22 De Setembro de 2013
Descobri.
É estranho começar uma entrada de um diário assim; mas quero exibir a alguém como posso ser humana.
Depois de chegar a casa ontem; fui para o quarto para brincar um bocadinho.
Mexi na boneca, vesti-a, despi-a, penteei-a e fingi que a levava a dar um passeio. Gostei muito porque nunca tinham brincado com bonecas antes. Eram 6h da tarde quando senti cansaço, mais uma prova de que sou humana.
Arrumei os vestidos da boneca num móvel pequenino e pousei-a em cima da cama.
Peguei no pijama e fui tomar banho para ir jantar (a hora de deitar é algo absolutamente incontestável).
Fui jantar à sala e voltei para o quarto.
Comecei a ler um livro e embrenhei-me na leitura.
Ouvi alguém a bater à porta da frente com bastante força e senti um cheiro estranho. Cheirava a cão molhado (animal que detesto) mas também a terra húmida, a árvores e a hortelã (a minha especiaria preferida). Era um cheiro estranho que me parecia que já tinha sentido, mas não me parecia possível.
Quis levantar-me mas estava muito cansada e ouvi a porta a abrir-se.
Acabei por pousar o livro e agarrar-me à boneca.
Dormi durante algum tempo quando ouvi a voz da minha mãe:
-Tens a certeza que não queres dormir? Passas-te a noite inteira a correr – o tom da sua voz surpreendeu-me; era calmo e protector.
-Sim Jacob – continuou o meu pai – vai deitar-te.
-Não é necessário – afirmou uma voz grossa e rouca – a minha resistência é muito boa.
-Não te sintas ofendido – retorquiu o meu pai – só te queremos ajudar. Tu e a tua alcateia têm prestado um serviço inestimável à nossa família.
Alcateia?
-A vida de Renesme só existe graças a ti – continuou a minha mãe – Agradeço-te do fundo do coração.
-Não agradeças Bells – disse a voz doce – faria exactamente o mesmo por qualquer filho teu. Não só pela Nessie.
Bells?
Nessie?
Que sabia aquele desconhecido?
-Cumpro apenas o meu dever – continuou – Temos de controlar o Branner; a alcateia também depende disso.
-Agradecemos-te na mesma. Sabes que não te podemos dar o que queres em troca – disse o meu pai.
-Não importa. Tenho de ir andando.
-Vai. Amo-te Jacob – disse a minha mãe.
-Sabes que te amo Bells – replicou ele.
-Sei. Vai.
Amo-te?
E o meu pai nem rosnou?
Já não ouvi mais nada.
Aquilo deixou-me completamente abismada; por um lado agradava-me; por outro fazia-me sentir tanta raiva que quase ficava inconsciente.
Tenho de admitir que os modos de Jacob me agradaram; gostei da forma carinhosa como disse "Nessie" que prefiro a "Renesme". Na verdade, gostei bastante de Jacob.
Por outro lado, achava incrível que o meu pai não desse a Jacob o que é que quer que ele quisesse.
Tentei dormir mas não estava a conseguir com tanta informação na cabeça. Finalmente decidi o que fazer: ia falar com Jacob.
Vesti-me rapidamente tentando não fazer barulho. Abri um dos armários e agradeci secretamente a Jasper a mochila de campismo resistente e enorme que me dera e que eu conseguira esconder de Alice. Abri-a e verifiquei que estava preparada com tudo aquilo que eu costumo utilizar quando vou para o bosque recolher amostras de plantas. Retirei tudo aquilo de que não precisava como frascos e pinças e coloquei-os numa prateleira vazia. Agarrei numa camisola grossa e numas calças e pu-las também na mochila. Guardei mais água e arrumei melhor as bolachas e as latas de comida de campismo. Vesti o casaco, verifiquei que tinha o cabelo apanhado em tranças e pus a mochila às costas. Por fim, agarrei na camisola que Alice me obrigara a experimentar e a tirar naquela manhã e deixei-a debaixo da almofada para ter a certeza que o cheiro permanecia no quarto.
Acocorei-me na janela e saltei.
Embora fosse filha de Bella, não havia dúvida que os meus saltos eram graciosos e faziam-me sentir livre, com o vento a bater na cara, como se não existisse mais nada, não havia perigo nem dor: só ar e liberdade. Eram sensações fantásticas; uma mudança agradável: uma curta pausa na dor constante que me aterrorizava e que me fazia acordar a meio da noite a soluçar, uma liberdade que só quando saltava podia sentir, o nada que me rodeava.
Aterrei levemente à beira do lago próximo da nossa casa. O cheiro doce de Jacob permanecia entranhado nas árvores e comecei a andar calmamente na direcção que ele me levava. Senti que não era preciso correr, que ele estava à minha espera, que ele sabia que eu iria e estava disposto a esperar por mim.
