V – Just Tonight 2.0
A noite não terminou. Não tenho nenhum relógio comigo e não me importo com a hora. Mas sei que ainda é noite. Alta madrugada.
Ainda estou elétrica. Depois de talvez uma hora dentro da espelunca onde Foxwood tocou, escutando o som de uns caras muito chapados, que Quinn disse ser a melhor coisa grunge depois do Nirvana, estamos saindo de lá. Há muitos risos intermináveis e gritos. Algumas garotas com cabelos descoloridos e curtos demais seguem Puck com seus celulares em punho e copos de cerveja balançando perigosamente. Elas soltam risinhos do tipo pré-adolescente. É ridículo, e sei que Puck também considera isso. Uma das garotas levanta a blusa feita de algum tecido tão fino quanto um trapo e mostra-lhe a barriga, a qual exibe um piercing no umbigo projetado. "Radical", Puck diz. O piercing se estende pelo seu ventre, pois tem a forma de uma serpente cor esmeralda. "Eu poderia mostrar o meu, mas precisaria tirar a roupa", a outra diz rindo como quem espalha uma piada que não tem fundamento. "Se você fosse para a minha casa poderia vê-lo", ela continua. Puck sorri maroto. Ele quer ver o piercing e muito mais, porém se detém a apenas dizer: "Demais, mas agora não dá. Quem sabe outra noite". A tentação é forte, mas é bom saber que ele é sensato. Não que, a princípio, eu pudesse pensar isso de caras como Puck, Sam e Mike, mas a verdade é que nós nunca conhecemos inteiramente as pessoas, e suas aparências e atitudes sempre nos enganam.
Olho para o lado, Quinn está grudada em mim. Está se divertindo da minha diversão. Seu braço está enganchado no meu, seu cabelo meio que se balançando em cima de mim. Estou rindo das garotas ridículas e me considerando ridícula também por estar, neste exato minuto, dizendo a mim mesma que me equivoquei quando achei Quinn assustadora. Ela é meio ousada, louca, mas não assustadora. Não me sinto mais deslocada ao seu lado, sinto-me como se já não fosse mais uma intrusa em seu mundo musical barato. Enquanto o meu mundo musical é meio luxuoso, o dela é construído em meio ao lixo, às noites precárias e a muita bebida e suor. É meio asqueroso, se você não está acompanhando tudo a meio metro como eu. Mas é preciso dizer, Quinn ainda parece vagabunda, espero que essa imagem dela se apague da minha mente alguma hora. Dizem que a primeira impressão é a que fica, então preciso confessar que, até o prezado momento, isso é totalmente verídico. A primeira impressão que ela transparece ao mundo é que é um ser promíscuo. Talvez, certo, não transe toda hora, mas é justo dizer que essa blusa com corpete não ajude muito a mudar sua situação. Pensando bem, a menos que ela estivesse vestida completamente diferente, ainda pareceria vagabunda. Espero não que ter de dizer isso a ela, pareceria arrogante, já que não estou fantasiada de rockstar vadia. Talvez ela não se vista assim o tempo todo, já que seu emprego comum, no cargo de uma secretária, ou no de uma agente do RH, não necessite disso. Certo? Talvez Quinn seja tão normal quanto eu quando não está tentando parecer uma vocalista dos anos 80, cuja banda já caiu no esquecimento. Mas talvez tudo isso apenas seja o seu feminismo se refletindo, por que não? Apenas espero que ela não queime seus sutiãs na minha frente.
Quinn sorri para mim e tomba a cabeça no meu ombro direito.
"E agora, garota Hobbit? O que quer fazer?", ela me inquiri. Eu rio, porque é engraçada a maneira como ela fala. Garota Hobbit.
Nunca disse nada à Santana, mas não aprecio este apelido. Gosto de ser baixa, apesar de tudo. E não gosto quando tiram com a minha cara por conta disso. Santana saberia se não ficasse se enroscando na Britt a cada cinco minutos, ou se parasse de verdade para me escutar, o que não faz. Mas quando Quinn diz 'garota Hobbit" não me sinto ofendida, nem magoada. Gosto disso, gosto do fato de mal nos conhecermos e ela se referir a mim como alguém que conhece a anos, com aquele tipo de intimidade que apenas Kurt utiliza.
