Kuroshitsuji III

Ciel sempre ouvira que a linha que separava o amor do ódio era muito tênue. Mas nunca realmente acreditou no antigo provérbio. Amor era uma coisa, ódio era outra. E as duas eram completos opostos. Amor era querer proteger, querer estar junto. Amor era confiança. Ódio era o desejo por distancia, por coisas ruins. Ódio era não suportar estar junto. Seria possível amar, confiar e desejar estar perto de quem se odeia e se quer distancia? Não.

Ciel amava seus pais e odiava os homens que o humilharam. Desejou destinos completamente diferentes a eles.

Não era a mesma coisa.

Esquecia-se, porém, que foi esse ódio tão forte que lhe dera Sebastian.

Cap 3 – Uma linha muito tênue

Sebastian estava de bom humor. Muito bom humor. Não era como se normalmente ele demonstrasse um estado de espírito diferente, mas isso era para com seus mestres. Ciel podia dizer, com orgulho, que era um dos poucos que verdadeiramente conheciam o demônio (ou assim achava). Mas conhecia o suficiente para saber quando ele estava satisfeito ou irritado, nervoso, tranquilo, de bom humor ou quando o mais seguro seria manter a maior distancia possível. E naquela manhã ele estava particularmente sorridente.

- Seu irmão cuida muito de você, hein, Ciel – comentou um rapaz um pouco mais velho que Ciel (ou muito mais novo! Tudo dependia do referencial), um garoto de cabelos negros e pele cor de oliva. Um rapaz que tinha tudo para ser um jovem bonito, mas os maus tratos da vida tinham acabado com sua pele e cabelo. Apesar da pouca idade ele era e estava condenado a ser para sempre apenas um jardineiro – Sorte a sua.

- Meu irmão? – perguntou o jovem demônio.

Mesmo sendo um simples jardineiro no momento, Ciel se destacava de seus colegas, fosse nos jardins, fosse dentro da Mansão. Ele era diferente, sua aparência era bem cuidada, sua pele era fina, sua educação diferenciada. Seus modos, requinte, fala, cultura, tudo era superior. Ele fingia bem, tentava falar igual a eles, tentava se igualar (realmente tentava?), mas bastava olhar para suas finas mãos para saberem que ele era um novato. A sorte era que sempre havia nobres e burgueses falidos que deixavam filhos bem educados para trás, jovens que para viver precisavam trabalhar como todos os outros. E os Michaelis sempre podiam ser mais uma dessas famílias. Um perfeito filho mais velho, educado e fantástico para mordomo (afinal, eram ou não eram os mordomos empregados com uma educação diferenciada?) e um jovem filho mais novo. No fim, as pessoas ou se atraiam por sua pessoa, ou o ignoravam. Sorab se atraia, assim como a pequena Maria tinha se atraído. Derick o ignorava.

Mas isso era natural, não? Derick vivia com Sebastian para cima e para baixo e tinha pouco contato com Ciel que nada mais era do que um demônio adolescente que vivia perto do mordomo.

Ciel não suportava Derick.

- Sim – continuou Sorab, sem deixar de trabalhar nem um minuto – Ele acabou de passar por aqui de novo. Ele sempre faz isso, passa, olha para você e depois volta para dentro. Deve ser tão legal ter um irmão como ele!

- É, ele é bem protetor. É legal – disse Ciel, sem conseguir conter o sorriso. Então Sebastian ficava indo atrás dele? Como nunca tinha percebido? Não era como se ele costumasse se entreter muito no trabalho, ou como se ele não tivesse aprendido algumas coisas básicas na a sua nova vida e posição. E uma delas era saber quando os outros se aproximavam. Sebastian fora muito rígido quanto à questão "aprenda a se defender sozinho, muitas vezes estarei preso a outros através do contrato e não poderei ir te ajudar". Não que um mordomo pudesse falar assim com seu mestre, mas Ciel perdoara, afinal Sebastian tinha razão – É uma das vantagens de ser o caçula – completou Ciel sem conseguir esconder um sorriso de satisfação. Então Sebastian ficava indo ver como ele estava? Ficava cuidando dele as escondidas? Isso era tão fofo, pensou o adolescente de forma irônica. Sebastian gostava de se manter distante, gostava de agir friamente com ele, mas... ah, ele estava realmente feliz.

