Bônus – Violada

Duas semanas depois de Ilsa Hermann presentear Liesel com o livrinho preto, uma carta chegou ao numero 33 da Rua Himmel. Ela dizia que havia uma coisa especial para os Hubermann na casa do prefeito. E adivinham que teve que subir a ladeira da Grande Strasse?

Acertou.

Ela foi sozinha, no final da tarde, carregando o livro consigo. Novamente agradeceu à Ilsa pelo livro, agradeceu pela "coisa especial" que, na verdade, era uma cesta cheia de alimentos para sua família.

De presente para sua mamãe, como mais um pedido de desculpas por termos que dispensá-la.

Liesel tinha certeza que disso mamãe não ia reclamar.

Já estava escurecendo quando Liesel fazia o caminho de volta para casa. Estava virando na Schiller Strasse quando trombou com ele.

-Olha só...

um enjôo estranho tomou posse do estômago da roubadora de livros ao encarar os olhos enevoados de Viktor Chemmel. Isso quase a fizera deixar a cesta cair. Instintivamente, deu um passo pra trás ao vê-lo se aproximar.

-Mas não é a putinha? – Ele olhou Liesel de cima a baixo e sorriu maliciosamente, tragando seu cigarro. Ela engoliu seco.

-Chemmel.

-Quanta formalidade. – Disse, dando de ombros, soltando a fumaça e aproximando dela. – Faz tempo que eu não vejo você nem o seu amiguinho abusado. – Outro trago.

-É. – Respondeu simplesmente, tentando evitar olhá-lo nos olhos.

-Está cheia de assunto hoje, heim saumensch? – Ele falou, colocando a mão no queixo dela e forçando-a a olhá-lo.

-É só que estou com pressa, minha mãe está esperando.

Tentou debilmente fazer menção à cesta, mas ele foi mais rápido, empurrando-a contra a parede mais próxima.

-Ah, não... Acho que isso pode ficar pra depois, concorda?

Chemmel jogou o cigarro no chão e empurrou Liesel novamente contra a parede, fazendo com que a cesta caísse e o livrinho preto pulasse de dentro dela. O coração de Liesel disparou, mas de desespero. Ela não queria. Sabia o que vinha a seguir e não queria.

-Viktor, me deixa ir embora...

-Oh... Resolveu ser educadinha... – Ele desdenhou, subindo a saia da menina e afastando-lhe os joelhos, apertando o corpo contra o dela. – Acredite em mim, você vai querer terminar isso.

Liesel engoliu seco, tentando o Maximo possível afastá-lo, mas ele era muito mais forte que ela. Viktor a forçava a olhá-lo, deixando a menina mais e mais desesperada. Ela já sentia varias lágrimas transbordando em seus olhos, que resolveram escapar quando o rebelde de classe média passou a língua na bochecha dela. Enojada, Liesel juntou toda a saliva de sua boca e cuspiu no rosto de Chemmel.

Errado – sua mente acusou imediatamente.

Respirando fundo, ele se afastou um pouco, limpando o rosto com as costas da mão. Aproveitando da situação, Liesel tentou fugir, mas ele não precisou fazer nenhum esforço para prendê-la de volta, rasgando a camiseta da menina.

-SOCORRO! – Liesel gritou, usando seu ultimo recurso. – SOC...

Com uma das mãos, Viktor tampou a boca de Liesel, que se debatia de qualquer jeito, tentando ter algum efeito; seus gritos abafados e as lagrimas escorrendo. A outra mão de Viktor brincava com o corpo da menina, procurando uma passagem.

Estava quase desistindo de lutar, sendo vencida pelo cansaso. Fechou os olhos, esperando a morte – ia ser violada, isso era como a morte –, quando o corpo de Chemmel afastou do dela, permitindo que a menina respirasse. Devagar, Liesel abriu os olhos e caiu de joelhos com a visão turva, sem entender o que acontecera, sem se dar conta do furdunço que acontecia à sua frente.

-Liesel? – O rosto de Rudy entrou no campo de visão da menina. – Ele te machucou? – Liesel balançou a cabeça negativamente. – Vem.

Rudy ajudou-a a levantar, olhando-a nos olhos e apenas nos olhos. Quando Liesel se virou para procurar seu livro, viu Viktor Chemmel levantando com um canivete na mão. Ela empurrou Rudy para o lado e saiu do caminho quando Chemmel veio até eles para atacá-los. Sem pensar duas vezes, a roubadora de livros pulou nas costas do agressor, desequilibrando-o. Rudy conseguiu tirar o canivete da mão de Chemmel, Liesel saiu de cima dele, dando espaço para que Rudy pudesse golpeá-lo.

