3. "Não faça nenhuma besteira, Rony"

Aquele era um momento estranho, Rony pensou. Estar junto de toda a sua família e de seus amigos não parecia verdade. Porque ele não se lembrava mais como era isso. Não se lembrava da sensação.

Na sua outra vida, ele não tinha mais contato com quase ninguém, e honestamente, não fazia questão. Não depois da briga com seu pai e da hostilidade do resto da sua família. É claro que ele havia contribuido pra isso, ele sabia. Não era o filho ou o irmão ou o amigo mais presente na sua outra realidade. E ele achou que poderia viver assim. Depois de um tempo, passou a quase não sentir falta das pessoas com quem estava acostumado a conviver. Na sua outra realidade, Rony achou que elas não cabiam na vida que ele levava. Mas agora, estando ali, almoçando com eles, conversando, ele não sabia exatamente como se sentia. Mas sabia que era uma sensação nova.

_ A comida tá tão ruim assim, Rony?_ uma voz perguntou. Rony que encarava seu prato, levantou a cabeça para dar de cara com Gina, que o olhava com uma expressão falsamente ofendida. Ele notou que todos na mesa, olhavam pra ele.

_ Está tudo ótimo_ ele respondeu, tentando sorrir, mas só conseguia pensar naquela sensação estranha que ele não conseguia identificar ainda.

_ É por isso, que você quase não comeu nada?_ sua irmã continuou em tom de riso. Rony observou que todos os adultos já haviam acabado suas refeições, e que agora conversavam. Ele era o único com comida no prato.

_ Só não estou com muita fome_ e aquilo não era mentira.

_ Você? Sem fome?_ Jorge zombou.

_ Filho, você está se sentindo bem?_ O Sr Weasley perguntou, de uma das pontas da mesa.

Rony passou os olhos pelas pessoas sentadas naquela mesa enorme posta no quintal de Harry e Gina. Todos o encaravam, até mesmo as crianças o olhavam com curiosidade.

_ Er... eu preciso ir ao banheiro_ ele disse repentinamente. Se levantou rápido e fez o caminho para dentro da casa.

Antes de entrar na casa, Rony pôde ouvir Harry perguntar a Hermione o que estava errado com ele, mas ele não ouviu a resposta. Talvez, porque já estivesse distante demais para ouvir, talvez, porque Hermione não soubesse o que dizer. Provavelmente, era essa última.

Ele caminhou pela casa, procurando onde deveria ser o banheiro, até chegar num corredor com algumas portas. Encontrou o banheiro na segunda a sua direita.

Assim que se trancou lá dentro, Rony se encostou a porta e fechou os olhos, respirando fundo. Aquele era só o primeiro dia naquela nova realidade, e ele já se sentia cansado. Eram informações demais. Novidades demais, e pra completar, aquela sensação estranha o dominou durante todo o almoço, o impedindo de comer normalmente e de participar das conversas à mesa.

Ele tentava, mas não conseguia assimilar o que era aquilo. Mas estava ciente de que não era algo que ele já havia sentido antes.

Suspirando, ele abriu os olhos e caminhou até a pia. Abriu a torneira e levou as mãos cheias de água até o rosto. Depois de um tempo, ele apenas ficou encarando o seu reflexo no espelho. Se perguntou quantos anos ele tinha naquela realidade, há quanto tempo estava casado com Hermione. Se dando conta de que não ia descobrir apenas se encarando no espelho, enxugou o rosto numa toalha pendurada próxima a ele, e saiu do banheiro. Não disfarçou o susto ao ver uma pessoa encostada na parede oposta do corredor.

Era a tal Grace Collins. Ela estava de braços cruzados, com o olhar no chão, mas imediatamente quando ele abriu a porta do banheiro, seu olhos se levantaram até encontrar os olhos azuis dele, e ela sorriu quando o viu.

_ Oi_ ela disse sorrindo.

_ Oi_ Rony respondeu um pouco surpreso. Mas ele se deu conta de que Grace, provavelmente queria

usar o banheiro também.

_ Eu tive que inventar uma desculpa pra sair da mesa_ Grace falou com um risinho. Ela se afastou da parede.

