Não chore sobre o café quente derramado

— Quantas vezes eu preciso dizer para você não usar desinfetante de lavanda nesse chão, Ino?! — a morena praticamente gritava, com histeria.

—Desculpe-me senhora, isso não vai voltar a acontecer. — replicou, tentando manter uma expressão neutra em seu rosto, uma tarefa nada fácil.

A Uchiha respirou fundo, fechando e abrindo as mãos repetitivamente, era dia quinze, quarta-feira e os ânimos da mulher de Fugaku estavam bastante acirrados desde o incidente envolvendo a discussão com a empregada, na semana passada. Ainda não conseguia se conformar com o fato de Sasuke ter agido em defesa da loira, quando estava noivo da futura medica. O filho normalmente não tinha o habito de se intrometer, o que levou sua enxaqueca á um novo patamar.

—Eu preciso que a casa esteja impecável essa noite. — avisou a dondoca, que tinha acabado de chegar do salão de beleza. — Vamos receber uma convidada muito importante, por isso você também deve estar impecável. — ela segurou o queixo da loira, fitando-a diretamente nos olhos. — Coloque o uniforme vermelho essa noite e também a sapatilha de salto.

A loira pensou em dizer que preferia ficar descalça a usar aqueles calçados de velha, mas conteve-se em sorrir falsamente para a mais velha.

—Como queira, senhora. — fez uma pequena mesura.

—E ah — Mikoto estalou os dedos, parecendo se lembrar de algo. — Depois nós acertamos os detalhes das suas férias. Fugaku e eu pretendemos ir a Riviera Francesa, e felizmente as datas acabam coincidindo.

Ino sorriu, agora com genuína satisfação. Graças a Deus! Era tudo o que ela estava precisando. A palavra férias soou como musica aos seus ouvidos. Ela observou a patroa lhe sorrir antes de virar as costas e desatar a subir os degraus da escada, a Yamanaka lutou persistentemente contra o seu ímpeto de gritar. Mal podia acreditar que depois de tantos anos, finalmente tiraria umas férias demoradas daquele lugar inóspito e sem vida! Sentiu-se imediatamente revigorada. Com esse pensamento, ela voltou aos seus afazeres, precisava deixar tudo em perfeita ordem antes de voltar a delirar com os possíveis destinos. Claro, ela sabia que precisava juntar dinheiro para mudar de cidade e até mesmo de país – gostaria poder voltar ao seu país de origem –.

Depois de ter varrido toda a sala, com a ajuda de Chouchou, cuja melhor devia a inúmeros antibióticos, a loira deslocou-se até a cozinha para preparar o lanche do casal Uchiha.

—Ei, Ino. — a voz de Karui soou atrás de si, ela afastou-se do fogão momentaneamente para encarar a angolana de belos olhos cor de âmbar. — Será que você podia levar o café ao escritório do senhor Itachi? Eu não estou em condições de subir as escadas hoje. — confessou, com um sorrisinho culpado.

Com uma sobrancelha arqueada, a Yamanaka permitiu-se sorrir com malícia.

—Eu levo sim, não se preocupe. Mas você e o motorista deveriam dar uma pausa nesses amassos — ela riu, baixando gradualmente o tom de voz para que não corresse o risco de ser escutada por outra pessoa. — Qualquer hora, um dos Addams vão flagrar vocês e já sabe...Olho da rua com uma mão na frente e outra trás — a alertou.

Karui gargalhou, incapaz de se conter.

—Seremos mais cuidadosos na próxima, não se preocupe. — e então interrompeu-se, para analisar o que a amiga estava fazendo. — Deixe-me adivinhar, esse lanche é para o casal mirim de monstros?

—Precisamente. — respondeu afirmativamente. — desligando a boca do fogão. — Eles estão na área da piscina, para variar.

