2. Brados e Desabafos.
Um zumbido. Era a trilha sonora de sua vida, ou do fim da mesma; ele não fazia a mínima ideia. De início, tudo em sua mente e à sua volta era completamente negro. Da cor do esquecimento. Da cor obscura que retrata a morte com grande fidelidade ao contrário das outras.
Aos poucos, era como se a sua visão deturpada se acostumasse com o local. Não mais tinha à sua frente um mundo negro, e sim, uma planície que se estendia infinitamente para todos os lados. A plantação rasteira era amarelada, como o solo da savana. O céu emitia uma mescla de cores em laranja, azul e violeta; não sabia identificar se era pôr do sol ou nascer do sol.
Uma brisa refrescante brincava com seus cabelos e roupas.
Que lugar é esse? Perguntava a si, olhando em volta. Estranhou não estar sentindo dor. Baixou o olhar para sua própria silhueta e constatou estar completamente são. Que. Lugar. É. Esse. Estava incrédulo.
Ergueu o olhar mais uma vez e se deparou com uma cena surpreendente.
Contemplava, vindo da linha do horizonte, três formas humanas que corriam alegremente pela vegetação amarelada da planície. Aos poucos, passavam mais próximos de onde ele observava tudo, estático. Seu queixo parecera cair ao dar-se conta de quem eram aqueles três.
Nada mais eram do que ele, quando era pequeno, e seus pais.
Lembrava-se perfeitamente daquele dia; era seu primeiro dia na escola, na primeira série. Corria alegre em direção aos portões do colégio, com um sorriso empolgado de orelha a orelha na face, seguido de perto pelos seus pais, que eram bastante jovens. Logo, logo, ele iria acabar...
Naquele mesmo momento! A versão criança do garoto pareceu tropeçar em algum lugar e se estatelar no chão com bastante força. Logo seu choro escandaloso podia ser ouvido por toda a planície, enquanto seus pais o erguiam e mimavam para que ele parasse com o berreiro.
E ele, no presente, assistia à cena com um sorriso terno em seus lábios.
Mais uma cena se formara depois daquela. Agora ele via a si mesmo, em algo como cinco anos antes. Estava com doze, carregando uma menina com feições idênticas às suas em seus braços; sua irmã mais nova. Dessa vez, as duas ilusões à sua frente o encararam. Sua versão jovem parecia olhar-se no espelho. A sua irmã, sorria e acenava para ele.
O choque emocional que aquela simples cena causara sobre ele fazia seu coração bater descompassado. Arfou por um curto instante, e sentia lágrimas teimando em preencher seus olhos puxados.
Sentiu algo quente segurar sua mão.
Deparou-se com a sua irmã, com seis anos de idade; sua idade atual. Estava ali, assim como ele, mas parecia não prestar atenção em nada que não fosse seu irmão. Ela sorriu de maneira infantil e doce – Maninho, é hora de voltar pra casa! – exclamou animada, caminhando para qualquer direção e puxando a mão dele.
No seguinte momento, logo após piscar, o garoto encarava no lugar de uma planície um teto branco de um quarto de hospital.
Arregalou os olhos, atônito, e lembrando-se de tudo que provavelmente estava sonhando. Ouvia bips do aparelho que registrava sua frequência cardíaca soarem com menos tempo de intervalo entre eles; seu coração acelerou significativamente.
Mais uma vez olhava para diferentes pontos no teto, tentando comparar o recinto com algum lugar que já estivera antes. Todavia, não reconhecera. Até porque nunca havia precisado ser internado em um hospital por algum motivo.
Afinal, o que ele estava fazendo ali mesmo?
- Já agitado? Está muito cedo ainda para isso, Kim Kibum! – um médico de cabelos pretos, já com alguma idade, aproximara-se dele sorrindo – Como está se sentindo?
O médico se aproximara e começava a ajudar Kibum a sentar na cama. O garoto havia praticamente esquecido da possibilidade de sentir uma dor terrível ao fazer tal movimento, o que lhe fez arrancar um gemido rouco e dolorido.
Tendo o enfermo devidamente sentado na cama, o médico se afastou, puxando um banco para o lado do leito de Kibum, que apenas observava seus movimentos em um silêncio profundo e permanente.
- Tudo bem com você, garoto? – o médico segurava uma prancheta.
Kibum parecia estranhar toda e qualquer coisa à sua volta; aquele médico não era o jovem com cabelos castanhos e bagunçados que havia lhe ajudado na madrugada anterior. Não sabia em que lugar estava direito. Na verdade, sequer sabia se a madrugada fria ainda havia sido a anterior...
- Que dia é hoje? – sua voz saía baixa e rouca, mas pela primeira vez, saía.
O médico sorriu com a pergunta – 27 de Agosto. – respondeu, observando as anotações já feitas anteriormente na prancheta – Você ficou inconsciente aqui durante um pouco mais de quarenta e oito horas.
