Alguns avisos importantes:

DESCULPEM PELO ATRASOS PFV. Meu final de período no ano passado foi inférnico e eu tive alguns problemas pessoais que não me deram tempo, muito menos humor, pra escrever. Desculpa, de verdade ): q

O capítulo, infelizmente, não está 100% betado. Uma de minhas betas está viajando e quase virtualmente incomunicável, com a exceção de uma tablet. E bem, betar numa tablet é meio tenso né rs
Eu poderia ter esperado ela voltar de férias pra betar o cap, mas achei melhor postar logo porque ele já estava atrasado o suficiente rs
Então se encontrarem alguns errinhos perdidos por ai, por favor me perdoem, ok? Assim que ela voltar nós acertaremos os erros e fica tudo bonitinho.

Enfim, vou deixar vocês lerem agora rs

Música: Hurricane - 30 Seconds to Mars


McCoy percorria os corredores da Enterprise a passadas rápidas e pesadas, seu rosto contorcido numa carranca irritadiça que fazia o homem parecer estar a ponto de esganar alguém. E bem, na verdade realmente estava. E esse alguém tinha nome; começava com James e terminava com Tiberius Kirk.

Depois da discussão que tiveram na enfermaria, aquele bastardo cabeça-oca se dedicara a evitar a presença do médico a qualquer custo, e isso já durara dois dias. Sempre que McCoy tentava procurá-lo o outro dizia estar ocupado, e sempre com alguém por perto, fazendo com que o médico não se sentisse no direito de forçar o assunto sem estarem sozinhos. Jim sabia que ele não faria isso, e se aproveitou descaradamente.

Agora já estavam em orbita de Betazed IV, a equipe de exploração estava prestes a descer para a superfície, e Kirk iria junto. O médico largara tudo que fazia na enfermaria quando ouvira o anuncio, feito pelo próprio Jim, de que eles estavam descendo. Ele sabia que Kirk não estava em condições de deixar a nave, mas o loiro parecia ignorar esse fato, e McCoy se sentia na obrigação, como médico e amigo, de fazê-lo perceber isso.

Estava quase chegando à sala de transporte quando, ao virar o corredor, viu um grupo de pessoas caminhando à frente. Pareciam ser cinco ou seis pessoas, e pode distinguir a figura de Spock entre eles, e, logo ao seu lado, seu Capitão. Apertou o passo.

– Jim, espere! – Ainda faltavam cerca de dois metros para alcançá-los, mas sua voz pareceu ser ouvida. Um dos tripulantes do grupo se virou para McCoy, depois falou algo para Kirk, que parou de andar, virando-se para trás. Constatando ser o moreno, pediu que o resto do grupo continuasse a ir para a sala de transporte. Não pareceu notar que nem todo o grupo continuou.

– Hey, o que aconteceu, Bones? – McCoy que já havia o alcançado a essa altura, ficara ainda mais irritado com a naturalidade com que o outro falava, como se nada de importante estivesse acontecendo. Aquilo realmente irritada o moreno. De verdade.

– O que aconteceu? Você! Foi isso que me aconteceu. Perdeu o juízo? Acha que na sua condição pode simplesmente sair em uma missão? – O loiro ia abrir a boca pra contestar, mas o médico foi mais rápido – Você está fugindo de mim a dias, achou o que? Que não falar no assunto iria resolver o problema?

– Não tem nada de errado com a minha condição, pare de fazer tempestade em copo d'água. Além do mais, é uma missão simples, não acontecerá nada. – McCoy estava começando a falar alto de mais, e coisas de mais, Kirk tinha que encerrar aquele assunto o mais rápido possível, antes que algum passante ouvisse mais do que deveria.

– Pare de me tirar por idiota, Jim! Já disse que isso não funciona mais comigo. Não seja inconsequente, o que acontece se você tiver outro ataque como aquele lá embaixo? O que você vai fazer?

– O que vai fazer sobre o que, Capitão? – Era a voz de Spock à suas costas, e naquele momento Jim sentiu como se uma enorme pedra de gelo estivesse presa em sua garganta. "Oh, merda". Quanto Spock havia ouvido? Havia sido somente aquela frase? Pois se havia ouvido algumas palavras a mais Jim estava acabado. Não, não podia se entregar tão fácil, tinha que pensar em alguma coisa. Precisava pensar em alguma coisa.

Em um estalo, Kirk girou nos calcanhares, virando-se para o recém-chegado. – Ótima hora para aparecer, . – Fez o máximo para não parecer ironia – insiste para que eu leve pelo menos mais um membro da equipe médica, ele acha que a probabilidade de algum tripulante ter algum tipo de reação alérgica a algum componente da flora do planeta é alta. Você poderia dizer a ele que não é pra tanto? Porque parece que a mim ele não escuta.