Por isso, à noite, quando os diversos convidados para o jantar que Derick Braick oferecia chegassem, não haveria um que não comentaria sobre as belas flores que adornavam os jardins, outros ainda complementariam como os Braick tinham sorte com seus empregados e que seus jardineiros eram especialmente habilidosos. Mas nenhum saberia que os mais belos lírios não estavam ali por causa de mãos humanos e sim por causa do bom humor de um pequeno demônio de cabelos escuros que estava particularmente bem humorado naquele dia. As pequenas flores nada mais eram do que o reflexo de seu bom humor, refletido em seus poderes.

E não é como se alguém pudesse culpá-los pelo desconhecimento de que algo tão perfeito não poderia ter sido feito por mãos humanas, pois nem mesmo Ciel sabia exatamente como é que seu humor e desejos influenciavam as flores ao seu redor. Esse era mais um dos detalhes sobre si mesmo que o jovem ainda não sabia muito bem como controlar e muito menos como fazer funcionar direito. E não era naquela noite que ele ia tentar descobrir, não mesmo.

Assim, mal o sol se pós no horizonte e jovem se apressou em tomar um banho rápido (odiava ficar sujo de terra!) e foi direto para o quarto do Mordomo Braick entrando nos aposentos de Sebastian sem a ordem deste e se sentando na grande cama enquanto esperava o seu mordomo chegar para se arrumar. O que não deveria demorar. Sebastian deveria terminar de coordenar o jantar e ser perfeito como sempre. Ser o mordomo perfeito de outra pessoa. E Ciel tinha vontade de mandar tudo as favas e retornar ao inferno.

De onde estava sentado ele podia se ver refletido espelho e admirava sua aparência "adulta". Seu cabelo havia crescido um pouco. Aquelas roupas não combinavam com ele, mas eram confortáveis. Ciel não era vaidoso, mas era um adolescente e como tal se interessava pelas mudanças que ocorriam consigo. Mudanças pequenas, lentas, mas que lhe agradavam. Porque todas juntas indicavam que um dia ele seria como Sebastian, adulto. E ser adulto devia ter várias vantagens. E a principal era se equiparar ao forte demônio. Ciel estava cansado de sempre estar abaixo de Sebastian, Ciel queria estar o lado de Sebastian, Ciel queria...

- O que faz aqui, boochan?

- Que susto, Sebastian! – disse Ciel, olhando para a porta surpreso. Por mais que quisesse se equiparar ao outro, uma coisa o jovem demônio tinha certeza: Sebastian sempre estaria apto a surpreendê-lo. Até mesmo nas pequenas coisas – Vim ver você. Não foi me ver hoje, me ignorou e eu vim apenas dar um olá.

- Estive ocupado o tempo inteiro – disse Sebastian de forma fria, retirando o fraque que usava, arrumando-se para a noite que se aproximava, sem se incomodar com o pequeno sentado sobre sua cama. Sebastian despiasse como se estivesse sozinho no quarto e não como se dois olhos vermelhos o observassem tão intensamente.

- Sorab disse que viu você nos jardins – provocou Ciel, um sorriso malandro tomando seus lábios. Um sorriso impróprio para um conde e que por isso mesmo Sebastian nunca o vira no rosto de Ciel Phantomhive, entretanto, depois de 20 anos, algumas coisas são aprendidas apenas pela simples observação. E Ciel não era mais um Phantomhive.

- E fui mesmo – respondeu Sebastian deixando claro que não cairia na provocação, que não diria o que o pequeno queria ouvir. As luvas sendo retiradas, assim como a gravata e o colete – É minha obrigação cuidar para que tudo esteja perfeito hoje. Afinal, eu sou um mordomo demônio [1] e como tal cumpro minhas obrigações ao invés de ficar reclamando o tempo todo.

Realmente Sebastian sempre soubera como cutucar a onça com vara curta.

E nunca temera isso.

"Chato!" – acusou Ciel em seus pensamentos, afundando na cama macia e fazendo uma expressão emburrada.

- Está parecendo uma criança birrenta, boochan – provocou Sebastian, a camisa já desabotoada.

- Não sou mais uma criança!

- Realmente achei que já estivesse um tanto quanto velho para agir de tal forma. No entanto, seu comportamento em nada condiz com sua idade – e a camisa já não se encontrava mais no corpo a sua frente - E quanto tempo mais pretende continuar aí. Tenho que estar pronto às 18h.

- E qual o problema? Tem vergonha de se trocar na minha frente? – disse Ciel, agora sendo ele o provocador. Adolescentes e seus hormônios! Eles conseguiam passar da carência para a malandragem e daí para a infantilidade e depois para a provocação em segundos!

- As regras dizem que o contrário que ocorre, boochan. Eu que lhe banho e troco, não o contrário. Assistir é desnecessário.