Rony franziu a testa, não entendendo o que ela queria dizer.

_ Hum... Por quê?

_ Porque senão todo mundo vai perceber, seu bobo_ ela respondeu com um risinho. Então se aproximou mais ainda. Automaticamente, Rony deu um passo pra trás. Mas então percebeu que seu espaço era limitado. Ele se encostou desconfortavelmente na porta do banheiro.

_ Perceber o quê?_ perguntou, confuso.

Ela apenas sorriu e chegou mais perto. Logo, eles estavam a poucos centímetros.

_ Você é tão bobo_ Grace falou.

_ É melhor eu voltar pra lá_ Rony se assustou com a proximidade. Ele fez menção de sair, mas Grace imediatamente, espalmou as mãos em seu tórax. Ele deu uma risada nervosa.

_ Por que a pressa?_ ela perguntou, lhe lançando um olhar sedutor. Então ela começou a acariciar o peito dele com as mãos.

Rony sentiu seu rosto esquentar na mesma hora. Mas o que era isso?

_ O que você tá fazendo?_ ele perguntou completamente surpreso. A segurou pelos pulsos e a afastou com delicadeza.

_ Qual é o problema?_ Grace perguntou, parecendo confusa.

_ Alguém pode chegar_ ele falou, na falta de coisa melhor. Não era normal a maneira íntima com a qual Grace estava agindo com ele.

_ Ninguém vai chegar_ ela disse_ Estão todos ocupados demais conversando...

_ De qualquer forma, você não deve fazer isso_ Rony continuou. Ele passou as mãos nos cabelos.

_ Por que está agindo assim? Você não precisa disfarçar, não tem ninguém aqui, Rony_ Grace explicou e parecia ofendida com a atitude dele. Ela cruzou os braços.

Disfarçar? Do que ela estava falando? Será que ele...?

Rony arregalou os olhos, quando parou pra pensar. Será que ele tinha alguma coisa com aquela mulher? Pela maneira como ela estava agindo, parecia que sim. Droga!

Ele a observou, enquanto ela fazia beicinho. Grace era uma mulher realmente bonita. Era do tipo difícil de resistir. Com certeza, seu outro eu, na outra realidade, não perderia tempo. Ele já havia levado mulheres para a cama por muito menos. Mas naquela realidade louca, ele era casado, ele tinha filhos. Então, ele simplesmente não poderia sair por aí agarrando as mulheres que se jogassem em cima dele, por mais difícil que fosse de resistir.

_ Então qual é o problema?_ ela perguntou.

_ Isso... Isso não é certo_ Rony argumentou_ Eu sou casado.

_ Você não pareceu se preocupar com isso semana passada_ Grace rebateu com um sorriso malicioso.

_ Semana passada?

_ O quê? Vai dizer que esqueceu?_ ela pareceu indignada.

Rony balançou a cabeça, nervoso. Se ele achava que estava tendo algum tipo de caso com ela, agora, ele tinha certeza. Aparentemente, semana passada, eles tinham dormido juntos.

Grace então se aproximou mais uma vez. E antes que Rony pudesse assimilar que era um canalha, ela estava agarrada a ele, tentando beijá-lo.

_ Você quer parar com isso_ ele pediu, tentando afastá-la. Dessa vez, ele não foi delicado.

_ Não, eu sei que você gosta de mim.

_ Além de vadia, é surda_ uma voz soou no corredor, e Grace imediatamente o soltou. Ambos olharam assustados para a figura alta de Angelina, os encarando_ Você não o ouviu dizer pra você parar?

Os olhos escuros dela, estavam brilhando e encaravam Grace com desprezo.

_ Isso não é da sua conta_ Grace murmurou. Rony percebeu que ela tentou soar confiante, mas ela estava meio encolhida contra a parede e evitava olhar Angelina nos olhos.

_ Você está enganada, é da minha conta sim.

Angelina então suspirou e cruzou os braços.

_ Qual é o seu problema com os homens dessa família?_ ela perguntou ácidamente_ Ou melhor, qual é o seu problema com os homens comprometidos dessa família?