Alguns minutos depois, Ino subia os degraus da escada segurando a bandeja com o bule e a xícara, e guardanapos. Contando mentalmente os degraus para não cair acidentalmente, enfim chegou aos corredores,andando a passos rápidos, parou subitamente frente a uma enorme porta marrom escura. Bateu três vezes, somente para descobrir que a porta estava entreaberta, ela então colocou a cabeça para dentro do cômodo, deparando-se com o primogênito Uchiha sentado numa poltrona de couro preto, conversando em um perfeito sotaque francês com algum dos seus sócios. O homem, absorto em seu telefonema, demorou alguns minutos para perceber a sua presença, quando o fez, ergueu a cabeça, parando de falar subitamente e indicando com os dedos que ela deveria se aproximar.

Relutante, adentrou a sala cuidadosamente, marchando em direção ao imponente homem, na metade do caminho, porém, Ino tropeçou no tapete, caindo lentamente, derrubando a bandeja com o bule e a xícara; o café entornou nas calças do moreno, que exclamou um palavrão em voz alta.

—Caralho!

—Puta merda, me desculpe, me desculpe, foi sem querer — pedia incessantemente, com desespero enquanto tentava inutilmente limpar o manchado da calça com o guardanapo. Houve um demorado e tenso minuto de silêncio entre os dois, enquanto Itachi mantinha os olhos fixos sobre as mãos da empregada, que estavam em um lugar bastante especifico.

Mortalmente embaraçada, a Yamanaka rapidamente afastou a mão ao perceber que tocava no membro do moreno. Pequenas gotas de suor deslizaram de seu rosto meigo, enquanto ela balbuciava desculpas tremulas, limpando a própria testa.

—E-eu sinto muito, senhor Itachi...Eu estou tão constrangida... Merda... Eu vou, e...

—Saia da sala. — ordenou, com a voz ofegante e trêmula. A loira ergueu a cabeça, timidamente para encará-lo cara a cara. Ela engoliu em seco ao ver os olhos negros e de maneira discreta, o rosto do homem também transpirava gradualmente. Ela levantou-se rapidamente, ainda bastante envergonhada. — Tranque a porta. — ele prosseguiu, num tom de voz grave e rouco.

Sem virar-se para encará-lo uma ultima vez, a loira correra em disparada até a porta, assentindo loucamente, mas não sem antes dizer.

—Por favor, não me demita, foi um acidente. — suplicou, tendo ela chegado ao corredor, batera a porta do escritório com força atrás de si, respirando com dificuldade, enquanto corria para as escadas.

Dentro do escritório, Itachi soltou um urro, com os dentes semicerrados, o corpo estava suado e as mãos tremiam; ao seu lado, o gancho do telefone estava pendurado, entretanto aquilo não era importante. Retirou a gravata, jogando-a longe enquanto voltava sua atenção para o terno e a calça, ambos manchados. "Puta que pariu!" exclamou em pensamentos, soltando um gemido, fechando os olhos com força, lembrando-se da expressão da empregada e principalmente das suas mãos pequenas e delicadas...

Oh, merda.

Ela não vira seu patrão desde o incidente em seu escritório, e para completar a sua humilhação, cruzou com a esposa do mesmo no corredor. Com a cabeça baixa, Ino fez um cumprimento educado com a cabeça, dirigindo-se a passos rápidos para seu quarto,nos fundos.

—Empregadinha! — Izumi chamou-a, forçando-a parar de andar subitamente. Pigarreando, Ino mordiscou os lábios, ainda bastante tensa, todos os músculos de seu corpo estavam endurecidos e a possibilidade de ter seu salário descontado no fim do mês era angustiante. Merda, deveria ser mais cuidadosa, contudo como ela poderia adivinhar que no meio da sala havia a porcaria de um tapete dobrado?!

—Sim, senhora? — perguntou com relutância, imaginando que a mulher viria anunciar-lhe a demissão ou talvez, pior ainda, o desconto.

—Você viu o meu marido? — os olhos da castanha estavam postos sobre ela, de maneira inexpressiva.

—Ele está no escritório, senhora.