Não sei o que quero fazer. Sorrio a ela.
"Dormir não está na lista, fique sabendo", Quinn logo retalia. Continuo a rir, então dou de ombros. "AH, MEU DEUS!", ela solta um berro, pulando ao meu lado, levando meu braço pra cima e pra baixo consigo. "VOCÊ PRECISA CONHECER O SÍRIUS".
Fico piscando para ela, porque não sei se quero conhecer uma estrela. Ou um personagem de livros. Estava, sim, pensando em dizer que necessito de duas coisas: a) me alimentar e b) tirar uma soneca. Mas nunca passou pela minha mente algo como conhecer esse tal de Sírius. E se esse cara for um rockstar de jaqueta de couro e de cabelo ensebado? Se ao menos a música dele for razoável tudo bem...
Sam se junta a nós, animado: "Sim, você precisa ir ao Sírius! Você vai se viciar no Pacman em menos de meia hora". Não sei o que dizer. Mike sai de dentro da traseira da van, onde organizou os instrumentos para podermos dar a partida, limpa as mãos na calça e quer saber: "Então? Vamos?". Quinn se desgruda de mim e vai até Puck. Agarra a camiseta cor de petróleo dele e o puxa. "Desculpa, garotas, mas Puck está comigo", ela diz. Puck ri e não faz objeção alguma. "Você é má, Fabray", ele resolve dizer, quando a dupla de cabelos descoloridos já se dispersou. "Vamos ao Sírius", Quinn comenta. Ela o solta e toma lugar dentro da van. Os meninos se agilizam. "Você vem ou não?", Quinn pergunta lá de dentro, apoiada em uma parte da bateria; está brincando com uma das baquetas, girando-as sem sucesso entre os dedos. Noto que estou parada no meio da calçada. Ahn, talvez eu devesse dizer que preciso ir embora, que podem me deixar em algum hotel para que eu possa conseguir um táxi. Quero muito dormir. Preciso comer, também.
Mas tudo o que me ouço dizendo é:
"Espere por mim!".
E então me adentro no veículo e vou parar ao lado de Quinn. É desconfortável, o chão da van é piniquento devido ao carpete que se estende por ele, e parece que nunca encontro uma boa posição para me largar. No entanto, não reclamo.
Percorremos pelas ruas iluminadas mais uma vez como não houvesse mais ninguém além de nós transitando nelas. Encontramos um túnel e tenho vontade de mandaram tocar Bowie, como naquele filme. O túnel fica para trás, juntamente com sua trilha sonora composta por meninas gritando. "Você está com fome?", Quinn sussurra perto de mim. Estamos desacelerando agora. Olho para fora e os bares e as lojinhas ainda abertas passam diante meus olhos em stop motion. Há luzes coloridas em quase todos os estabelecimentos, quase como uma grande placa de neon envolvendo-os. Faço que sim com a cabeça, estou com fome. "Então prepare-se para comer o melhor cachorro-quente da sua vida", ela me garante. "Vamos parar em algum bar?", questiono. Há muitos bares por aqui, todos imundos e com uma clientela nada amistosa ou de boa aparência. Acho que acabei de entrever uma prostituta. "Vamos comer no Sírius", ela me responde. Assinto. "O que é esse Sírius?".
Quinn ri com vontade. Sei que está zombando de mim, porque sou forasteira. "Você é tão outside, garota Hobbit!", ela diz. "Falando sério, onde você viveu por todo esse tempo que não conhece as melhores coisas da vida?", ela completa. Dou de ombros. Estou meio envergonhada agora. Isso é meio chato. Ter confessado que sou tecnicamente virgem já tinha sido o suficiente para que eu desse o fora dessa viagem maluca. Qual foi o fator que me levou a embarcar nisso? Fui tão idiota quando concordei em aceitar o convite dessa garota... Ou será que não? Quer dizer, ok. Eu estou me divertido, isso é inegável. A música é boa, apesar de gritada demais. E as companhias não deixam a desejar. Mas é loucura demais para uma noite só e para uma Rachel Berry só! Se estivesse em casa, estaria assistindo a um musical com muita canção alegre com Kurt, ou algo assim. Nada entrar numa van desconhecida que vai te levar para lugares também desconhecidos! Viu só, essa banda com nome de fazenda fictícia está me deturpando! Daqui a pouco, vão me convencer a fazer uma tatuagem, ou um piercing, ou a tingir meu cabelo de vermelho! Não posso deixar que isso aconteça!
