III: Início

Levou duas semanas para que Milo tomasse coragem de atravessar a rua e falar com o vizinho. Muitas vezes ele ficara espiando da janela de seu quarto, para então descer decidido para a sala, abrir a porta da casa e sair até a soleira apenas para lançar um olhar rápido ao jovem desenhista e desistir, fechando a porta atrás de si e encostando-se nela, com um suspiro.

Naquela tarde ele havia ensaiado em frente ao espelho as palavras, só saindo dali quando achou que seu sotaque já não estava tão ruim. Só esperava não esquecer tudo quando o ruivo respondesse em seu perfeito timbre britânico. Seria uma saia justa daquelas!

Quando abriu a porta e saiu para a rua, viu que como sempre Camus estava concentradíssimo em seu desenho. Ficou algum tempo observando-o, incerto se ia ser bem recebido; talvez o garoto não quisesse ser incomodado. Ensaiou as palavras em sua mente mais uma vez e então com um aceno de cabeça decidido seguiu adiante.

Camus só se deu conta da aproximação quando a luz que atingia a folha de papel foi substituída por uma sombra. Estava tão mergulhado nas linhas de grafite meticulosamente desenhadas sobre o papel que quase teve um sobressalto. Ergueu o olhar e se deparou com um loiro de olhos azuis desafiadores, a quem ele reconheceu ser o vizinho que se mudara recentemente. O que ele estaria querendo, para encará-lo daquela forma? Camus preparou-se para responder a altura, fosse lá o que aquele rapaz estivesse pretendendo.

Como mais temia, Milo esqueceu as palavras que havia ensaiado tanto. Começou com um gaguejo incerto para por fim dizer um "Hello" extremamente inseguro.

Camus não respondeu ao cumprimento. Estava perplexo com a atitude daquele jovem que parecia ter a sua idade. Apesar de não sair muito de casa ali na Inglaterra, Camus conhecia bem os traços dos ingleses para saber que o loiro era tão estrangeiro quanto ele.

- Você não é daqui. - disse finalmente.

Milo hesitou em responder, escolhendo as palavras para não falar errado.

- Não, eu me mudei há quase três semanas. - sorriu.

Pelo sotaque, Camus não podia dizer com certeza de onde ele era. Provavelmente europeu também, pelos traços, do sul da Europa.

- Não foi isso que quis dizer. - disse devagar, para que Milo o compreendesse bem. - Eu disse que você não é inglês.

Desta feita, Milo pareceu ofendido. Estava por demais deslocado com aqueles olhos azuis gélidos e meticulosos medindo-o antes de dizer qualquer coisa. Sem que pensasse em algo melhor para dizer, retrucou:

- Você também não é daqui!

Camus quase riu da maneira com a qual o loiro disse aquilo. Era como se o acusasse.

- Não, eu não sou.

Milo não soube o que dizer. De todas as respostas que esperara, esta não era uma delas. Ficou calado e então olhou para o desenho apoiado no colo do ruivo. Antes que pudesse atentar para o que era o desenho, Camus fechou a pasta.

- Bem, mas você ainda não me disse o que deseja. - Camus se levantou, ficando frente a frente a ele.

- Ahm isso... - como se de repente se sentisse mais seguro, Milo prosseguiu. - Bem, como você sabe eu me mudei para cá há pouco tempo e ainda não conheço ninguém. Não vi ninguém da minha idade por aqui além de você e então pensei que poderíamos...

- Não estou interessado. - replicou Camus antes que ele terminasse, dando-lhe as costas.

- Ei, espere! - Milo puxou-o pelo ombro, irritado. - Você pode não ter ido com a minha cara, mas isso não te dá o direito de agir assim comigo! Seu... - soltou uma ofensa em grego.

- Ah, você é da Grécia. - Camus afastou a mão de seu ombro, como se afastasse um inseto. - Bem, eu já disse, não estou interessado, sinto muito.

Milo permaneceu ali parado por algum tempo, mesmo depois que Camus sumira dentro da casa. Quando voltou para a própria casa estava irritado com aquele gringo metido, com aquele lugar, com a Inglaterra, com os pais e com aquela casa. E estava sobretudo irritado consigo mesmo por ter feito papel de idiota na frente daquele rapaz. Quem o ruivo pensava que era?