—Oh. — Izumi pareceu surpresa por um momento. — Acabo de bater na porta e ele não me respondeu — ela parecia estar mais falando consigo do que com a loira, por isso a Yamanaka não se dera ao trabalho de responder. — Bem, acho que ele não me ouviu — deduziu, franzindo o cenho. — Traga-me um suco natural de laranja com bastante gelo e uma fatia daquela torta de maçã que o Sasuke tanto adora.

—Não querendo ser intrometida, senhora, mas o senhor Sasuke disse-me para não deixar ninguém tocar na torta.

—E você por acaso está vendo o senhor Sasuke por aqui, garota? Além disso, você tem tempo de sobra para fazer quantas tortas aquele cretino te mandar. — piscou-lhe, em falso tom de cumplicidade e logo voltou a estalar os dedos, dirigindo-se ao quarto que dividia com o marido. — Vamos, empregadinha, o bebê está com fome.

A loira crispou os lábios, limitando-se a apenas a balançar a cabeça em afirmação, enquanto andava a passos rápidos até a cozinha.

—Garota! — a voz de Mikoto soou atrás de si, forçando-a fazer uma careta. — O que eu disse a você? — questionou em tom arrogante, tirando das mãos dela a colher de pau e a vasilha em que começaria a fazer a massa da torta. — Deixe a cozinha para as Akimichi, você, Ino, será a nossa garçonete oficial essa noite. Logo deve estar tão apresentável quanto o resto da família! — empurrando-a, de maneira indelicada, a conduziu de volta até os corredores. — Seja uma boa mocinha e tome banho, não fique muito cheirosa é horrível comer comida com gosto de perfume. Apenas fique limpa e ajeitadinha.

—Sim, senhora. — respondeu em tom cansado.

—Mas que choramingo é esse? Você deveria estar feliz, não faz idéia de quem irá servir essa noite! — cantarolou a megera alegremente. — Entendeu tudo o que eu disse, não? Faça isso direito, e conversaremos mais cedo sobre as suas férias adiantadas.

—Sim, senhora. — em seguida ela andou a passos rápidos, quase furiosos, até seu pequeno 'alojamento'.

Ou, como Shino gostava de descrever, sótão. Não ficava exatamente no sótão, menos ainda no porão (se é que aquela casa tinha, aliás) entretanto era tão pequeno e longínquo dos demais cômodos da casa, que a impressão que passava era essa. Dentro do cômodo, havia uma cama de solteira, o guarda-roupa e a janela ficava bem no alto, para dificultar a entrada de possíveis "namoradinhos".

Ino retirou a touca do cabelo, soltando-os momentaneamente. Passou as mãos pelos longos fios dourados, bagunçando-os por um segundo antes de suspirar dramaticamente. O que mais faltava lhe acontecer naquele dia? Virou-se rapidamente, para fechar a porta do quarto e então dar início a sua produção.

Os únicos pontos positivos daquele cômodo, era o banheiro privativo que ela possuía, adentrou o mesmo, já se despindo sem cerimônias.

Itachi passou a língua pela parte superior do lábio, completamente estressado. Olhou-se demoradamente no espelho enquanto terminava de abotoar os botões da sua camisa pólo. Os pensamentos volta e meia recaiam, incessantemente, sobre o episodio de horas antes, em seu escritório. Fechou os olhos com força, tentando varrer a imagem de Ino ajoelhada para longe da sua cabeça; em vão.

—Merda. — murmurou, tirando o rolex de seu pulso e o jogando longe. Sua esposa, que acabava de adentrar o quarto, o encarou com as sobrancelhas estreitas.

—O que aconteceu, amor? Você parece tão nervoso! — a morena aproximou-se a passos rápidos, tencionando tocá-lo nos ombros, contudo ele esquivou-se.

—Não estou tendo um bom dia, apenas isso. — e esfregou o rosto com as mãos, recusando-se a encará-la diretamente nos olhos. Abriu sua gaveta, em busca de uma fivela para seu cinto. Sua mãe era bastante exigente quanto às aparências dos filhos. Ainda mais em jantares de importância como aquele. — Olhe o estado dessas fivelas — comentou em voz alta, chamando a atenção da morena.