"Certo. Você se acha superior a mim, apenas porque tem essa vida maluca e é toda cheia de atitude. Entendi", eu digo. "O quê?", Quinn ri, franzindo o cenho. "De que está falando?", ela ainda está confusa. "Dessa coisa ridícula de roupas de vagabunda, cabelo colorido, bandas decadentes. Você é uma garota esteticamente maluca e faz coisas que a sociedade considera 'desapropriadas'. O que prova que todo mundo está errado, e que você é a única certa. Daí você precisa mostrar isso, porque senão não tem graça nenhuma. Essa coisa dos palavrões, os gemidos no meio das músicas, as suas meias-arrastões. É o único modo de dizer que todo mundo não aproveita tudo o que a vida tem a nos oferecer e que precisam compartilhar de seus ideais".
Opa. Minhas palavras seguem um rumo completamente imprevisto pela minha mente. Não consegui fazer nenhuma edição a tempo, e tudo está bem diante dela. E acaba que eu falo tudo o que está rondando meus pensamentos durante toda essa noite. Vou acabar levando um tapa dessa garota. Espero por ele, mas ele não vem. "Você é apenas mais uma a achar tudo isso de mim. Parabéns, quer um prêmio?", ela me interroga com a expressão até mesmo calma. Ela está calma, depois de tudo o que eu disse! Meio inacreditável. "Não", respondo. Não estou com raiva. Nem ela, pelo jeito. "Sabe o que acho?", Quinn chega mais perto de mim. Não espera resposta: "Que todos vocês que me criticam gostariam de serem loucos como eu. Mas não podem, porque têm a vidinha ridícula de vocês. Toda acertadinha, cheia de mimimis. Se a sua concepção de aproveitar a vida é não fazendo nada que te dê medo, ou que te deixe eufórica, vá em frente. Parabéns por ser apenas mais uma nessa vastidão de mundo". Fico quieta. Comprimo os lábios. Nada digo. Deixo que o silêncio entre nós se estenda. Olho para ela uma única vez: sua expressão expressa um tipo de desapontamento misturado ao sabor da vitória. Sinto-me enojada de mim mesma. Não repliquei, deixei que vencesse. Talvez, ela tenha com a razão. Eu sou apenas mais uma.
A van estaciona. Estamos na frente de uma porta de vidro e de uma placa, acima da construção, que exibe letras douradas. Sírius. A porta de vidro deixa que os pedestres espiem o que existe lá dentro: papais noéis com roupa verde, estátuas que parecem ser de outro milênio, tapetes coloridos e sofás do tipo Mae West Lips em diferentes cores. Quando entramos no estabelecimento um sino soa e um gato mia. O gato está em cima de uma pilha de tapetes menores que os outros, todos no estilo persa. O gato é preto e ronrona. "E aí, Sírius", Quinn acaricia o pescoço do animal. Não sou capaz de sufocar o riso que rasga minha garganta. "Espera, nós viemos visitar um gato? É isso mesmo?", pergunto depois de rir um pouco. Não consigo controlar isso, estou rindo novamente. Quinn, ainda com os dedos no pelo felpudo de Sírius, me olha como quem me repreende. "Ele apenas leva o nome do lugar", ela diz. Passo pelas estantes cheias de coisas inúteis e antigas. "E que lugar é esse? Um depósito de coisas que ninguém mais quer?", inquiro sem olhá-la. Estou mirando uma bola de vidro, cujo seu interior reflete luzes multicoloridas. A bola esquenta na minha mão, e eu a reacomodo de onde a tirei. "Qual é a serventia disso?".
"Dizem que ela é capaz de pressentir a energia dos que estão a sua volta e avisá-la com quem deve ou não estar se metendo. Ela previne você dos inimigos, supostamente".
