Card Captor Sakura é marca registrada da CLAMP.

O autor deste fanfic não recebe nada por publicar esta estória. Se o autor for perseguido, ele vai voltar a escrever estórias da Terra Média pois Tolkien é mais amigável a escritores de fanfic.

Hesitação
by Misato KIKI Inverse

- Oi Sakura! Você queria me ver? - perguntou Yukito assim que chegou.
Uma sombra cobriu o rosto de Sakura. Ela sentia no fundo de sua alma que algo do sorriso de Yukito era falso. Ele sofria mas não queria preocupá-la. Ele devia desconfiar o motivo de ter sido chamado.
- Yukito e-eu...
Como pedir seu conselho? Como podia ter coragem de rasgar uma ferida que ainda estava cicatrizando?
Ela girou nos calcanhares instintivamente, com vergonha em encarar Yukito e fazê-lo sofrer novamente. Sentiu então uma mudança de pressão e uma forte luz brilhar às suas costas.
- Por que me convocou, Mestra das Cartas?
A voz de Yue.
Foi a gota d'água.

Kero viu Sakura subir voando para o quarto dela. Ele meneou a cabeça pesadamente e se dirigiu a seu companheiro: - O que você fez desta vez?
- Nada - Yue respondeu no timbre monótono de sempre.
Suspirando Kerberos voltou a sua forma original: - Você precisa dar um jeito nesse seu humor, Yue.
- Vocês me chamaram para me ensinar a fazer comédia?
O semblante sério de Kerberos se torceu numa careta: - Você acabou de fazer uma piada?
- Claro que não - Yue retrucou desviando o olhar - vamos direto ao assunto.
"Você disfarça, mas não me engana. Yue... você está mudando" pensou Kero um pouco satisfeito com o amigo.
- Por que me olha dessa forma? - Yue estranhou - por acaso estou com cara de palhaço?
- Hrumph! - pigarreou Kerberos - Bem, Yue a questão é a seguinte...

Boba! Boba! Boba!

Por que ela fugiu assim? Ela não era mais a menininha apaixonada pelo rapaz mais velho de dois anos atrás.
Mas ela não podia encará-lo. Ela sabia que Yukito magoou-se muito ao descobrir que não era um ser humano de verdade. Que era apenas a metade falsa de um ser mágico chamado Yue.
E isso também era culpa dela. Se ela tivesse sido mais forte, Yukito continuaria a viver feliz imaginando que tinha avós, continuaria a achar que era humano.
E agora ela faria o mesmo com o pai dela. Ela não tinha poderes para impedir o sofrimento dele... ou de Eriol...
- Sakura?
A voz a pegou de surpresa.
- Sakura, você está aí dentro?
- Yukito? Eu...
- Posso entrar?
Ela enxugou rápido as lágrimas. Mas logo percebeu a inutilidade de tal gesto.
- Sim pode... - ela respondeu com voz tímida.

Yukito entrou com cautela: - É a primeira vez que entro em seu quarto depois que você redecorou ele Sakura.
Ela enrubesceu. "Redecorar" significava uma transição. Ela já não era mais uma criança, e os móveis e algumas roupas tinham de refletir o amadurecimento dela.
Significava que meninos (até Touya) não entravam mais no quarto dela. Que havia cantos secretos, onde ela guardava coisas íntimas de mocinhas: diário, a cama do Kero...
Tão distraída estava que não percebeu que Yukito sentou-se a seu lado na cama. Gentilmente ele pegou em seu queixo e fitou-a nos olhos.
- Esteve chorando, não foi? - ele perguntou de forma gentil.
Como uma criança, ela meneou a cabeça assentindo. Logo sentia as lágrimas brotando em seus olhos de novo.
- Por minha causa?
Desta vez ela assentiu um vigoroso NÃO antes de falar: - Não é culpa sua. É que eu...
- Também não é culpa sua, Sakura.
- Hã? Yukito pegou no ursinho que Xiao-Lang deu pra ela.
- Sabe, Sakura. Eu sempre me perguntava "por que meus avós não voltam? será que eles se esqueceram de mim?"
... era uma forma que eu tinha para me proteger da terrível verdade: que eu estava sozinho no mundo. Que eu não tinha ninguém. Uma família distante ao menos era algo melhor do que ser um órfão.
- Você não está sozinho no mundo! - retrucou Sakura de forma veemente.
Yukito sorriu: - Eu sei.
Ela ficou confusa. Ele continuou.
- Eu sei que não estou sozinho. Eu tenho você e o Touya que sempre me trataram como se eu fosse da sua própria família. E pensar que até pouco tempo atrás eu me martirizava porque eu não tinha uma...
... até que Touya me mostrou que era melhor ter uma família de verdade agora, do que viver amargurado por causa de uma mentira do passado.
Ele sorriu para ela: - Se eu não sou um ser humano... se eu não tenho família... nada disso me importa. Não importa se vivi uma mentira. Agora sei a verdade. E sabendo quem sou, minha busca está terminada. E assim tenho a chance de encontrar uma família para mim.
Ela entendeu.
Talvez seu pai ficasse desapontado em descobrir suas origens, o porque de não ter um pai e uma mãe.
Mas ao mesmo tempo... ele finalmente poderia se encontrar com seu irmão, com alguém que se importasse com ele tanto quanto Sakura se importava com Touya. Não seria mais um "zé ninguém". Teria raízes e teria um amigo.
- Por isso - Yukito concluiu - Não fique triste por minha causa. Estou bem, sério! Não estou triste, nem bravo com você. Isso é coisa de sua cabecinha.
Ele apontou com o dedo para a testa dela, dando um empurrãozinho. O carinho a fez rir.
- Foi por isso que me chamou? - Yukito perguntou com um olhar terno e carinhoso.
Sakura respondeu que não com a cabeça: - Mas mesmo assim você já me respondeu o que eu queria perguntar, Yukito.
E dizendo isso abraçou um confuso Yukito.

