Capítulo 3 - Velhos Amigos?
Sarada girou a chave na fechadura, abrindo a grande porta de entrada de sua casa, com Kawaki nos seus calcanhares. Logo que entrou, ouviu os barulhos de taças e risadas femininas vindo da cozinha, em meio a uma música pop animada de dez anos atrás que tocava na sala. Ela acenou para o namorado, indicando que sua mãe provavelmente estava em casa.
"Vamos passar lá para dar um oi. Ela deve estar com alguma amiga." Ela disse, baixo. Os dois andaram silenciosamente pelo piso de madeira nobre, sentindo o cheiro gostoso de carne sendo assada, e chegando até o vão que dava para a cozinha. Sobre a ilha de pedra escura, Sakura se debruçava, não com uma, mas duas amigas, todas rindo com taças de vinho nas mãos e espalhando as fotos do antigo álbum de família.
"Oi, mãe." Ela falou, chamando a atenção da médica. Kawaki parou silenciosamente ao seu lado. Uma das amigas era Ino, já conhecida de Sarada, usando um vestido colado que deixava a mostra seu corpo escultural da academia. A outra era uma morena com cabelos curtos e negros e olhos perolados. Sarada não se lembrava de tê-la visto antes.
"Oi querida! Oi Kawaki!" Sakura disse, muito animada. As bochechas coradas denunciavam sua embriaguez. Ela se levantou, se desequilibrando um pouco ao descer do banquinho alto e andou até os dois para cumprimenta-los. Ino e a amiga sorriam, felizes e coradas como sua mãe.
"Achei que você chegaria mais tarde hoje. Eu e as meninas estamos fazendo um jantar e colocando o papo em dia." Ela apontou para as amigas, pousando a outra mão no ombro de Sarada. "Ino você já conhece, mas deixa eu te re-apresentar minha amiga Hinata. Você se lembra dela? Faz tanto tempo desde que vocês se viram a última vez..."
"Oi, Hinata." Sarada disse. Kawaki apenas acenou com a cabeça.
"Oi Sarada. Oi, Kawaki, né?" Hinata disse timidamente. "Sakura, não acho que ela se lembre de mim. Já faz doze anos que nós mudamos, afinal. Sei que isso é uma conversa clichê, mas nossa, você está enorme! E linda!" Hinata disse, gentilmente. Ela parecia ser muito fofa.
"Ah sim! Eles crescem muito rápido! Inojin já está maior do que o pai. Ele ficou enorme!" Ino falou, virando o resto do vinho em sua taça.
"Sim, Boruto está enorme também. Acho que regula com Naruto." Hinata disse, pousando as mãos delicadas no queixo.
Pera aí. Boruto?!
Sarada olhou de esguelha e viu uma pequena ruga de irritação saltar na lateral do olho de Kawaki. "Sarada, querida, a família de Hinata era nossa vizinha aqui em Konoha muito tempo atrás. Eles se mudaram de volta para a cidade essa semana! Não é incrível? Estamos colocando o papo em dia!" Ela bateu as palmas num sinal de alegria. "Eles são a família que comentei com você outro dia. Foi uma mudança relâmpago. É uma surpresa super agradável, eu diria."
"Eu estou adorando ter você de volta!" Ino disse, agarrando o braço da amiga e abraçando-a com força. "Ficamos desfalcadas sem você! Você tem que fazer aula de pilates conosco!" Ela falava enrolado e tinha as pálpebras baixas devido ao vinho forte.
"Estávamos vendo umas fotos e relembrando os velhos tempos." Sakura disse para Sarada. "Vem aqui ver... tem tantas fotos fofas!" Ela empurrou gentilmente Kawaki e Sarada para perto da ilha, a fim de mostrar as fotos. "Olha aqui essa sua nenê tomando banho... que gracinha!"
Sarada corou violentamente. Não era exatamente o tipo de foto sua que ela queria que Kawaki visse, mas não tinha jeito de escapar.
"Vejam essa daqui... Eu tirei essa foto. Acho que você não se lembra, Sarada, mas eu levei você e Boruto no parquinho e vocês ficaram rolando na caixa de areia." Hinata disse afetuosamente. A foto tinha uma Sarada pequenina e um menino loiro de olhos azuis com um sorriso de orelha a orelha, abraçados e sujos até os cabelos.