O Capitão captou um pequeno movimento de sobrancelhas de Spock, quase imperceptível. Os olhos castanhos do Vulcan foram de Jim para McCoy, depois de volta para Jim. Era quase como se estivesse os sondado, tentando captar cada detalhe não dito (ou dito) daquele pequeno diálogo. A cada milésimo de segundo que o moreno demorava a responder Kirk sentia a pedra de gelo em sua garganta aumentar, espalhando uma sensação álgida por todo seu tórax.

– Sou forçado a concordar com o capitão, . Todos os membros da equipe de ciências são bem treinados o suficiente para ter o discernimento de não se expor desnecessariamente a nenhum tipo de alérgeno em potencial. Além disso, estamos levando todo material de segurança necessário, e eu pessoalmente me certificarei que todos o usem. A probabilidade de alguém desenvolver uma crise alérgica séria o suficiente para ser necessário mais de um médico de emergência é inferior a 3,28%. Dados os fatos, sua preocupação é ilógica, Doutor.

O médico assistira ao pequeno discurso do Vulcan quase atônito. Não sabia o que era pior; o descaramento de Kirk ou a facilidade com que Spock acreditara mentira improvisada. Respirou fundo, juntando cada pingo de autocontrole que tinha para não acabar com aquela mentira enquanto ainda era tempo. Enquanto o pior ainda não acontecia.

Os olhos do moreno procuraram mais uma vez os de seu melhor amigo, numa última súplica silenciosa para que algum resquício de autopreservação ainda existisse ali, e o fizesse perceber o tamanho do risco desnecessário a que estava se expondo. Porém, a única coisa que viu pairando pelos olhos azuis era aquela perseverança cega e sem limites, que o outro cismava em ostentar sem medir as consequências. Não era o que McCoy queria ver, não naquele momento, mas não era nada que ele não esperasse.

– Bem, não posso discutir com sua lógica, Spock. Ninguém pode. Vou parar de insistir. – Um sorriso amargo pairou sobre os lábios do médico. Estava vencido, mas não convencido. – Mas fiquei de olho nesse daí, sua saúde pode ser mais fraca do que aparenta. – E sem voltar a se dirigir a Jim, MCCoy se retirou. Algumas pessoas só aprendem que fogo queima quando colocam a mão nele, o médico só esperava que Kirk não se queimasse de mais.

Só quando McCoy já estava a vários passos de distancia que Jim se permitiu sentir alívio. Era uma sensação estranha, porque sabia que o aquela insistência era simplesmente preocupação, e sentia-se um maldito ingrato por ignorá-lo daquela maneira. Mas não tinha outra forma, entregar-se não era uma opção.

– Obrigado pela ajuda, . Agora que está tudo resolvido, já podemos nos juntar ao resto da equipe. – O loiro já havia dado o primeiro passo em direção à sala de transporte quando Spock o interrompeu.

– Capitão. – O moreno chamou-o, com a voz baixa o suficiente para que somente o loiro pudesse ouvir, mas ainda mais firme do que o usual. Aquele tom não causou uma boa impressão ao capitão do que viria a seguir. Ele tentou evitar os olhos do outro, mas o silêncio se prolongou, e Kirk percebeu que Spock só voltaria a falar quando estabelecessem contato visual. E, a contragosto, as íris azuis procuraram as castanhas.

– Há algo que eu precise saber? – Como o capitão não respondeu, seu primeiro oficial reformulou a pergunta. – Há algo que você queira me contar? – O loiro não conseguiu sustentar o olhar do outro por mais que dois segundos. Não queria dizer nada, não queria ter que encará-lo e ver sua mentira refletida em seus olhos, não queria mais ficar ali. Só queria ir embora.

Mas não podia, e ele tinha plena consciência disso. O que não anulava o fato de que Kirk só querer desaparecer dali, o mais rápido possível.

– Está se referindo ao que McCoy disse? É só maluquice dele, ignore-o. Ele já agia como uma mamãe galinha antes, agora então, nem se fale. – Jim teve que escavar até o inferno de seu autocontrole para conseguir fazer as palavras saírem sem gaguejar. Pra sorrir então, nem dava pra contabilizar tamanho esforço.

O silêncio que se seguiu após seu comentário era tamanho que sua própria respiração parecia alta de mais. Ele podia sentir os olhos do Vulcan sobre ele, quase como se estivessem queimando sua pele, como se pudessem derreter toda a parede de confiança que construíra, chegando à figura pequena e disforme encolhido lá fundo. Era comprometedor, era assustador, era perigoso. Tinha que sair dali.