_ Você nunca vai superar isso, não é?_ Grace perguntou a Angelina, ela tinha um leve sorriso de escárnio no rosto. Rony se perguntou do que ela estava falando.

A expressão de Angelina não mudou em nada. Ela continuava olhando pra Grace com o mesmo desprezo de antes. Mas, então ela se aproximou. Grace se encolheu mais ainda contra a parede, como se tivesse medo que Angelina fosse bater nela. Por um instante, Rony pensou que ela realmente fosse fazer isso, mas ao invés, ela apenas deu uma gargalhada de deboche.

_ Você é tão patética, Grace, que chega a dar pena. Meu Deus, eu olho pra você e eu penso "ela realmente deve estar necessitada de um homem, por isso fica se atirando em cima de qualquer ser do sexo masculino que encontra"_ Angelina disse com sarcasmo. Então continuou_ Mas você não acha que está na hora de ser mais original? Que tal um homem livre, pra variar? E que de preferência, não seja dessa família. Ou melhor, por que você não começa a agir como uma mulher decente?

Rony encarou Angelina. Ele nunca a havia visto falando assim com ninguém, pelo menos, não na sua outra vida. Ela sempre teve uma personalidade forte, mas nunca chegou ao extremo. Pelo jeito, não era só Hermione que não gostava de Grace Collins, e pelo que ele via, Angelina tinha motivos concretos pra isso. Pelo que Rony entendeu, Grace, aparentemente, já havia dado em cima de Jorge. Esse era o único motivo pra Angelina acusá-la de querer homens comprometidos. Bom, foi isso que ele entendeu.

_ Você não pode falar assim comigo_ Grace disse. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

_ Eu falo com você do jeito que você merece. Não vai me dizer que agora você quer respeito também? Chega até a ser engraçado. Uma cachorra como você querendo respeito.

_ Angelina..._ Rony se pronunciou pela primeira vez, achando que talvez, sua cunhada estivesse se exaltando demais.

Angelina apenas lhe lançou um olhar cortante que foi o suficiente pra fazê-lo calar a boca.

_ Sabe, você devia ter vergonha_ ela disse, se voltando novamente pra Grace, que definitivamente estava chorando agora_ A Gina é sua amiga, ela trouxe você pra dentro da casa dela, ela confia em você... Se ela soubesse o que você fez...

Rony observou a cunhada. A expressão de desprezo foi tomada instantaneamente por uma de dor. Ela respirou fundo, e então seu rosto voltou a máscara de antes.

_ Você não vai contar a ela, vai?_ Grace pareceu momentaneamente desesperada. O que raios, ela havia feito? Rony pensou. Será que o lance com Jorge foi mais sério do que ele pensava?

_ Eu deveria, mas não vou_ Angelina falou_ Não é por você, obviamente. Por mim, você poderia cair de um prédio de trinta andares. Mas seria muito decepcionante pra ela, saber o tipo de mulher que você é.

Grace desviou o olhar. Rony pôde ver como ela parecia ferida com as palavras de Angelina. Ela, obviamente merecia ouvi-las, e sabia disso, já que não fez esforço pra se defender. Será que ele estava mesmo tendo um caso com ela?

_ Acho melhor você ir, Grace_ Rony disse, suspirando. Que droga de situação.

A jovem olhou dele pra Angelina e depois pra ele de novo. Ela então enxugou as lágrimas com as costas das mãos, abaixou um pouco a cabeça e caminhou pelo corredor, e depois sumiu na entrada que levava a sala. Logo só restavam Rony e Angelina.

Sem dizer nada, Angelina entrou numa das portas à esquerda. Respirando fundo, Rony a seguiu. Tinha que conversar com ela, fazê-la entender, que se ele tinha alguma coisa com Grace, ele estava arrependido agora. Não podia se dar ao risco de Hermione saber. Já tinha problemas demais na cabeça.

Assim que passou pela porta, ele se deparou com um ambiente cor-de-rosa. Era um quarto de bebê. Tinha um monte de bichos de pelúcia arrumados numa estante que ocupava a maior parte de uma das paredes. Tinha uma poltrona branca num canto. E no meio do quarto, um berço enorme. Angelina estava parada de frente para o berço, de costas pra Rony. Ele se aproximou.