Sarada ficou perplexa. Era mesmo uma foto dela e de seu mais novo velho amigo. Como ela podia não se lembrar? Não conseguiu dizer nada para as mulheres ao seu redor.
"Meu Deus, que fofura!" Disse Ino, tirando a foto da mão de Hinata para olhar de perto. Ela apertou o papel contra o peito e olhou para Sarada. "Vocês eram fofos demais juntos! Sempre dizíamos que os dois iriam namorar, já que estavam sempre grudados. Aliás, vocês já se viram? Eu teria perguntado para Inojin sobre Boruto, mas ele não me conta nada." Ela fez um beicinho.
Sarada gelou. Do seu lado, viu Kawaki ficar tenso, a veia do braço saltando. Tudo aconteceu muito rápido para que ela pudesse processar, e antes que conseguisse verbalizar uma resposta, ele murmurou um "licença", saindo pelo vão e sumindo no fim do corredor de madeira. Ela ouviu seus passos subindo a escada para o quarto dela rapidamente.
"Falei algo que não deveria?" Disse Ino, afetada.
"Não, tia... é só que ele está mal humorado. Desculpe." Sarada queria perguntar mais sobre seu amigo de infância, mas tinha um problema urgente no andar de cima. "Se vocês me permitem, vou subir. Foi um prazer rever você, Hinata. Tia Ino, aproveite." Ela se despediu educadamente e saiu, subindo as escadas atrás de Kawaki e se preparando para discussão que estava por vir.
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Ela encostou a mão na maçaneta, empurrando a porta com relutância. Se Kawaki já estava incomodado antes, agora ele estaria num péssimo humor. Quando entrou, ele estava em sua cama, recostado contra a parede e quieto, jogando uma pequena bola de borracha para cima e para baixo enquanto fitava o nada.
"Kawaki..." ela disse, sem jeito.
Ele parou de mexer na bolinha.
"Então, agora pulamos para a parte que você conta pra mim que conhece o cara há mais de dez anos, ou vamos mentir mais um pouco?" Ele estava ácido.
"Eu estou tão supresa quanto você, acredite." Ela viu ele rir com desgosto. Com certeza não estava acreditando em nada que ela dizia. "Eu não me lembrava de nada sobre ele. Já faz doze anos, nós nunca mais nos vimos ou nos falamos."
Sarada não mencionou o fato de que estava se relembrando de algumas coisas após ter visto as fotos dos dois juntos. Talvez ela só precisasse de um pequeno estímulo, mas lamentava tê-lo obtido no momento mais inoportuno possível. Quanto mais indiferente ao Uzumaki ela soasse, menos alimentaria a ira de Kawaki.
"Você acha que ele se lembra de você?" Existia uma certa dor no olhar dele.
"... acho."
"E você vai contar que se lembrou dele?"
"Kawaki, eu só não disse nada hoje porque realmente não me lembrava. Não faz sentido nenhum fingir que não o conheço, seria até rude." Era uma justificativa coerente, mas sabia que não seria capaz de penetrar a carapaça de ciúme e magoa de Kawaki. "Amanhã vou precisar circular com ele de novo, e vou me desculpar quanto ao meu lapso de memória."
Ele cruzou os braços, irritado. "Para quem só estava fazendo isso porque Kakashi pediu, você parece bem empolgada. Vai falar sobre como vocês eram quase namorados quando pequenos também?"
"Kawaki, não distorça as coisas. Eu tinha cinco anos." Ela abriu os braços num sinal de indignação. "Não vou falar nada sobre isso, mas não quero ignorar um antigo amigo, por mais distantes que estejamos hoje em dia. Principalmente se ele realmente se lembra de mim. Já devo ter sido deselegante o suficiente hoje."
"Bom, pode mandar minha lembranças ao seu amiguinho então." Ele se levantou, enfiando a carteira e suas chaves no bolso.
"Onde você vai?" Ela perguntou, aflita. "Vou ficar chateada se você sair por causa de uma besteira dessas."
"Olha Sara, eu gostaria de ficar aqui com você, mas realmente não estou no clima. A gente se fala amanhã na escola, se você não estiver super ocupada a tarde."
Ela revirou os olhos. Ele se aproximou e deu um beijo em seus lábios a contragosto, dando um "tchau" quase inaudível ao sair. Ela viu ele passar a porta e descer a escada com passos barulhentos. Do andar de cima pôde ouvir sua mãe abordando-o: "Kawaki querido, já vai? Pensei que ia ficar até mais tarde..."
