O Espelho da Trapaça

Toques

A prisão dele mudou, mas a sombra de pura luz que o assombra permanece a mesma. Dias se passaram e nenhuma palavra foi dita acerca do beijo trocado, o que não impede Thor de insistir em estar ao lado do irmão sempre que pode. Como aquelas ocorridas na cela, essas visitas do deus do trovão são ignoradas pelo deus da trapaça, mas Thor pode notar a postura distante e fria do irmão fraquejar pouco a pouco. Essas observações são feitas com mais facilidade quando ambos estão como agora.

Sentados na cama com Thor abraçando Loki por trás, os braços envolvendo a cintura fina firmemente. No começo, foi difícil para o Trovejante conseguir abraçar o irmão, ou melhor, conseguir fazer o irmão aceitar seu abraço. Lentamente, com uma palavra suave, um toque gentil, o filho de Odin conseguiu trazer o ex-feiticeiro para seus braços, fazendo questão de mantê-lo contra seu corpo sempre e pelo tempo possível.

O deus do trovão apóia o queixo no ombro do irmão e observa os olhos claros se movimentarem enquanto Loki lê um de seus livros. Sob o olhar azul, os lábios finos e pálidos se movem formando palavras sem som, mas que Thor é completamente capaz de entender. Uma palavra antiga, um feitiço. Então a dor domina o coração do filho de Odin, pois ele pode notar nos suspiros que terminam as palavras o quanto Loki sente falta de sua magia. E Thor sente falta da voz do irmão.

O Trovejante aumenta a pressão de seu toque sobre o corpo magro, capturando a atenção do ex-feiticeiro. Olhos verdes, questionadores, se focam em azuis. Nenhuma palavra deixa a boca do deus trovão, este apenas fecha os olhos e encosta o rosto no de Loki, acariciando a pele macia com a ponta do nariz e os lábios. O ex-feiticeiro sente um arrepio correr por seu corpo enquanto sente os carinhos do outro. Pálpebras se fecham sobre íris claras e o filho de Laufey se deixa quase sufocar na sensação de segurança que o irmão proporciona.

Dedos longos e pálidos se enroscam em fios de ouro, segurando e puxando com uma força quase excessiva. Thor, com um toque suave demais dos lábios, traça uma trilha da bochecha até os lábios do irmão, deixando um beijo singelo sobre a boca sem cor. Os olhos do ex-feiticeiro voltam a se abrir, mostrando medo de um carinho que ele não sabe se deveria estar recebendo. Ainda assim, Loki beija os lábios do Trovejante, um beijo tão fraco e suave quanto aquele oferecido por Thor.

– Vamos. – o deus do trovão diz, segurando os pulsos do irmão e puxando-o para fora da cama.

Raiva brilha nos olhos de Loki quando o pedido é entendido. O deus da trapaça odeia essa ideia do deus do trovão de levá-lo para caminhar pelos jardins por algumas horas. Por mais que o ex-feiticeiro proteste, Thor, teimoso, insiste em levar o irmão, fazê-lo sair do quarto por um tempo, respirar. Mas Loki não aprecia esses pequenos passeios. Ele não é cego, conseguindo perceber perfeitamente o olhar que recebe dos aesir. Medo, desconfiança, ódio. A presença dele não é bem vinda entre eles, então por que ele deveria ir?

Ignorando o olhar e as tentativas do ex-feiticeiro de permanecer no aposento, Thor guia Loki para fora do quarto e em direção à saída do palácio. Ambos caminham calmamente e lado a lado, sendo que o filho de Laufey se mantém mais próximo do filho de Odin que o necessário. Por onde eles passam, as pessoas fazem curtas reverências, para as quais Thor sorri e que Loki não vê, focando a atenção no caminho que seguem.

Uma vez fora do palácio, os príncipes continuam a andar sem terem um caminho definido. Loki tenta, com seus passos, guiar, o que Thor permite, acompanhando o irmão até os estábulos. Quando o destino é alcançado, o deus do trovão se mantém um pouco distante propositalmente, aproveitando para observar o deus da trapaça com Sleipnir.

Foi difícil convencer o conselho a permitir que Loki deixasse o palácio por algumas horas. Os anciãos, que acreditavam que somente o fato de permitir o retorno do ex-feiticeiro ao palácio já foi uma grande concessão, somente aceitaram a ideia do príncipe depois que Odin a aprovou. Mesmo assim, os guardas possuem ordens de dobrarem a atenção na presença do deus da trapaça.

– Meus amigos. – Thor sorri para os quatro guerreiros que se aproximam.

– Thor, você tem certeza do que está fazendo? – Fandral pergunta, olhando do amigo para o deus da trapaça, ainda próximo a Sleipnir.

– Claro que tenho. – o deus do trovão responde – O que te faz pensar o contrário?

– Confiar em Loki depois de tudo o que ele fez não parece ser uma atitude muito sábia. – Volstagg comenta.

– Temos ordens de contê-lo caso ele tente algo. – Sif avisa ao que Hogun assente.

Antes que possa responder, Thor tem o braço envolvido por dedos fortes e insistentes que o arrastam para longe do estábulo. O Trovejante observa o irmão com um confuso olhar. Sem parar nem por um momento, Loki retorna aos próprios aposentos, ainda tendo o deus trovão preso sob seu toque.