– Ah, pára! Não encuque com isso você também, pelo amor de Deus. Vamos logo para a sala de transporte, o resto do grupo já deve estar cansado de esperar. – O Capitão não deu tempo de resposta ao Vulcan, apenas se virou e voltou a seguir pelo corredor. Ele não olhou pra trás, mas podia sentir os olhos do de Spock queimando sua nuca por todo o percurso, e tinha a ligeira impressão de que não deixaria de senti-los tão cedo.

A primeira coisa que passou pela cabeça de Kirk ao chegar à superfície do planeta era que ele tinha cheiro de morango. Era idiota, ele sabia, mas o aroma estava por toda parte e era ridiculamente forte. Ele imaginou, guiado pelo cheiro, que veria bastante vermelho na flora do planeta, mas a verdade foi totalmente oposta. Quase tudo que via era azul. Vários tons de azul, ou verde azulado, ou roxo.

Chekov havia traçado as coordenadas de uma clareira no coração do planeta, em meio a uma vasta floresta, onde parecia haver uma boa variedade de espécimes para serem estudadas. Eles tiveram o cuidado de rastrear as formais de vida animais daquela região, se certificando de descer onde era menos povoado. Não queriam ser surpreendidos por nenhum predador local que pudesse representar algum perigo para a equipe.

Um grupo de cinco pessoas havia sido selecionado para descer, além do Capitão, totalizando seis componentes. Spock havia concordado em trazer dois tripulantes da equipe de ciências, McCoy mandara um médico, e Jim trouxera um membro da equipe de segurança, apenas por garantia.

Assim que chegaram, Jim passou as instruções ao grupo. Iriam se dividir em grupos de dois, para explorar melhor o perímetro. Nenhum grupo deveria se afastar de mais da clareira, e todos deveriam manter seus comunicadores ligados e a atenção ao máximo, e, no caso de qualquer emergência, o Capitão deveria ser o primeiro a ser informado.

A divisão dos pares foi feita baseando-se na ideia de que haveria um componente da equipe de ciências em cada dupla, para que a exploração fosse feita de forma mais eficiente. E antes mesmo que Jim anunciasse as duplas, Spock já pedira permissão para ficar em sua dupla. No primeiro segundo, o Capitão hesitou, mas não teve outra escolha se não ceder. Ele sabia que tentar argumentar com o moreno era perda de tempo e saliva, ele era inflexível quando queria.

E no final das contas, ele não tinha o que temer. Nada iria acontecer, eles só iriam recolher amostras. Apenas isso, não é?

Ignorando momentâneos pensamentos negativos, Jim anunciou que os grupos já poderiam tomar seus respectivos caminhos. Ele e Spock pegaram o caminho da direita, onde a mata não parecia tão densa, o que facilitaria a locomoção.

O Vulcan trazia uma maleta consigo, onde guardava pequenas amostras de quase todas as espécies de plantas que encontravam pelo caminho, e de tempos em tempos Kirk ouvia-o murmurar algum "Fascinante". Em uma das vezes se sentiu inclinado a perguntar o porquê das plantas serem tão magníficas, mas ao pensar no tamanho do discurso que ouviria acabou por desistir e ficar apenas apreciando a paisagem. Sorte sua que havia muito para se olhar.

No aspecto estético, Kirk podia dizer que aquele planeta era realmente fascinante. As árvores tinham troncos tão grossos que deveriam ser necessárias, no mínimo, quatro pessoas para abraça-los completamente, e deveriam ter em torno de 15 metros de altura. Suas copas eram cheias, e os galhos de uma árvore se entrelaçavam com os das outras, como se formassem um único organismo. Lá de cima, despencavam vários cipós, ou algo parecido com isso, que caiam como uma cachoeira, quase tocando o chão. Os troncos eram em geral de um tom um pouco mais escuro que azul petróleo, os cipós eram azul aço, e iam clareando conforme se aproximavam do chão, chegando quase ao azul bebê. E as folhas tinham tantos tons de azul que era impossível contar, Kirk ficou tonto só de tentar.

Havia outros espécimes de plantas enroscadas aos troncos das árvores, se assemelhando a parasitas, e algumas exibiam flores de quase um metro de diâmetro. E essas não se restringiam apenas aos tons de azul, existiam em quase todas as cores. O loiro chegara a achar até mesmo uma quase vermelha, com respingos de laranja. Ele descobrira, inclusive, que o cheiro de morango vinha de um tipo dessas flores.

Já haviam caminhado quase um km, que era o limite de afastamento da clareira que Kirk estipulara no início da missão, quando o loiro percebeu que a iluminação estava aumentando conforme caminhavam, e aumentando rápido. Spock não pareceu dar muita atenção, parecia mais interessado em uma colônia de espécimes de plantas que encontrara com tentáculos móveis e fluorescentes que nasciam de dentro do tronco de algumas árvores.

