Minha mãe disse que eu estava exagerando demais. Ela disse que a Bella não terminou comigo, que provavelmente estava extremamente estressada com a mudança repentina da família e acabou descontando em mim. Minha mãe também disse "Você já pensou como isso deve estar sendo terrível pra coitada da Bella?". Literalmente isso. Palavra por palavra.

Mas não importa muito o jeito que eu analiso a conversa que tive com a Bella, tenho certeza absoluta que ela fez mais que terminar comigo, ela pulverizou qualquer coisa que pudesse ter existido entre nós, fez questão de deixar bem claro que eu sou uma criança ingênua que não presta pra nada.

Se você quer saber, acho que estou exagerando de menos.

Acho que Bella fez tudo isso não por estar estressada como minha mãe acredita, mas pra me ensinar uma lição. Ela queria me mostrar que, não importa o que as caipiras habitantes de Forks acreditam, eu não era tudo isso. Foi uma aula de humildade.

Mas foi aí que ela errou, porque o que eu aprendi foi outra coisa completamente diferente. Depois de muito – muito, muito, muito mesmo – pensar, percebi que se uma pessoa é muito boa, se ela joga obedecendo às regras, ela tá fadada a se dar mal, enquanto aquele cara que tá pouco se fodendo se safa de absolutamente tudo.

Por que não foi isso que a Bella fez? Ela quebrou toda e qualquer regra que a família dela tinha imposto pra poder se envolver comigo, então pisou em mim e foi embora, completamente livre de qualquer responsabilidade. Eu? Tentei fazer o meu melhor pra deixar as coisas mais fáceis pra ela – na maior parte do tempo – não contei o segredo nefasto dela pra ninguém, levei ela no baile, abri a porta pra ela, tolerei a Rosalie – aquela gostosa – em todas as situações...

E o que aconteceu comigo?

E toda essa reflexão aconteceu enquanto eu encarava um carro. Não... Esse era o carro. O carro que eu quero dirigir desde que descobri o que era um carro. E o dono dessa coisa fabulosa estacionou num lugar completamente ermo e distante enquanto se escondia pelas sombras em busca de um traficante pra descolar uma maconha. Foi aí que decidi; a partir de agora, eu estou pouco me fodendo. Me incluí no grupo de pessoas que vai fazer o que der na telha e se dar bem no final.

"Jake" cutuquei as costelas dele com o cotovelo "Saca só."

Ele soltou um assovio longo de apreciação. "Viu? Por isso que eu ainda te chamo pra fazer as coisas, você fica igual um zumbi encostado aí por horas, de repente me mostra esse Impala da hora. 68?"

"67."

"Ah, igual o daqueles caras da série de fantasmas."

"O que?"

"Esqueci que você não vê TV."

Talvez agora eu devesse assistir TV, descobrir todas as referências que as pessoas fazem sobre todas as séries que eu não conseguia assistir porque estava exausto por tentar passar a noite em claro com... aquela que não deve ser nomeada.

Mas achei melhor não falar isso pro Jacob. "Vamo dar um rolê?" apontei o Impala.

Jacob olhou pro carro, então pra mim, então pro carro de novo e de volta pra mim "Você não tá falando sério."

"Mais sério que um ataque cardíaco."

"A gente não vai roubar um carro, seu demente."

"Não vai" concordei "A gente vai pegar emprestado. Se a gente devolver o carro aqui depois, não é roubo."

Jake me olhou desconfiado, acho que nem dá pra culpar ele, eu passei 3 dias em um estado vegetativo e a primeira coisa que resolvo fazer após a ressureição é arrombar um Impala 67 preto. "Você tem certeza?"

Não é exatamente um 'sim', mas já tá bom.

Antes que o Jake começasse a pensar e percebesse que ideia de merda era essa, fucei no celular e achei um tutorial na internet de como arrombar um carro, o que é mais uma prova de como tem gente filha da puta no mundo, e eu quero muito fazer parte desse grupo feliz.

"Na série que eu te falei," Jacob comentou, deslizando no banco, ele estava acelerado com a adrenalina "os caras donos desse carro carregam um monte de armas no porta-malas."

"Cabe um corpo no porta-malas desse carro." devolvi.

Ele me lançou um olhar horrorizado. "Por que você resolve me dizer uma coisa dessas agora? Vou ficar pensando que se o dono pegar a gente, ele tem até lugar pra esconder nossos corpos!"

