The Sun Also Rises
Capítulo 2: Now we're broken on the floor.
Chovia profusamente desde que Hermione voltara. Não que ela desaprovasse a chuva primaveril de algum modo, era realmente refrescante e agradável. Essa sensação, porém, vinha a um preço: com os terrenos encharcados em torno d'A Toca, a casa se tornara abrigo permanente de todos os seus habitantes, e a tensão crescia a cada encontro de olhares nas escadas, na companhia silenciosa na sala e até nos lanches fora de hora pela cozinha.
Os pais de Hermione tentavam ao máximo se manter impassíveis diante do clima tenso em torno deles, mas aparentemente até o fato de eles estarem ali era delicado para os Weasley: com a chegada do casal, Charlie concordou com a mãe que seria melhor se deixasse seu quarto para eles e dividir o mesmo cômodo que George.
Aquela decisão chocou os demais, George era o único que deliberadamente não se pronunciara desde o enterro do irmão gêmeo. Seu voto de silêncio não era discutido, por motivos óbvios, e ninguém o incomodava. Todos esperavam que ele se incomodasse pela companhia de Charlie, entretanto- para mais uma surpresa da família -, ele apenas deu de ombros, retornando a seu esconderijo sob os cobertores.
Porém, o que mais angustiava Hermione no momento era não conseguir tempo e espaço para falar com os pais. Conversar era quase um tabu naquela casa, e não seriam os Granger a quebrá-lo. De qualquer forma, concluiu Hermione, dobrando seu suéter distraidamente em sua cama de armar, haveria tempo. Agora haverá tempo.
Seus pensamentos foram interrompidos por um berro raivoso. Seria normal em outras ocasiões, mas naquele momento era como se um crime tivesse sido cometido. Hermione franziu a testa, levantando-se rapidamente para andar em direção ao corredor. Os gritos eram ininteligíveis, mas sem dúvida pertenciam a Ginny. Lembrando-se de que ela acabara de subir para o quarto de Ron com Harry em seu encalço, Hermione mordeu o lábio em preocupação.
Ron surgiu do andar de baixo, assustado. A garota pôde ouvir mais passos atrás dele, o que sugeria que o resto da família também se alarmara. A cabeça de Molly Weasley podia ser vista por baixo do braço do filho mais novo, que começava a expressar sua confusão em relação ao que poderia estar acontecendo:
- O qu-?
Não foi necessário, porém, que ninguém subisse ou perguntasse nada, pois Ginny desceu as escadas com pressa, os olhos tão flamejantes quanto os cabelos. Hermione entrou no quarto rapidamente, permitindo que a amiga passasse. A Sra. Weasley se adiantou em direção a garota.
- Ginny, o que ho-
- Ah, me deixem em paz, todos vocês!
Antes que Hermione pudesse piscar, Ginny voltou à porta, fechando-a com estrondo diante da mãe para, com a mesma velocidade, retornar à cama e afundar a cabeça no travesseiro.
O silêncio que se seguiu não era algo a que Hermione pudesse se adaptar. Ginny simplesmente se deitou e, pelo que pareceram séculos, não se moveu. Resolvendo encarar como um bom sinal o fato de não ter sido expulsa do quarto, Hermione se sentou ao lado da amiga e esperou.
O relógio tiquetaqueando parecia ser o único som emitido na casa. Molly aparentemente engolira o desaforo da filha, mas estava claro que ela ainda aguardava do lado de fora, talvez na esperança de descobrir o que se passava. Foi apenas quando os passos se distanciaram da porta de quarto, dez minutos depois, que Ginny resolveu se virar e encarar Hermione.
- O que houve, Gin? - perguntou Hermione, aliviada por finalmente poder fazer algo a respeito.
Ginny suspirou, sentando-se na cama. Aos poucos os olhos dela recuperavam o aspecto raivoso, fazendo a amiga se endireitar, esperando pela explosão que sabia que viria.
- É o Harry, ele - começou Ginny, a voz aguda. Ela parou, contendo a respiração. - Ele não me deixa em paz! Fica o tempo todo em cima, querendo saber como estou, se preciso de alguma coisa. Mas é claro que eu não estou bem! O que ele quer que eu responda? Ele não me deixa respirar!