—Estão realmente lastimáveis. — observou Izumi. — Quer que eu ordene a empregadinha para poli-las?

—Isso não será necessário, eu mesmo o farei. — garantiu tranquilamente, amaldiçoando-se a si mesmo pelos pensamentos impróprios que passaram pela sua cabeça.

À hora do jantar inevitavelmente chegou. E as oito e quinze, os convidados tão ansiosamente aguardados chegaram. Karui e Chouchou ficaram responsáveis por preparar a comida da noite, enquanto somente á Ino cabia o trabalho de servi-los, uma missão extremamente puxada. Era difícil permanecer em um mesmo ambiente que Sakura e não poder espetá-la com um garfo.

Obedecendo as regras de indumentárias estipuladas pela sua patroa, ao invés do azul-escuro de sempre, Ino vestia um conjunto vermelho por baixo do avental branco, e sapatos da mesma cor. O vermelho, intenso como fogo, contrastava perfeitamente com a sua pele e especialmente com as suas bochechas. Os cabelos, como de costume enfiados dentro da touca, gritavam por liberdade, e ela própria transpirava da cabeça aos pés.

Prostrada de pé, em um canto afastado da enorme sala de jantar, a garota de apenas dezenove anos esforçou-se em não encarar deliberadamente as cabeças de ventos que adentravam o recinto. Evitar contato visual era muito importante, Mikoto gostava de lembrá-la o tempo inteiro que era a filha do jardineiro e não deveria regular as pessoas só porque elas eram bem mais vestidas e bonitas do que ela. Um sorriso melancólico escapou de seus lábios, levando-a refletir sobre o quanto era masoquista e, até mesmo parecida com a Cinderela em alguns pontos. Ainda assim, acrescentou mentalmente o quanto preferia ter irmãs 'monstras' no lugar de seus patrões italianos. Itachi e o caçula eram bastante autoritários na maior parte do tempo e, muito além disso, uns verdadeiros cretinos arrogantes.

Endireitou sua postura ao ver um casal de ruivos adentrando a sala, sendo acompanhados pelo doutor Fugaku e sua mulher, que não parava de falar um segundo. Atrás deles vinham Sasuke e Sakura de mãos dadas e por fim, Itachi e a esposa. Ino teve a infelicidade de olhar no momento em que este adentrou a sala, ela abriu e fechou a boca, tomando o cuidado de olhar na direção contraria á do Uchiha, que ela sentia: ainda estava encarando-a.

Piscando os olhos, o arquiteto recuperou sua compostura, parecendo lembrar-se da presença de convidados e da própria mulher, puxou a cadeira para que ela se sentasse na mesma, sendo rapidamente imitado pelo irmão mais novo.

—Ino, querida — a voz de Mikoto voltou a ecoar pelo ambiente, tirando a jovem de seus breves devaneios. — Nos sirva um pouco de vinho, por favor.

Ela meneou a cabeça, afastando-se em direção a um dos garçons, que talvez se chamasse Chouji – não tinha muita certeza – o homem entregou-lhe a bandeja com o vinho. Segundos depois, caminhava por entre os casais, enchendo-lhes a taça, com exceção de Izumi que garantiu estar grávida e assim, não estava em condições de ingerir álcool por menor que fosse a porcentagem dele.

—Vocês pretendem estabelecer-se no país? — inquiriu Mikoto, como de costume, iniciando a conversação.

—Talvez. — retrucara a elegante mulher ruiva,que vestia uma saia cintura alta roxo escuro e uma camiseta regata de mesma cor, os cabelos estavam soltos e caiam como uma cascata por suas costas. Ino imediatamente gostou dela: tinha um bom gosto para roupas e, a cor destacava os seus olhos verdes. A Yamanaka parou alguns centímetros da mulher, erguendo a taça desta para que a preenchesse com vinho.

Os olhos esverdeados encontraram o rosto aveludado da loira, e o rosto fora tomado por uma expressão de incredulidade. Assim que a empregada fez menção de se afastar, a voz de Mei ecoou pela sala.