Enquanto Viktor Chemmel caía espancado na calçada da Rua das Estrelas Amarelas, Liesel pegou o canivete que Rudy jogara em qualquer lugar. Ele já havia parada de bater, se afastando um pouco e respirando com dificuldade, enquanto a roubadora de livros se aproximava do agressor com o canivete na mão. Sua mente era clara, branca. Só existia uma coisa em que pensar.

Chemmel estava de quatro, com uma mão na barriga e sangue pingando de sua testa. Sem o menor pingo de pena, Liesel chutou-o nas costelas, fazendo-o virar com as costas no chão. Então ela se abaixou, ajoelhando ao lado dele, e aproximou o canivete do rosto assustado do rapaz.

-Nunca mais. – Falou entredentes. – Nunca mais se aproxime de mim. Nunca mais pense em falar de mim. Nem de Rudy. Principalmente depois de sair daqui. Porque, se você falar, eu vou saber. E eu não vou titubear em usar isso. – Forçou a lâmina contra a bochecha dele. – Ou coisa pior. Entendeu?

Viktor Chemmel balançou a cabeça que sim e correu rapidamente os olhos por Liesel, sorrindo maliciosamente com os dentes sujos de sangue.

-Você ficou gostosa, putinha. Eu tentaria de novo.

Os olhos de Liesel perderam um pouco o foco, mas ela forçou mais a lâmina, fazendo-o afastar o rosto.

-Some daqui, Chemmel. – Rudy ordenou.

Com um riso sarcástico, ele obedeceu, levantando devagar e saindo rapidamente da Schiller Strasse, cuspindo sangue no chão. Não houve ameaça final dessa vez.

Aos poucos, Liesel foi saindo do choque, fechou o canivete e olhou para si mesma. Sua pele branca estava cheia de marcas e sua camiseta fora inutilizada. Respirou fundo e, antes de completar qualquer pensamento, uma camiseta branca foi jogada ao seu lado. Ela a pegou, segurando-a com as duas mãos antes de virar a cabeça para trás e ver Rudy de costas pra ela, pegando as coisas que estavam espalhadas pela calçada.

-Rudy? – A menina chamou, tocando-lhe no ombro, já vestida com a camiseta que ele emprestara. – Obrigada.

-Agradeça à sua mãe. Ela que me pediu pra vir atrás de você. – Ele olhou para ela com um sorriso simples e ofereceu algo à menina. – É seu.

O livrinho preto. Liesel o analisou um pouco antes de pegá-lo de volta.

-Você não me olhou. – Soltou, sem medir as palavras. – Por quê?

• MAIS UM MOTIVO PARA AMAR •

RUDY STEINER

-Eu respeito você, Liesel. Por mais que eu a queira.

Os olhos da roubadora de livros brilharam e seu coração se inundou daquela emoção adolescente que corre pras pontas dos dedos.

E, antes que se desse conta, o livrinho voltou ao chão e Liesel pulou no pescoço do amigo, chapando os lábios nos dele. Rudy perdeu um pouco o equilíbrio com o susto, mas logo equilibrou-se, rindo contra os lábios da menina. Segurou-a firme pela cintura com um dos braços, enquanto a outra mão enroscava no cabelo dela, puxando-a mais pra si. Ele a suspendeu um pouco mais e Liesel enroscou as pernas em sua cintura, cambaleou até a parede, onde a menina pode apoiar as costas, e só desgrudaram os lábios quando o ar se tornou extremamente necessário. Tempo pra recobrar a consciência.

Respirando com dificuldade e ainda com as pernas envolta de Rudy, Liesel colocou as mãos no rosto do amigo, olhando-o nos olhos. Beijou-o novamente, com mais calma e ele a soltou.

-Nós temos tempo. – Sussurrou nos lábios dela. É triste já sabermos que não seria bem assim. – Vamos.

• UMA CONVERSA DE MÃOS DADAS NO •

CAMINHO PRA CASA

-Desde quando você ficou forte daquele jeito?

-Não sei. Eu só não podia suportar te ver ser tratada daquela forma. E nunca me perdoaria se não chegasse à tempo.

• • •

-Liesel, sua saumensch! – Mamãe vinha gritando da sala, quando ouviu o barulho da porta da cozinha. – Onde foi que se meteu? Eu tive que pedir pro menino dos...

Rosa paralisou ao bater os olhos em Liesel. A menina chegou a conclusão que, pra assustar até sua mamãe, ela devia estar mesmo deplorável.

-O que aconteceu com você? – Quem perguntou foi Hans. Rosa ainda estava em choque.

-Obrigada por pedir pro Rudy me procurar, mamãe. Ele me salvou.

-Salvou de quê? – Papai, novamente. Liesel suspirou cansada.

-É melhor sentarem.