"É, desculpe. Tenho umas coisas para fazer."
"Que pena... apareça mais, está sumido!"
E ouviu Sakura abrir a porta para ele e o carro dando partida na rua. Ficou encostada contra a janela, vendo o jeep azul sumir na larga rua arborizada enquanto anoitecia.
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Ela se revirava de um lado para o outro na cama. Estava magoada e irritada com Kawaki, além de se sentir meio ansiosa com relação à Boruto. Quando fechava os olhos, uma enxurrada de pensamentos parecia entrar na sua cabeça, e ela não conseguia dormir.
Todo o comportamento esquisito do Uzumaki durante a tarde era justificável agora. Ele havia se lembrado dela. Provavelmente havia se lembrado naquele momento em que se cruzaram na rua no meio da semana. Ele estava sozinho, numa escola nova, após ter sido expulso do colégio anterior, e achou ter encontrado uma amiga de longa data, mas ela não se lembrava dele, ou não fez questão de dizer que lembrava.
Sarada sentiu uma pontada no peito. Ela se sentia péssima quando falhava com alguém, e esse era o sentimento que a inundava agora. Entendia a desconfiança de Kawaki, mas considerava muito mais importante ser gentil e prestativa com Boruto. Seu namorado iria entender, eventualmente, que não havia nada demais entre eles, mas pelo menos nesse começo, ela poderia ser um porto seguro para o loiro.
Respirou fundo. No dia seguinte iria se desculpar com o Uzumaki e explicar sua confusão. Ou assim esperava conseguir fazer, caso ele não estivesse indisposto e irritado com ela.
Fechou os olhos mais uma vez, determinada a conseguir dormir, pois tinha uma prova terrível na manhã seguinte e não podia se dar o luxo de ficar acordada.
Tudo era mais fácil quando ela não tinha dois garotos decepcionados e aborrecidos com ela.
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Sarada esfregou os olhos com força, como se o gesto pudesse afastar o cansaço que a acometia. Sentia os olhos arderem e estava com olheiras, e mesmo sua tentativa de cobrir as bolsas com maquiagem parecia não ter surtido muito efeito. Apesar do seu esforço e concentração para dormir cedo mesmo com toda a ansiedade da noite anterior, ela não conseguiu pegar no sono antes das duas da manhã, e às vezes era acordada pelas risadas das mulheres no andar de baixo. Havia sido um jantar e tanto, aparentemente.
Para colaborar, ela se esqueceu que havia deixado sua bicicleta na escola, e quando saiu pela porta da frente, finalmente percebendo a ausência do objeto metálico e vermelho, viu que já estava atrasada. Correu até a escola e chegou descabelada e suada. Portanto, no momento ela estava cansada, suada, descabelada e teria que fazer a prova de álgebra mais difícil do semestre, talvez do ano.
Suspirou fundo. Kawaki estava sentado na sua diagonal, atrás, e quando ela se virou para olhá-lo, ele retornou o olhar e imediatamente fez um bico emburrado, virando a cara. Mais ao fundo estava Boruto, que balançava nos pés traseiros da cadeira tranquilamente. Desviou o olhar antes que Kawaki visse que olhava o outro garoto e se virou para a frente.
"Bom dia, veteranos." Neji era um homem alto, asseado e elegante, com longos cabelos negros e lisos que iam até sua cintura. A camisa branca e bem passada de colarinho fechado era sua marca registrada, deixando seus músculos definidos aparecerem através do tecido. Se ele não fosse seco e reservado a ponto dos alunos o temerem, alguém poderia ter uma queda por ele. "Celulares guardados. Na mesa quero apenas caneta, lápis e borracha. Coloquem as bolsas embaixo das cadeiras. Vou distribuir as provas e vocês vão começar em..." ele olhou o relógio de prata de design minimalista "cinco minutos."
A movimentação dos alunos começou e acabou num piscar de olhos. Com Neji não havia conversa mole e enrolação. Todos estavam preparados para começar. O moreno passou, distribuindo as provas com o semblante sério e calmo, e quando terminou, apertou o botão do cronômetro de seu relógio. "Podem começar."
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"Mirai disse que hoje o treino vai ser mais leve." Wasabi falou, colocando o top de ginástica. As meninas do time estavam todas no vestiário, andando para lá e para cá, pegando seus shorts, joelheiras e camisetas com nomes.
