Capítulo 3
A noite de Sexta-feira havia sido de sono perdido para Harry. Quando saíram da casa de Elifas, os três amigos aparataram de volta para a Toca e subiram direto para o quarto de Rony, colocando o diário no meio deles na mesa de centro. Hermione achara que seria melhor começar a lê-lo pela manhã, então passaram o resto da tarde juntos. A amiga estava cheia de curiosidade sobre como estavam no Ministério e eles queriam notícias de Hogwarts que, segundo ela, continuava a mesma. Apesar da morte de Dumbledore, continuava cheia de vida e a professora McGonagall estava fazendo um excelente trabalho. Aqui, os amigos se olharam. Sabiam que Hermione Granger jamais falaria mal de Minerva McGonagall.
Então naquela manhã, assim que sentiu que a luz do sol alcançara o quarto, caiu da cama, puxando Rony e Hermione com ele. Os amigos acordaram de um pulo, assustados e então fitaram o diário juntos.
_ Se lermos ele lá embaixo... – começou Harry sugestivamente.
_ Os pais do Rony não falariam nada. – comentou Hermione e o ruivo confirmou.
_ Então para a sala? – indagou o garoto.
_ Isso. – concordou Rony. – Vamos começar enquanto ainda está tudo calmo.
Juntos passaram pelas escadas até a sala de estar da Toca, acomodando-se no sofá, Harry abriu o diário de frente para os amigos. Na primeira página, sem linhas, estava escrito na mesma caligrafia redonda e delicada da carta "Memórias sobre a Fênix".
_ Ela deu um título ao diário. – disse Harry virando o livro para mostrar a eles.
_ Estranho. – retrucou Rony.
_ Não, não é. – disse Hermione na defensiva. – Fênix... era o patrono de Dumbledore...
_ Memórias sobre Dumbledore então. – concluiu Harry. – Mas porque escrever assim?
_ Ela já devia estar mais velha quando escreveu. – ponderou Hermione. – Não foi você quem disse que Dumbledore lhe dissera que estava sendo sentimental por causa da idade... embora conheça pessoas que sejam sentimentalistas desde muito antes. De qualquer forma, é o diário dela. Pode fazer como quiser! – exclamou ela tentando manter o tom baixo para não acordar o resto da casa. – Continue.
Muitas pessoas começam um diário, pelo simples prazer de escrever. Este, no entanto, começou por outro motivo. Pelo fato de ser mais fácil escrever para esquecer, do que conservar lembranças em frascos. Não nos sentimos tentados a rever algo quando arranca cada pedaço de nós para continuar...
Esquecer? O que, na verdade? Porque nunca é fácil esquecer um rosto ou um nome, que marcaram sua alma de forma tão única e intensa que fariam a mais insensível das criaturas voltar a acreditar. Muitos consideram os sentimentos absurdos, atualmente. Nunca viveram. Os bruxos com quem convivo, poucos vivem, apenas sobrevivem. Entretanto o caso Preminger e Dumbledore, datado desde um fatídico cinco de Dezembro de 1896 não foi comum, sequer divulgado. Mas o que dizer sobre algo que durou anos? Existem aqueles que resistem ao amor. Como estão errados... nem certos, nem errados, vou ponderar.
Afinal, sentir nem sempre é fácil. Deveria ser ou uma das partes acabará perecendo. No meu caso e o de Alvo, ainda estamos ambos sãos. Apenas de almas quebradas e nem sempre foi assim... começam aqui as lembranças de uma velha simplória...
Primeiro de Setembro. Incrível como a maioria dos eventos marcantes do mundo mágico parecem começar aqui. Com 11 anos, a mais velha de três irmãos na família Preminger. Filha de pais puro-sangue, e provavelmente a única que não esperava acabar na Sonserina. Isso não me tornou popular entre Blacks, Malfoys e afins. Mas deixemos a inimizade com tais famílias para onde isso cabe, ou seja, em minhas horas de trabalho ou festas organizadas pelo ministro.
