Capítulo 2
Ela sabe o que ele está a tentar fazer. Não é a primeira vez que vê algo assim acontecer. Ela sabe que ele está a tentar ganhar a sua confiança porque eles são parceiros e a verdade é que precisam de confiar um no outro sempre.
Ela sabe o que ele está a tentar fazer e quer deixá-lo entrar, a sério que quer.
Não consegue.
Não é nada de novo, na verdade. Já aconteceu com Renko, Callen e Sam. Mesmo assim ela tenta. Tenta confiar nele porque tem o pressentimento que ele não faz intenções de ir embora num futuro próximo. Ele quer ficar ao lado dela.
Ela vê-o olhar para ela. Por vezes, finge que não repare. Há outras vezes, no entanto, em que ela lhe oferece um pequeno sorriso antes de voltar ao trabalho.
Sam repara no que se passa e fala com ela numa tarde pouco atarefada.
"Precisas de aprender a confiar nele" diz Sam, usando a sua voz calma e relaxada "porque sem confiança a vossa parceria não significa nada e as vossas vidas estarão sempre em risco quando vão trabalhar." Ela sabe exactamente o que ele quer dizer com isso mas não consegue abrir-se assim, pelo menos ainda não.
Callen também repara e ela não pode dizer que se surpreende quando ele aparece á sua porta uma noite com cerveja e gelado. Ela abre-lhe a porta porque é o que sempre faz com ele- sentam-se no sofá da sua sala e é Callen quem começa a conversa que ambos sabem que têm que ter (é a razão pela qual ele veio). O seu discurso é muito diferente do de Sam. Ele percebe o que ela sente melhor do que ninguém. Tem os mesmos medos, os mesmos pesadelos.
"Não apreces as coisas, Kenz. Leva o teu tempo mas confia nele porque Deeks é um bom homem." Ela sabe que ele tem razão mas não sabe se está preparada para admitir tal coisa.
Kensi sabe que Deeks não sabe muita coisa sobre ela portanto decide começar por lhe dar pequenas pistas, indicações que poderão ajudá-lo a entendê-la melhor.
Vai levar tempo mas ela tem esperanças de que ele não desista dela porque tem o pressentimento que ele já está perto o suficiente para provocar graves danos no seu frágil coração.
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Acontece a primeira vez durante uma tarde bastante quente, talvez mais quente do que é habitual. Ela leva-a para um gelado porque ela se queixa da desconfortável temperatura sentida na rua. Estão a comer os seus gelados quando acontece.
Ela tem o pressentimento de que as coisas estão a mudar entre eles. É por isso que confessa que gosta de o ter como seu parceiro. Ela sabe que Deeks vê algo nos seus olhos porque parece surpreendido por uns momentos mas recupera rapidamente e devolve-lhe um sorriso, aquele sorriso apalhaçado que ela nunca consegue ver e ficar séria apesar de tentar disfarçá-lo.
Ele é um bom parceiro e um bom homem. Vai levar tempo mas ela sabe que eventualmente vai deixá-lo entrar, desde que ele saiba jogar as suas cartas na devida altura.
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A segunda vez que acontece, ela reage segundo os seus instintos.
Ela esconde-se no escritório de Nate quando não consegue aguentar mais a maneira como todos olham para ela. Ela tem saudades de Nate, ainda que ele não seja uma daquelas pessoas que ela confia sem pensar duas vezes e mesmo que ele nem sempre consiga perceber que não lhe apetece falar sobre certos assuntos em certas ocasiões.
Ela senta-se no chão do seu escritório e mantém o seu olhar fixo na parede branca á sua frente. Ouve os passos que são uma clara indicação de que alguém se aproxima da divisão com algum cuidado. Ouve a porta a abrir-se mas não olha para cima. Ela sabe que é Deeks quem está ali a olhar para ela.
Callen sabe onde ela está, sabe sempre, mas ela sabe que ele percebe que é melhor deixá-la sozinha porque sabe que ela não gosta de mostrar fraqueza em frente de outras pessoas.
Sam não a seguiria até ali porque sabe que por vezes ela só precisa de espaço para poder pensar sobre os seus problemas. Como ele não sabe o que se passa com ela, ele deixa-a sozinha.
Eric não a seguiria até ali porque a verdade é que as máquinas são o seu território e não as pessoas. Todos sabem que ele também se importa com eles mas todos sabem também que ele é melhor a tratar de máquinas do que de seres humanos. Ninguém leva isso a mal.
Nell não a seguiria até ali porque é o membro mais novo da equipa e ainda não sabe lidar com eles.
Hetty não a seguiria até ali porque, ainda que saiba exactamente o que se passa e se importe com todos os seus funcionários, ela sabe que Kensi prefere estar sozinha nestas alturas.