Hermione encarou a jovem e enfurecida ruiva à sua frente, estarrecida. Ela sempre soube que Ginny era independente e fazia questão de demonstrar isso a todos, mas ela nunca pensou que aquilo podia se voltar contra Harry.
- Gin, eu tenho certeza de que ele só quer-
- Me ajudar? Hermione, ele não entende? Eu sei o que aconteceu, não preciso ser lembrada toda vez que ele me pergunta como estou - a voz de Ginny falhou e por um momento Hermione achou que ela desabaria. Mais uma vez, porém, ela recuperou o vigor. - Essa casa, tudo... Tudo me lembra ele. Lá, na guerra, eu não podia parar, eu não podia... Ver Fred... Era...
A menção do nome do irmão foi o limite, e as lágrimas finalmente venceram a batalha. Hermione se aproximou rapidamente de Ginny, abraçando-a. A ruiva soluçou por alguns momentos, e manteve a cabeça baixa até que tivesse confiança na própria voz novamente. Por alguns segundos, Hermione pode ver a pequena Ginny Weasley, assustada e infeliz, e seu coração se apertou.
- Eu sei que Fred não está mais aqui. Eu nunca me deixei enganar. Mas eu não posso, não quero parar. Fred não iria querer isso. Nada disso - a ênfase de Ginny deixou claro à Hermione que ela não se referia mais apenas a si mesma. - Mas o Harry acha que eu estou me afundando na dor enquanto eu estou tentando tanto superá-la.
Mais um silêncio se sobrepôs, enquanto Ginny limpava as lágrimas e se levantava em direção à sua penteadeira. Hermione continuou em seu lugar, pensativa.
- Às vezes eu queria que a gente se entendesse tão bem quanto você e Ron se entendem, sabe - Ginny confessou repentinamente, sentando-se em frente ao espelho e escovando os brilhantes cabelos lentamente. - Vocês se entendem tão bem e compreendem o espaço um do outro. É de dar inveja, às vezes. Só faltam ficar juntos, na verdade.
Hermione corou profundamente, parecendo muito interessada no pôster das Holyhead Harpies. Ela ainda não encontrara brecha para contar à Ginny sobre o beijo. O momento nunca pedia, e ela não achou que fosse necessário contar tão logo. Agora, porém, parecia a ocasião perfeita.
- Na verdade, Gin...A gente, erm, se beijou.
Ginny se virou tão rapidamente que a escova voou de suas mãos, batendo com estrondo no armário de madeira. Seus olhos estavam arregalados, e ela voltou à cama como se estivesse hipnotizada.
- O qu- Quando? - indagou ela, boquiaberta.
- Depois que pedimos a você que saísse da Sala Precisa. Foi um tanto impulsivo, mas...Bem, nos beijamos - contou Hermione, apertando as mãos nervosamente.
E pelo que parecera a primeira vez em muito tempo, um sorriso verdadeiro surgiu nos lábios de Ginny. Ela segurou as mãos da amiga com força, Ee toda a tensão de momentos atrás se dissipara.
- Finalmente! Eu não acredito! Bom, de qualquer forma, isso só reforça o que eu estive dizendo. Eu não vejo você em cima do Ron o tempo todo, e é esse espaço que me faz falta. Na verdade, se você não tivesse me dito, acho que nunca descobriria o que aconteceu.
Hermione franziu a testa ligeiramente. Será que era isso? Os momentos entre ela e Ron sempre pareciam durar ridiculamente pouco, porque ela sempre imaginou que ele precisasse realmente desse espaço. Será que ela estava sendo negligente demais? E se Ron estivesse chateado com ela?
- Hermione? - chamou Ginny, apertando as mãos da amiga novamente. - Você tá me ouvindo?
- Hã? Ah, desculpe, Ginny, o que foi? - Hermione piscou várias vezes, retornando à realidade.
- Eu perguntei se você acha que eu devia explicar isso ao Harry. Pensando agora, acho que eu exagerei um pouco com ele. Ron estava para sair com papai para o Ministério, então acho que vou voltar ao quarto dele para conversar melhor com o Harry. O que você acha? - perguntou Ginny, muito mais calma do que estivera em qualquer momento desde que voltara para casa.
- Eu acho que você devia fazer isso, mesmo, Gin. Harry pode ser incrivelmente lento às vezes - zombou Hermione com um meio sorriso.
