A cela de Itachi ainda estava vazia quando conseguiu retornar a mesma. Pensamentos como "Será que aconteceu alguma coisa com Sasuke?" inevitavelmente vieram abrigar sua mente. Tentou afastar essas idéias e, assim como uma criança faz quando se lembra de algo que não merece ser recordado, balançou a cabeça. O barulho metálico e rangente da porta chamou sua atenção.

No momento em que o menino de pele pálida deu seu primeiro passo para dentro da cela, ficou impelido a perguntá-lo algo parecido com "Onde esteve?", mas conteve-se antes que proferisse qualquer palavra. Sasuke provavelmente não concordaria com nada mais do que um comportamento cortês, como típico de desconhecidos, apesar de os dois serem irmãos. Além disso, seria preferível que não dissesse nada, ou acabaria falando alguma besteira em decorrência do que se passava em sua mente; as palavras de um garoto sobre as quais não havia parado de refletir.

Significado, disponível, sob nenhuma circunstância... Companheiro de cela.

Parecia que cada segundo demorava um dia inteiro para passar. Não que isso o incomodasse, já que o que desejava fazer era pensar; mas, ao mesmo tempo, Itachi queria saber a reação de seu irmão em relação ao que fizera. Duas idéias conflitantes em si, e ele não sabia qual das duas ele iria seguir. Escolheria o silêncio ou a balbúrdia? E, assim, Itachi viu as horas passarem; uma após a outra, lentamente.

-x-

Era noite. Os dois homens pareciam presos em uma constrangedora falta de sons.

- Sasuke, eu...

- Não diga nada. Eu não quero ouvir uma palavra do que quer que você tenha a me dizer. Você mentiu para mim, Itachi! – O mais novo gritou.

- Entenda que eu... – A fala na voz rouca do outro foi, novamente, interrompida.

- Não me importa que fosse tudo por mim! Você não podia ter feito o quê fez! Sabe o quanto eu sofri? Sabe o quanto eu sofri, não por ter a minha família morta, mas por ter pensado que o meu irmão era um assassino sem escrúpulos? – Eram gritos mais uma vez. Magoados, raivosos, tristes.

- E você sabe o quanto eu sofri por mentir para você? Sabe o quanto eu sofri por ter que matar a minha própria família? Sabe tudo o que eu senti ao ter o destino de toda a vila em minhas mãos? Sabe o meu arrependimento? – O mais velho dizia alguns tons a mais que o normal, parecendo magoado ou rancoroso. O outro se calou, ciente que poderia ter sido injusto.

E por muito tempo só existiu o silêncio entre eles dois.

Duas semanas depois

Estava frio naquela noite. Em um canto da cama, um dos prisioneiros tremia encolhido.

- Sasuke.

O outro chamou. Parecia confortável, mesmo no ambiente gélido. Os olhos ônix do pequeno o encararam, agoniados.

- Venha aqui. – Chamou; mesmo que não acreditasse que o menor o faria.

O corpo aconchegou-se lentamente ao do maior, parando de chacoalhar quase que imediatamente. Itachi circundou a cintura do irmão cautelosamente, ciente de que aquela seria a única vez.

Um mês depois

Na pequena cama da cela, um adulto repousava. Parecia dormir um sono leve, sem sonhos. Em pé, não muitos passos atrás, um jovem o observava. Seus olhos perscrutavam cada mísero pedaço do corpo alheio. Não com olhares luxuriosos, mas com um olhar que oscilava entre mágoa e carinho. Talvez um brilho mostrasse algum indicio de agradecimento, também.

O corpo se mexeu, mas seu dono permaneceu dormindo. O outro, assustado, recuou um pouco; logo voltando a sua posição quando percebeu o estado de seu irmão.

- Itachi, eu... Bem, me desculpe pelo que te disse naquele dia. Eu estava com raiva, e estava com medo. – Disse baixo, deitando no beliche de cima - Itachi dormira na sua pelo cansaço.

Os olhos do mais velho abriram-se lentamente, conforme um sorriso lhe adornava a face.

E então se foi a estação, pois dois meses se passaram

Dois homens morenos encaravam-se no pátio da carcerária – apesar de tal nome soar pejorativo – da vila da folha. Fulminavam-se. Ao redor, os outros prisioneiros formavam uma roda, incitando a briga já tão eminente. Não havia um motivo definido. Talvez fosse apenas para passagem de tempo; talvez fosse por algo que ninguém sabia; talvez o motivo fosse à falta de um motivo. Uma discussão sucinta e, então, o primeiro golpe.

Seguindo assim, em uma luta bruta que demorou a ter um fim. Uchiha Sasuke e Akeichi Souma. Estranho talvez fora o resultado da luta, já que o pequeno Uchiha venceu. Estranho, pois seu oponente tinha o dobro de seu tamanho, e no mínimo uns dez quilos a mais.

Mesmo obtendo a vitória, o menor saiu machucado demais – por dentro e por fora. Olhos o encaravam pela pequena janela engradada em uma cela longínqua.

Ele foi levado, sem muito cuidado, para o local onde estava ficando durante sua prisão, e o olhar do misterioso finalmente voltou-se para dentro do cárcere.

- I-Itachi... – A voz do ferido saía fraca.

- Está tudo bem, Sasuke. Tudo irá ficar bem. – O outro ajeitou a cabeça do mais novo em seu colo, mantendo-o o mais confortável possível até a chegada de um médico. – Não se preocupe, darei um jeito de conseguir comida para você. – Completou, lembrando-se das regras que diziam que qualquer infração resultaria na perda das refeições diárias.

- Obrigado... – Parecia tentar falar, mas o torpor pela perda de sangue já o embalava. – Onii-chan.

O mais velho sorriu. Ninguém nunca soube que o motivo da briga foi o irmão do oponente – Akeichi Shiro – ter tido segundas intenções em relação à Itachi. Na verdade, ninguém nem imaginaria.

E em três meses, um já sorria na companhia do outro. Estranhamente, com sentimentos aflorando sem motivo. A convivência foi melhorada, e pode-se até dizer que os dois Uchiha conviviam como irmãos. Claro que foi difícil convencer Sasuke a manter qualquer forma de relacionamento no início, mas Itachi tinha seus meios. Contudo, após um tempo, o mais velho já não tinha tanta certeza se queria continuar agindo desta maneira com o outro. E nem a tinha Sasuke.