Continuava lendo a prancheta, e Kibum jurava ter visto sua expressão se fechar por um momento. Mas aquilo não lhe fez tanta diferença.
Olhava para o resto do quarto, que era apenas composto por uma alta estante branca. E a janela, com uma cortina branca fechada de forma a não entrar tanta luz. Constatou-se sozinho.
- Onde foi parar a minha família? – perguntou com a mesma voz carregada, baixa e rouca.
O silêncio era mais do que simplesmente um silêncio.
O médico ficava sem fala, com uma expressão de pesar que lhe dizia mais do que com as verdadeiras palavras. Não.
Mirou as próprias mãos, que apertavam o lençol que cobria seu corpo com força descomunal. Não. Essa pequena palavra se repetia milhares de vezes em sua mente. Não. Não... Não! Tremia, o corpo inteiro tremia.
Kibum sentia-se sem chão. – Doutor... – murmurou pausadamente – A minha... Irmã... Também...?
- Não. Ela está na emergência, seu estado é muito grave. – o alívio que tomou conta de Kibum o fez esquecer boa parte da dor. Mas ainda doía, ainda era horrível. Ainda era como uma facada mortal em seu coração sofrido.
- Preciso vê-la. – disse decidido, já tirando o lençol que o revestia, e erguendo-se com alguma dificuldade da cama. Mas não era como se a dor lhe importasse tanto quanto antes. Ele parecia anestesiado.
Ou simplesmente ter algo mais importante do que aquela maldita dor causada pelos ferimentos em seu corpo.
Quando já estava de pé ao lado da cama, o médico o segurou – Desculpe, meu caro – falou com as mãos sobre seus ombros magros – Eu sei que você...
- Você não sabe de merda nenhuma. – Kibum rosnou. Desvencilhara-se das mãos do médico com uma expressão quase psicótica em sua face. O empurrou para cima do próprio leito. – Saia da minha frente.
Correu ignorando as feridas que se abriam em seu ventre, a toda velocidade, para fora do quarto. Só tinha uma coisa em mente: ver a sua irmã. Poder ter a certeza de que a única coisa que lhe restava naquele mundo traiçoeiro estava bem. Poder ver mais uma vez a face da criatura que mais amava no mundo.
O médico ergueu-se da cama, chocado com a mudança brusca de comportamento de Kibum. Levantou e rapidamente fora até a estante branca na parede oposta à janela no quarto. Pegou o pequeno interfone branco e discou pela recepção – Chamem aquele garoto. Preciso de ajuda para conter o Kibum! – falou rapidamente. Parou para ouvir o que a mulher do outro lado da linha lhe dizia – Ele fugiu e está indo para a emergência.
Kibum não sabia por quanto tempo correra e deixara em choque funcionários e pacientes do hospital, ou quantas escadas subia e descia, ou o quanto seu ferimento aberto sangrava e doía novamente, ou quantas pessoas estavam lhe perseguindo para levá-lo de volta ao quarto à força. Não havia mais noção de nada; apenas corria, como um lunático.
Finalmente chegava a um setor restrito do hospital. Uma placa na porta deixava bem claro que era o lugar que o garoto estava procurando há um bom tempo.
Escancarou a porta e correu pelos corredores, que tinham vitrines para salas cheias de aparelhos complexos e pacientes em todo o tipo de estado aparentemente grave. Olhava apressado para o rosto de cada paciente esperando encontrar sua irmã.
- Sooyoung... – murmurava ofegante – Onde... Soo... Onde está você...?
Era incrível o fato de sua mente se desligar por completo a respeito do próprio estado de seu corpo quando o assunto era aquela irmã. Ele amava aquela menina, Sooyoung. Era onze anos mais nova do que ele mesmo, sendo sempre mimada e protegida por Kibum. Todavia, naquele momento o mais velho não sabia onde estava a menina.
Durante o decorrer do acidente, tentara arrancar o cinto de segurança pelo ato reflexo que teve em protegê-la. Mas não havia conseguido.
Agora Kibum sentia-se o pior irmão do mundo. Falhara em proteger Sooyoung, e sequer conseguia encontrá-la no interior do mesmo hospital onde ele estava.
Grande irmão, eu sou. Pensou, arfando enquanto continuava vasculhando pelos corredores daquela ala do hospital. Até que uma hora parou de súbito.
Aquelas feições...
- SOOYOUNG! – o grito dado por Kibum era quase gutural. Correra a toda velocidade em direção à porta da sala da irmã, mas não estava aberta. Alguns médicos o encaravam com espanto do interior da sala. – SOOYOUNG, ME ESCUTE!
Parou de encontro à vitrine da sala dela e observava seu rosto adormecido sobre a cama. Ela mesma era tão parecida com ele... Mas, na opinião do outro, era mais bonita. Era a mais bela criança entre as colegas do jardim de infância. A mais gentil, a mais fofa, a mais digna.