Havia três bebê dentro do berço e os três cabiam perfeitamente ali dentro, já que era tão grande. Rony pensou que, provavelmente, fora aumentado por meio de magia.

Ele então reconheceu um dos bebês como sendo seu filho, Hugo. Com certeza, o seu pai deve tê-lo deixado no quarto antes do almoço. Os outros dois, ele não conhecia, mas não era difícil imaginar quem eram e de quais dos seus irmãos eram filhos, ou melhor, filhas. Eram duas meninas, uma estava de rosa, e tinha olhos castanhos e alguns poucos cabelos ruivos. Só podia ser filha de Harry e Gina, pelo menos os olhos eram iguais aos de sua irmã. A outra usava um macacão amarelo, e Rony tinha certeza que era filha de Angelina e Jorge, simplesmente porque era um bebê com uma pele num tom de marrom bem claro, assim como Alex, o outro filho deles, que Rony conheceu na mesa do almoço. Eram duas crianças muito bonitas. Sem perceber, ele sorriu, enquanto admirava os três bebês. A filhinha de Harry, que era a única que estava acordada, sorriu de volta pra ele.

Ficou ali pensando que ele, Harry e Jorge, tiveram seus filhos na mesma época. Deve ter sido interessante, Hermione, Gina e Angelina, grávidas ao mesmo tempo. Ele sorriu de novo.

_ Por que está sorrindo?_ Angelina lhe perguntou. Ele piscou algumas vezes, se dando conta de que provavelmente, estava parecendo um bobo. Então, apenas deu de ombros.

_ Esses bebês são lindos_ ele disse sem pensar.

_ Seu pai vive dizendo que os filhos dele, fizeram lindas crianças.

Ele não disse nada, apenas continuou olhando para os bebês. Na sua outra vida, ele não pensara muito em ser pai, pelo menos, não era um projeto para um futuro próximo. Ele sempre se via curtinho a vida, e depois, bem depois, construindo uma família. E, mesmo quando ele pensava a respeito, era sempre de uma maneira superficial. E agora, nessa nova realidade, ele não só estava casado, como tinha dois filhos, que ele tinha que ressaltar que eram crianças lindas. Ah, e ele aparentemente, tinha uma amante também.

_ Não faça nenhuma besteira, Rony_ Angelina disse de repente e ele se voltou pra ela, confuso.

_ Do que você está...

_ Daquela vadia, é claro. De quem mais eu poderia estar falando?_ Angelina o interrompeu. Imediatamente seu sorriso deu lugar a expressão de desprezo de antes.

_ Angelina, eu...

_ Eu não sei o que está acontecendo entre você e aquela cachorra. E eu não vou tirar conclusões precipitadas, apesar de ser óbvio que ela só se atiraria daquele jeito em cima de você, se você tivesse dado corda. Mas, enfim, você a estava rejeitando e isso, com certeza, conta pontos a seu favor.

_ Obrigado!_ Rony disse meio sem jeito. Ele nem sabia exatamente o que dizer.

_ Pelo quê? Eu não estou te elogiando, estou sendo lógica_ ela balançou a cabeça.

Rony deu um pequeno sorriso sem graça. Então depois de uma longa pausa, Angelina, disse:

_ Além de Jorge, ninguém sabe o que aconteceu entre Fred e eu... Digo, o motivo pelo qual terminamos...

Ela respirou fundo e também desviou o olhar. Agora seus olhos escuros estavam fixados na sua filha adormecida no berço. Rony não entendeu porque ela estava dizendo aquilo, ainda mais pra ele.

_ Eu amava o Fred, eu achei que íamos nos casar. Nós namoramos durante tanto tempo que eu achei que aquilo era permanente, que seria aquele tipo de relacionamento pra sempre_ ela deu um sorriso triste_ Eu pensei que fôssemos perfeitos uma para o outro. É claro, que eu estava enganada. Aparentemente, Fred nunca compartilhou do mesmo pensamento.

