. – mas vendo a cara irônica da amiga. – Ok, eu prometo que vou TENTAR nunca mais fazer isso de novo, tudo bem?

- Tá tudo bem, Tess. Eu já devia ter superado isso mesmo, no fundo não foi culpa sua. Não se preocupe. Eu te desculpo sim. – Sakura disse com um rosto compreensivo.

- Ótimo. – agora Tess estava sorrindo. – Se vista logo ou eu visto você. Rápido. E chegou um pacote pra você, eu acho que é do Japão, mas não prestei muito atenção. Tá na sua cama. Mas abra depois que se arrumar.

Algum tempo depois, Sakura estava pronta, usando um vestido branco tomara-que-caia, curto, com um cinto dourado. O cabelo caía completamente solto pelas costas. A maquiagem era rosa e delicada.

- Me sinto ridícula! – Sakura bufou.

- Por quê? Você está ótima. Não tanto quanto eu é claro, porque isso é impossível, mas mesmo assim ótima. E não pense que eu não sei que você veste coisas muito piores quando você vai fazer algum "trabalhinho" pra Cecilia e pro meu pai.

- Talvez, mas nessas ocasiões eu estou disfarçada, então não sou eu realmente.

- É claro que é você. Se você sabe que quem está ali é você, então logicamente é você mesmo você não querendo admitir que é você... se é que isso faz algum sentido.

- Mas pensar que não sou eu me ajuda a aceitar melhor o que eu preciso fazer. Eu ainda não sei o porquê de eles me mandarem fazer isso, sempre que eu pergunto eles me dizem que é pelo bem das pessoas, tanto aquelas com quanto sem magia, e também de outras criaturas, e que logo eles me explicam tudo. Ai, eu odeio todos esses segredos. Você sabe de alguma coisa? – Sakura perguntou.

- Eu? – a amiga respondeu nervosa. – Nãaaao, porque eu saberia de alguma coisa?

- Tess, eu acho que você está mentindo pra mim!

- É claro que não estou. – e mudando de assunto. – Você já tomou seus remédios? Olha que o velho fica bravo quando você não toma.

- Eu odeio tomar aquelas coisas. Eu já me sinto melhor, será que eu preciso mesmo daquilo?

- Sakura, você mesma ouviu o médico, você sabe que... AAAAAAAAAAAAAAAAHHH!

- O que foi, Tess? – Sakura perguntou, sustentando a amiga que estava pálida e parecia estar a ponto de desmaiar.

- A caixa... a caixa está se mexendo... a caixa...

- Que caixa? Espera aí... – Sakura olhou para a própria cama e percebeu que o tal pacote que havia chegado do Japão estava pulando e flutuando sobre a cama.

A garota então apoiou Tess sobre uma cadeira e foi andando em direção a caixa. Pegou ela no ar e viu que era de Tomoyo. Começou a abrir a caixa, mas quando já tinha aberto a tampa até a metade, algo amarelo, pequeno e alado saltou sobre a garota e disse com sua voz familiar.

- Oi, Sakuraaaa. Que falta que eu senti de você! Você sentiu a minha falta também?


Surpresa, surpresa. Eh, capítulo três terminado. E aí, estão gostando? Fiquei feliz pelas reviews que recebi até agora. Foram poucas mas tudo bem. Vocês vão me mandar mais reviews na próxima, certo? Não se esqueçam de checar uma novidade que eu coloquei no meu perfil. Até breve.