A nordeste de onde estavam, uma luz forte adentrava pelo espaço entre os troncos das árvores, e a curiosidade de Jim estava começando a pinicar de mais para não checar o que era. Mas antes que pudesse se afastar de mais, a voz de Spock quebrou o silêncio da floresta.

– Atenção ao chão, Capitão! De acordo com as coordenadas, haverá uma depressão poucos metros da frente. – O moreno já estava quase atrás de si quando disse aquilo, e Kirk quase deu um pulo com a fala repentina, mas se recompôs rapidamente.

– Pode deixar. – Se resumiu a responder, continuando a caminhar. Alguns passos à frente, e a luz se tornou forte de mais para seus olhos. Apertou-os, tentando bloquear a fonte da luz com as mãos, sem ter muito sucesso. Demorou alguns segundos para se acostumar com a claridade, para então poder ver onde estavam.

A primeira coisa que conseguiu enxergar foi o chão, ou a falta dele. A menos de três metros a frente de onde seus pés estavam a terra batida se transformava em rocha, curvando-se erraticamente quase 90 graus para baixo. Vários metros abaixo de onde se encontravam, estendia-se por muitos quilômetros um lago de águas turvas, de coloração esverdeada. Até onde seus olhos alcançavam a depressão de terra seguia a margem do lago, formando uma cratera com seu formato. A vegetação continuava se estendendo até o horizonte no nível superior a cratera, como uma gigantesca manta azul cobrindo a superfície do planeta. Dois sois brilhantes decoravam o céu, quase livre de nuvens, e seus reflexos tremulavam sobre a superfície do lago.

Kirk se distraíra demasiadamente com a paisagem para notar que um "Uau" escapara por seus lábios entreabertos.

– Deve ser uma visão esteticamente agradável para humanos. Observando de modo geral, e Ignorando a diferença de coloração, a flora e as constituições geográficas são bem semelhantes às terrestres. – O loiro demorou a notar que Spock estava falando consigo, e quando foi procurá-lo com os olhos o encontrou agachado junto a uma das últimas árvores antes do penhasco, analisando mais uma das plantas dos tentáculos. Kirk ainda estava na dúvida se aquilo era realmente uma planta, na verdade.

– As diferenças também podem ser agradáveis, Spock. E sim, é uma bela visão. – Seu tom era bem ameno, e um discreto sorriso surgiu em seus lábios ao fixar o olhar sobre o outro.

– O senhor deve estar ciente de que raramente elas são interpretadas dessa forma, Capitão. – O Vulcan já havia removido mais uma pequena amostra de um tentáculo da planta, e observava, segurando-a com uma espécie de pinça, que ela perdia a coloração fluorescente ao ser removida.

Tão repentinamente como apareceu, o sorriso do Capitão morria em seus lábios, ao perceber que, sem querer, aquele assunto poderia tocar em velhas feridas. Não tinha muito conhecimento sobre a vida de Spock antes de se conhecerem, mas sabia que ele era híbrido, e que provavelmente sofreu algum tipo de preconceito durante a vida por consequência disso.

O loiro resmungou um discreto "hm" em confirmação, mas não prolongou o assunto. Desviou sua atenção para a beira do penhasco, pensando em alguma forma de não deixar a conversa morrer. Alguns segundos se arrastaram enquanto o silêncio pairava entre os dois, sem ter mais para onde olhar, os orbes azuis de Jim seguiram uma folha com formato de estrela ser carregada pela brisa até escorregar pelas pedras, sumindo a beira do penhasco.

Captou pelo canto dos olhos quando Spock se levantou de onde estava, após guardar a amostra do espécime na maleta. O moreno passou algum tempo olhando para o lago, depois para as encostas do penhasco, parecendo pensativo.

– O que foi? – Kirk perguntou, seguindo o olhar do outro.

– Pensei que seria bom conseguir uma amostra de água, mas não parece haver nenhuma passagem sem ser pelo desfiladeiro, e isso dificulta o acesso ao lago. – O loiro esticou o pescoço, na tentativa de ver um pouco mais das paredes rochosas do penhasco. Notou que alguns metros abaixo, ele não era tão íngreme.

– Talvez se pegarmos um daqueles cipós de antes, poderíamos usar como corda pra descer. Não parece ser tão alto. – Ele se aproximou um passo para ver melhor, ignorando o calafrio que surgia no fundo de seu estômago. O limite da rocha estava a menos de um metro, mas ainda não conseguia ver com clareza.

– Não vejo necessidade, Capitão. Posso pedir que me transportasse diretamente para lá amanhã.

– Porque deixar para amanhã o que podemos fazer hoje? – Perguntou com um sorriso maroto brincando em seus lábios. Segurou-se com uma das mãos na árvore mais próxima da borda da rocha, e esguichou o corpo para frente, os pés a 20 centímetros do limite. A visão lhe deu vertigem, mas estava obstinado a ignorá-la e a todos e qualquer outro comportamento estranho de sua mente. – Olha, deve ter no máximo uns 12 metros, da pra descer sim.