- Você faz isso com Derick? – perguntou Ciel, o ciúmes não contido em sua voz ainda meio fina. Uma voz que ainda não terminara de engrossar.

- Eu cumpro minhas tarefas como mordomo e essa é uma delas [2]. Não me diga que não sabe disso, boochan? – insinuou Sebastian enquanto retirava os sapatos e desabotoava as calças diante do olhar raivoso de Ciel. Adorava provocá-lo, adorava irritá-lo, adorava descontar nele suas próprias frustrações (mesmo que sua posição de servo o impedisse de agir muito claramente) – Agora, se me der licença – disse e se afastou dirigindo-se ao biombo que separava a banheira e o quarto de vestir do resto de seus aposentos.

Não que isso pudesse impedir Ciel de ver muito se ele quisesse ver. O quarto de Sebastian era bastante grande e luxuoso, não muito diferente do quarto que o mordomo possuía em sua própria mansão, duas décadas antes, mas a posição desse era extremamente favorável ao pequeno (agora não tão pequeno) sentado em sua cama. Na mansão Phantomhive, Sebastian possuía uma meia parede no meio do quarto, separando o quarto de vestir do quarto de dormir e o biombo que cobria a banheira se encontrava nesse espaço íntimo. O mesmo não ocorria no quarto atual e nada mais do que um biombo trançado impedia a visão completa de Ciel sobre o demônio que se banhava do outro lado [3].

Se Ciel se posicionasse melhor na cama teria plena visão do que ocorria atrás do incomodo biombo, assim como do homem apenas parcialmente escondido, mas algo o travava naquela cama.

Os mordomos costumavam saber tudo sobre seus mestres, era parte de seu trabalho. Mas o recíproco não acontecia. Ciel ainda era banhado por Sebastian quando não estavam "trabalhando", mas ele próprio raramente vira o demônio mais velho sem camisa. E tendo visto agora, não pode deixar de comparar o peito nu do outro com o seu próprio. A diferença era grande.

Sebastian era muito bonito.

Era difícil não comparar.

Tão perdido estava em seus pensamentos que nem notou quando Sebastian voltou, apenas, quando percebeu, viu o homem moreno abotoando as calças na sua frente.

- Esta noite, boochan, quero que se vista adequadamente para comparecer ao jantar – disse Sebastian de repente, terminando de vestir a camisa, sem olhar para o jovem na sua frente - Vista-se como o conde Phantomhive que foi um dia e vá ao jantar. Irei introduzi-lo no Salão. Acredito que ainda se lembre como se portar como um conde, não?

- Por que devo ir? Será muito chato – resmungou Ciel. Depois, se fosse, tudo o que veria seria Sebastian paparicando Derick. E isso o irritava.

- Deve ir porque hoje a vingança de Derick Braick será concluída e quero que esteja lá. Está com fome e deve se alimentar – explicou o demônio mais velho, ainda sem olhar o jovem, ainda se preocupando apenas em terminar de se vestir, ignorando os olhos atentos de seu eterno mestre - Não aceito um não, boochan, e se necessário, lhe forçarei. Espero, realmente, que não seja.

- Não quero comer a alma de Braick! E depois, ele não permitiria que eu fosse. Sou o jardineiro, lembra?

- Não se atenha a detalhes, boochan, Braick não ligaria um conde a um simples ajudante de jardineiro. E você não tem escolha, Boochan. Você irá.

E Ciel quis rebater e continuar a se negar, quis dizer que Sebastian não mandava nele e que era o contrário que devia acontecer, mas ficou calado. Ficou calado porque nesse momento seu estomago voltou a reclamar. Ficou calado porque sabia que era por si que Sebastian estava mudando os papeis e mandando nele. E ficou calado por perceber que todos os meses que o demônio havia gasto para adquirir a alma de Derick seriam dados a ele. Sebastian, mais uma vez, trabalhara tanto para não obter nada em troca. Era o estomago de Ciel que seria saciado e não o daquele que tanto trabalhara e fizera por isso. Tudo o que o jovem ex-conde havia feito era cuidar de um jardim que não lhe dava propriamente trabalho (mas não o impedia de reclamar). E era ele que ia adquirir a refeição final – E você, Sebastian? - perguntou, incerto.

- Eu fico com a próxima. Se dermos sorte, outro contrato será feito em breve – respondeu indiferente o homem mais alto, as luvas voltando a cobrir as unhas pretas e os símbolos de seus contratos. O da mão esquerda gravado de forma mais intensa. Sebastian estava pronto e impecável como sempre, exalando charme em cada movimento. E Ciel se sentia o velho menino de 13 anos perto do moreno a sua frente, como se ele ainda fosse um moleque desengonçado.