"Eu disse que cabe um corpo no porta-malas."

Depois de um instante de pensamento profundo, ele me estendeu a mão "Então que sobreviva o melhor. Ou o mais rápido."

Apertei a mão dele e depois dos dois levarem alguns choques – isso era mais difícil do que parecia no tutorial –, conseguimos fazer uma ligação direta e já era.

É por isso que os caras maus fazem coisas ruins, por causa dessa exata sensação. Eu conseguia sentir o coração pulsando nas orelhas, o rádio estava tão alto que as batidas da música ecoavam no meu peito e o Jake ficava se pendurando pela janela gritando "Isso é demais!" dirigindo.

Na minha vez, agarrei o volante com mãos suadas e arranquei cantando pneu. Comecei a rir loucamente e o Jake sentou na porta, a parte de cima do corpo inteirinha pra fora gritando sem parar.

E foi então que eu ouvi.

Edward, para com isso a-go-ra!

Enfiei o pé no freio com tanta força que achei que o Jake tinha saído voando, mas ele só voltou pro banco rindo sem parar. "Seu filho da puta, achei que ia morrer!"

"Você ouviu aquilo?" perguntei, sentindo suor frio escorrendo pela minha nuca.

"Ouvi o que?"

"Você não ouviu aquela menina gritando?"

"Que menina?"

A menina que tinha a exata voz da Bella e que me mandou parar. Eu não posso dizer isso pra ele.

"Nada não."

Coloquei o carro na rua de novo, e ao mesmo tempo a voz recomeçou:

Meu Deus, Edward! Pelo menos olha pra onde você tá indo!

"Cala a boca, Bella."

"O que?" Jake gritou inclinando a cabeça pra mim.

"Nada!"

Não é nada, você vai se matar!

"Eu não to ouvindo você." resmunguei pra mim mesmo "Porque você nem está aqui, se bem me lembro, você disse que seria como se você nunca tivesse existido, então cala a porra da boca."

Só quando você criar juízo e parar com isso.

Acelerei. Afundei o acelerador até ele tocar o piso do carro, e o vento que passava pela janela aberta era tão forte que eu já não sentia mais a minha bochecha.

Diminui agora!

Eu nunca ouvi as vozes da minha cabeça, não vou começar agora.

Você enlouqueceu?!

Obviamente.

Você vai capotar esse carro! E depois vai preso!

Não vou não. Esse é um exercício exatamente pra evitar esse tipo de coisa, larga de ser burra, voz-da-Bella.

Você vai morrer!

A não ser que essa coisa de escutar sua voz seja um aneurisma que acabou de estourar, também não vou morrer.

Quando paramos de volta na vaga, Jacob desceu do carro completamente alucinado, dando gritinhos que me faziam lembrar daqueles caras escrotos de fraternidades que amassam latas de cerveja na testa, sorri pra ele e fiz sinal de joia, mas metade da graça já era graças ao meu cérebro defeituoso.

"Você, senhor, é demente" Jake constatou enquanto corríamos para longe da cena do crime "E se alguém descobrir?"

"Quem vai dedar a gente? Aquele guaxinim? Jake, meu amigo..." passei o braço em volta dos ombros dele e gesticulei pra demonstrar a grandiosidade da coisa "Isso é uma nova era."

"E isso é uma coisa boa?"

"Claro! Se a gente não for pego."

"E se a gente for?"

"Aí foi bom enquanto durou."

Jacob era mais novo que eu, mais cabeça oca se é que isso é possível, então a ideia de fazer idiotices e não ser pego era bastante atrativa. E eu era uma autoridade em fazer idiotices, agora era só aprender a parte de se livrar das provas.

E sim, estou deliberadamente ignorando 'a voz'.

Passei um dia inteiro de suspense, esperando algum policial saltar das sombras apontando uma arma pra minha cara e me prendendo em nome da lei, mas não.

É a prova de que o sistema funciona.

Entrei em uma loja de conveniência e enfiei duas latas de cerveja dentro da jaqueta antes de pegar dois pacotes de salgadinho e ir para o balcão, olhando o caixa no olho e sorrindo.

Por que você está fazendo isso? A voz idiota de novo. Derrubei algumas moedas no chão e tive que ajoelhar no chão. Isso é a coisa mais idiota que você já fez.

Pff... Nem de longe.