Deeks segue-a.
Ele sabe que ela preferia estar sozinha.
Ele sabe que ela odeia que as pessoas a vejam em momentos de fraqueza.
Ele sabe que ela não gosta que a sigam.
Ele sabe que ela precisa de espaço e tempo para pensar naquilo que a está a perturbar.
Ele sabe tudo isso mas segue-a até lá porque a sua teimosia é apenas mais uma das coisas que o faz ser Marty Deeks.
Ela ouve-o fechar a porta e sente-o sentar-se ao seu lado. Não olha para ele porque sabe que ele poderá ver as lágrimas na sua cara. Ela não olha para ele porque sabe que esse movimento o aproximará mais daquele sítio que lhe permitiria ganhar a sua plena confiança.
Deeks agarra uma das suas mãos e é aí que ela percebe o que se passa realmente.
Ele não está ali para a julgar.
Ele não está ali para a gozar no seu momento de fraqueza.
Ele não está ali para arranjar material para fazer umas piadinhas mais tarde.
Ele está ali porque se importa realmente.
Ele está ali porque quer que ela saiba que ele estará sempre ao seu lado, ainda que não faça a mínima ideia do que a está a deixar assim.
Ela põe a sua cabeça no ombro dele só para que ele saiba que ela está feliz com a sua presença. De uma maneira ou de outra, ela tem a certeza que ele já sabia isso. Kensi sente-o apertar a sua mão e descobre que isto é confortável.
Ela sente o beijo que ele deixa no topo da sua cabeça, algo que não é algo que o identifique. Ela não se importa porque precisa disso, mesmo que não estivesse a par desse facto antes disto.
Ele não lhe pergunta o que se passa. Fica em silêncio.
Ele não lhe pede para parar de chorar. Deixa-a chorar no seu ombro.
Ele não sussurra palavras de conforto ao seu ouvido. Aperta a sua mão gentilmente em vez disso.
Ele não lhe diz que tudo vai ficar bem. Beija a sua cabeça de vez em quando.
Ela não sabe ao certo quanto tempo demora a acalmar-se. Sabe que ele fica com ela durante esse tempo, mesmo ao seu lado. Ela levanta-se assim que tem a certeza que está forte o suficiente para o fazer e ele faz o mesmo. Ele mete-se á frente dela e limpa as proas de que ela esteve a chorar com um lenço.
É aí que ela vê algo nos seus olhos. Ela vê que ele se importa, mais do que alguma vez admitiu na sua frente.
Alguma coisa dentro dela explode e Kensi coloca os seus braços á volta da cintura dele para um abraço que precisa desesperadamente. Ele coloca os seus braços á volta dela para a abraçar, tal como ela sabia que ele faria. Deeks nunca lhe negou nada.
Ela descobre que se sente segura nos seus braços, algo que não está habituada a sentir. É aí que percebe que confia nele.
Kensi não sabe ao certo durante quanto tempo mas sabe que fica nos seus braços por mais de 5 minutos e sente a sua relutância em deixá-la ir quando ela finalmente quebra a ligação entre eles.
Ela olha-o nos olhos e vê mais uma vez o quanto ele se importa com ela. Não a trata como uma donzela que precisa de ser salva e não tenta ser o seu cavaleiro andante. Isso é bom porque Kensi nunca foi muito de acreditar em contos de fadas.
Ela não sabe porquê mas sente a necessidade de lhe dizer a razão pela qual se sente assim hoje, sabendo que ele merece isso depois da sua enorme paciência com ela durante todo o dia.
"Hoje é o aniversário da morte do meu pai. Fico sempre, emotiva, nestes dias." Ele abana a cabeça e acaricia a sua face num gesto de afecto que ela nunca pensou ver vindo dele.
"Isso não é ser emotiva. Tenho a certeza que se chama ser humana!" Ela sorri enquanto eles descem as escadas juntos. Quando estão a meio da escadaria, Kensi pára, vira-se para ele e dá-lhe um beijo na cara como forma de agradecimento por aquilo que fez. Apanha-o de surpresa mas é uma boa coisa porque para ela, mostrar sinais de afecto, é um passo na direcção certa.
Ela sabe que aquilo que se passou foi um grande acontecimento na relação entre eles e sabe que está a deixá-lo aproximar-se dela. A parte engraçada é que isso não a assusta. Pelo menos já não.
Ela tem o pressentimento de que ele não a vai magoar.
Tem o pressentimento que ele não quer ir embora num futuro próximo.
Kensi tem o pressentimento de que ele a pode realmente fazer feliz.
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Obrigada pelas reviews. Vou postar outra história em Português em breve mas será uma tradução de uma história escrita por outra escritora. Digam-me o que acham deste capítulo (e da história em geral).