- Isso tudo por mim! Não sabia que me amava tanto, Sebastian – importunou Ciel, não propriamente com a intenção de provocar, mas sim pela necessidade de dizer algo, de fugir de seus próprios pensamentos.

- Não deseja que eu responda isso, não é, boochan – alfinetou Sebastian.

Sim, ele não queria, não queria ouvir que Sebastian na verdade odiava sua situação atual e apenas cumpria sua obrigação. Não queria a certeza quanto aos pensamentos que o dominavam. Ele queria realmente pensar que Sebastian não odiava a situação de ambos, que Sebastian gostava de ter sua companhia, que Sebastian fazia aquilo por Ciel e não por um contrato que ainda existia entre ambos.

Ele não conseguia pensar que talvez, Sebastian não gostasse dele. Que fizesse aquilo tudo apenas por obrigação.

Afinal, mães abriam mão de si mesmas pelos filhos amados e Sebastian estava abrindo mão de si mesmo pelo pequeno ao seu lado.

E Ciel não queria pensar que era uma obrigação.

Ele queria estar do outro lado da tênue linha que era a relação deles. Ele queria acreditar que nem mesmo Sebastian poderia equilibrar-se numa linha tão fina.

Continua...

Novembro/2010

Notas:

[1] um mordomo demônio = "um mordomo e tanto" também pode ser entendido como "um mordomo e demônio"

[2] tarefas como mordomo = um mordomo tinha várias tarefas e uma delas era a de dar banho em seu senhor, secá-lo e vesti-lo (exatamente como Sebastian faz em Kuroshitsuji), não importando a idade do mestre. Crianças, adolescentes, adultos, velhos, esse era um comportamento usual para com todos. Em relação às senhoras, havia uma ama especial para essas tarefas (como a Paula que serve a Elizabeth). Cada nobre possuía um criado pessoal para a realização de tais tarefas, sendo o mordomo exclusividade do chefe da casa

[3] Não sei se cabe uma nota aqui, mas por via das dúvidas... O fato do "quarto de banho" do Sebastian ser dentro de seu próprio quarto provavelmente é algo impossível historicamente falando. Sebastian está no inicio do século XX e nessa época não existiam banheiros dentro de casa (não da forma como estamos acostumados hoje), o que havia era um biombo no qual as pessoas se "escondiam" atrás para trocar de roupa. É importante lembrar também que havia uma separação entre banheiro para banho (banheira) e o banheiro propriamente dito.

Claro que nobres tinham "casas de banho" próprias enquanto os empregados deviam todos utilizar-se do mesmo banheiro. Mas sendo o mordomo um emprego diferenciado julguei que eles teriam um banheiro próprio, assim como um quarto relativamente luxuoso. Tudo bem que o banheiro não devia se encontrar dentro do quarto, mas eu fiz uma pequena e inocente alteração histórica apenas para que Ciel pudesse ficar observando Sebastian despir-se =PPPP

N/A: Não era bem essa a ideia inicial desse capítulo, mas eu gostei dele.

O que acharam do bom humor do Ciel influenciar seu trabalho? Esse poder de fazer as flores florescerem apareceu no manga, no final do 1o. capítulo, quando Finny, em toda a sua inocência, se pergunta como as sementes de flores que ele havia comprado naquele mesmo dia já haviam florescido (e ao fundo temos Sebastian servindo chá a Ciel num jardim bastante florido). Achei que ficaria fofo, já que Ciel, imagino eu, não deve controlar muito bem todos os seus poderes ainda.

Mas fazer flores florescerem mais bonitas não é um poder muito demoníaco na verdade...

Agradecimentos: Novamente, obrigada a todos os que leram, lêem e pretendem continuar lendo essa fic. Prometo continuar me esforçando para trazer a vocês uma boa história e não decepcionar aqueles que me incentivaram tanto com suas reviews. Sendo assim, um agradecimento especial a Mary Sumeragui, Gabhyhinachan e Paula Beatriz! Valeu mesmo meninas! É ótimo saber o que estão achando e onde estou errando (afinal, se não soubermos onde está o erro, como podemos melhorar?).

Enfim, obrigada. Muito obrigada mesmo!

Querem deixar uma autora feliz? Deixe uma review! Faz um bem enorme, acredite! E dá ainda mais vontade ainda de terminar a fic!