Jogou-se na cama, olhando para o teto branco e sentindo-se patético. Nunca lhe aconteceria algo assim na Grécia. Se ele pudesse, voltaria correndo para lá. Se pudesse, nunca teria saído de lá.

oOo

Não demorou para que Camus se arrependesse de seu comportamento. Agira de forma contrária a tudo o que sua mãe lhe ensinara. Ele não conhecia o vizinho, não tinha razão alguma para tratá-lo mal. Entendia como ele devia estar se sentindo deslocado num país diferente do seu, numa casa totalmente nova. Talvez eles tivessem muito em comum e fosse bom que se tornassem amigos, mas Camus nunca tivera um amigo de verdade antes. A única pessoa para quem ele dedicara todos seus sentimentos estava morta e ele não queria sentir a dor de perder alguém que gostasse de novo. Claro que ninguém nunca seria como sua mãe fora, mas encarar a morte era doloroso. Ele estava bem vivendo solitariamente naquele lar onde seu pai respeitava seu espaço. Não estava interessado na amizade do loiro.

Mas ainda assim, sabia que nada disso justificava sua atitude. Quando houvesse uma oportunidade, iria se desculpar. Não que estivesse esperando que o jovem aceitasse suas desculpas; ele estaria em seu total direito de não fazê-lo.

Subitamente, Camus sentiu-se muito saudoso da mãe. Jamais teria agido daquela forma se ela ainda estivesse ao lado dele, para orientá-lo. Ela devia estar muito desapontada com o comportamento dele.

Entrou no quarto e guardou a pasta dentro da gaveta no guarda-roupas. Será que o garoto vira o desenho? Esperava que não, ninguém deveria ver aqueles desenhos, muito menos um desconhecido! Seguro de que havia fechado a pasta a tempo, saiu do quarto indo para a cozinha almoçar. Provavelmente passaria o resto da tarde pintando. Estava ansioso por começar um quadro novo e diferente de todos os outros!

oOo

Passou-se mais de um mês desde que os Hadjidakis haviam se mudado para a Inglaterra e até então, Camus e Milo não haviam se falado novamente. Para Camus a rotina prosseguiu quase como antes, não fosse pelo quadro que ele iniciara naquela tarde mal-sucedida em que falara com Milo pela primeira vez. A tela estava coberta e encostada em algum canto do sótão e ele não tinha a menor intenção de finalizá-la.

Para Milo, as coisas só haviam se tornado mais chatas. Seus pais já haviam arranjado quase tudo para que ele ingressasse em uma faculdade no segundo semestre e estavam insistindo para que ele estudasse ao menos um pouco já que teria de passar pelo vestibular dali a um mês e meio. Ele a princípio recusara-se terminantemente a ir para a universidade, o que gerara uma tensão crescente entre ele e o pai. Por fim, vendo que seria o único prejudicado com aquela atitude, passou a fingir que estudava. Não tinha a menor intenção de ir para aquela faculdade ou qualquer outra que fosse. Nunca fora muito fã dos estudos e sabia que seria ainda mais difícil aprender num país cuja língua ele ainda não dominava bem. Nem estava disposto a tentar.

E para aumentar sua própria irritação, ele ainda se pegava observando o vizinho estrangeiro fazendo suas pinturas no sótão. Embora ainda sentisse raiva ao lembrar de como o jovem o tratara, sentia uma fascinação pela aura que ele transmitia quando pintava que era inevitável continuar assistindo-o. De qualquer forma, ele não ia saber, então estava tudo bem.

Uma das coisas que ajudavam a melhorar consideravelmente o humor de Milo era andar de bicicleta. Fazendo isso ele já se adaptara melhor ao bairro e conhecera algumas pessoas, mas para sua infelicidade parecia que a maior parte da população era da terceira-idade. O decorrer das semanas só o fazia achar o lugar mais entediante.

Era manhã quando a sra. Hadjidakis pediu a Milo que fosse ao mercado comprar algumas coisas e ele saiu com sua bicicleta, já conhecendo o trajeto de cór. Estava andando pelos corredores do mercado, procurando os mantimentos que a mãe pedira quando teve o desprazer de se deparar com Camus. Ia ignorá-lo por completo e não esperava realmente que o ruivo lhe desse alguma atenção.

- Ei. - ouviu a voz atrás de si e conteve-se para não responder.

- Hadjidakis, estou falando com você.

Como ele sabia seu sobrenome?

- Desculpe, mas eu não estou interessado. - replicou, lançando um olhar felino para o ruivo.