– Loki, o que aconteceu? – o filho de Odin pergunta assim que as portas do quarto são fechadas.

Eles! É a resposta sem som dada pelo deus da trapaça. Ódio incontido queima nos olhos claros de Loki. Thor tenta se aproximar, tocar o rosto do irmão, mas seu toque é recusado e afastado. O deus do trovão não desiste, conseguindo segurar os braços do ex-feiticeiro e forçá-lo e olhá-lo.

– Loki! – Thor chama, tentando fazer o outro parar de lutar para se libertar – Não importa o que eles dizem, eu confio em você. – a afirmação ganha a atenção de Loki, que olha atônito para o irmão – Eu sei que você mudou.

Quem disse que eu mudei? Loki pergunta lentamente, deixando que o deus do trovão leia seus lábios mais facilmente.

– Eu posso ver nos seus olhos, irmão. – uma das mãos do Trovejante solta um dos braços do deus da trapaça, indo acariciar a face pálida, descendo para o pescoço e puxando até que a testa do ex-feiticeiro toque a de Thor – Eu te amo, Loki. Eu não vou deixar nada temachucar.

Talvez você devesse. Loki diz e não oferece tempo para Thor responder, beijando-o com força e desejo. O beijo é correspondido com o mesmo entusiasmo e logo os príncipes caem na cama, mãos arranhando e explorando os corpos um do outro. "Talvez você devesse ser aquele a me machucar" o pensamento nasce na mente do ex-feiticeiro, fazendo-o aumentar a força do beijo e das caricias. "Quebrar-me, me reduzir a cinzas, me fazer pagar por todos os crimes que cometi"

Loki quebra o beijo e se afasta, percebendo que se encontra sobre o irmão. O deus da trapaça senta sobre as coxas de Thor e, por alguns segundos, apenas observas as íris azuis que brilham com desejo e luxúria, carinho e amor. Nesse momento, Loki percebe que o único que ele deixaria que o machucasse é Thor. O filho de Laufey se inclina, beijando novamente os lábios do deus do trovão, mas dessa vez de forma mais lenta e carinhosa.

O toque de Thor é o único que pode ferir Loki da mesma forma com que marca seu corpo. A boca que o beija é a única que pode rasgar sua pele. As mãos que o seguram e o puxam de encontro ao corpo forte, as únicas que podem quebrá-lo.

O deus do trovão inverte as posições, prendendo o irmão sob seu corpo. Enquanto marca o pescoço de Loki com beijos e mordidas e sente o corpo magro arquear em direção ao seu, o filho de Odin sente o corpo queimar como se seu próprio sangue fosse feito de fogo. O coração guerreiro bate forte no peito, ansioso, desesperado por mais. Mais do sabor doce da pele sob seus lábios, mais do toque atrevido que se infiltra em suas vestes, mais da boca fina que se abre para deixar silenciosos gemidos escaparem. Ah, como Thor deseja ouvir a voz de Loki! Ouvi-lo gemendo, implorando, gritando... Ter o prazer de ouvir seu nome deixando os lábios vermelhos em puro êxtase!

Thor deseja Loki por completo. Corpo, alma, mente e coração. O príncipe de Asgard sabe que seu desejo é considerado errado, mas quem escolhe a quem amar? E o deus do trovão ama o irmão, o suficiente para perdoá-lo, para lutar por ele, para desejá-lo e possuí-lo.

– Loki... – Thor suspira contra a orelha de Loki, a voz baixa e rouca fazendo o ex-feiticeiro tremer e gemer em silêncio. Fios dourados sendo agarrados por um toque forte e firme.

Logo, não há mais roupas separando um corpo do outro, não há mais um limite onde termina Thor e começa Loki. Eles são um, apenas um. Um único corpo que se move em sincronia, um único toque que marca e acaricia, um único beijo que rouba o ar e a sanidade.

Thor observa o prazer dominar a face do amado, a imagem aumentando seu próprio prazer. E quando o ápice é alcançado e o deus do trovão consegue distinguir seunome nos lábios vermelhos, o orgulho se mistura o prazer fazendo-o atingir seu próprio limite. O nome do irmão nos lábios.

Toque cansado sobre fios negros, o filho de Odin deita o lado do irmão e, agora, amante. Braços fortes puxam o corpo magro para si e pálpebras pesadas caem sobre as íris azuis. Thor dorme completamente satisfeito e feliz.

Loki observa o peito forte subir e descer, a mão espalmada sobre a pele levemente bronzeada permitindo que o deus da trapaça sinta o bater do coração forte. Há amor no coração do ex-feiticeiro, amor pelo homem em sua cama. E também há a certeza de que tal amor trará dor para ambos. Mas por esse final de tarde e por essa noite, Loki decide não pensar no futuro, na dor que virá. Ele só aproveita o calor e a segurança dos braços do irmão.

So I'll find what lies beneath

Your sick twisted smile

As I lay underneath

Your cold jaded eyes

Now you turn the tide on me

'Cause you're so unkind

I will always be here

For the rest of my life

(What Lies Beneath – Breaking Benjamin)