Quem diz tudo isso não é Quinn, ou Sam, ou Mike, ou Puck. É um cara meio franzino, com o cabelo muito parecidos com os quais avistei a noite inteira – longo e meio ensebado – e com vestimentas tão comuns quanto um zé-ninguém. "Robert, prazer", ele vem até mim e acena com a cabeça uma vez. Esse Robert é louco. Mas quem eu conheci durante toda essa noite que não seja maluco? Talvez eu mesma esteja me tornando uma deles. Talvez essa doença deles seja contagiosa. "Ahn, Rachel", digo. Não sei se é prazer conhecê-lo, por isso acabo excluindo isso de minha frase. Ele exibe uma expressão de contentamento e se vira para Quinn e Sírius. "Garota nova?", ele pergunta à Quinn. Não entendo o sentido de sua pergunta. Porque sou a garota forasteira, não a garota nova. Será que todas as noites a banda convida alguém para acompanhá-la em suas maluquices? É possível. Então, é, eu sou a garota nova. Mas toda a minha teoria morre quando Quinn responde: "Claro que não. A garota Hobbit...", ela se vira para mim e me lança uma piscadela daquelas que dão a sensação de que está compartilhando um segredo entre amigas. "Apenas está conosco", ela finaliza. Arqueio as sobrancelhas, sem saber o que dizer. Se estou com eles não sou a garota nova?
Não entendo a conversa e, por isso, procuro outro objeto para tentar decodificar. Encontro um livro cuja encadernação é negra e os dizeres em bordô revelam seu título: 'Rituais de magia'. Faço uma careta e sigo em frente. Há uma prateleira inteira de livros surrados demais para serem deste século. "A Idade média', 'Mesopotâmia e a escrita', "Animais mágicos', 'A queda de Roma em 467 páginas', e muitos outros. Esse lugar é estranho, me provoca arrepios. Olho para Quinn, que conversa sobre uma mercadoria com Robert, enquanto os meninos estão procurando algo na ala leste. Todos eles parecem mais do que habituados a este local.
"Esfomeados?", Robert inquire a todos. Sinto-me agradecida por não ter me lançado nenhum tipo de olhar depreciativo, ele sabe que sou a garota deslocada. Eles soltam exclamações diversas e sorrisos escapam de seus lábios.
Finalmente, depois do que parece ter sido uma eternidade, alguma coisa normal está prestes a acontecer. Espero que o cachorro-quente dele me deixe satisfeita.
VI – Zombie
Acho que amanheceu. Uau.
Por quantas horas eu fiquei jogando Pacman? Sam tem razão, isso vicia. Estamos no fundo da loja e não há janelas aqui, no entanto é quase que perceptível que os primeiros raios de Sol estão banhando o telhado. Não porque faz calor aqui, mas porque há mais movimentação na rua e os pássaros parecem desesperados com seus cantos. Robert nos serve de tortas e lanches. Estou cheia, mas continuo sorvendo o conteúdo do meu copo. Acho que é vinho branco, ou espumante. Não sei mais com muita precisão. Tudo o que sei é que estou vencendo nesse jogo. Não consigo parar de encarar a tela. É viciante demais para parar. Não quero mais sair daqui. E, pelo jeito, nenhum deles também quer.
Acabei descobrindo que esse lugar é muita coisa junta: loja de quinquilharias, bar e estúdio de tatuagem. É meio louco demais, porque quando visto de fora esse estabelecimento parecer minúsculo. Mas cabe muita coisa. Robert fica me mostrando seus catálogos de tatuagens. Fadas, estrelas, caveiras, números, frases em outras línguas, os Smurfs, os ícones de sagas famosas. Assinto para cada imagem e comento algo nas que mais me agrada. Dou de ombros quando ele me pergunta se eu não quero fazer uma. "Escolha uma!", ele diz. "Nunca quis fazer uma coisa dessas", respondo. Acho que estou mentindo, mas estou um pouco bêbada demais para me sentir culpada. A verdade é que em alguns momentos da minha vida já quis fazer uma tatuagem, mas como nunca soube o que marcar na minha pele nunca fiz. Nunca criei coragem. Quem sabe, essa seja a minha chance. Mas continuo cética. Não quero um cavalo selvagem nas minhas costas, nem um pônei colorido. Não sei o que quero, nunca sei. Sou indecisa demais neste ponto. Porque, uau, uma coisa dessa é praticamente pra sempre. E se eu me equivocar na escolha, ou me arrepender, não tenho dinheiro para remover. Então, preciso pensar mais. Não posso me dar ao luxo de fazê-lo, somente porque o cara quer. Não sei fazer nada sob pressão.