Ansiosa como qualquer outra criança para finalmente conhecer aquele lugar que enchera meus sonhos durante anos, passei pela passagem entre as plataformas correndo, deixando minha tia para trás. E assim que vi todas aquelas pessoas reunidas, senti medo. Um tipo de medo que senti em apenas duas ocasiões da minha vida. Não conhecia ninguém... ao menos que fosse me estender a mão e cumprimentar e convidar para dividir um assento na cabine. Entrar em lugares assim quando se tem 11 anos, nunca traz boas recordações. Sentimos necessidade de aceitação e atenção de um amigo nessa idade, embora esse segundo se perdure até a morte.
"Os Preminger são sentimentais como botões do rosa." Quem constatou isso, nunca conheceu tia Sarah. Uma mulher breve, de poucas palavras e ações. Suas palavras até hoje me seguem: "Apenas garanta que o nome Preminger seja lembrado na escola. E não se meta em encrencas." Pronto. Simples. Sem um abraço ou um beijo, apenas isso, um empurrão para entrar logo no trem e fim. Uma pessoa não pode crescer num ambiente desses e não ser seriamente perturbada, como Elifas costuma dizer para me provocar. As cabines estavam lotadas no primeiro vagão, pois esse é um erro que comete-se na primeira no expresso. Nos reunimos ali como ovelhas assustadas, dando mais oportunidade para os veteranos nos assustarem. Andar no expresso não foi bom daquela vez... exceto por uma coisa.
De todas as memórias que temos, talvez a mais importante seja aquela de quando conhecemos aqueles que mudam nossas vidas para sempre, de modo a deixá-la cada dia mais emocionante possível. E foi passando por um dos vagões que eu os vi. Dois garotos sentados conversando. Um deles com o cabelo escuro, curto e liso e o rosto com algumas marcas e manchas, o outro com os cabelos acaju também curtos e ondulados. Poderia ter continuado a procurar, mas alguma coisa simplesmente me empurrou para dentro daquela cabine.
"Se importam se eu me sentar?" – eu perguntara abrindo a porta da cabine. E de uma forma tão polida que muitas vezes Elifas tornou a me perguntar por que só o usara naquele dia.
"Não." – ele me respondera se sentando mais para perto da janela. Foi o quê?! A primeira vez que Doge falou comigo e estava tão envergonhado, que somente piorou a situação. Seria mais fácil se quando conhecêssemos alguém, uma luz iluminasse a cena e uma voz dissesse que aqueles seriam seus dois melhores amigos... facilitaria para iniciar uma conversa.
"Sinto muito se interrompi alguma coisa."
"Não se desculpe." – e foi a primeira palavra que Alvo dirigiu a mim. "Ansiosa para começar?"
"Estou... vocês?"
"Não muito..." – disse Elifas apontando para suas marcas. "Varíola de Dragão"
Os olhos de Elifas recaíram sobre o chão e naquele momento eu realmente não sabia o que dizer para fazê-lo se sentir melhor. Minhas experiências com pessoas doentes nunca foram boas...
"Se eles te julgarem por causa disso, não merecem sua amizade." – e eu agradeci mentalmente a ele por isso.
"Obrigado, Alvo." – respondeu Eli – que nunca gostou muito desse apelido. – "Não falou seu nome."
"Amélia Preminger." – respondi com um sorriso. – "E não ligo... quero dizer, claro... depois que me disser o seu nome... não fomos apresentados direito... digo, adoraria ser sua amiga...
"Elifas Doge." – e o sorriso que me deu fez com que me sentisse menos assustadas desde que entrei naquele trem. – "Um prazer, Amélia... parece estar mais nervosa do que a maioria."
"Ah... não sou boa em fazer amizades..." – o que fui aperfeiçoando com o tempo. – "Geralmente as pessoas se aproximam e já dizem que são minhas amigas."
"Certo. Elifas, prazer, e já sou seu amigo." – disse apertando minha mão e os três riram.
