Capítulo 2 – Cinzas quentes
Tomar o comprimido já era um ato mecânico. Completava tanto tempo se utilizando das pílulas trouxas para dormir que Remus mal refletia no que fazia todas as noites. Havia conseguido a receita médica com sua mãe, que também precisava de ajuda para se entregar à tranqüilidade da noite. Pelo que ele sabia, ela havia começado o hábito após descobrir que possuía um filho anormal.
Com ele não havia sido tão diferente. Sua insônia começou quando, como ela, descobriu um monstro dentro de si - uma besta indiferente e amarrada a uma prisão covarde, construída por ele próprio.
- Que não acende a luz do banheiro para não ter que olhar o próprio reflexo – sua voz saiu do espelho que, encoberto pelas sombras, refletia o rosto cansado de Remus.
Ele ignorou a consciência externa que o espelho oferecia gratuitamente, como sempre fazia. Fechou o armário em cima da pia e se dirigiu ao quarto que, também escuro, não oferecia perigo além de seus pensamentos sonolentos.
Ao menos era o que Remus achava.
A voz invadiu o quarto quebrando o silêncio, como mais uma incômoda colocação de sua consciência não dominada.
- Está se esquecendo de fechar uma janela.
Por muito pouco Remus não gritou. Talvez estivesse finalmente aprendendo a recepcioná-lo.
As sombras da sala cuja iluminação não era mais do que um fraco abajur de canto esconderam parte do rosto de Sirius quando o fim de um feitiço desiludor o revelou, encostado na parede oposta. A cortina branca esvoaçava ao seu lado, deixando visível a falha de Remus ao esquecer, de fato, a janela aberta por tempo demais.
- Como você entrou? – a voz alterada não escondeu que lidar com Sirius Black ainda não era um conhecimento que dominava.
Seus olhos estavam ocultos, mas seus lábios formaram um conhecido sorriso irônico. Sirius manteve os braços cruzados e apoiou um dos coturnos gastos na parede.
- Pela janela.
- Há quanto tempo está aqui? – Remus demandou, ainda atônito.
- Não se preocupe, não foi tempo o bastante para ver qualquer coisa que já não conhecesse.
Remus buscou sua varinha nos bolsos, apenas para lembrar que ela estava no criado mudo, junto à cama, do outro lado do flat apertado.
- Vá embora – ele disse, sem pensar. Sua voz soou estranha para si próprio, como se suas cordas vocais também tivessem consciência de que o apelo de nada adiantaria.
Sirius não riu, e Remus lhe agradeceu por isso. Apenas mostrou as mãos abertas e balançou os ombros cobertos por um sobretudo de couro preto.
- Não se preocupe. Eu ainda não sou a pessoa mais perigosa para se ter em casa.
- É o que você diz – Remus continuou parado no mesmo lugar, e Sirius fez o mesmo. Ele sabia que o outro o encarava, mas as sombras ainda encobriam a parte superior de seu rosto.
- Não vai fechar a janela? – falou Sirius, após um momento de silêncio. - Algum comensal mal intencionado pode invadir sua casa a qualquer momento desse jeito.
- Você quer dizer mais um? – Remus atravessou a sala e fechou a janela com força. Quando parou e olhou para Sirius, ainda mantendo certa distância, percebeu que já conseguia ver toda sua expressão. Sorria maliciosamente.
- Você vai ver que minhas intenções não são assim tão ruins.
Sirius tirou uma carteira de cigarros do bolso e levou um a boca. Estava perto de acendê-lo com um isqueiro prateado de aparência cara, quando Remus quebrou o silêncio.
- Não vai perguntar se pode fumar?
O outro formou um meio sorriso, como se já esperasse por aquilo. Fechou o isqueiro e virou o rosto para encarar Remus.
- É verdade, estou na sua casa. Não sei onde minhas boas maneiras foram parar. Se importa?
- Sim.
- Sabe que agradar as visitas também faz parte da boa educação?
- Você não é uma visita – Remus cruzou os braços e encarou Sirius com determinação. O outro pareceu apenas se divertir ainda mais com isso. – E como é que você sabe onde eu moro?