—Ei, garota. — Ino parou de andar, temendo ter feito alguma coisa desagradável. — Você me parece familiar, já nos vimos antes?

Ino virou-se cautelosamente para fitar a mais velha e balançou a cabeça em negativa.

—Ela é nossa empregada — explicou Fugaku, após bebericar um gole do vinho.

Mei pareceu interessada naquela resposta, e continuou a estudar o rosto da loira, que encarava-a de volta, um tanto sem graça.

—Como você se chama?

—Ino. Ino Yamanaka. — enquanto verbalizava sua resposta, ela tentava a todo custo não olhar na direção do Uchiha mais velho. "Por que ele continua me encarando?".

Mei sorriu, levando a taça aos lábios novamente.

—Bom — Mikoto pigarreou, chamando a atenção dos convidados. — Como eu estava lhe dizendo antes, Terumi, Sakura é praticamente uma médica agora, falta alguns...

—Quantos anos você tem? — Mei indagou, fitando a loira, que estreitou os olhos, sem conseguir entender o fascínio da mulher por si.

—Dezenove.

—Você realmente me parece familiar. — voltou a dizer, agora limpando o vinho do canto de sua boca com o guardanapo. — Ino, você é muito bonita e jovem para ser empregada de uma casa tão grande quanto essa. Se daria bem na carreira de modelo.

—Obrigada. — ela fez uma pequena reverência. — Se me der licença, irei até a cozinha. — disse depressa, antes que Mikoto tivesse algum ataque cardíaco ali em cima da mesa.

—Isso foi meio rude da parte dela, mas nada que alguns descontos em seu salário não resolvam — a matriarca de cabelos negros bradou, fuzilando as costas da mais nova que se dirigia até a cozinha.

—Você não irá descontar nada. — Fugaku bradou, em tom irritado. — A garota está fazendo o trabalho dela, mulher, controle-se.

—Ela é realmente muito bonita. — foi à vez de Yahiko, sobrinho de Mei dizer. Suas palavras provocaram um choque inicial em todos que estavam á mesa, ele não era exatamente conhecido por ser um tagarela. A personalidade introspectiva e tempestiva do ruivo nunca abrira margens para que ele socializasse com os amigos de seus pais, quem dirá com os de sua tia, que considerava todos fúteis em demasia.

—Não tanto quanto a minha noiva — Sasuke obrigou-se a dizer, para fazer média. Conhecendo a garota ao seu lado, sabia que ela estaria espumando ódio por não ser o centro das atenções. — Quer dizer, Ino tem alguma beleza, mas nada que ofusque os lindos olhos cor de esmeraldas de Sakura. Ela é a oitava maravilha. — e dito isso, beijou-a apaixonadamente.

— Então você é um fã de loiras, Pain? — Izumi perguntou curiosamente.

—Sou fã de mulheres bonitas. — o enigmático ruivo limitou-se a responder.

—Se preferir, posso ordenar que ela o sirva exclusivamente. — Mikoto ofereceu-se, com certa gentileza.

—Deixe a pobre garota fazer seu trabalho em paz! — Mei retorquiu, enquanto assistia com curiosidade e fascínio a garota loira retornar a sala trazendo algumas das comidas, atrás dela, o garçom e as cozinheiras ajudavam-na a preparar a mesa para em seguida, retirarem-se do local com os devidos agradecimentos e desculpas. — Agora, voltando ao assunto que nos trouxe aqui essa noite... — ela pigarreou, ajeitando-se em sua cadeira. — Estamos pensando em permanecer no país, mas ainda estamos bastante incertos. O apartamento está sobre reformas, e Yahiko tem muitos trabalhos a fazer.

—Então o garoto se deu bem em sua empreitada? Fiquei sabendo disso, Nagato fizera-me questão de contar via telefone. — garantira Fugaku.

