O dia seguinte: Caras de enterro e flashbacks (Parte 2)

- Cadê o Gohan? – o Rei Cutelo perguntou a Chi Chi.

- Ele saiu.

- Por quê?

- Não sei... Acho que queria ficar só...

- Talvez ele tenha sentido mais do que você a morte de Goku...

- Será?

- Sim. Mesmo que ele não tenha chorado naquela hora, acho que sentiu muito essa perda. Apesar de tudo, Gohan ainda é uma criança.

- É verdade, mas acho que às vezes ele age como um adulto.

- Ele já passou por isso antes, Chi Chi.

- Claro, para um garoto que anda no meio de adultos... que são má influência pra ele...

- Não precisa exagerar... Os amigos de Goku não são assim... Eles são ótimas pessoas e verdadeiros amigos.

- Acho que tem razão, papai. Eles se preocupavam muito com o Goku...

- Já vou! – Chi Chi disse, ao ouvir baterem à porta.

Não fazia nem meio minuto que tinha se sentado. Levantou-se e foi atender. Era Bulma, que viu o cansaço estampado em seu rosto.

- Ele teve outra crise, não é?

- Sim, Bulma... Ele só conseguiu dormir agora há pouco.

A cientista pôs vários pacotes sobre a mesa.

- Eu comprei os alimentos do mês para vocês.

Chi Chi ficou surpresa:

- Mas, Bulma... Não precisava...

- Por favor, aceite. Fiz isso para você ficar mais tranquila.

- Obrigada. Você está me ajudando bastante!

As duas foram até o quarto onde Goku estava. Ele dormia tranquilamente, apesar de ter acabado de sofrer mais uma crise. Depois de o verem, voltaram à sala.

- O médico veio? –Bulma perguntou.

- Sim, ele veio. – Chi Chi respondeu.

- O que ele disse? Descobriram qual é a doença?

- Não. – a morena disse, desanimada. – Ninguém sabe o que o Goku tem.

Abaixou a cabeça e suspirou. Depois, disse:

- Eu tenho medo, Bulma... Tenho muito medo de perdê-lo...

Bulma era uma das pessoas que mais visitavam a casa. Kulilin, também. Os demais, exceto Vegeta, apareciam de vez em quando para ajudar em alguma coisa. Sim, seu pai estava certo. Eles eram amigos de verdade.

Chi Chi olhou para a sua mão direita. Ficou ainda mais triste. Outra recordação lhe vinha à sua mente. Essa foi um dia antes dele partir...

- Goku, você está se sentindo bem? – ela perguntou.

- Um pouco melhor, quando não estou sozinho.

Ele olhou para a janela. Deu um sorriso.

- Eu gostaria de estar lá fora, treinando com o Gohan.

Chi Chi fitou seu rosto, que estava um pouco pálido. Como ele conseguia sorrir, mesmo na situação em que estava? Ele já sabia que o seu mal era desconhecido, e que as chances de recuperação eram mínimas. Outros que tiveram sintomas semelhantes não conseguiram se salvar. Apesar disso, ele sorria.

O seu rosto contrastava com o dela, abatido e cansado. Ele ficou um pouco mais sério.

- Você deve estar sofrendo muito por minha causa. – disse.

Ela não respondeu. Apenas o fitou com mais atenção.

- Por favor, Chi Chi, me perdoe. Eu não queria que você sofresse tanto.

- Eu não tenho o que perdoar, Goku. Na verdade, eu é que tenho que pedir perdão pra você.

- Por quê?

- Porque sempre estou brigando com você...

Nisso, ela pôs a sua mão sobre a dele. Os dois se entreolharam. Goku deu mais um sorriso.

- Se é só isso, eu perdoo você, mas... Não precisava me pedir...

Ele segurou a mão da esposa. Ela ficou enrubescida e olhou para seu rosto pálido. Não conseguia deixar de se preocupar com ele.

- Não se preocupe tanto, Chi Chi... Eu vou me recuperar...

Foi a vez de Chi Chi sorrir. Olhou para ele. Tinha um marido bem-humorado, bondoso e muito otimista.

Goku a viu sorrir. Ninguém esteve tão próximo dele nos últimos dias, como a esposa. Ele a amava, mesmo ela sendo uma mulher autoritária, briguenta, neurótica e superprotetora. Nesses últimos dias, só a via preocupada, cansada e abatida. Mas aquele sorriso o fazia se sentir um pouco melhor, fazendo-o se esquecer, por alguns instantes, da impossibilidade de poder fazer o que mais gostava: lutar.

Seus olhares se cruzaram. Chi Chi viu um sorriso se desenhar novamente no rosto pálido dele. Aquele sorriso sempre a cativava. Não resistia àquele jeito tão inocente de seu marido.

Estavam cara a cara um com o outro. Os rostos já estavam bem próximos. Ele lhe acariciou a face e aproximou mais seu rosto do dela. Nisso, deu-lhe um longo e carinhoso beijo.

Lágrimas rolaram de seus olhos. Aquele era o último beijo que havia recebido dele. Horas depois, Goku teria uma nova crise, à qual não resistiria...

O Rei Cutelo viu que ela começaria a chorar de novo. Abraçou a filha para confortá-la. Sabia o quanto ela havia sofrido nesses dias. Deixou-a chorar tudo a que tinha direito.

Mas o que mais doía nela era o quanto ele sofria em cada crise que tinha. Ardia em febre, faltava-lhe o ar, urrava e se contorcia por causa das fortes dores que sentia no coração. Não pôde fazer muito por ele, restava-lhe apenas amenizar o seu sofrimento e acalmá-lo. No entanto, na última crise que Goku teve nada adiantou. Ela tentou acalmá-lo, tomando a mão dele por entre as suas.

- Por favor, Goku, resista! – ela lhe disse.

Ele tentava resistir. Lutava como podia, para não sucumbir à doença. Respirava com extrema dificuldade. Chi Chi fez a mão dele tocar-lhe o rosto. Ele encontrou uma lágrima que começava a rolar pela face e a deteve. Em seguida, deu um fraco sorriso e, acariciando novamente o rosto dela, deteve outra lágrima que surgiu. Mas logo o sorriso se desvaneceu e a mão, por inércia, foi abaixo.

Nessa hora, o Mestre Kame e o Rei Cutelo apareceram e a viram. Ela estava paralisada, as lágrimas a escorrerem pelo rosto. Cabisbaixo, o velho mestre disse o que menos se queria ouvir:

- Infelizmente... O Goku está morto.

A ela, restou apenas chorar. Instantes depois, o filho apareceu e, ao entrar, ficou totalmente paralisado. As lágrimas começaram a cair dos olhos do garoto. Chi Chi o abraçou com força e chorou novamente.

E agora, o que seria de Gohan?

- Mamãe...?

A voz de Gohan a fez voltar ao presente. Ele havia chegado naquele momento, acompanhado por Piccolo.

Chi Chi enxugou as lágrimas e perguntou:

- Onde você estava Gohan?

- Eu estava lá perto do rio.

- Treinando?

- Não. – ele disse cabisbaixo.

- Ele não tinha condições de treinar. – disse Piccolo, dando as costas e indo embora.

Ela não podia dar bronca no filho. Ele estava tão abatido como ela. Não teria cabeça para treinar tão cedo. Mas pensava em ceder. Deixaria o garoto treinar com o namek, para não ficar tão desanimado.

- Gohan, tome um banho e descanse.

- Tá, mãe.

Cabisbaixo, o garoto se retirou obedientemente. Chi Chi suspirou.

- Em que está pensando, Chi Chi? – o Rei Cutelo perguntou.

- No futuro, papai... No futuro...