Já não se tratava mais da amostra de água, ou de não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. Era pessoal. Era Kirk tentando provar mais uma vez a si mesmo que não tinha medo. Mas ele tinha, e isso só o deixava mais apavorado e fincado a tarefa de provar a si mesmo o contrário.

– Eu insisto que não há necessidade, Capitão. Por favor, afaste-se da borda. – Spock já havia deixado a maleta no chão e se aproximava do outro com uma cautela incomum, o que levou Kirk a franzir as sobrancelhas em estranhamento.

– O que foi? Não é como se eu fosse... – Suas palavras se interromperam quando sua mão, a que apoiava na árvore, fora agarrada por algo viscoso sem aviso prévio. Não havia notado antes que a árvore onde colorara a mão era repleta das mesmas plantas com tentáculos que Spock estudava anteriormente. Seu coração deu um salto tão grande em seu peito que era como se quisesse sair por sua boca. Um palavrão alto escapava por seus lábios enquanto, no susto, retirava rapidamente a mão da árvore e dava um passo para trás, esquecendo-se que atrás de si não havia mais chão.

Chegou a ver Spock correr em sua direção, mas tudo acontecera rápido de mais. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, suas costas se chocavam contra a rocha sólida e ele rolava penhasco abaixo. Encolheu-se o máximo que conseguia, protegendo o rosto das consecutivas pancadas que seu corpo recebia. Já havia rolado quase até a margem do lago quando caiu sobre algo que interrompeu seu percurso, algo sólido, mas que pareceu quebrar diante da força com que se chocara com ele. Tentou abrir os olhos, mas tudo ainda parecia rodar insuportavelmente envolta de si.

Durante toda a queda Kirk tinha se esquecido de como respirara, e só naquele momento parecia que seus pulmões davam permissão para que o ar entrasse; e ele entrou tão rápido e com tanta força que parecia que sua caixa torácica iria expandir até além dos limites humanos. Ele tossiu dolorosamente, sentindo seus músculos começarem a tremer e se retesar.

– Capitão! O senhor está ferido?! – Conseguiu distinguir a voz de Spock em meio a zunido que seus tímpanos produziam, e quando abriu os olhos para procura-lo via três dele orbitando sobre a borda do paredão de terra. Chegou a abrir a boca para respondê-lo, mas nenhum som queria deixar sua garganta. Cerrou os punhos, tentando regular seu ritmo respiratório apenas o suficiente para que pudesse falar.

– Capitão, está me ouvindo? – A voz estava mais alta agora, e Kirk teve que se concentrar ao máximo para conseguir responder.

– Estou...Estou bem, Spock. – Sua voz soou tão baixa que se Spock não pudesse contar com sua audição Vulcan, não o teria ouvido. Kirk teve que dar uma rápida olhada para seu corpo para conferir se realmente estava bem, pois não sabia se podia confiar somente em sua sensibilidade. Notou que seu uniforme estava rasgado em alguns pontos dos braços, e nesses pontos havia algumas escoriações, mas nada muito grave. A pior delas estava em seu joelho esquerdo, que exibia uma bela queimadura por atrito, que só naquele momento o loiro percebia estar bem dolorida. Havia mais alguns pequenos arranhões distribuídos por seu corpo, mas nenhum deles era significativo, então podia considerar que estava "bem". Apenas fisicamente, pois sua cabeça ainda estava uma bagunça.

– Espere um minuto, vou procurar algo para trazê-lo para cima. – Dizendo isso, o Vulcan sumiu por entre as árvores, nem ao menos dando tempo para o loiro responder.

– Só não demore muito, por favor. – As palavras escaparam por seus lábios sem permissão, enquanto o Capitão esfregava as mãos pelos braços, olhando em volta. Não havia motivo para aflição, ele estava completamente sozinho ali. Não havia nada além de pedras, terra e água a sua volta. Não havia nada com que se preocupar. Nada a temer.

Poucos minutos depois, Kirk sentiu uma vontade aterradora de se mover. Ficar ali, sentando, olhando para aquele paredão de rochas só conseguia deixá-lo ainda mais agoniado. Apoiou a mão esquerda no chão para tentar se levantar, mas só conseguiu afundá-la numa poça de um líquido estranhamente viscoso. Retirou a mão num segundo. – Mas que droga é essa? – Perguntou, mas para si mesmo, enquanto examinava o líquido. Ele era translúcido, mas levemente amarelado e, na verdade, ele estava praticamente sentado no meio de uma poça do líquido.