_ Por que está me dizendo isso, Angelina?_ Rony perguntou confuso. Ela estava obviamente desabafando com ele, mas ele não entendia o motivo e nem o que isso teria a ver com a o que ele poderia estar tendo com Grace.

_ Porque eu preciso que você saiba a razão de Fred e eu termos terminado_ Angelina então virou seu rosto pra ele, o encarando. Rony se assustou ao ver os olhos dela brilhando de lágrimas.

_ Angelina...

_ Ele me traiu_ Angelina disse baixinho. Então fechou os olhos._ Ele me traiu com aquela Grace, eu os peguei juntos.

_ O quê?_ Rony exclamou. Ele não podia acreditar que Fred fora capaz de algo assim. No final das contas, não havia sido com Jorge que Grace Collins teve um caso.

_ É claro que depois disso, eu não poderia ficar com ele, eu nem sequer conseguia olhar pra ele_ ela então fechou os olhos, como se tentasse conter as lágrimas. Rony a admirou, porque ela realmente conseguiu_ Bom, ele tentou reatar algumas vezes, me pediu perdão, mas eu não consegui... Não consegui perdoá-lo... Foi um período difícil. Eu não consegui lidar bem com a situação, sabe? Eu estava tão magoada, tão ferida e com tanta raiva, que... Que um dia, eu fui até o apartamento da Grace e dei um soco nela. Não foi um tapa, foi um soco mesmo_ então, ela deu um pequeno sorriso como se a lembrança a fizesse bem. Rony, no entanto, estava de olhos arregalados_ Admito que perdi o controle, mas não me arrependo. Ela ficou com um belo olho roxo.

_ Eu sempre te achei durona, mas não consigo te imaginar batendo em alguém_ Rony falou. Estava genuinamente impressionado. Agora ele entendia porque Grace parecia ter tanto medo de Angelina.

_ Bom, quando a situação exige...

_ E o que aconteceu depois?

_ Jorge me ajudou bastante. Ele criticou a atitude de Fred, é claro. Eu nunca poderia esperar nada diferente dele. Então ele ficou ao meu lado e não ao lado do irmão... Fred queria que Jorge me convencesse a voltar pra ele, mas Jorge não fez isso. Ele entendia perfeitamente a situação e nunca tentou me reconciliar com Fred. Isso estremeceu a relação deles. À medida que Jorge e eu nos aproximávamos, eles dois foram se afastando.

Rony nunca imaginou Fred e Jorge brigados um com o outro. Aquilo sempre pareceu impossível para ele. Os gêmeos sempre foram como uma unidade. Então, Rony parou pra pensar que desde que chegara na casa de Gina, não viu os gêmeos perto um do outro, nem conversando, nem nada. À princípio, ele não se deu conta, mas agora, ouvindo Angelina, tudo ficou claro.

_ Então quando Jorge e eu começamos a sair, eles se afastaram de vez. O que só piorou quando nos casamos. Eu me sinto culpada, às vezes. Independente do que Fred fez, eu nunca quis roubar o Jorge dele, se é que pode-se dizer assim... As coisas apenas aconteceram. Fred nunca aceitou nosso relacionamento. Ele nunca entendeu... De certa forma, acho que ele se sentiu traído.

_ Como se ele pudesse reclamar, não é?_ Rony bufou_ Foi ele que agiu como um idiota.

_ Ele acha que pedir perdão resolve tudo. Mas não resolve. Nunca vai resolver.

Rony a observou bem. O tempo todo enquanto ela lhe contava aquilo, Angelina parecia terrivelmente triste. Em alguns momentos, Rony chegou a achar que ela fosse se derramar em lágrimas. Bom, ela não o fez, mas muitas vezes, pareceu perigosamente perto. Rony refletiu que o assunto Fred, não era algo superado pra ela. Não ainda, pelo menos.

_ Você disse que ninguém da família sabe o motivo do fim do namoro de vocês...

_ Se Fred não falou, Jorge e eu é que não íamos falar, não é? Eu sei que seus pais ficariam extremamente decepcionados com Fred e não quero isso...

_ Como todo mundo reagiu quando soube de você e Jorge?

_ Até parece que você não sabe_ ela disse, o encarando com a testa franzida_ Você estava lá quando nós anunciamos que estávamos juntos, você sabe...