"Hey", Quinn diz, adicionando mais bebida no meu copo. "Esse jogo é genial!", minha voz está alterada, estou falando do modo mais excitado possível. "Está a fim de ir?", ela pergunta. "Para onde?", não tiro os olhos da tela, porque posso morrer. "Rachel! Embora!", Quinn exclama. Acho que ela já me fez essa pergunta algumas vezes. Oh, droga. Mas o que posso fazer se esse jogo é maravilhoso? "Ahn. Ok. Daqui a pouco", eu digo, sem mover meus olhos para sua direção. Morra, fantasminha! Morra! Quinn está exasperada ao meu lado. "É a quinta vez que diz isso", ela comenta. Assinto, distraída. "Sabe que horas são? Quase sete! Está sabendo?!", agora ela tenta uma técnica diferente. Acho que surte efeito em mim, pois arregalo os olhos e a encaro. "Uau, demaaais!", exclamo, parecendo muito mais feliz do que jamais me senti. Ok, isso não é real. Estou bêbada, não estou com toda essa felicidade. Se não estivesse sido tragada pelo álcool estaria histérica implorando para irmos embora. Mas olhe só o que o álcool faz com uma pessoa, transforma-a num ser sem noção e ridículo! Mas o pacman é tão bonitinho... Preciso vencer essa fase. "Já vamos", respondo, retornando a focar no jogo. Ela se afasta, levando consigo meu copo. Acho que não sabia que eu estava tão bêbada. Tanto faz, bêbada ou não, preciso terminar essa fase. Só mais uma.
Não consigo terminá-la, porque Puck para ao meu lado, observa o jogo e desliga a máquina num átimo, eu mal noto o que ele faz. "HEY! QUAL É O SEU PROBLEMA?", meus tímpanos estão um pouco sensíveis e sei que estou gritando. Meu Deus, estou descontrolada! Preciso encontrar meu equilíbrio urgente! "Estamos indo embora. Robert precisa dormir, e acho que você, de uma ducha gelada", ele me diz. Está calma, tão calmo! Eu, por outro lado... "NÃO QUERO NADA DISSO! VOCÊ FERROU COM O MEU JOGO!", grito. Eles se reúnem ao meu redor, estou parecendo uma criança birrenta! Se eu estivesse no meu estado normal teria vergonha de mim mesma. "Venha, garota Hobbit", Quinn está com os dedos ao redor de meu pulso, seu toque é gentil. "Vai ficar tudo bem", ela me acalma. "Mas o meu jogo...", minha frase fica no ar, minha voz termina meio rouca, meio sem forças. "Relaxa, voltamos aqui amanhã e você o termina. Combinado?", Quinn me consola de um jeito meio mãezinha. É estranho. Ela é um amor. E então engata seu dedinho no meu, uma promessa. Gosto disso, dessa coisa bonitinha. Kurt iria enlouquecer com ela. "Combinado", acabo dizendo, porque as palavras dela parecem tão doces que quero chorar. Não posso chorar na frente deles, por favor, Senhor! Empeça que essa humilhação se concretize!
Nós nos vamos. Robert até na porta, meio ansioso. Quer dormir, mesmo. Eu também deveria dormir. Quero tanto dormir, agora percebo...
"Muito obrigada!", agradeço a ele, porque mesmo bêbada isso parece sensato. Ele acena, está na porta. Estamos nos colocando em nossas devidas posições dentro da van. "Volte para a tatuagem!", Robert exclama, quando Puck dá a partida. Não respondo nada. Estamos indo.
O Sol está despontando, não são sete horas como Quinn colocou, mas pouco me importa. Cochilo com minha cabeça pendente no ombro dela a viagem toda. Quando me acordam, levo um susto. "Ai!", reclamo. Há mais claridade agora, não sei quanto tempo se passou, mas minha coluna está doendo. Quero muito a minha cama.