- Eu espero que você não ache que se esconde aqui, Lupin – Sirius se adiantou até o pequeno sofá que tentava dividir a sala apertada do quarto ainda mais estreito, e sentou-se confortavelmente. Tirou uma garrafa de um bolso interno do casaco e balançou para Remus. – Espero que também não tenha nenhuma regra contra beber.
Remus continuou a encará-lo, atônito. Não estava em seus planos ter que lidar com a visita surpresa de um comensal da morte e, como em toda situação inesperada, não sabia como agir. Achou que uma boa saída seria interrogá-lo.
- Onde está seu irmão? – ele perguntou, com o tom tão determinado quanto pretendeu.
Pela primeira vez, Sirius desviou o olhar. Por um segundo pareceu até desconcertado, mas logo retomou o tom sarcástico e a expressão confiante.
- Se você prefere falar sobre meu irmão eu posso até entender, Lupin, ele é um garoto bonito. Mas ele realmente não está disponível no momento.
Sirius abriu a garrafa de Firewhisky e tomou um gole comprido. Remus se detestou por sua ineficiência em virar o jogo.
- Vai querer?
Remus não respondeu e manteve-se onde estava, encarando Sirius e tentando ao máximo não demonstrar sua incerteza do que fazer. O outro, no entanto, não teve dificuldades em identificar sua expressão.
- Deixa eu te explicar mais uma vez. É aquele líquido gostoso que faz tudo parecer melhor.
O lobisomem declarou derrota. Com um bufo silencioso, alcançou a garrafa de Firewhisky e bebeu mais de um gole.
- Não se anime, eu ainda quero que você vá embora – Remus disse, entregando a bebida novamente ao outro e sentando-se em uma cadeira, de frente para ele. – Mas eu terminei minha última garrafa ontem à noite.
Sirius sorriu, de um jeito insuportavelmente cativante. Era incrível; cada segundo olhando para o sonserino o lembrava de todas as coisas que o faziam se esconder pelas ruas escuras e temer cada estranho que achasse suspeito. Mas seu olhar cinzento continuava obscuramente irresistível.
- Eu sabia que tinha te ensinado alguma coisa – ele disse, num tom próximo da diversão.
Definitivamente, precisava parar de tomar Firewhisky.
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- Você ainda não disse por que está aqui.
Sirius encostava os coturnos negros surrados, que Remus reconhecia de Hogwarts, na mesa de centro repleta de livros abertos e papéis com anotações. Inclinava-se cada vez que entregava a garrafa de Firewhisky, já perto do fim, para o lobisomem. A cadeira em que este sentava estava agora quase encostada nas costas do sofá onde o sonserino se deitava largamente.
- Você ainda não me perguntou.
Remus tomou um gole da bebida, rindo internamente do efeito do tempo. No passado, nos terrenos de Hogwarts, alguns goles de Firewhisky o haviam deixado completamente embriagado. Três anos depois, meia garrafa ainda não fizera seu corpo ir além da alegria quente e efêmera.
- E o que é que você faz aqui, Black? – foi com uma certa dose de inibição, típica do álcool, mas ainda bastante lucidez que ele fez a pergunta. – É algum tipo de visita nostálgica ou você também vai tentar me coibir a entrar para o seu clube?
- Não se preocupe, os comensais já desistiram de você faz tempo. Sua áurea grifinória reluz a quilômetros de distância e é incrivelmente irritante – Sirius puxou um dos papéis da mesa e passou os olhos rapidamente. – Apesar de você parecer bastante interessado em artefatos um tanto…
- Sonserinos? – Remus completou. Reconheceu o pergaminho como um dos estudos aprofundados que havia feito em magia negra capaz de reverter a morte.
- Suspeitos – Sirius adicionou, com um meio sorriso.
- São apenas trabalhos teóricos.
- Sim – Sirius mudou ligeiramente seu tom, e voltou os olhos para os artigos da mesa bagunçada. - Então é isso que você tem feito todos esses anos? Teorizado?
Remus se irritou por um segundo. Não sabia exatamente onde o outro queria chegar – e o álcool, ainda que lentamente, começava a subir até sua cabeça, tornando seu raciocínio vagaroso -, mas achava que era no ponto do qual Remus costumava fugir.
- Acha que eu também deveria ter ido dar minha contribuição ao mal?
Sirius riu, fracamente. Abriu um livro e começou a folheá-lo, rápido demais para ler qualquer coisa.