_ É claro_ Rony sorriu sem graça.

_ Bom, você sabe que todo mundo ficou de boca aberta, inclusive você. Ninguém sabia se nos apoiava ou se apoiavam o Fred, que estava irado. No fim, todo mundo chegou a conclusão de que a única coisa que poderiam fazer, era aceitar mesmo.

_ Eu... Eu quero te perguntar uma coisa, mas não sei se devo.

_ Pode perguntar. Não acho que eu tenha mais nada pra esconder_ ela deu um sorriso forçado_ Você já sabe o principal.

_ Bom, é que..._ Rony pigarreou. Aquilo era constrangedor, mas não tinha jeito melhor de fazer, do que ir direto ao ponto_ Você ainda sente alguma coisa pelo Fred? Quero dizer, você ainda o ama?

Houve uma pausa, na qual Rony encarava Angelina, e ela olhava fixamente para a filha. Então ela se voltou pra ele.

_ Se eu disser a você que Fred é assunto superado na minha vida, eu vou estar mentindo_ admitiu_ A verdade é que eu sinto como se algo entre nós não estivesse resolvido completamente. Quer dizer, quando terminamos, nós não conversamos, eu mais gritei e xinguei ele, do que qualquer outra coisa. Nós nunca conversamos à respeito... Nós não conseguimos. Eu não consegui.

_ Isso ainda não responde a minha pergunta_ Rony a interrompeu calmamente. Ela pareceu momentaneamente atordoada.

_ Eu... Eu amo o Jorge, Rony. Ele me deu Alex e Roxanne. Ele me deu tudo. Por causa dele, eu voltei a sorrir, e eu amei de novo. E eu estava tão ferida, que não achei que isso seria possível. Mas graças ao Jorge, eu sou feliz. Então, não. Eu não amo o Fred. Não mais.

_ Mas você disse que não o superou.

_ Eu não superei o que ele fez comigo. É diferente.

_ Então talvez esteja na hora de você ter aquela conversa com ele. Aquela que você não conseguiu ter_ Rony falou e colocou a mão no ombro dela.

_ Quem diria que um dia você estaria aconselhando alguém_ ela disse com uma expressão surpresa. Rony sorriu. Nenhum dos dois disse nada por um tempo. E, Rony percebendo que Angelina não parecia disposta a continuar falando do "assunto Fred", resolveu que era a hora de perguntar, de tirar a dúvida.

_ Hum... Bom, Angelina, ainda não entendi porque você me contou tudo isso_ Rony comentou. Ele viu Angelina o olhar como se uma segunda cabeça estivesse brotando do pescoço dele.

_ Rony, ouviu o que eu disse?_ ela lhe perguntou, piscando várias vezes_ Você realmente ouviu cada palavra do que eu te contei?

_ É claro que sim.

_ Então você deveria ter entendido_ Angelina então balançou a cabeça. Ela respirou fundo, mas dessa vez não parecia que ela estava se esforçando pra conter alguma coisa, mas sim pra ter mais paciência_ Rony, eu não te contei tudo isso, porque queria desabafar com você. Acredite, se eu quisesse isso, com certeza, você não seria a pessoa escolhida. O que eu estou tentando te dizer, é que Fred e eu éramos felizes. Nós tínhamos algo bom juntos. Algo bom que foi destruído porque Fred não conseguiu manter as calças fechadas_ ela rosnou_ Grace Collins se meteu entre nós, e a verdade, é que ela nunca mais saiu. Não deixe que ela faça o mesmo com você e Hermione. Não deixe que ela se meta entre vocês.

_ Eu... Eu não sei o que dizer_ É claro que Rony não sabia. Se ele realmente tinha um caso com Grace, era algo de que ele não estava ciente até minutos atrás.