Olho para fora. Há um prediozinho à minha frente, de tijolos crus. É bonito, meio imponente. Mas não é minha casa. Pisco, vacilante. "O quê?", pergunto, desorientada. "Cadê a minha casa?", permaneço sem me mover, apenas olhando para os tijolos. "Hey, você está comigo. Esta é minha casa", Quinn me dá uma ajudinha. "Mas cadê a minha casa?", pergunto. "Não sabemos onde é a sua casa, e a única vez que tentamos perguntar a você, você somente nos mandou calar a boca, então não investimos mais", Sam responde lá de seu banco. Suspiro. "Ok", digo. É tão fácil, dá pra ver as expressões de alívio deles. Tudo bem, tudo bem, faço o que vocês quiserem. "Isso, saia do carro. Obrigado", Puck diz, me ajudando a sair. Meus pés tocam o chão e parece que vou vomitar. Ficar em pé é uma péssima posição para o meu estômago revolto. "Acho que vou v...", começo a dizer, mas Quinn me ampara. "Respire fundo, Rachel. Isso, de novo. Muito bem, mais uma vez", ela diz, enquanto caminhamos de maneira precária até as escadinhas. Sua voz parece uma canção de ninar.
A van parte. Quinn está me segurando enquanto abre a porta. Há uma escada no hall. Aqui cheira a perfume de laranja. É doce, é horrível. Quero vomitar mais do que nunca. "Respire fundo", Quinn comanda. Faço o que ela pede, e a ânsia se intensifica. Subimos um lance de escada, então Quinn para e abre outra porta. Aqui não fede a nada. O ar é tão limpo que nem parece que aqui é um cubículo. Há uma cama de casal, um ventilador de teto, uma bancada que se assemelha a uma minúscula cozinha, uma arara cheia de roupas e outra porta que dá para um banheiro. Posso ver o box daqui. Isso aqui parece uma caverna para anões. Como Quinn vive aqui? É tão apertado! Mas o ar é tão bom! Tão bom...
Ela me deixa sentada na cama e se dirige para a arara de roupas. Digo que preciso vomitar, ela consente. Cambaleio para o mini-banheiro e procuro a privada. Vomito uma água estranha, meio ácida. O gosto que fica na minha boca é nojento. Noto que Quinn está amarrando meus cabelos num rabo de cavalo. "Melhor?", ela me inquire. Assinto, meio sonolenta. "Pronta para um banho?".
"Não".
Mas ela tira as minhas roupas mesmo assim. Credo, estou com cheiro de sarjeta. Estou nojenta, então um banho não é uma má opção. A água está fria, meio que berro isso enquanto ela me enfia debaixo do box com mais vontade. Ela ensaboa meu cabelo, mas deixa que eu faça o resto sozinha. Quero meio que chorar, porque a água gélida está cortando a minha pele, mas cada vez que tento abrir minha boca sou engolfada para debaixo d'água. "Quinn!", berro desesperada, acho que estou me afogando. Mas ela diz: "Está acabando, vai ficar tudo bem".
Não fica tudo bem por um longo período. Mesmo de banho tomado, com as roupas de outra pessoa, me sinto horrível. Nauseada e tonta. Quinn toma banho também, na minha frente, porque fico sentada em cima do vaso da privada. Ela diz que assim pode tomar conta melhor de mim. Quando acaba de secar o cabelo curto, percebo que estamos com as mesmas roupas, mas de cores diferentes. Um short e uma blusa de alcinhas. Sinto-me bem, depois de um tempo. Ainda estou sonolenta, mas começo a recuperar minhas forças.
"Então?", ela quer saber.
"Podemos dormir?".
Ela faz que sim. Deitamos lado a lado. Estou olhando para o teto cheio de rachaduras. Estou pensando em ser livre, em ter asas e voar. Sucumbo ao mundo dos sonhos sem nem ao menos perceber.
Êêêê, férias! *-* minhas noites lindas de escritora malucas vooooltaram! *-* AWN, QUE SAUDADE!
E aí, o que estão achando? Noite louca a dessas duas, rs. Vai ficando pior conforme os caps vão acontecendo ;) SEM PERDER A MEIGUICE, CLARO. SOU MEIGA DEMAIS -sqn
As músicas escolhidas são as banda The Pretty Reckless ;))
Love, Nina! Bye! Até fim de semana!