Só tarde demais é que me apercebi para onde me estava a dirigir, sentia-me tão leve e livre que não reparei e estanquei em frente a uma casinha com porta de madeira completamente aterrorizada.
Lembrei-me de uma música que tinha ouvido, lembrei-me como a personagem principal estava triste quando a cantou e só e vinha uma pequena parte da música à memória:
Too many years
Fighting back tears
Why can't the past
Just die?
Sim, eu estava a lutar contra a dor e contra as lágrimas há demasiados anos, há demasiados anos para valer a pena ficar à porta quando podia descobrir a verdade, há demasiados anos para conseguir parar a escassos passos de clarificar o passado e o presente.
Engoli as lágrimas que ameaçavam começar a cair dos olhos e entrei.
A casa parecia vazia mas eu sabia para onde me devia dirigir.
Estanquei novamente à porta do meu quarto, era ali que eu dormia em bebé, quando ainda era demasiado cedo para que eu pudesse sentir infelicidade:
Try to forgive!
Teach me to live!
Give me the strength
To try!
Gritei à minha mente em desespero, tentando não chorar.
Avancei a tremer.
Quando acalmei olhei em volta: o meu velho berço estava a um canto e a minha cama estava no sítio do costume. A minha aparelhagem estava perto da estante dos CD's. Nada alterado, tudo onde costumava estar. Nada estava mudado e ninguém estava ali para mim, Jacob era um sonho. Um sonho demasiado bom, um sonho que tinha acabado e que me tinha feito acordar bruscamente.
Quis atirar-me para cima da cama e chorar. Pensei em cair no chão e adormecer para sempre para acabar com a dor.
Na realidade, acabei por arranjar força para me aguentar nas pernas e olhei novamente em volta, agora com mais calma, com mais desânimo e sem esperança, apenas para confirmar que fora tudo um sonho, uma miragem, uma prova em como estava a enlouquecer de dor.
Aquilo que vi animou-me, não estava tudo exactamente igual. Andei em volta para sentir o que via: o cheiro do berço era diferente e a colcha tinha marca de mãos, como se alguém a tivesse acariciado; a aparelhagem estava ligada e o CD não era aquele que eu lá tinha deixado. Olhei para a capa, que ironia: o CD era o CD do musical do Fantasma da Ópera e estava parado na música de que eu me estava a lembrar quando eu entrei em casa. Wishing you were somehow here again. Sim, eu desejava que Jacob estivesse ali outra vez, de alguma maneira. E...ele estava. Não percebi como mas estava realmente ali. De pé contra a janela aberta, com os cortinados compridos a esvoaçarem em torno do seu corpo.
Eu sabia que aquela criatura enorme e maravilhosa encostada à janela do quarto em que eu já não entrava há imenso tempo era Jacob.
-Olá Nessie.
A voz dele foi um choque para mim: era doce e carinhosa; a voz de Jacob era quente, profunda e rouca.
Acho que a surpresa foi tão grande que abri a boca de espanto: Jacob era lindo. Tinha uma maravilhosa pele vermelha, um cabelo castanho forte e comprido e imensos músculos. A voz dele correspondia à pessoa que ele era, pelo menos correspondia à sua aparência: demasiado bonita para ser real.
-No more memories
No more silent tears!
No more gazing across
The wasted years!
Help me say
Goodbye.
Cantou ele com calma.
-Acabou Nessie, já podes saber tudo o que queres por mim.
-Quero saber tudo. Tudo – disse com voz abafada, quase a chorar.
-És ambiciosa. Senta-te e pergunta o que quiseres.
Sentei-me na cama e esperei que a primeira pergunta que eu ia fazer não fosse demasiado grosseira:
-O que és tu? – perguntei.
Jacob riu-se discretamente.
-És mais directa que a tua mãe – riu-se novamente como se se lembrasse de algum momento - Sou um lobisomem. Transformo-me em lobo quando quero e quando me enervo.
-Desculpa a pergunta, mas nunca conheci ninguém assim.
-Conheceste. Quando eras bebé eu e os outros defendemos-te. Já estiveste nas minhas costas, pronta para partir e fugir dos Volturi.
-Quem são os outros?
-Os outros lobisomens. Pertencem à minha alcateia alguns deles, os outros são da alcateia de Sam.
-Porque é que estás aqui? Não quero ser indelicada, mas é estranho estares aqui quando os meus pais te ofereceram lugar na outra casa. Ainda bem que estás aqui, mas porquê?