_ Eram tão deslocados quanto nós? – indagou Rony rindo, interrompendo a leitura de Harry.
_ Nunca é fácil fazer amizades logo no trem. – comentou Hermione.
_ Nós fizemos! – exclamou o ruivo apontando para o amigo.
_ O que fizeram? – interrompeu a senhora Weasley aparecendo na sala. – Há quanto tempo estão de pé?
_ Alguns minutos. – respondeu Rony.
_ E o que estão fazendo? – Molly tornou a perguntar lançando um olhar interrogativo para o livro.
_ Nada demais. – respondeu Harry marcando a página com a mão.
_ Mais um mistério, meninos? – inquiriu o senhor Weasley se juntando a esposa.
_ Quase, senhor Weasley. – respondeu o garoto. – Prometemos que não falaríamos nada.
_ Não quero segredos em minha casa! – ralhou Molly.
Hermione mirou Harry e Rony.
_ É sobre Dumbledore. – disse ela. – Harry achou uma carta no escritório dele dessa mulher, Amélia Preminger. Fomos falar com senhor Doge e ele nos entregou o diário dela.
Molly e Arthur se entreolharam.
_ Fiquem a vontade, meninos. – disse ele por fim, indo com ela para a cozinha.
_ Continue. – pediu Hermione a Harry.
Naquele momento eu não entendia por que Alvo estava tão calado. Mais tarde, no entanto, eu aprendi a entender seus momentos de reflexão. Pensando sobre como sair de uma situação e ali não foi diferente. Contudo, havia acabado de conhecê-lo, não sabia nada de Ariana e a prisão de Percival Dumbledore. Sim, sabia que um bruxo havia sido preso por se vingar de trouxas que fizeram mal a sua filhinha. Mas tia Sarah não comentara muito com os amigos. Sequer suspeitaria que uma vítima daquela tragédia estivesse sentado à minha frente.
"Dumbledore." – chamara um garoto mais velho, mas reconheci como um membro dos Black. – "Sirius Black, como vai?"
_ SIRIUS BLACK?! – indagaram Harry e Rony.
_ Os nomes se repetiam. – explicou Hermione. – O nosso Sirius deve ter sido nomeado depois desse. Harry...
"Soubemos do seu pai... foi realmente trágico."
"O que aconteceu com o pai dele?" – perguntei me virando de Sirius para Alvo.
"Não soube? – indagou olhando para mim, finalmente me reconhecendo. Os olhares de nojo que trocamos se perpetuaram pelos séculos. – "Preminger... é claro que não. Trouxas imundos fizeram mal a irmãzinha dele e o pai foi se vingar. Maldito ministério... prendendo heróis... Não concorda, Dumbledore?"
"Meu pai não deveria ter agido da forma que agiu, impulsivamente. Não concordo com o que o Ministério fez a nossa família, mas também não o considero... o herói que você quer."
"A culpa foi dos trouxas... malditos não mágicos. Não sente nenhuma..."
"Nenhuma vontade de sair por aí caçando eles?!" – onze anos e ainda assim não conseguia aprender a comprar briga com alguém que não fosse cinco anos mais velho. – "Ele acabou de perder o pai e a irmã está mal em casa... e tudo no que consegue pensar é na sua maldita linhagem? Me enoja, Black."
E foi assim que uma garotinha cuspiu nos pés de Sirius Black e foi ameaçada por uma varinha apontada contra seu peito.
"Vocês Preminger são mesmo uma vergonha para a nossa raça."
"E a sua família é vergonha para algo maior do que uma raça. Caráter, Black." – disse puxando a minha varinha.
"Já que já se resolveu a meu respeito, senhor Black, por que não deixa Amélia em paz e volta para a sua cabine?" – sugeriu Alvo se colocando ao meu lado.
"É só um pirralho traidor, Dumbledore, não pode me dizer o que fazer."