Paguei os salgadinhos e ainda acenei para o atendente antes de sair.

Nada. Nenhum raio veio dos céus e caiu na minha cabeça.

Encontrei o Jacob na praia de La Push e estendi uma das latas pra ele, que abriu e tomou um longo gole. Dei um passo para trás bem a tempo de ver a múmia cuspir tudo.

"Isso é cerveja?!"

"É."

"Você não tem idade pra comprar isso."

"É."

"Então isso é tipo... triplamente ilegal."

"É."

"E você não se importa."

"É."

"Então... É melhor eu beber e calar a boca?"

"É."

"Acho que eu gosto desse seu eu novo."

Nós ficamos bêbados com uma única lata de cerveja. O que é simplesmente patético e a gente vai ter que melhorar.

Só que por enquanto, já é bem divertido.

Nós passamos uns bons 15 minutos porque eu fui sentar em um tronco, errei e caí no chão. Foi engraçado, mas não tão engraçado assim, só que a gente simplesmente não conseguia parar.

E foi então que ele falou pra mim "Eu duvido que você se pendura naquela árvore."

A árvore em questão saia de uma pedra e os galhos passavam por várias outras pedras e terminavam no mar cinza e gelado.

É claro que eu fui.

Espera, o que?! Você viu aquela árvore?

Eu to bêbado, não cego.

Não, Edward. Não.

Sim, voz-da-Bella-na-minha-cabeça. Sim.

Quando cheguei na base da árvore, percebi que talvez, só talvez, essa não fosse lá uma boa ideia.

Jura? Jura que essa não é uma boa ideia?

Cala a boca.

Como você sobreviveu todos esses anos? Pessoas como você não chegam à adolescência.

Decidi ignorar, porque na minha família, é assim que os problemas somem.

Subir era mais difícil do que parecia nos filmes.

O que deveria ser mais uma boa razão pra você parar!

MAS (!) eu sou persistente e continuei.

"Ei, cara!" Jake gritou "Eu mudei de ideia, não duvido mais de nada, você é maluco!"

Eu concordo.

"Ah que ótimo!" gritei de volta "Agora vocês dois se uniram!"

"Quem?"

Ele não pode me ouvir, gênio.

"CALA A BOCA!"

"Tá, tá, não precisa ser um escroto."

"Não você!"

Isso tá começando a ficar difícil... Em todos os sentidos, já que minhas pernas simplesmente travaram em volta do tronco e eu não consigo me mexer. Na verdade meus músculos das coxas estão tremendo muito, e talvez dê pra considerar isso como 'se mexer', mas no geral? Eu estava bem preso.

Eu te disse.

Não, você nunca disse nada sobre eu ficar preso.

"Eu to com frio, minha cabeça tá começando a doer e isso não tem mais graça!" Jacob reclamou e eu percebi porque dar cerveja pra menores não é uma boa ideia "Desce daí!"

"Tá!"

Teve um longo segundo de silêncio em que o único barulho do mundo era o vento assoviando no meu ouvido, então o Jacob estragou tudo "Você não consegue descer, né?"

"Não."

"Tudo bem..." ele deu a volta até ficar no meu campo de visão e o sorriso dele era enorme "O coala humano!" ele declarou, puxando o celular do bolso "Dá um tchauzinho pra sua mãe, ela vai te ver no Youtube daqui a pouco."

"Vá se foder!"

É só você relaxar, não olhar pra baixo e descer.

Olhei pra baixo. O mar estava cinza – acho que o mar daqui sempre estava cinza – e as ondas quebravam lentamente contra a pedra.

Edward, o que você pensa que vai fazer?

Soltar as mãos foi a parte mais assustadora, mas sentir o corpo caindo compensou completamente. Dei impulso com as pernas pra ajudar, me distanciando ainda mais da árvore, o mundo girou além do eixo e de repente eu estava dentro da água mais gelada da história do planeta.

A adrenalina pulsava pelas minhas veias e o único barulho além das ondas era o meu próprio coração batendo. Sem vozes, sem... nada. Era perfeito.

Acenei pro Jacob que estava tão animado na praia que só faltava dançar.

"ISSO FOI DEMAIS!" ele berrou, praticamente quicando dentro da própria pele enquanto andávamos.

Sorri com os dentes batendo, por que é... foi demais mesmo.

