"I imagine the tears in your eyes, the very first night I'll sleep without you /And when it happens I'll be miles away and a few months late / Didn't know where I was running to but I won't look back".

Roman Holiday - Halsey

Em poucos minutos, a sala de reunião do gabinete da Ministra da Magia estava apinhada de bruxos que cochichavam entre si, demonstrando inquietude com a situação inusitada. Muitos estavam preparados para encerrar mais um dia de labuta, quando receberam um memorando encantado (que se materializava bem em frente ao destinatário e continuava a persegui-lo até que fosse respondido ao remetente) diretamente de Hermione Granger-Weasley.

Lá estavam os responsáveis por todos os departamentos do Ministério, diversos aurores e outros bruxos que eram considerados de extrema confiança. Quando o último convidado adentrou a sala (o auror Cormac McLaggen - ainda mancando após seu pequeno encontro com uma Ararambóia), Hermione apontou a varinha para a porta e a selou com uma série de feitiços contra qualquer bisbilhoteiro que ousasse aproximar-se.

- Muito obrigada por comparecerem - disse, repousando a varinha na mesa - Como vocês podem perceber, essa é uma reunião de emergência com os funcionários que considero ser de confiança.

- Se esse é o caso, eu me pergunto o que ele está fazendo aqui - Hermione ouviu Mathilda Fortescue (chefe do Departamento de Jogos e Esportes Mágicos) cochichar com Alastair Podmore (responsável pela Seção de Chaves de Portais).

Ela sabia que Mathilda se referia ao bruxo de cabelos platinados que estava sentado ao lado direito dela (cujo rosto continuava impassível - provavelmente já acostumado com esse tipo de comentário por onde passava). Hermione lidou com a situação lançando um olhar de reprovação para Mathilda, que por sua vez remexeu-se incomodada em sua cadeira.

- Nós recebemos uma ameaça por parte da Sociedade - a Ministra continuou - Eles tomaram conhecimento de informações que ainda não estavam disponíveis ao público e é com grande pesar que concluo que temos espiões infiltrados no Ministério.

Um burburinho tomou conta do aglomerado de bruxos. Um espião? Bem, certamente não é ninguém do meu departamento. Eu aposto vinte galeões que o espião é alguém da Central de Obliviação. Tenho certeza que o espião é o Ryan, você já reparou que ele nem ao menos diz bom dia...

Antes que Hermione pudesse pedir silêncio, Harry sacou a varinha e apontou para um vaso de flores que estava exatamente no meio da longa mesa de conferência:

- Expulso! - o vaso quebrou-se em mil pedaços minúsculos, causando um sobressalto em todos os bruxos que antes balbuciavam.

A bruxa observou o amigo de esguelha e fez uma nota mental para pedir posteriormente que ele parasse de explodir todos os objetos de decoração sempre que precisava chamar a atenção de alguém.

- Como eu dizia - ela retomou o discurso - Nós ainda não sabemos quem pode ter vazado tais informações e por isso, precisaremos conduzir algumas sessões de interrogatórios que serão presididas pelos aurores. Enquanto não conseguimos localizar o bruxo infiltrado, peço que tomem extremo cuidado com informações confidenciais.

Uma mão levantou-se no final da mesa. No mar de cabeças e chapéus, Hermione distinguiu com facilidade a peculiar tonalidade de cabelo ruivo que pertencia à família de seu marido.

- Ministra - Percy disse, se endireitando em seu assento - Você mencionou uma ameaça da Sociedade. O que eles estão tramando agora?

- Eles enviaram, como de costume, uma carta para o Profeta Diário - explicou, involuntariamente mordendo os lábios com força desnecessária - Nessa carta eles dão a entender que pretendem fazer algo...contra uma criança.

Novamente o local foi tomado por um burburinho cheio de preocupação. Uma criança? Eles não teriam coragem. Meu filho está em Hogwarts. Nós precisamos cancelar as aulas imediatamente. Eu vou enviar uma coruja para Minerva McGonagall. Isso é ultrajante!

O falatório cessou no exato momento em que Harry fez uma mera menção de alcançar sua varinha novamente.

- Nós já estamos tomando providências para que essa ameaça não se concretize - Hermione prometeu - Harry escolheu vinte dos seus melhores aurores e eles já estão a caminho de Hogwarts. A partir de hoje, esse grupo cuidará da segurança de todas as crianças em idade escolar.

- Vocês acham que os aurores são suficientes para lidar com a situação? - Elphias Dodge perguntou - Não que eu duvide da capacidade deles, mas será que não deveríamos tomar outras providências para garantir a segurança das crianças?

- Claro - ela concordou - Percy, eu preciso que você reforce todos os feitiços Anti-Aparatação no solo de Hogwarts. Alastair, você enviará uma equipe para se certificar de que não existe nenhuma chave do portal nas dependências da escola.

- Eu pretendo fazer uma visita o quanto antes - Harry comentou - Os aurores também ficarão encarregados de inspecionar todos os objetos que possam ser usados para trazer contrabando ou visitantes indesejados.

- O que a Sociedade quer é causar um frenesi no mundo bruxo, atacando diretamente um dos nossos bens mais preciosos - Hermione disse - Nós não vamos deixar que isso ocorra. Pela manhã, eu darei uma coletiva de imprensa informando todas as medidas que estamos tomando nesse momento tão complicado. Espero contar com a colaboração de todos vocês.