O loiro se levantou mais rápido do que achava que conseguia. Os olhos azuis procuraram pela fonte do fluido, sendo guiados até as "pedras" que interromperam sua queda. Elas eram quase da mesma coloração que o solo, diferenciando apenas em algumas manchas amareladas. Estavam amontoadas em um grupo de oito, cada uma deveria ter quase um 40 centímetros de altura, mas a parte estranha era que tinham um formato perfeitamente oval, e a superfície lisa de mais para serem simples rochas. Uma delas estava com várias rachaduras, e era por ela que vazava o líquido amarelado que já fazia uma poça de quase um metro.

– Oh, merda. – Eram ovos. Ele havia caído exatamente encima de um maldito ninho, e pelo tamanho dos ovos, não era de um animal pequeno. Kirk não sabia praticamente nada sobre as formas de vida daquele planeta, mas alguma coisa lhe dizia que aquela mãe não deixaria seu ninho tão desprotegido se pretendesse se afastar de mais dele.

Puxou o comunicador de seu cinto, tentando obter algum contato com Spock, mas era inútil; o comunicador não funcionava. Kirk resmungou mais um palavrão, fechando o aparelho. Provavelmente ele havia sido danificado durante sua queda.

Spock! Onde você está? – Tentou grita, e quando não ouviu uma resposta seus olhos passaram a procurar desesperadamente por uma forma de subir pela parede rochosa, não encontrando nenhuma. Tentar escalar seria esforço inútil, pois não havia lugares onde pudesse apoiar as mãos ou pés, a rocha parecia muito gasta.

E novamente o ar parecia denso de mais para adentrar seus pulmões sem uma dolorosa resistência. Suas mãos voaram para sua nuca, apertando, as unhas raspando contra o couro cabeludo enquanto suas íris andavam de um lado ao outro, procurando um caminho que sabia que não iria encontrar.

O medo se esgueirava, sutil e indecorosamente, se libertando das frágeis correntes com as quais o capitão o havia aprisionado, e logo já se entremeava por sua consciência. Já não conseguia formar pensamentos coerentes com clareza. A única coisa que havia em sua mente era a desesperadora vontade de sair dali. Podia sentir o controle escorrer por entre seus dedos como se fosse um líquido ainda mais ralo que água.

E foi então que ouviu o suave som de movimentos da superfície da água. Baixo como um sussurro e rápido com um estalar de dedos, mas penetrou os tímpanos de Kirk com a força de uma bomba. O som se repetiu poucos segundos depois, só que dessa vez mais alto e contínuo, exatamente as costas do loiro. Algo estava saindo da água, ele tinha certeza disso.

Um calafrio desceu por sua nuca e se espalhou por seu abdômen, congelando tudo em seu caminho. Engoliu em seco, apertando os olhos com força enquanto sua mente tentava vencer a densa névoa do pânico e pensar em algo coerente.

Seus pés se moveram sem que se desse conta, e logo já estava se virando de frente para a fonte do som. Vagarosamente, a criatura começava a entrar em seu campo de visão. Primeiramente era só uma mancha negra disforme surgindo a beira do lago, mas logo Kirk já conseguia distinguir melhor sua silhueta.

A primeira coisa que notou foram os olhos, grandes olhos amarelos que reluziam contra a luz do sol, destacando-se escandalosamente do resto do corpo, que era predominantemente negro. Seu corpo de assemelhava ao de uma salamandra, com a diferença do comprimento das patas que pareciam mais alongadas e que, aparentemente, ele era todo coberto por escamas. Sua cabeça era levemente triangular, e de seu topo despontavam três elevações pontiagudas com formato de chifres, cobertos pelas mesmas escamas do resto do corpo, com a diferença que essas pareciam bem maiores e mais ameaçadoras. Algumas dessas elevações se estendiam pela linha da coluna do animal, mas em tamanho menor do que as da cabeça, e Kirk não conseguia ver se elas iam até o final de sua calda, pois parte dela ainda estava dentro da água.

Ele ainda não havia se revelado por inteiro, e seu corpo já media cerca de quatro metros de comprimento e dois de altura, no mínimo.

O animal aproximou-se de seu ninho, o som que fazia ao farejá-lo soando perfeitamente audível. Não demorou a chegar até o ovo rachado, e nele ficou. Cheirou-o por um tempo considerável, depois o empurrou com a cabeça, emitindo alguns ruídos que Kirk não conseguiu identificar como nada que já tivesse ouvido na vida. Depois de empurrar o ovo por mais algumas vezes, o animal parou de se mover e ficou em completo silêncio.