"Ele não... mas tenho certeza de que seus pais não iriam gostar se o monitor da família fosse pego maltratando criancinhas do primeiro ano." – murmurei sorrindo de lado para meus companheiros.
"Idiotas. – disse Elifas quando saíram. – "Não se preocupe, Alvo... tenho certeza."
"Todos estão pensando isso... que agora minha família é uma maldita conspiradora anti-trouxas." – ponderou ele fitando Elifas e depois se voltando para mim. – "Obrigado por me defender."
"Eu agradeço. Sangue puro, mas ainda preciso aprender a como azarar aquele cara." – disse com uma das mãos no ombro dele. – "Sua irmã... o que eles fizeram?"
O assunto Ariana sempre foi muito delicado para ele, mesmo que a pergunta fosse simples como "Qual o nome dela?" a reação era a mesma. Um suspiro longo e os olhos azuis perdendo um pouco do seu brilho habitual. Falar da irmã o entristecia... porque ele conseguira fazer tudo pelo mundo, mas nunca por ela.
"Ela finalmente demonstrara seus poderes e dois garotos viram. Forçaram-na a repetir o truque, mas ela não conseguiu e..."
"Sinto muito." – respondi apertando a mão no braço dele. – "E seu pai foi atrás deles."
"Foi. Agora minha mãe cuida da Ariana com a ajuda do meu irmão, Abeforth, mas isso enquanto ele não entrar para Hogwarts. Sozinhos com uma bruxa instável." – concluiu cabisbaixo. –"Mas não digam a ninguém... quero dizer, minha mãe pediu para que disséssemos que era apenas doente... o que não deixa de ser meia verdade."
"Pode confiar." – disse Elifas. –"Não contaremos nada."
Uma tarde no Expresso de Hogwarts e já sabia que havia encontrado as pessoas que seriam meus companheiros durante aqueles sete anos. No entanto, durante a seleção, quando descobri que poderíamos ficar separados, senti certa ansiedade. Elifas foi chamado primeiro e o chapéu não demorou para gritar "Grifinória", depois foi a vez de Alvo e ele ficou em dúvida quanto a Corvinal, a casa dos inteligentes... eu prefiro casa das excentricidades de Hogwarts. Por fim, Grifinória. Na minha vez, fiquei nervosa e quase caí do banquinho. Não sabia como fazer para entrar, então mentalizei Grifinória na minha cabeça. Ainda assim, ele cogitou me colocar na Lufa-lufa... me imaginei andando pelos corredores com os dois, mas me separando na hora de ir dormir. Um assunto inacabado na mente que não me deixaria dormir...
"Grifinória" – eu ouvi então e meu rosto se iluminou com um sorriso.
"Então, posso te chamar de cabeção ou prefere gênio? – perguntei para Alvo enquanto comíamos.
"Prefiro Alvo." – me respondeu ainda assim de bom humor.
"É, tem razão... cabeção." – disse me virando para Elifas. – "Me passa o molho, Eli?" – pedi gentilmente e ele me olhou surpresa.
"Qual o seu problema...Mélia?" – disse me entregando o molho.
"Eli... tomara que ninguém ouça ela te chamar assim." – comentou Alvo e nós três rimos.
Como diria minha prima Amanda, nada como uma boa viagem e uma boa refeição para unir as pessoas. E aquela ali seria suficiente para que durasse uns bons anos... mesmo que de vez em quando precisássemos de algumas crises para apimentar as coisas. Nada melhor do que risadas de reconciliação.
_ Eu gostei dela. – disse Rony decidido.
_ Foram cinco páginas. – retrucou Harry.
_ Ela chamou Dumbledore de cabeção. – ressaltou ele. – Essa mulher merece o devido crédito.
_ Venham comer ou eu faço com que essa coisa suma! – ameaçou Molly que os estava chamando pela terceira vez.
_ Vamos. – disse Hermione.
Harry fechou o diário e deixou-o sobre a mesa, imaginando Amélia tão feliz quanto ele ficara por ter ido para a Grifinória.