- Você ainda é tão grifinório – ele disse, sem encará-lo. - Não existe bem e mal.
- É o que todas as pessoas do mal costumam dizer.
Desta vez, Sirius riu quase que contente.
- Eu disse que seu humor havia melhorado – ele falou num tom baixo, antes de se virar para Remus e mostrar-lhe o livro. Era uma cópia de Maldições sem volta. – Ao menos eu escolhi um lado. Por que você perde tanto tempo aprendendo coisas que não vai usar?
Remus precisou de alguns instantes para entender o que realmente acontecia. Um comensal da morte lhe dava sermão? Sirius Black, de todas as pessoas, tentava deixá-lo culpado por não estar lutando na guerra, não participar da Ordem? Ou não fazer parte dos comensais - ele não sabia ao certo. Mas sabia perfeitamente que não precisava de mais ninguém jogando em sua cara o que devia ter feito da vida. Seu reflexo já o fazia suficientemente.
Remus não pôde deixar de rir, mas sua risada falhou em refletir o sarcasmo e a firmeza que a de Sirius costumava expressar tão bem. Apesar do Firewhisky exaltando seu ânimo, ele soube que seu riso era triste - quase patético - de presenciar.
- Quem você pensa que é para me dizer o que fazer? Só porque correu atrás de seu irmão quando ele encontrou um hobby novo…
- Deixe Regulus fora disso – Sirius o interrompeu imediatamente. Seu tom continuou determinado, mas pareceu menos alarmado. - E não tente me acusar de nada. Eu sabia exatamente o que queria quando fiz minhas escolhas.
Sirius o encarava anormalmente sério. Era incrível como ele conseguia transformar qualquer conflito ou polêmica na mais perfeita e clara certeza. Como se não houvesse nada de errado em ser um comensal da morte; como se o único equívoco ali fosse Remus permanecer desalinhado, neutro, sozinho…
Como se ele não fosse, ainda que nem mesmo o reflexo de Remus ousasse dizer isso, a própria razão de Remus ter recusado tantas vezes o convite bondoso de Albus Dumbledore.
- Você é incrível! – sua voz saiu rebelde, numa entonação exaltada que ele não previra. - Como ousa vir até minha casa depois de anos trabalhando para Você-sabe-quem e ainda querer me acusar de ter feito as escolhas erradas?
- Eu não trabalho para ninguém. Mas ao contrário de você, faço o que faço de acordo com as minhas vontades.
- Suas vontades? Não é para ele que você corre toda vez que seu braço arde?
- Não fale do que não entende, Lupin – era fácil reconhecer a impaciência e irritação no tom de Sirius. - E não tente entender o que está além da sua capacidade.
- Por que você não tenta me explicar?
- Ainda não – Sirius murmurou, quase que inaudivelmente. – De qualquer forma, não estou te dizendo para virar um comensal, só quero saber porque não fez como seus amigos e…
Remus bufou, ainda que fracamente. Seus amigos, a quem ele nem ao menos tivera a coragem de contar toda a verdade? Aqueles que teriam que saber de tudo se ele ousasse entrar na Ordem e provavelmente o desprezariam – senão por sua natureza animal, por sua natureza mentirosa que os enganara por tantos anos…
- Pare de tentar me convencer do que é melhor para mim! Você, de todas as pessoas, está longe de saber o que isso é.
Sirius Black havia sido a única vez em que Remus se confrontou com a escolha entre fazer o certo e o errado. E uma única vez fora o suficiente para tomar o caminho mais errado possível, assumir riscos inimagináveis. Como a besta que dominava seu corpo todos os meses, soubera que não podia confiar em si mesmo. Que as trevas estavam mais perto do que achara.
Como poderiam esperar que ele lutasse contra elas?
- Acho que sei melhor do que você. Não que isso seja grande coisa.
Sentiu-se novamente na Casa dos Gritos, enfrentando a mesma escolha entre se render ou não àquele que jamais poderia ser confiável. Como na última vez, sabia que suas palavras não teriam força. Mas tentou mesmo assim.
- Black, vá embora.
- Ah, aí está ele! – Sirius pareceu quase animado. - Vai me bater de novo?
- Essa é a minha casa, eu quero que vá embora.
Quando mal percebeu, Remus estava de pé. Nem tentou encontrar sua varinha, que continuava a metros de distância, mas enrijeceu os punhos encostados em sua perna.
