Um. Dois. Três. Quatro. As badaladas d relógio soavam como marretadas em minha cabeça, e punhaladas em meu peito. A cada badalada, o olhar de Yuka se entristecia mais. E aquilo dilacerava minha alma...

Meia-noite, marcava o velho relógio. O relógio que não funcionava antes de Lucy chegar, e que agora funcionava perfeitamente... Parou, logo após a décima segunda badalada. Nenhum de nós entendeu. E se elas entenderam, não se importaram em explicar. As duas fitavam Yuka de modo estranho. Mayuri olhava Yuka como se a mesma fosse uma boneca de porcelana. Juro que pude ver lágrimas nos olhos dela por alguns instantes... Mas Lucy... Sempre aquele olhar frio e sádico... Eu sentia que ela imaginava mil modos de decepar a cabeça de Yuka ali mesmo, sem cerimônias...

Kouta...

Sim, Maya-chan.

Já passa da hora de dormir... Elas... vão ficar?

Ainda não sei por quê respondi daquela forma.

Sim, elas ficarão conosco para sempre agora... Nana, pode procurar algumas colchonetes, e cobertores? Yuka...

Apesar de tudo, eu ainda tinha esperanças...

Vamos para o nosso quarto, Yuka...

Talvez você queira dormir com Lucy, Kouta... Afinal há muito tempo você a perdeu... Talvez queira conversar...

Yuka... Quero descansar, com você por perto... Vamos dormir?

Ela levantou, e seguiu para o quarto, muda. Eu sabia que não era uma vitória, e que mais do que nunca, ela não queria dividir o quarto comigo naquela noite. E eu... Pensamentos demais. O rosto de Mayuri, que me parecia tão familiar, tão querido, tão íntimo, mas que ao mesmo tempo eu não conhecia. Lucy à minha frente, parecia a mesma, mas não era a Lucy que conheci e que aprendi a amar... Meu mundo inteiro se transformou completamente naquela noite. E de certa forma, tudo voltou a seu lugar. Era tão estranho... Mas parecia tão certo... Tão bom...

A manhã chegou rapidamente. E com ela, as obrigações de sempre. Levantei no horário de sempre, arrumei o quarto, sentei-me à mesa para o café. E lá estavam todas elas, como se fosse uma coisa corriqueira, como se pertencessem àquele lugar. E Yuka sorria novamente. Naquele momento, a harmonia invadiu meu ser. E tudo se tornou mais fácil... Terminei meu café e fui à cozinha. Queria falar com ela...

Yuka...

Não precisa falar, Kouta. Eu entendo. Fiquei chocada, mas entendo. Está tudo bem...

Com um beijo, despedi-me de Yuka. Acenei para as meninas, e fui para a faculdade. Ao sair, percebi o olhar de Lucy. Eu conhecia aquele olhar... Nyuu...

Realmente... Nossas vidas seguiam seu curso.

Ao sair, porém, eu não sabia, e nem poderia imaginar os pensamentos negros de Yuka em relação a Lucy... E Mayuri...

BASE MILITAR DA SIBÉRIA

Alerta máximo. Falha no sistema de segurança do laboratório de engenharia genética. Dois espécimes nocivos, mantidos em completo isolamento, escaparam do confinamento. Um projeto extremamente sigiloso, elaborado com a colaboração entre Rússia e Japão, que tinha como intuito investigar os eventos ocorridos no país há três anos atrás, no qual um dos espécimes havia sido capturado vivo, porém em coma aparentemente irreversível. A partir da mesma, realizaram- se outros experimentos. Logo, as 15 formas de evolução da espécie Diclonius, criadas a partir da espécime chamada de Lucy, seriam testadas em meio à população dos países da Europa e Oriente Médio. Porém, a fuga de uma destas evoluções, juntamente com a espécie original, causava espanto e grande apreensão.

Os representantes militares de Rússia e Japão se reúnem para analisar a situação, e elaborar um plano de captura e contenção imediata.

General Matsumoto, de acordo com os peritos, a espécie original e encontra em seu país. Os exames realizados anteriormente mostram que seu corpo é plenamente funcional, mas a mesma sofre de transtorno bipolar. Caso perturbada, será letal à população. A espécime número 19 mostra o mesmo distúrbio. Ambas, porém, têm atividade cerebral elevadíssima, e dividem memórias. Ao contrário de Lucy, Mayuri tem memória latente. Acreditamos que Lucy, devido às suas habilidades, levou Mayuri consigo para verem esta pessoa.

Na mesa de reuniões, a foto de um menino de cabelos negros, olhos grandes e profundos, de mãos dadas com o pai e a irmã.

General Krevchenko. Fui instruído por meus superiores a apenas observar o comportamento das espécies. Ao que parece, esta pessoa possui grande importância e participação na concretização dos testes.

Mas... Como já sabia...?

General Krevchenko... Seus superiores já deveriam saber. Conhecemos Lucy melhor que ela mesma.E não deixaremos que nada interfira nos planos dela.

De repente, uma explosão. Milhares de soldados invadem a base, matam toda a equipe de pesquisa russa e resgatam os espécimes restantes em criostase. A área é rapidamente evacuada. Pairando sobre a base, um helicóptero negro observa a cena, calmo como um corvo diante da morte. Nas sombras, alguém acende um cigarro e solta uma gargalhada, enquanto dá a ordem final.

Explodam tudo. Não devem deixar rastros da operação aqui.

O helicóptero se afasta rapidamente, e no retrovisor é possível enxergar o cogumelo branco formado pela explosão da bomba nuclear.Diante daquela visão aterradora, a sombra solta outra outra gargalhada.

- Desta vez... Não haverá falha, Lucy.