Conversando entre si, os convidados finalmente pareceram esquecer a presença da jovem empregada, que já podia sentir as batatas de suas pernas doer por ficar muito tempo em pé. Ainda assim, da maneira mais simpática possível ela manteve-se ali, a disposição de seus patrões. A situação, que já estava bastante desconfortável, prometia ficar ainda pior com os olhares homicidas que Sakura lançava na direção da rival, entretanto, de maneira polida e bastante profissional a Yamanaka a ignorou, como se ela ao menos estivesse presente ali dentro.

Os homens, empenhados em gabar-se de suas realizações profissionais, retomaram uma conversa, obrigando as mulheres a entreter-se com assuntos fúteis habituais como por exemplo os planejamentos para o casamento de Sasuke e Sakura, a notícia animadora da suposta gravidez de Izumi.

Enquanto isso, Ino não parava de pensar em como faria bem beber uma garrafa de vinho inteira e ficar louca, talvez cometer algumas besteiras ao redor da cidade. Qualquer coisa seria melhor do que perder seu precioso tempo ali, escutando aquela família patética lamentar o quão ricos eles eram, e se deveriam passar o natal em Amsterdã ou Nova Iorque. Reprimindo o ímpeto de bocejar, a loira piscou os olhos algumas vezes, só para descobrir que o tal Yahiko estava a secando de maneira indiscreta. Suas bochechas enrubesceram com os olhares indiscretos do mesmo, quando a voz de Mei voltou a soar pela sala, despertando-a.

—Filha do jardineiro. — comentou, lançando um olhar rápido a Ino que só então percebera que o assunto da mesa voltara a ser ela. Franzindo o cenho momentaneamente, ela desculpou-se pela sua desatenção. — Seu pai deve ter sido um grande homem, por criá-la sozinha — dissera, em um tom de voz quase emocionado.

A Yamanaka, que descartava qualquer tentativa de falar sobre seu pai, respondeu novamente com um aceno de cabeça, mas precisou respondê-la em voz alta, já que mostrava tão interesse no assunto. E durante toda a noite, Mei a tratara tão bem! Seria realmente injusto fazer alguma grosseria com aquela mulher.

—Sim, ele foi... Papai era um homem muito amoroso e muito trabalhador também.

—Imagino que sim. — o sorriso íntimo que a mulher lhe lançou, fez alguma coisa dentro do seu interior se agitar. — Você tem traços europeus, sem sombra de duvidas, mas não acredito que seja italiana como a família para quem trabalha, senhorita. De que país você veio?

—Alemanha. — respondeu em tom curto, desconcertada.

—Oh sim, entendo. — Mei piscou os olhos e, logo voltou para um assunto que era anteriormente discutido por ela e pelas anfitriãs. A Yamanaka, voltou a cair no ostracismo uma segunda vez.

Depois de servir o jantar, ser alvo de perguntas pessoais altamente suspeitas e por fim servir a sobremesa, a loira finalmente fora dispensada de suas tarefas, e enquanto os convidados dispersavam-se pelo ambiente, ela tirava a mesa, recolhendo os pratos, talheres e taças. Sabia como a sua patroa odiaria que qualquer gota de vinho manchasse a toalha nova, então tomou muitíssimo cuidado com o manuseio das mesmas.

—Precisa de ajuda? — a voz de Yahiko soou próximo a ela. Lançando-o um olhar de esguelha, ela fizera questão de recusar, ainda assim o rapaz insistiu em levar algumas louças sujas para a cozinha de forma que ela não pudera protestar.

—Obrigada. — ela sorriu, enquanto via-o repousar a pilha de louça suja sobre a mesa da cozinha. — Mas você não precisava fazer isso, pode acabar manchando sua camiseta.

—Eu tenho milhões desta em casa. — ele retribuiu ao sorriso, observando-a organizar os pratos um em cima do outro para então começar a lavá-los. — Há quanto tempo você trabalha aqui, Yamanaka?

—Pode me chamar pelo nome, se o preferir. — ela disse, abrindo a torneira. — Eu trabalho aqui há uns três anos. — era sempre mais decente omitir a parte em que crescera ali, sendo feita de escrava. Por precaução. Nunca se sabe o que as pessoas poderiam pensar a respeito.