_ Eu tenho visto como o casamento de vocês é estável, como vocês sempre parecem tão apaixonados. Eu tenho visto isso nos últimos sete anos, Rony. Eu detestaria ver uma atração estúpida estragar isso. Eu sei que Grace Collins é bonita, não sou idiota de dizer que ela não é, mas não se deixe levar por isso. Eu não sei se está havendo alguma coisa entre vocês, mas se não estiver, pense bem antes de fazer a mesma burrada que Fred. Ao menos, Fred e eu não éramos casados, mas com você e Hermione, o dano com certeza, será maior. Mais doloroso. E vocês são felizes. Têm dois filhos_ nesse momento, ela encarou o rostinho adormecido de Hugo_ Então não estrague isso, Rony. Não faça nenhuma besteira.

_ Você está certa_ Não importava mais o que ele tinha com Grace. A única certeza de Rony, é que aquilo não poderia continuar. Embora, ele não se sentisse casado com Hermione, nem pai de Rose e Hugo, porque tudo aquilo era novo demais, ele não seria um canalha. Rony não sabia quanto tempo ficaria nessa realidade, mas ele não queria magoar ninguém enquanto estivesse ali.

_ Só quero poupar vocês de um sofrimento desnecessário.

_ Hermione não parece gostar da Grace. Você sabe o motivo?_ ele perguntou, se lembrando da maneira que Hermione olhou pra Grace antes do almoço. Se perguntou se ela desconfiava de alguma coisa.

_ Acho que Hermione apenas não confia nela_ Angelina disse, pensativa, então ela balançou a cabeça como se tentasse afastar o que quer que estivesse pensando_ Bom, acho melhor voltarmos pro quintal. Afinal, essa sua ida ao banheiro foi bem longa, hein_ sorriu.

_ É verdade_ Rony concordou, imaginando que as pessoas na mesa iriam estranhar sua ausência. E a de Angelina também, já que eles estavam ali conversando há bastante tempo.

Angelina então se inclinou para a o berço, e deu um beijo na testa de cada bebê. Hugo e Roxanne ainda dormiam tranquilamente e a filhinha de Harry, estava quase pegando no sono.

_ Certo, vamos!_ ela caminhou para fora do quarto, com Rony em seus calcanhares.

Ele ia pensando que como se já não bastasse estar numa realidade alternativa, que nada tinha a ver com a sua, ele ainda tinha que conviver com os erros que seu eu cometia nesse mundo. E ainda, que na verdade, ele não tivesse feito nada de ruim_ porque até algumas horas atrás, ele ainda estava na sua vida antiga_, Rony não conseguia deixar de sentir culpado.

Seu eu na nova realidade, aparentemente, havia feito escolhas duvidosas. A começar por se casar tão jovem. Afinal, Angelina tinha dito que ele e Hermione estavam juntos há sete anos. Então fazendo as contas, ele estava com vinte seis anos nessa realidade. Ele tinha só dezenove quando fora para a Nova Zelândia. Mas nessa vida, ele não fora embora, ele estava lá sendo pai de família. Mas a pior de suas escolhas, com certeza, não era essa. Ter uma amante, superava tudo. Que idiota!

Agora, a única coisa na qual conseguia pensar, era em resolver as coisas com Grace o mais rápido possível. Bufando, Rony chegou a conclusão de que Dumbledore, o havia medito numa tremenda de uma roubada.


_ Ai, até que enfim Rose dormiu_ Hermione ia dizendo, enquanto entrava no quarto e fechava a porta.

Rony estava sentado na cama, de pijama, e completamente desconfortável. Depois da conversa com Angelina, ele não conseguia parar de pensar que nessa vida, ele era responsável por mais três pessoas. Agora, ele tinha uma família. E seus pensamentos à respeito se tornaram mais ferozes, depois que ele e sua família chegaram em casa. E agora com Hermione ali, de camisola, depois de ter colocado Hugo e Rose pra dormir, ele se sentia completamente perdido.

_ Foi um dia cansativo hoje, não?_ Ela comentou enquanto se enfiava debaixo do lençol e se aconchegava no peito de Rony o abraçando. Ele gelou.

_ Pois é_ respondeu com a voz meio embolada. Estava nervoso, mas principalmente, se sentia ridículo por reagir daquela maneira com a proximidade de Hermione. Se sentir intimidado assim por uma mulher, não era normal pra ele.

_ Hum, todo mundo te achou meio estranho hoje_ Hermione disse de repente.