"Ótimo. Eu estou um caco." Sarada respondeu, puxando a meia até o topo das canelas. "Não queria ficar correndo e pulando sem parar." A técnica do time de vôlei, Mirai Asuma, era enérgica e exigente, e costumava elaborar treinos intensos para as meninas. Era pura sorte que naquele dia tivesse optado por algo mais relaxado, pois após sua noite mal dormida, corrida até a escola e uma prova super difícil de álgebra, Sarada simplesmente não estava em condições de fazer esforço físico.
"Nossa, está mesmo hein, Sara." Chocho falou, sempre abrupta em seus comentários. "O que te aconteceu? Acordou com o pé esquerdo?"
"Não... foi uma soma de coisas..." As outras meninas do time estavam prontas e saíam do vestiário. Sarada aproveitou a deixa para se inclinar mais para perto de Chocho e falar com privacidade. "Eu e Kawaki brigamos ontem." Ela sussurrou no ouvido de Chocho.
"Por que?" A amiga respondeu de volta num sussurro. Chocho acompanhou os dramas amorosos do casal desde início e sempre ajudava Sarada após discussões e desentendimentos, além de ser a vela oficial.
"Por causa do Boruto." Ela viu os olhos da amiga se arregalarem e a dúvida tomar-lhe a face redonda. Tratou de explicar. "Ele está com ciúmes porque Kakashi me mandou acompanhá-lo nos primeiros dias de escola. E..." ela se inclinou mais para perto. "Descobri que somos amigos de infância."
Chocho deu um pulo, boquiaberta. "Sarada, como assim?" Ela disse, alto. As meninas ainda presentes no vestiário olharam na direção das duas.
"Shhh... fique quieta. Não quero que ninguém saiba. Ontem cheguei em casa e minha mãe estava com duas amigas vendo um álbum de fotos antigo. Uma das amigas, por acaso, era a mãe de Boruto. Aparentemente nossos pais são amigos de longa data e nós convivíamos muito quando crianças, mas eu me esqueci." Ela explicou a situação, com Chocho ouvindo atentamente. "O problema é que Kawaki estava junto bem na hora em que elas mostraram as fotos. Ele já não estava gostando antes, agora deve estar odiando."
Chocho colocou a mão sobre a boca, chocada. Ela tomava ar para responder quando Mirai abriu a porta do vestiário e colocou a cabeça para dentro. "Ei, vocês duas! Vamos parar de fofocar! Está na hora do treino! Vamos, vamos!"
As duas levantaram num pulo, e enfiando os pertences soltos no armário metálico rapidamente, saíram para o ginásio. Sarada prendeu os cabelos que iam até o início das costas num denso rabo de cavalo, e pegou uma bola de vôlei que rolava lentamente próxima aos seus pés. Bateu a bola no chão algumas vezes, vendo a poeira do piso envernizado subir e brilhar em pequenas partículas sob a luz do sol.
"Meninas, hoje vamos treinar saque por cima. Podem se posicionar na linha de saque e começar. Vocês têm dez minutos." Mirai falou, e colocando na boca o apito que levava no pescoço, soprou com força.
Sarada olhou para a bola que segurava. Fez um movimento leve, como se fosse jogar a bola para cima. Precisava pensar em algo que desse força para sua batida.
Pensou em Kawaki, imaginou seu rosto emburrado na bola. Mas não conseguia sentir raiva dele, independente de sua falta de maturidade emocional e suas birras. Ele não tinha culpa de ser ciumento.
Pensou em Boruto, imaginou seu sorriso sarcástico. Mas era ele que tinha motivos para ficar com raiva dela, e não o inverso.
Pensou em Neji e em seu sorriso malicioso enquanto tirava pontos de todos os alunos em sua prova impossível.
Sorriu, sentindo a força vir para seus braços. Agora sim.
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Ela terminou de secar os cabelos com o secador, vendo seu reflexo no espelho. Estava se sentindo melhor após o treino de vôlei, e a ducha forte havia refrescado seu corpo. Chocho a intimou a dormir na casa dela no sábado e contar tudo que estava acontecendo, já que os gritos de Mirai não deixavam as duas fofocarem em paz durante o treino e havia muito o que comentar. Concordando, ela passou os dedos pelos fios negros, desembaraçando as madeixas, e deu uma última olhada em si mesma.
Estava pronta para conversar com Boruto.