- Você não quer e eu não vou – Sirius o encarou, estranhamente sério. Remus não queria se aproximar do sofá, por ter uma ligeira idéia do que poderia acontecer, mas quando o sonserino também se ergueu, determinado, ele se viu dando passos vagarosos à frente.
- Black, estou te avisando…
- Estou ouvindo – Sirius murmurou, ajoelhado no sofá e de punho apoiado no encosto. Sua mão estava vagarosamente cada vez mais próxima da calça de Remus.
O grifinório encostou, por fim, nas costas do sofá, e os poucos centímetros que separavam seu rosto do olhar cinzento de Sirius se tornaram fumaça quando os dedos do sonserino puxaram a cintura de sua calça.
Com os olhos encobertos por álcool, êxtase e ódio, Remus se rendeu ao espaço entre eles sem ver exatamente o que se passava, encontrando os lábios de Sirius tão ávidos quanto sua própria boca sedenta.
Os dedos de Sirius percorreram o caminho até seu peito e seguraram sua camisa com uma força quase violenta. A mesma que puxou o tecido até que Remus se desequilibrasse e fosse forçado por cima do encosto do sofá, jogado de encontro às almofadas fofas.
A boca de Sirius deslizou do seu pescoço ao peito, e as mãos de Remus arrancaram a camisa negra que o sonserino ainda vestia. Ao passar os dedos pelos ombros e braços dele, o lobisomem o sentiu estremecer abruptamente.
A marca negra brilhava tão nitidamente em sua pele que parecia se mexer. Sirius ergueu o rosto e seus olhos encararam Remus cobertos em névoa e mistério, determinados a não deixar transparecer nada mais do que a respiração ofegante que fazia seu peito se movimentar numa freqüência parecida com a do próprio grifinório.
Sem desviar o olhar e parecendo nem ao menos piscar, Sirius moveu suas mãos até a cintura de Remus, desta vez puxando a calça de seu pijama com uma determinação cega que parecia emanar também de seus olhos escuros. Remus levou seus dedos até o jeans do outro e abriu um botão, mas o sonserino foi rápido em quase expulsar as mãos de Remus e se livrar ele próprio de sua calça.
Quando Remus gritou de dor e prazer, a ansiedade quase violenta com que seus corpos de moviam não pareceu satisfeita. Através das sensações, que dominavam cada centímetro de seu corpo, ele podia distinguir mais do que êxtase na voz de Sirius. Havia dor, raiva e frustração. Ao mesmo tempo em que se forçou em Remus, o sonserino guiou a mão dele até seu próprio antebraço. Quando Remus abriu os olhos com susto, temendo estar machucando o outro, ele viu as pálpebras de Sirius se comprimirem de dor, mas reconheceu o mais puro prazer em sua boca entreaberta.
Descansando a testa no ombro de Remus, este pôde sentir a respiração ofegante de Sirius em seu peito e ouviu algo que ele teve certeza ser o fantasma de um riso satisfeito.
Em um instante, ele soube. Como a noite, anos atrás, em que Sirius o envolvera na espera da transformação violenta, era a vez de Remus o proteger da dor de suas bestas internas.
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Quando acordou, Remus não abriu os olhos imediatamente. Tentou reunir as impressões do que acontecera na noite anterior através de outros sentidos. Havia algo de duvidoso e confortável em observar os cheiros, tatos e sons ao seu redor. Havia sensações as quais ele ainda queria se agarrar, antes que fosse tarde demais.
Antes que a visão surgisse, como um bloco concreto de certeza irremediável.
O movimento ao seu lado sinalizou que suas lembranças sonolentas não estavam erradas. O pouco espaço da cama estreita não parecia incomodar a outra respiração pesada que cortava o silêncio do quarto pausadamente. Quando um som mais forte quebrou o ritmo constante, os olhos de Remus foram mais ágeis do que sua vontade de permanecer no conforto da escuridão.
A certeza absoluta veio quando um par de orbes cinzentos o encarou de volta - semi abertos, semi cansados, semi certos do que realmente havia acontecido. Não tão diferentes do olhar produzido por Remus.