- Olha, você está certo pela sua atitude. Eu só queria dizer que sinto muito por tratar você daquele jeito, mas não precisa aceitar minhas desculpas se não quiser, okay?

Com um aceno breve de cabeça, Camus se afastou, deixando mais uma vez Milo perplexo e sem ação.

Depois de tanto tempo se culpando por aquilo, estava feito, ele havia se desculpado. Era bom estar em paz consigo mesmo mais uma vez. Não fosse por aquele quadro incompleto e incompreensível...

Camus estava caminhando pela calçada, perdido em seus pensamentos enquanto carregava alguns pacotes quando a bicicleta começou a acompanhá-lo em seu passo rápido.

- Quer uma carona?

- Não, obrigado.

- Quer que eu te ajude a carregar estas coisas?

- Não, obrigado.

- Você é um artista ou alguma coisa assim? Ou pelo menos está tentando ser?

A pergunta surpreendeu-o.

- Não, por quê pensou isso?

- É que eu sempre vejo você desenhando ou pintando e... - Milo subitamente lembrou-se de que não devia confessar que ficava observando-o. - Então eu achei isso. De onde você é?

- França.

- Ah... então é por isso!

- A arte grega também é muito famosa.

- É, mas mais pela antigüidade. Acho que os franceses têm mais jeito para essas coisas, no fim das contas. - fez uma pausa. - Você já expôs seus quadros em algum lugar?

- Como sabe dos meus quadros?

- Da janela do meu quarto... dá para ver você pintando.

"Apesar de tudo... ele tem me observado!?"

- Não, ainda não expus nenhum.

- Ah... mas você já mostrou para alguém?

- Já.

Normalmente, não seria difícil para Milo ter o atrevimento de pedir para ver os quadros. Mas com Camus ele sentia que era bom ir devagar ou o garoto seria hostil com ele e com razão.

- Olha, sobre aquilo lá... eu te desculpo sim. Acabei atrapalhando sua concentração né? - sorriu, sem graça. - Mas...

Estavam chegando perto de suas casas. De repente, Milo sentiu-se receoso de que seu quase monólogo fosse acabar ali.

- ...Sobre sermos amigos, tem certeza de que não está interessado? - perguntou como se estivesse vendendo algo.

Camus não respondeu até que parassem em frente de sua casa. Não estava bem certo do que responder. Uma parte sua dizia que ele não tinha nada a perder, o fato de aceitar a amizade do loiro não ia fazer com que ele se apegasse totalmente a ele a ponto de fazê-lo sofrer por isso. Só se tornaria arriscado se ele deixasse as coisas ultrapassarem os limites. Entretanto, aceitar já poderia ser uma grande responsabilidade. Ele não sabia se estava preparado para se relacionar com alguém, fosse como fosse.

- Como é seu nome?

- Milo.

- Você parece mais confiante com seu inglês, Milo.

- É, na verdade eu ando treinando mais. - sorriu.

- Se tiver interesse de ver alguns de meus quadros, pode vir aqui qualquer hora dessas.

Milo mal pôde acreditar no que estava ouvindo. Um tanto estranho, aquele francês. Parecia sua maneira de dizer que estava interessado na amizade de Milo. Já era um começo.

- Obrigado, eu realmente gostaria. - estava mais uma vez atrapalhado com as palavras, mas dessa vez porque nunca fora tão polido daquele jeito. - Aliás, qual o seu nome?

- Camus.

- Bem, então até mais, Camus. Se eu demorar muito minha mãe vai me dar uns puxões de orelha. - sorriu novamente e mesmo que Camus não soubesse naquele momento, fora ali que aquele sorriso o encantara, pela primeira vez.

- Então é melhor você correr.

Os dois trocaram um aceno e Milo atravessou a rua muito contente. Fosse lá o que houvesse feito Camus agir com ele daquela forma grosseira da primeira vez, agora já havia passado e ele estava curioso por conhecê-lo melhor. Sentia que iam ser bons amigos.

Camus ainda se indagava se fizera bem. Ele estava tão acostumado a ser uma pessoa sozinha que a simples idéia de ter um amigo chegava a ser amedrontadora. Deixou os pacotes em cima da mesa da cozinha com uma esperança oculta em seu íntimo de que Milo não estivesse realmente pretendendo se aproximar dele.

Mas logo provou-se que sua esperança fora em vão.

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