Faz muito tempo...

- ... que ninguém faz faxina nesta casa!
Como sempre, Ruby Moon expressava sinceramente o seu desagrado em serviços braçais.
- Por que é que você não usa sua magia para limpar a casa, Eriol? - murmurou ele num muxoxo.
- Não seria divertido - ele respondeu sorrindo.
- Pare de reclamar, Ruby Moon. Pelo menos você tem mãos para fazer o serviço sujo!
Spinel Sun tinha razão. Ele só servia como porta-treco e estava carregado de coisas: balde, bacia, detergente, sabão, esfregão (dentro do balde). Aquilo tudo devia pesar um bocado na boca dele!
(Não me perguntem como ele falou de boca cheia)
- Eriol, pra que tudo isso afinal? - Ruby Moon perguntou enquanto espanava a lareira - Já tem o que você queria (e eu não, hunf!) e pode continuar sua vida com sua namorada.
Eriol riu de mansinho antes de responder: - Ruby Moon, tem coisas que não posso resolver com magia ou criando criaturas como vocês.
- Como o que? - perguntou Ruby intrigado.
- Como ser parte.
Claro que Ruby Moon não compreendeu seu enigmático senhor.

Alguém que entendia Eriol explicou os motivos do menino para Touya durante o percurso Narita-Tóquio.[1]
- Deixa eu ver se entendi... você vai se casar com um menino de doze anos de idade?
Ela sorria feito uma louca. A paisagem mutante vista pela janela do trem ajudava compor um estranho pano de fundo.
- Definitivamente você perdeu o juízo!
- Juízo tem a ver mais com Yukito, mas podemos deixar isso de lado por enquanto.
Touya fitou a moça por um momento. Ela continuava a sorrir de forma enlouquecedora.
- Você tá falando sério...
- Quando foi que eu menti? (só esqueci de dizer a verdade, mas...)
- Kaho... não sei se você compreende as implicações do que disse. É legalmente impossível uma mulher da sua idade ter permissão de se casar com um moleque que nem saiu das fraldas.
Ela fitou-o com um olhar compreensivo: - Touya, ele é bem mais velho que nós dois.
...
- Heim?
- Vamos começar do início? Temos tempo até chegarmos a Tóquio - Kaho disse observando o painel luminoso do vagão. [2]

-... seria muito mais simples se você simplesmente crescesse e se casasse com Kaho.
- Assim, ele não poderia nunca mais ser parte da família de Sakura, Ruby Moon - explicou Spinel.
- Mas se ele ama Kaho, ele pode começar uma família do zero! Não vejo porque tanto drama.
- Não é drama, Ruby Moon - Eriol interrompeu - é simplesmente uma questão de afeição.
- Coisa que você dificilmente também gosta de abrir mão. Afinal foi uma gritaria pra você deixar o pobre irmão de Sakura em paz, não foi, Rubinho?
Esse comentário deixou Ruby Moon histérico: - Não me chame de Rubinho!!![3]
("Pra quem me chamou a série toda de Suppy é pouco!" pensou Spinel Sun)

- Então... aquele menino é meu tio?
Kaho assentiu sorrindo. Parecia o Gato Sorridente de Alice no País das Maravilhas.
- Ainda bem que eu já posso pedir cerveja. Preciso de uma bebida urgente!
- Ouvi dizer que chá com Brandy é muito bom![4]
Touya fitou a ex-namorada com um olhar azedo. Mas nada disse.

Comentários do autor:

Se você ainda está comigo, quer dizer que já notou uma coisa: não costumo "japonizar" as palavras.
Portanto não me peçam para que um personagem chame o outro de "Sakura-chan", "Eriol-kun", "Yukito-san". Meu estilo não é esse e não vou colocar esse tipo de coisas. Sei o suficiente de japonês para escrever em japonês (se eu tivesse um editor decente), mas como não estou escrevendo em japonês, vocês vão ficar sem essas palavras.
[Seria diferente se fosse chinês. Talvez eu me esforçasse em um conto de Xiao-Lang, como Ina-chan fez nos contos dela. (e só a chamo de Ina-chan porque é o nome artístico dela aqui em fanfiction.net).]
Como disse, sei japonês o suficiente para me virar no Japão. Tanto que todas as paisagens que descrevi durante o percurso Tóquio-Narita são verdadeiras. Foi o que eu vi enquanto estava por lá (apesar de não saber o nome das coisas).
Certas características do Japão, os meios de transporte, também coloquei nos meus contos. Espero que apreciem meus esforços.

intel+
KIKItsune

[1] Os trens do Japão como Expressos e Shinkansens trabalham com sistema de reserva de assentos. Mas se o trem estiver vazio não é difícil você conseguir ficar em outro vagão. Funciona mais com os Shinkansens que tem vagões reservados e vagões livres, mas usei desse recurso no Expresso Narita para dar um pouco de privacidade aos dois grupos.
[2] Nos Expressos de Narita existe um painel com esquema do percurso do trem. Esse esquema fornece a localização atual do trem, e o tempo estimado de chegada.
[3] Me desculpem os fãs de Barrichello. Eu queria que Spinel desse o troco em Ruby Moon pelo menos uma vez, hehe...
[4] É gostoso mesmo, de acordo com um amigo meu. Só que a bebida em questão é mencionada em Legend of the Galactic Heroes (Ginga Eiyu Densetsu) outro anime que gosto muito. É a bebida preferida do Almirante Yang Wen Li.