O silêncio se estendeu por quase meio minuto, quando foi abruptamente cortado por um silvo estridente que fez todo o corpo do capitão sacudir em um violento tremor. Em reflexo, um de seus pés moveu-se para trás defensivamente, e só aquele movimento foi o suficiente para atrair a atenção da criatura. Os olhos cor de âmbar fixaram-se na figura do loiro, apertando-se em puro ódio, enquanto a boca do animal se abria para revelar várias fileiras de dentes pontiagudos.

Seu phaser estava preso ao cinto, a míseros centímetros de distância de seus dedos. Poderia tê-lo pego quando a criatura saia do lago; poderia tê-lo pego enquanto ela farejava seus ovos; poderia tê-lo pego enquanto ela silvava; poderia tê-lo pego a qualquer momento, como poderia pegá-lo agora. Mas não pegou, e não iria pegar.

Não conseguia se mover.

Sua mente era uma folha de livro manchada de tinta preta; as palavras escritas eram como todo seu conhecimento, sua perícia, seu instinto e sua coerência, e a tinta era o medo. Quanto mais tentava limpar a tinta para ler o que estava escrito, mais manchada a folha ficava.

Seus olhos enxergavam o animal se aproximar de si como em câmera lenta, mas na verdade, Kirk já não via mais absolutamente nada. Sua cabeça era uma confusão de memórias sombrias, e ele podia sentir os dedos gelados da morte roçando novamente por sua nuca, exatamente como sentira na câmara. Porém dessa vez não havia o par de olhos castanhos, não havia palavras de conforto, não havia uma mão próxima a sua.

Não havia nada, e o vazio era enlouquecedor.

A criatura já estava a menos de um metro de distância de Jim, preparando-se para fechar seus dentes em torno do corpo do loiro quando algo a atingiu. Um tiro de phaser atingiu-a bem na cabeça, e o animal urrou de dor enquanto movia desesperadamente o local atingido, completamente desorientado.

– Capitão, afaste-se! – Spock gritou, enquanto preparava seu phaser para atirar novamente sobre o animal. Mas não havia sido rápido o suficiente, e em um dos movimentos com a cabeça a criatura atingira Kirk, atirando-o a vários metros de distância de onde estava.

Spock não esperou mais nem um segundo para atirar novamente, e tão logo foi acertado o animal tombou para o lado, inconsciente. Os olhos castanhos do Vulcan procuraram onde seu capitão havia caído, achando a quatro ponto sete metros de distância de onde o corpo do animal caíra.

O Vulcan desceu pelo penhasco sem pensar duas vezes, ignorando as escoriações que resoltaram desse ato. Correu até seu capitão e encontrou-o sentado com as pernas estendidas, abraçando o próprio corpo enquanto tremia descontroladamente. Havia um corte de dois centímetros na parte superior esquerda de seu couro cabelo, e o sangue escorria em uma cascata vermelha pela lateral de sua testa, mas ele não parecia nem ao menos ter tomado consciência do ferimento.

O moreno se ajoelhou em frente a seu capitão, imediatamente chegando o ferimento em sua cabeça. Constatando que a hemorragia não era de vital importância, portanto não era ela a responsável pelo aparente colapso de Jim.

– Capitão, o que aconteceu?

Gemidos curtos escapavam pelos lábios de Jim por entre as fortes lufadas de ar, seu ritmo respiratório estava oito vezes acima da velocidade normal e Spock suspeitava que o ritmo cardíaco encontrava-se ainda pior. Ele estava em completamente fora de si, e o Vulcan sabia que precisava fazê-lo voltar ao normal antes que tivesse uma síncope.

Ele tocou os ombros de Jim, na intenção de chamar sua atenção com o contato, e a intensidade das emoções que sentiu irradiar dele foi tão forte que emitiu algo semelhante a um choque elétrico através de seus braços. Mesmo através da manga do uniforme, Spock podia sentir o desespero desenfreado de seu capitão.

– Capitão, está me ouvindo? Você precisa se acalmar, precisa respirar com calma. – A voz de Spock tentava soar o mais clara possível, mas não parecia estar surtindo efeito algum. O rosto de seu capitão estava a um palmo de distância do seu, completamente sem cor, e ele podia ver as pupilas contraídas e a falta de brilho nos olhos azuis. Aquilo estava ficando muito sério, e Spock tinha que tomar uma providência antes que tivesse que envolver outro membro da tripulação naquilo.

Ele lembrou que em casos de crises de pânico como aquela, violência comumente era uma forma eficaz de interromper a crise. Suas sobrancelhas se contraíram quase imperceptivelmente com a ideia, definitivamente não era algo que lhe agradava, mas não tinha tempo para sentimentalismo.

Sem hesitar, o moreno ergueu a mão direita e acertou-a na face de seu capitão. O golpe virou o rosto do loiro para o outro lado, mas essa foi a única reação que conseguira arrancar dele. Seu estado continuava inalterado. Mas Spock não se permitiu se arrepender, também não tinha tempo para isso.