Determinada, ela pegou suas coisas e saiu do vestiário à procura do garoto, despedindo-se de suas colegas de time. Talvez fosse uma boa ideia pegar o número dele e assim facilitar os encontros, ao invés de ter que ficar caçando pela escola. Teria que salvar o contato com outro nome, tipo Pizzaria, para o caso de Kawaki pegar seu telefone.
Ela soltou um muxoxo ao se lembrar do namorado. Ele não havia falado com ela o dia todo, e a essas horas era provável que estivesse treinando. Teria que resolver esse assunto alguma outra hora. De qualquer maneira, esse era um problema para a Sarada do futuro, a Sarada de agora tinha outras coisas para resolver.
Ela andou pelo complexo, cruzando os gramados verdes e bem cuidados. Mitsuki estava praticando alongamentos sozinho sob o sol suave da tarde. Ele era muito elástico e conseguia até mesmo colocar os pés sobre a cabeça e outras coisas que Sarada achava horríveis.
"Ei, Mitsuki."
"Oi, Sarada." Ele disse, puxando a perna atrás da cabeça. "Como vai?"
"Bem. Você viu Boruto por aí?"
"Vai continuar seu turismo escolar agora?" Ele brincou. "Acho que o vi indo para a piscina externa, mas já faz um tempo."
Ela agradeceu e tomou seu rumo até a piscina. Não havia aulas no momento, mas ao chegar, ela viu o Uzumaki sentado sobre a mureta contemplando as águas límpidas, fumando um cigarro.
"Oi, Boruto. Desculpe o atraso, demorei um pouco para te encontrar." Ela falou, se aproximando.
"Tudo bem." Ele parecia distraído. "Como você está?"
"Tudo bem. Olha, tenho algo para te falar." Ela recostou contra a mureta ao lado dele, olhando seus olhos de um azul límpido. Sentiu o coração palpitar com ansiedade. "Desculpe por não ter te reconhecido. Você deve estar achando que eu fingi ou algo do tipo, mas realmente não me dei conta de que era você." Ela ruborizou. "Lamento se fui rude ou indiferente, não era minha intenção. Espero que eu não tenha estragado nosso reencontro definitivamente."
Ele ficou parado, olhando para ela com uma expressão indecifrável.
"Bom... podemos começar de novo?" Ela perguntou, envergonhada. Estava começando a ficar nervosa com a falta de reação dele, temia uma explosão de raiva.
A expressão do loiro se iluminou quando ele abriu um largo sorriso, deixando seus dentes brancos à mostra. "Eu estou tão bonito assim que você não me reconheceu?" Ele disse, bem humorado. Ela sentiu o sangue ferver suas bochechas. Bom, pelo menos ele não era rancoroso.
"Acho que você está mais... alto?" Ela disse em resposta. "Você era menor do que eu! Agora já me passou em muito centímetros, por isso não te reconheci. Achei que você seria um tampinha." Ela brincou em resposta.
"Acho que já faz uns anos que eu te passei." Ele pulou da mureta, ficando em pé ao lado dela. Realmente se tornara bem mais alto do que a Uchiha após o estirão. "Mas tudo bem, Sarada. Eu confesso que fiquei um pouco decepcionado, mas o importante é que você lembrou. Vamos retomar daqui." Ele passou a mão pelos cabelos loiros, jogando a franja que teimava em cair sobre os olhos para trás. "Se não for te incomodar, gostaria de pular a sessão turismo hoje e ir tomar um café em algum lugar. Quero saber como você anda. Você me acompanha?"
Ela receou por um momento, pensando no que Kawaki diria se a visse sozinha com Boruto em um café. Tratou de afastar o pensamento: não estava fazendo nada de errado. E queria conversar com Boruto, saber sobre sua vida e o que havia feito nesses anos. Não que a proximidade de antigamente estivesse presente, mas seria legal saber como andava seu antigo melhor amigo.
"É claro. Acho que vai ser mais divertido do que visitar a biblioteca, afinal..."
"Podemos ir no meu carro." Ele falou, tirando a chave preta e emborrachada dos bolsos. "Assim você pode deixar sua bicicleta aqui e não corre o risco de cair e ralar o outro joelho." Ele alfinetou, com um sorriso de canto de boca.
Sarada ficou perplexa por um segundo antes de se envergonhar pela terceira vez em menos de dez minutos.
Ele realmente havia visto seu tombo triunfal.
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