Ginny riu suavemente, dirigindo-se à porta. Era como se o mundo lá fora não existisse. Não havia tristeza ou agonia, apenas aquele momento feliz entre amigas. No momento em que aquela porta se abrisse, porém, a realidade voltaria a atingi-las com toda a força.
- Eu sei - disse Ginny, abrindo a porta e saindo escada acima.
A porta se fechou, e Hermione desabou em sua cama de armar. Precisava falar com Ron e esclarecer tudo aquilo. Lembrou-se do que Ginny dissera sobre Ron ter saído para o Ministério e suspirou. Amanhã, pensou, encarando a janela onde o céu nublado escurecia cada vez mais e a noite se sobrepunha ao sol velado pelas nuvens cinzentas. Amanhã nós conversaremos.
-x-
Não sabia há quantas horas observava as gotas de chuva golpearem a janela da sala. Havia desistido de dormir quando o dia começava a clarear e desde então estava sentado naquela poltrona, encarando os jardins com um olhar vazio.
Desde que Hermione havia voltado para A Toca poucos dias atrás, ela e Ron não haviam trocado mais do que meia dúzia de palavras. Isso o incomodava mais do que ele gostaria, e não podia deixar de se sentir egoísta por estar preocupado com uma coisa tão pequena em um momento como aquele. Também não podia evitar que seus pensamentos vagassem para ela, porém. E definitivamente não poderia deixar de imaginar se ela não estava propositalmente afastada. Arrependida, quem sabe.
Tentou espantar os pensamentos com um meneio da cabeça. George e Percy mal deixavam seus quartos, sua mãe parecia pior a cada dia e os gritos de Ginny da tarde anterior ainda pareciam ecoar pela casa. Havia muitas coisas mais importantes com as quais se preocupar agora. Pensar em por que Hermione estava distante parecia demasiadamente fútil em meio à todo resto.
Passos rápidos seguidos por uma porta batendo o sobressaltaram. Antes que Ron pudesse procurar pela causa do barulho, Charlie passou em frente à janela que ele encarava. Ficou parado por alguns instantes, perguntando-se se deveria apenas deixá-lo sozinho, mas o irmão respondeu sua pergunta muda quando se dirigiu a uma mesa do quintal e, com um urro, chutou-a para longe. Pôs-se de pé em um salto e direcionou-se para o quintal em passos largos e rápidos, derrubando algumas coisas pelo caminho. Não fazia sentido evitar o barulho, àquela altura.
Quando Charlie voltou a entrar em seu campo de visão, a mesa jazia a um canto, parcialmente destruída, e agora ele se ocupava com a cadeira que acabara de lançar alguns metros no ar. Ignorando a forte chuva, Ron deixou a proteção da casa e atravessou o quintal em direção ao irmão. Estacou a alguns metros de distância e precisou se abaixar para evitar um vaso que voava diretamente para sua cabeça. Constatando que era seguro, fez menção de continuar sua caminhada, mas uma mão o segurou pelo ombro, fazendo-o parar. Bill estava em pé ao seu lado, observando Charlie com uma expressão meio indefinida.
- Deixa. Eu vou.
Ron não saberia dizer o que ele estava fazendo ali ou quando havia chegado do Chalé das Conchas, mas estava grato por Bill estar ali. Ele sabia lidar com Charlie melhor do que ninguém. Assentiu brevemente e deu um passo para trás, dando passagem para que o irmão seguisse em frente. Bill aceitou a deixa e, após um leve aperto no ombro de Ron, partiu em direção a Charlie.
As coisas continuaram a voar e serem destruídas, mesmo com a aproximação de Bill. Ron não tinha uma visão boa o suficiente para saber se ele estava falando alguma coisa, e a chuva impedia que sons mais baixos se propagassem. Passaram-se alguns instantes até que Bill avançasse contra Charlie e arrancasse um pedaço de madeira de sua mão. Charlie tentou alcançar mais alguma coisa para destruir ou atirar, mas Bill novamente interrompeu seus planos e, com um empurrão, afastou-o da roda de objetos despedaçados que ele havia criado. Charlie começou a gritar coisas das quais Ron só distinguiu uma palavra ou outra, como quadribol e injusto, e, na ausência do que destruir, começou apenas gesticular bruscamente.