—Como minha tia disse na mesa, você poderia ser modelo. Nunca cogitou fazer testes?

—Não, essa vida de celebridade definitivamente não é pra mim. — exclamou, tranquilamente. — Prefiro o conforto do anonimato e mesmo que ser domestica não seja o sonho de nenhuma garota, ainda assim, por enquanto é minha melhor opção. — dera de ombros.

—Suponho que seja. — ele levou as mãos aos cabelos alaranjados, bagunçando-os. Yahiko era muito bonito e de maneira distinta, além de possuir um estilo bastante diferente dos irmãos Uchihas.

Conversaram durante alguns minutos, e possivelmente teriam conversado mais se o ruivo não precisasse voltar. A dupla se despediu e logo, só restava a empregada novamente na cozinha.

O dia seguinte fora marcado por uma grande ociosidade, ao menos, dentro da empresa de arquitetura de Itachi, que tendo resolvido parcialmente os seus problemas referentes a um novo projeto, declinou o uso da poltrona de seu escritório para retornar para casa, onde finalmente descansaria de maneira apropriada. Naquele dia, como estava sem paciência, fizera questão de dispensar o motorista, dessa forma ele não tardou a chegar até a residência. Gostava de dirigir, era uma ótima distração. Estacionou o carro na garagem e então refizera todo o trajeto até seu quarto.

—Onde está Izumi? — perguntou a empregada, assim em que a vira. Ino tentara manter a calma, mas o acontecimento passado ainda era bem recente de forma que ela invariavelmente corou com a menor aproximação do mais velho.

—Ela foi a um SPA, senhor. Disse que voltaria pelas seis horas.

Itachi estalou a língua.

—Por que você está olhando para os meus pés? Olhe para meu rosto, enquanto fala, garota. — ordenou e assim ela o fez, mas arrependeu-se em seguida. Os olhos dele estavam intensamente negros. — Bom. — dissera, com satisfação. — Venha comigo até meu escritório, por um instante.

—S-Sim, senhor. — e desajeitadamente ela o seguiu, de volta ao lugar em que tinha cometido uma das maiores gafes da sua existência. O rosto entrava em combustão espontânea só de lembrar.

Sem cerimônias, ele abriu a porta do escritório, estando consciente de que ela o seguia com bastante relutância. Depois de ter afrouxado o nó em sua gravata e a jogado em cima do pequeno sofá marrom que possuía ali dentro, o moreno andou a passos largos em direção a sua estante, que estava repleta de inúmeros títulos tanto nacionais quanto internacionais. Ele fuçou por entre os volumes de livros, até encontrar o que estava procurando. Enquanto isso, mais para trás, Ino mordia os lábios nervosamente, temendo por uma reprimenda.

—Achei! — ele vibrou energicamente, agora voltando sua atenção para a empregada, que o fitava com um semblante confuso. — O Morro dos Ventos Uivantes, meu livro preferido. —exclamou, fazendo-a se perguntar mentalmente se ele tinha ingerido alguma droga alucinógena. Ou talvez injetado no pulso. — Eu quero que você leia-o para mim, senhorita Yamanaka.

Ela arregalou os olhos, duplamente chocada.

—O que?

—Você sabe ler, não sabe?

—É claro que eu sei ler!

—Ótimo. — ele entregou-a o livro, dando uma rápida olhada em seu uniforme antes de dar-lhe as costas e se sentar novamente em sua poltrona. Indicou com a cabeça a cadeira a sua frente. A passos apressados, Ino ocupou a cadeira, ainda que contrariada. — Depois que terminar, vou precisar que você de uma polida em todas as fivelas dos meus cintos, o que pode demorar algumas horas, imagino.

Respirando fundo, Ino o olhou nos olhos outra vez.

—Desculpe, senhor, mas é que eu tinha planos para essa noite. É minha noite de folga...

—Eu pagarei um dinheiro extra, não se preocupe. — ele sorriu de maneira divertida. — Comece a ler. — ordenou.