iii. "O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor e sim pelo desejo do sono compartilhado". (Milan Kundera)

De um salto ele senta-se à cama, desperto de um sonho ruim. A luz do luar entra pela janela, mas não é da lua cheia, não ainda.

Ele olha para o corpo que ressona ao seu lado, os cabelos cor de chiclete chamam a atenção mesmo na penumbra do quarto. Fica alguns instantes a admirar aquele rosto sereno, até que, como que se ele fizesse parte de seus pensamentos, um breve sorriso brota dos lábios adormecidos e seus cabelos mudam para uma cor mais próxima do violeta.

Sim, ele sabe que é com ele que ela sonha, pois seus cabelos sempre se tingem daquela cor quando ela atinge os prazeres mais êxtasiantes, em seus momentos de intimidade.

Ele não poderia deixar de se considerar um homem de sorte, pois apesar de sua maldição e das dificuldades que sempre enfrentara durante a vida, ele tinha a sua Nympha a lhe acompanhar.

Uma leve e fria brisa entra pela janela semi-aberta e lambe o corpo feminino protegido apenas por uma leve lingerie; ele observa com prazer os pêlos escassos se arrepiarem por todo o contorno de seu corpo perfeito.

Como ele ama aquela mulher! Como os detalhes mais supérfluos de seu corpo o seduzem, como as particularidades mais ocultas de sua personalidade o encantam, como seu jeito atrapalhado e divertido o cativa.

Ele puxa um lençol levemente sobre seu corpo para protegê-la do frio, não sem antes admirar mais uma vez os seus pés finos e delicados, as pernas longas e bem contornadas, os quadris na medida certa e extremamente sedutores, a barriga...

Um sentimento, até então seu desconhecido, misto de ternura e carinho o domina. Ele curva-se e aproxima o rosto do abdômen que abriga sua descendência, a continuidade de seu ser, amaldiçoado ou não. Ele passa levemente os cabelos naquele local já um pouco saliente, deixa sua barba por fazer raspar levemente na pele que o separa do filho que por muito pouco não renunciou. Pode ser imaginação sua, mas ele sente que aquela criaturazinha sabe que ele está ali, sente sua proximidade, o conhece, o entende e... o ama!

Ser mãe é o maior milagre com que a vida nos pode contemplar, mas ser pai também é uma dádiva de valor incomensurável. Como ele pôde sequer pensar em abdicar a esse prêmio? Como poderia privar a si próprio de ouvir o primeiro choro do fruto resultante da união de um amor verdadeiro e puro?

Ele sente as lágrimas brotarem de seus olhos e correrem pela sua face: esta é a prova mais incontestável da felicidade que explode em seu peito. Inclinando-se um pouco mais, cuidadosamente para não despertar a futura mamãe, contendo um soluço do choro de alegria e agradecimento que sente por estar ali, ele beija levemente o ventre que carrega sua semente. Um suspiro escapa do peito da jovem adormecida, e ela se espreguiça lentamente. Ele mira sua face e vê, maravilhado, um novo sorriso enfeitar o rosto da mulher amada, enquanto seus cabelos se tingem, agora, com as sete cores do arco-íris.

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"Uma pessoa não pode sentir isso tudo ao mesmo tempo, ela iria explodir!". (Ron Weasley)

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