Ron não conseguia mais encarar aquilo. Por mais que quisesse estar presente e ajudar os irmãos e os pais, simplesmente não conseguiria entrar em outra conversa sobre Fred. Não aguentaria fingir outra vez que estava tudo bem, ou que tudo ia ficar bem. Parte de si queria se juntar a Charlie e destruir o que restava do jardim, e não sabia distinguir exatamente o que o impedia de fazer isso ou quanto tempo permaneceria forte o suficiente para sustentá-lo.
Com passos vacilantes, retornou para dentro da casa. Poças d'água acompanhavam seus passos e só então Ron percebeu que estava completamente encharcado. Os fios ruivos estavam colados em seu rosto e partes do pescoço, sua camisa estava completamente grudada ao corpo e em outros tempos sua mãe estaria gritando e brigando por causa da sujeira; mas Ron não se importou, seguiu até a mesa e se atirou em uma cadeira.
Ainda ouvia Charlie gritando do lado de fora, embora parecesse incrivelmente distantes por causa chuva. E ouvia isso e nada mais, porque a casa continuava mergulhada num silêncio mórbido. Um silêncio que o incomodava tão profundamente que o fazia querer se levantar e berrar junto com o irmão mais velho. E quebrar, chutar, xingar, atirar, fazer qualquer coisa que quebrasse aquela inércia, aquela rotina, aquele silêncio.
Chegou a se levantar da cadeira e só não a jogou no chão porque uma voz o interrompeu. Tímida, baixa, apenas um "Hey".
Hermione o encarou sem dizer mais nada, e Ron percebeu que, como poucas vezes, ela não sabia o que falar. Ele a encarou de volta, concluindo que não precisava tanto assim de palavras. Sem abrir a boca, ela se aproximou e segurou sua mão, entrelaçando seus dedos e puxando-o levemente. Ron apenas se deixou levar até a sala e depois até o sofá, e obedeceu quando ela indicou que ele sentasse. Ela parecia inquieta. Imaginou que não saber o que fazer deveria estar testando todos os nervos dela, e isso quase o fez sorrir.
De repente, todas as preocupações sobre a distância entre os dois desapareceram. A casa não parecia mais tão silenciosa e Ron não se sentia mais tão sufocado. Sentia-se até meio piegas de notar como a simples presença de Hermione conseguia distraí-lo do resto do mundo. Talvez estivesse buscando distrações mais do que normalmente faria, mas Hermione definitivamente era melhor do que encarar gotas de chuva.
- Ron, eu...
Ele imaginou que ela ia dizer que sentia muito ou outro consolo qualquer, mas não esperou pra saber. A última coisa que viu foram os olhos dela se abrindo em surpresa a sua aproximação repentina, então deixou que os seus se fechassem e a beijou. Infantilmente, apenas pressionou seus lábios contra os dela, levando uma das mãos aos seus cabelos. Afastou-se antes mesmo de ter a oportunidade de aprofundar o beijo.
- Não foge mais de mim, ok?
Ela assentiu, sorrindo timidamente. Ron não pôde deixar de achar engraçado que depois de tudo ainda ficassem envergonhados um com o outro.
Sorriu antes de beijá-la outra vez e por um instante teve certeza de que estava tudo bem.
Nota da Moon: Eu quero matar a Fernanda, ela me enche o saco o dia inteiro e ainda me culpa por tudo. Mas acho que é porque a gente tá entrando nos personagens e tal, então isso é bom, I guess. Queria agradecer à filhinha Teka pela betagem e ao meu iTunes pela trilha sonora angst e um beijo pra você, Xuxa!
Nota da Nanda: -dary! Ok, talvez nem tenha sido, mas eu tava louca pra ver a Ginny chutando o Harry 8D Eu sou uma HG estranha, me deixem. E só queria dizer que me vinguei com estilo e fiz a Moon postar uns bons dias com negrito, MUAHAHAHAHA. (e que nunca mais vou fazer isso, porque né, eu também fiquei postando com negrito e isso é MUITO RUIM) Um beijo pra Tekinha linda, que betou a fic. Daddy loves you ;* E fiquem todos com a tiny ball of light que diz hey hey hey!