-Porque ontem foi o teu aniversário. Eu sabia que te sentias infeliz e que querias perceber muita coisa que os teus pais não te dizem. Vim para aqui para te dar a minha prenda directamente e para poder conversar contigo, em vez de entregar a prenda aos teus pais.
-Amigo de família? És tu aquele amigo que me tem dado pingentes para a minha pulseira todos os anos? És tu a pessoa que me deu a pulseira?
-Amigo de família? – resmungou – Já tinha ouvido muita coisa, mas amigo de família acho que é a primeira vez – depois continuou com um tom de voz mais alto – Sim, sou eu. Este ano vou dar-te a prenda final, mas não sei se tu a aceitas.
-Aceito, não me interessa o que é.
-O que te vou oferecer não é só um pingente, é um compromisso.
-O quê?
-Por vezes, entre os lobisomens da nossa espécie, existe a impressão: ficamos apaixonados por um ser que não é lobisomem. É um amor muito forte, impossível de quebrar. O normal é as pessoas por quem nos apaixonamos também se apaixonarem por nós, mas pode não acontecer, essa pessoa não é nossa e não podemos fazer nada.
-E tu? Tiveste a impressão pela minha mãe?
-Pela Bells? Não, é claro que não. Gostei da tua mãe e ainda gosto muito dela, mas a minha impressão não é por ela. É por ti. Todos os anos, desde que nasceste, dou-te um pingente para essa pulseira. Quando ela estiver completa o nosso compromisso está assumido. Hoje fazes seis anos e eu deveria dar-te o último pingente, mas estás no teu direito de não o aceitares.
Os meus olhos encheram-se de lágrimas de felicidade. Não só por todo o amor que aquele homem tinha por mim mas também por um pormenor ridiculamente estúpido: ele disse que eu fazia seis anos. Seis. Não disse dezasseis nem disse que a minha idade mental correspondia aos momentos em que ele me dava os pingentes. Jacob via-me como uma humana ou pelo menos via que a minha faceta humana existia. Senti-me muito quente por dentro, feliz como nunca poderia estar com outra pessoa.
-Sim, eu tenho seis anos Jacob, tens razão – murmurei – Posso ver o pingente?
-Claro que sim.
Jacob tirou do bolso um pequeno pedaço de madeira esculpido. Havia um muito parecido com aquele na pulseira da minha mãe, mas o meu pingente era diferente, era melhor. Em vez de ter apenas um lobo esculpido em madeira vermelha, também tinha uma rapariga (igualzinha a mim) agarrada ao lobo, com a cabeça encostada a ele e com um ar feliz.
-Sem dúvida que aceito o presente. Eu amo-te Jacob.
Apesar de o ter visto apenas há umas horas eu amava aquele homem enorme, que me fazia sentir tão amada, protegida e feliz.
Jacob era quente e eu adorava o calor. O frio da pele dos vampiros sempre me fez impressão, embora eu tentasse disfarçar. A minha pele estava sempre surpreendentemente quente, acima dos valores normais da temperatura para uma humana. Jacob era ainda mais quente do que eu e isso fazia-me sentir bem, aconchegada e protegida.
Eu amava Jacob com todas as minhas forças, era algo tão natural que não pensava. Jacob completava-me de uma maneira única, humana e simples. Jacob e eu éramos algo natural, um todo óbvio.
Jacob sorriu para mim, com um sorriso que me aqueceu e que me deixou feliz.
-Sim Nessie. Sabia que irias aceitar. Foi por isso que fui hoje a tua casa. Tinha de te trazer para aqui.
Subitamente tive um sobressalto. E os meus pais?
-E os meus pais? O Edward não vai autorizar isto.
-Não te preocupes Nessie. O teu pai não pode fazer nada. Isto é muito mais forte e ele sabia que eu teria de te oferecer o último pingente de uma maneira ou de outra. Ele preferiu deixar-te vir para que tivesses uma oportunidade de o recusar. Não o fizeste mas ele também não esperava que o fizesses. O teu pai não pode impedir uma impressão nem controlá-la.
Senti-me calma e encostei a minha cabeça ao peito de Jacob.
-És linda – disse-me ele – A Rosalie realmente tem muito jeito.
-O quê? A Rosalie?
-Tem muito jeito para fazer as pessoas ficarem mais bonitas do que já são. Foi ela que arranjou a tua mãe para o casamento e ela estava linda. Também adoro as tuas tranças. E sei que foi ela que te educou, também te fez muito bonita nesse aspecto.
Subitamente senti muito sono e as pernas moles.
Os olhos ficaram pesado e as palavras de Jacob misturavam-se na minha cabeça. A voz dele era doce e eu adormeci.
espero que tenham gostado :)
agora vou demorar mais um bocado a postar porque já não tenho mais capítulos escritos mas vou esforçar-me ao máximo