Jim estava totalmente imerso nos terrores de sua mente, e a única forma de tirá-lo de lá era de dentro para fora.

Aquela altura, só restava a Spock uma única opção.

Aproximou-se novamente do corpo trêmulo a sua frente, pousando suavemente sua mão direita sobre o local que antes havia batido, sentindo a pele fria ao toque. Encarou mais uma vez os desfocados olhos azuis antes de posicionar seus dedos nos pontos de fusão, recalculando as probabilidades de aquilo dar certo. Contatando estar acima de 60%, ele fundiu suas mentes.

A primeira coisa que Spock sentiu foi um frio aterrador. Um frio que parecia vir do fundo de sua alma, congelando seus ossos, seus órgãos e até o ar que respirava. Depois o medo, sombrio e sorrateiro, agarrando-lhe os pés, como se quisesse impedi-lo de se mover, paralisá-lo completamente. E então veio a solidão, engolindo-o numa densa nuvem negra, isolando-o de toda e qualquer luz.

E tudo isso vinha da mente de Kirk.

Era tudo tão forte que a conexão ameaçou se partir, e Spock precisou de todo seu controle Vulcan para mate-la estável. Porém aquilo não duraria muito tempo se não fizesse algo para controlar a situação.

Spock demorou a perceber que a mente de Kirk projetava um oceano em volta dele, com densas águas geladas e sombrias. E seu capitão estava em algum lugar ali, precisava encontrá-lo.

"Capitão, está me ouvindo agora?"

As palavras soavam como se tivessem calor próprio, tentando dissipar todo aquele frio desesperador. Sentiu-as ecoando envolta de si até desaparecerem, mas nenhuma resposta da mente de seu capitão.

"Jim, onde você está?"

Tentou novamente, com mais vontade, emitindo sua presença o máximo que conseguia. Dessa vez não ficou sem resposta. Em algum lugar abaixo de si, ele viu um ponto luminoso. Era fraco, mas seu brilho era inegavelmente existente.

Spock nadou por alguns metros e percebeu ser um tênue fio luminoso, não uma luz propriamente dita. Seguiu-o, e quanto mais nadava, mais frio e sombrio o ambiente ficava.

E quanto tudo estava completamente negro a sua volta, a figura de Kirk surgiu em seu campo de visão. Ele estava flutuando alguns poucos metros abaixo de si, enquanto filetes de alguma matéria escura enrolavam-se por seu corpo, puxando-o ainda mais para baixo.

Spock tentou se aproximar, mais foi repelido violentamente pela matéria.

"Deixe-me ajudá-lo."

Concentrou-se em enviar todo o conforto que conseguia através da projeção de suas palavras. Tentou se aproximar mais uma vez, cautelosamente.

"Você precisa abrir os olhos, Jim."

Ainda havia resistência, mas Spock estava conseguindo se aproximar. Quando faltava apenas um metro para alcançá-lo, o moreno estendeu sua mão.

"Eu estou aqui, você não está sozinho. Deixe-me alcança-lo."

Foi necessário apenas um singelo resvalar de dedos entre ambos para que toda aquela escuridão se dissipasse numa intensa onda de luz, calor e algo que poderia ser chamado de conforto.

No segundo seguinte, eles estavam de volta à beira do lago em Betazed IV. Kirk abrira os olhos abruptamente, não se lembrando de quando os havia fechado, dando de cara com o rosto de Spock ainda perto do seu. Os dedos do Vulcan hesitavam em deixar os pontos de fusão.

– Capitão?

– Estou aqui, Spock. – A resposta veio entremeada pela rápida e sôfrega respiração de Kirk, e foi só então que o moreno se permitiu retirar a mão do rosto de seu capitão. Ele se afastou logo depois, dando espaço para que o loiro pudesse se concentrar em desacelerar sua respiração.

Ainda foram necessários alguns minutos para que Kirk conseguisse se acalmar o suficiente pra se por de pé.

– O senhor está bem o suficiente para voltarmos? – Spock perguntou, observando atentamente o estado de seu capitão.

– Sim. – A resposta veio firme, apesar de, internamente, Kirk não ter certeza de nada.

O conforto que Spock havia enviado para ele durante a fusão ainda estava lá, e ele era o único responsável por Kirk ter recobrado o controle de sua própria consciência. Mas junto com isso, havia a constatação de algo terrível. Algo que ele havia trabalhado arduamente para esconder por todos aqueles dias, e que agora havia sido deliberadamente revelado.

Ouviu o som característico do comunicador, e em seguia a voz de seu primeiro oficial. – Spock para Enterprise. Preparem a sala de transporte. Contatem o Dr. McCoy, o Capitão está ferido.

Spock sabia. Spock sabia de tudo.