Jake empurrou meu ombro com o dele e fez uma careta quando a jaqueta dele ficou com uma mancha molhada "TEM CERTEZA QUE NÃO QUER PASSAR EM CASA PRA PEGAR UMA ROUPA?"

"Para de gritar, Mogli!"

"NÃO DA! AQUILO FOI MUITO LOUCO!"

"Se isso tudo foi só por causa de uma cerveja eu não vou deixar você se drogar nunca. Nunca."

"EU SEI QUE VOCÊ TÁ FALANDO ALGUMA COISA PRA ME ZOAR, MAS EU NEM LIGO!"

Isso é bom. Eu preciso disso: amigos. Amigos malucos que não fazem ideia de como minha cabeça está bagunçada e de como meu peito dói às vezes. Amigos normais.

Amigos homens.

Acho que não tenho psicológico pra lidar com uma mulher além da minha mãe agora.

E falando sério agora, olha esse moleque. Nunca vi o Jacob tão feliz, ele obviamente precisa de uma má influência na vida.

"É, mas na próxima, você pula na piscina de gelo" reclamei sem muita vontade e ele riu.

"A culpa não é minha se você sempre cai-" ele se interrompeu e olhou em volta com uma cara engraçada "Sua moto não tava aqui?"

Minha moto estava ali. Agora só tinha marcas de pneu na areia.

Nem pensei, só saí correndo na mesma direção das marcas, eu sabia que o Jake estava gritando pra eu esperar, mas não dava. Nenhum filho da puta ia levar a minha moto.

Você sabe que existe polícia pra cuidar disso, não sabe?

Quando avistei a moto e o ladrão, me joguei em cima dele, pulando na cintura, igual àqueles jogadores de futebol americano e descobri que essa é outra coisa que parece muito mais fácil nos filmes.

Sai daqui, Edward! É só uma moto!

Rolar no chão no meio de um monte de folhas secas quando sua roupa tá completamente molhada também não é uma coisa que eu recomende.

E do nada eu tinha uma coisa pesada em cima de mim me prensando no chão, terra cobrindo os meus olhos e uma sensação de morte eminente na boca do estômago.

Respira. Você precisa respirar.

"EI!" demorei um segundo pra perceber que a voz estava vindo de fora da minha cabeça "Leah, solta ele!"

"Leah?" repeti por que, né? Leah. "Você é mulher?" tentei abrir um olho por entre toda a terra e pedaços e folha e só consegui enxergar cabelo liso e preto.

"É esse o tipo de gente que você tá andando agora, Jacob?" a voz era de mulher mesmo "Ele acha que eu sou homem!"

"Bom..." o Jake soou bem perto "Não dá pra culpar o cara."

"Você é mulher e roubou minha moto?" eu precisava perguntar por que, cara... LEAH.

"Ele bateu a cabeça?" a Leah perguntou.

"Não, não... Ele é assim mesmo."

De repente não tinha mais nada em cima de mim e eu consegui sentar e limpar os olhos só pra encarar o Mogli e a Sacagawea.

"Você é mulher." constatei inteligentemente.

A cara da Sacagawea torceu inteirinha com raiva, mas o Jake deu um passo pra frente e entrando no caminho dela.

"Leah, você acabou de roubar a moto dele, fica na boa."

"Eu não roubei, só queria fazer vocês andarem."

"Ah, então tá. Se era só pra ferrar com a gente não tem problema."

"Jake?" chamei atraindo os olhares dos dois.

Jacob me ajudou a levantar e nós três trocamos olhares constrangidos.

"Bom..." Jake deu de ombros e apontou pra mim "Edward Mansen," então pra ela "Leah Clearwater."

"Leah." repeti de novo.

"Ele é retardado?" ela perguntou pro Jacob que deu de ombros de novo.

"Às vezes."


N/A.: Podem começar a tacar as pedras... Eu sei que vocês vão.

Mas eu não consegui resistir.

Mudando de tópico, eu abri um Tumblr, percebi que não sei mexer naquela budega, mas to fazendo aquele esquema de alguém me mandar uma ideia de fic e eu escrevo uma ceninha ou até uma one (em inglês chama prompt, não faço ideia de como traduzir), então se vocês estiverem afim podem me mandar, mas não me sigam, só rebloguem e/ou clica lá no coraçãozinho, pq meu tumblr é super chato!

Ah é! Feliz Natal atrasado!