Para ele, a irmã sempre seria a maior e melhor do mundo.
Mas, naquele momento, ele via a melhor irmã do mundo inconsciente na cama de um hospital, com curativos em todos os cantos de seu corpo, médicos a monitorando a todo o momento, a face coberta de marcas e hematomas.
Colou o rosto contra o vidro, vendo sua respiração embaçando o mesmo. – SOOYOUNG! – a força de sua voz parecia se esvair a cada momento. Soava rouca, fraca, no limite marcado por uma fina linha entre a razão e o completo desespero.
Sentiu uma pontada forte, quase insuportável, uma dor insana em todo o seu abdome. Começou a perder o ar; o ferimento completamente aberto fazia escorrer sangue por toda a região do seu ventre há muito tempo, mas a movimentação e a preocupação pareciam tê-lo feito alheio a todo o resto.
Agora, ali, parado diante da irmã, percebera quão sozinho estava. Nunca mais veria seus pais. Aquele ser que padecia sobre a cama em estado grave era a única coisa que lhe restava.
Ela não podia morrer.
Ele não podia deixá-la morrer.
Foi perdendo as forças, sendo tomado pela dor. Viu-se obrigado a ficar de costas para se apoiar na vitrine, curvando o corpo, soltando um gemido carregado de dor. As lágrimas voltavam a escorrer livremente pela face, mas dessa vez elas tinham motivos muito mais definidos e complexos do que o estado de choque.
A força de suas pernas se esvaía, seu corpo ia escorregando devagar até ele estar sentado no chão. Estava zonzo; perdera mais sangue naquela corrida do que no próprio acidente. Doía, tudo lhe doía. Seus pais haviam morrido, sua irmã nada conseguiria lhe dizer ou fazer a ele e ainda havia feito a estupidez de fugir de todos os médicos para ir até lá, e parecia que ninguém se dava conta de que havia alguém a padecer estirado ao chão frio da emergência...
Sua visão ia ficando turva, pelas lágrimas e pela tontura que lhe dominava...
Começava a soluçar. Sentia-se um nada. Sentia-se sozinho, sentia dor, sentia raiva, sentia mais dor.
- POR QUE TUDO ISSO ACONTECEU?! – gritou às paredes, as únicas telespectadoras de sua deplorável cena. – POR QUE COMIGO? POR QUE COM ELES? POR QUE COM A MINHA IRMÃ? – o ar parecia faltar-lhe a seus pulmões – MERDA! POR QUÊ?!
Parou para respirar fundo, mas o choro pesado não lhe permitia. Fechou os olhos para o mundo, mas não conseguia bloquear sua consciência para aquela dor abstrata que consumia seu ser.
- Precisamos de ajuda aqui – escutou uma voz feminina gritando perto de si.
- KIBUM! – o garoto escutara outra voz, dessa vez familiar, chamando por ele mesmo. Ouviu passos tão apressados quanto os seus próprios, dados minutos antes. Sentiu alguém se ajoelhando diante de si e segurando seu rosto – Ei... Levante!
Sentia as vestes leves do hospital sendo arrancadas de seu corpo e estancando algum ponto de seu abdome extremamente dolorido. Abriu os olhos fracamente depois de um tempo; de nada adiantava, seu rosto não conseguia ver através das lágrimas que não paravam de descer pelo rosto, até mesmo pelo pescoço...
A respiração não se acalmava...
- Kibum! – o garoto desesperado sentia mãos sacudindo levemente seus ombros, mas aquilo não o ajudaria a se acalmar. A voz conhecida continuou lhe chamando – Se acalme... Kibum, você precisa voltar para seu quarto, vai ficar tudo bem.
- Não vai – Kibum respondeu entre soluços. A voz soava extremamente baixa, embargada, rouca. – É impossível.
- Ei... Olhe para mim. – o médico chamou baixinho.
Kibum piscou várias vezes, fazendo sua visão se endireitar e as lágrimas irem embora. Mas os soluços permaneceram. A dor também. Encarou o par de olhos puxados e castanhos que pareciam em um misto de tristeza extrema com... Segurança. Passavam-lhe segurança.
Ele não sabia que força sobrenatural o levara a agir daquela forma, mas o médico – o mesmo que havia lhe salvado na noite anterior – lhe passava segurança. Era o único que parecia fazer aquilo durante aqueles tempos conturbados.
O que levou o jovem desesperado a jogar-se contra o corpo do médico em um abraço apertado. O outro não o afastou, sequer pensou nisso. Apenas envolveu seus braços em volta do corpo ferido de Kibum. Era tudo o que o outro precisava naquele momento; ele bem sabia disso.
O garoto continuou a chorar como uma criança, da mesma maneira. Mas agora se sentia uma criança que tinha aonde se abrigar.