_ Só não dormi bem a noite passada_ Rony tentou manter a voz neutra.

_ Coitadinho_ ela sorriu, então levantou a cabeça e deu um rápido beijo nos lábios dele. Logo voltou pra posição de antes, com a cabeça deitada no peito dele.

Rony não teve nenhuma reação. Primeiro, porque ele não esperava. E segundo, porque ele não entendeu aquela sensação repentina no estômago. Devia ser a surpresa.

_ Pronto pra amanhã?

Ele piscou algumas vezes, sem entender. Então ele se lembrou. O acampamento de pais e filhos de que Harry tinha falado.

_ Aham. Que dia é amanhã?_ ele perguntou tentando soar casual.

_ Domingo, ué. É o que vem depois de sábado_ Hermione riu, então ela levantou a cabeça pra ele, o encarando_ Meu amor, você bateu a cabeça recentemente?.

_ Não, eu estou bem. Por que você acha que eu bati a cabeça?

_ Sua memória não parece estar muito boa hoje. Hoje de manhã você agiu como se não me visse há anos, aliás, você pareceu assim com todo mundo. Como se não se lembrasse...

_ Talvez eu só esteja um pouco confuso. Como disse não dormi bem...

_ Será que foi alguma coisa durante o sono? Acha que deveria ir ao médico?_ Hermione o perguntou. Parecia assustada.

_ Não, amanhã eu vou estar melhor, Hermione_ Rony achava que dificilmente um médico poderia ajudá-lo_ Sério.

_ Ok_ ela concordou, mas Rony sentiu o corpo dela ficar tenso.

_ Eu estou cansado. Vamos dormir?

Hermione concordou com a cabeça. Rony se mexeu de modo a se acomodar melhor na cama. Hermione se afastou um pouco e ele achou que ela fosse apenas se ajeitar ao seu lado, mas assim que ele estava completamente deitado, Hermione se encaixou novamente em seu peito, o abraçando. Rony tentou controlar aquela sensação no estômago, que parecia ter voltado. Ele então envolveu o braço ao redor do ombro dela.

_ Boa noite_ ele falou baixo.

_ Boa noite, amor.

E tudo foi silêncio. Algum tempo depois, Rony pôde ouvir a respiração calma de Hermione e teve certeza de que ela havia adormecido. Hermione era uma boa mulher, Rony pensou. E parecia ser completamente apaixonada por ele. Então ele lembrou daquele dia em sua outra vida... O dia em que ele havia ido embora. Realmente se ele tivesse ficado, essa seria sua vida? Ele teria se casado com Hermione e teriam filhos? Seu relacionamento com seu pai e com os demais membros da família seria bom como parecia nessa vida?

Inconscientemente, ele acariciou os cabelos de Hermione. Aquilo era tão estranho. Estar casado, ter uma família. Ser alguém que ele não imaginava que seria tão cedo.

Já fazia quase um dia naquela realidade e ele sentia uma saudade terrível de sua outra vida. De Meg. Sua vida em que sua única preocupação era o time, e mais nada. Onde ele tinha as festas de David pra ir, e podia sair com quantas mulheres quisesse. Sem preocupações, sem responsabilidades. Onde tudo era mais fácil. Onde ele não tinha esposa, nem filhos, muito menos amante.


N/A: Bom, primeiro quero dizer que essa fic não será atualizada com a mesma rapidez que "De volta ao seu coração", simplesmente porque "Escolhas" ainda não está pronta. Então eu peço um pouco de paciência a quem estiver acompanhando. Mas vou tentar postar um capítulo por semana. *-*

N/A 2: Vamos as reviews. Vane Black, será que meu filme daria lucro? (rsrsrsrsrs). Obrigada pela review, amiga. Sany Evans, fico feliz em saber que depois de tanto tempos sem comentar numa fic de HP, tenha escolhido a minha pra isso. Muita obrigada, Sany. Bela Black Weasley, que bom que você continua gostando das minhas fics (^^). Obrigada, Bela.

E só lembrando mais uma vez, que eu não estou seguindo a cronologia de HP, ok?

Até a próxima!

Bjks!