Sirius se mexeu, ao seu lado, evidenciando a impossibilidade de fazê-lo sem que seus corpos se encostassem em vários lugares distintos. A fraca dor de cabeça sinalizava que Remus havia bebido na noite anterior, mas sua memória não estava distante; fora preciso apenas um toque para que ele recordasse de tudo.
- Bom dia – disse Sirius, mirando o teto.
- Boa tarde, eu acho – Remus murmurou de volta. Sirius riu fracamente, a voz ainda rouca.
- Você não consegue mesmo concordar comigo em nada, né?
- Acho que a gente já concordou o suficiente ontem a noite.
Sirius riu, novamente, e Remus percebeu pela primeira vez como sua risada trazia um quê distinto de alívio. Como se estivesse relembrando aos poucos o que é, de fato, sorrir. Ele não se conteve e riu junto ao sonserino.
O barulho externo de pássaros e carros atravessando as ruas de longe começava a invadir o quarto com mais intensidade, e a claridade entrando pelas frestas das cortinas indicava que a manhã provavelmente já estaria próxima do fim. Remus distinguiu o relógio pendurado na parede da cozinha através das sombras e viu que já passava das 13h.
- Você ainda não me disse por que veio aqui – Remus disse, quando finalmente se deu conta do tempo passado.
- Você não pareceu tão interessado nessa informação específica – Sirius respondeu, ainda mirando o teto, com um sorriso fraco.
- Sério – Remus disse, ainda que sem esperar que seu apelo desse certo. Virou o rosto para encarar o outro.
Sirius continuou a mirar o teto, mas o meio sorriso desapareceu de seu rosto. Ele respirou fundo antes de começar a falar.
- Acho que Voldemort está atrás dos seus amigos.
O silêncio no quarto pareceu se aprofundar de uma maneira que Remus não havia imaginado possível. Ruídos exteriores de vozes e automóveis pareciam ecoar ensurdecedores no quarto. Remus respirou algumas vezes antes de voltar a falar.
- Como assim?
Sirius continuou a encarar o teto, com uma expressão enigmática que Remus talvez até tentasse decifrar em outra situação, mas no momento estava tão atordoado pela informação recente que não conseguia analisar nada com muita calma.
- Por que você acha que era tão valioso para os comensais? – disse Sirius, calmamente. – Existem muitos lobisomens no mundo dispostos a abraçar seus lados das trevas com mais facilidade do que você.
- O que você quer dizer?
- Eles queriam um espião – disse Sirius, virando-se para ele.
Ele o encarou por um segundo. Encontrou as orbes cinzentas perdidas em uma profundidade misteriosa, que Remus não ousou penetrar.
- E conseguiram?
Sirius deu de ombros, voltando a mirar o teto com os olhos perdidos.
- Não sei. Talvez. Também não sei qual é exatamente o plano dele, mas sei que ele está muito disposto a encontrar os Potter.
Remus se lembrou das palavras de Albus Dumbledore no Três Vassouras, algumas semanas antes. James e Lily já suspeitavam de algo, já se escondiam. Será que estariam protegidos do suposto espião? Ele se lembrou de algo mais, repentinamente.
- Então é por isso que Snape estava…
- Snape está desesperado – Sirius disse, interrompendo o outro. – Pode fazer besteira a qualquer momento, pelo menos por ela.
- E aquele dia na Travessa do Tranco você estava seguindo ele?
- Precisava saber de que lado ele está – Sirius disse, sem hesitação, ainda sem encará-lo nos olhos.
- E que lado é?
- O meu, na medida do possível. Mesmo ele não precisando saber disso.
Remus ficou em silêncio, incômodo, e Sirius não desviou o olhar do teto, com a mesma expressão misteriosa de antes. Ambos sabiam o que o lobisomem deveria perguntar agora, mas este apenas se recolheu ao silêncio. Ele sabia que as orbes cinzentas de Sirius, apesar de não o encararem, queriam dizer algo.
Remus viu que não precisava saber que lado era aquele, e viu que era exatamente isso que a expressão enigmática de Sirius lhe tentava dizer. Que isso não era importante - não ali, nem naquela hora.
And did they get you to trade
E eles conseguiram te fazer trocar
Your heroes for ghosts?
Seus heróis por fantasmas?
Hot ashes for trees?
Cinzas quentes por árvores?
And hot air for a cool breeze?
E o ar quente por uma brisa fresca?
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