A Ministra respondeu mais algumas dúvidas dos funcionários, antes que o chefe dos aurores tivesse a chance de (educadamente) expulsá-los da sala de reunião. Em outra circunstância, Hermione provavelmente protestaria o método abrupto do amigo, entretanto, ela sentia-se muito aliviada em finalmente ser deixada sozinha na companhia de Harry e Draco.

- Eu preciso que você repasse todo o briefing do caso com Draco - Hermione pediu, enquanto Harry fechava a porta às costas de um cambaleante McLaggen - Quero começar a trabalhar nisso imediatamente.

- Hermione - o amigo a chamou, sua voz diminuída a um sussurro sem graça - Será que não é melhor retomarmos esse assunto pela manhã?

Hermione o encarou fixamente, tentando decifrar se aquela pergunta tratava-se de uma piada de péssimo gosto ou se o amigo estava seriamente considerando a possibilidade de ir para a casa ainda naquela noite.

- Draco precisa ter acesso aos arquivos de Alquimia - ela continuou, decidindo que era mais prudente ignorar a pergunta - Não esqueça de colocá-lo sob um feitiço de confidencialidade.

- Mione, eu acho que todos nós poderíamos ter uma boa noite de sono e...

- Não acredito que você esteja sugerindo algo tão estúpido como uma noite de sono nesse momento - Hermione o interrompeu com rispidez - Nós temos trabalho a fazer.

Draco não conseguiu conter um risinho de desdém ao observar a face do outro rapaz corar loucamente. Assistir Hermione deixar o chefe dos aurores desconcertado, estava tornando-se uma de suas atividades favoritas. Por sua vez, Harry limitou-se a assumir uma expressão ofendida em seu rosto.

- Eu estarei em meu escritório, caso precisem de algo - ela informou levantando-se de chofre - Acredito que não é necessário dizer que eu cassarei a licença de varinha de ambos, se um de vocês lançar qualquer azaração na direção do outro. Trabalhem como adultos, está bem?

Os bruxos concordaram imediatamente. Existia algo que qualquer membro da sociedade mágica aprendera por bem ou por mal: nunca trate uma ameaça de Hermione Granger-Weasley levianamente. Eles não seriam os primeiros tolos a testar os limites da Ministra da Magia.


Hermione estava exausta.

Ela passou toda a madrugada se preparando incansavelmente para ser sabatinada, escrutinada e mesmo assim, pretendia manter a tranquilidade de toda a comunidade. Entretanto, o último adjetivo que alguém atribuiria à uma sala repleta de jornalistas, todos sedentos por um escândalo, era "tranquilo".

O pesadelo da coletiva de imprensa havia sugado a última centelha de sanidade que lhe restava. Já se passavam das nove horas da manhã quando ela finalmente admitiu que o cansaço havia vencido e decidiu que precisava de algumas horas de sono.

O que ela certamente não esperava era abrir a porta de seu quarto e deparar-se com o marido sentado na cama, despreocupadamente lendo o jornal. Ele já deveria estar na Gemialidades Weasley há pelo menos uma hora e por mais que ele não fosse exatamente um fã de acordar cedo, o bruxo também não era de se atrasar.

- Ron? - um sorriso cansado passou rapidamente pelos seus lábios - Eu não imaginava que você ainda estaria aqui.

- Pois é, hoje está sendo um dia cheio de surpresas, não é mesmo? - Ron indagou, enquanto dobrava cuidadosamente o Profeta Diário e o colocava na cama.

Por mais que seu raciocínio estivesse parcialmente prejudicado pela falta de sono, ela ainda conseguiria reconhecer o tom sarcástico na voz do marido até mesmo se estivesse em coma.

- Espero que eles tenham escolhido uma boa foto minha - Hermione tentou desconversar, espiando a matéria de capa. Era uma foto sua em um palanque improvisado no átrio do Ministério - Não que isso seja possível com o tempo que estou sem dormir. Hum, olha só, dá pra notar uma leve semelhança com o falecido professor Snape.

Ela esperava que um pouco de humor desfizesse a estranha tensão que pairava no ar, entretanto, quando Ron virou-se lentamente para encará-la, Hermione compreendeu o quanto seu marido estava irritado.

- O que ele estava fazendo ao seu lado? - Ron perguntou, indicando com o queixo o jornal que ainda estava na cama do casal.

O cérebro de Hermione levou quase um minuto para desembaralhar o significado daquela pergunta. Ela aproximou-se e segurou o jornal entre seus dedos, analisando minuciosamente a foto que encabeçava a matéria: A FORÇA-TAREFA: SERÁ QUE O MINISTÉRIO DA MAGIA É CAPAZ DE PARAR A SOCIEDADE?

Lá estava ela na imagem em preto e branco, visivelmente irritada por ter que responder a outra pergunta idiota de Adrian Pucey (repórter do insuportável O Inquisidor). Como sempre, à sua direita, estava Harry Potter. Era possível ver que Hermione lutava para manter a mão do melhor amigo imobilizada em seu lugar, já que segundos antes ele parecia pronto para sacar a varinha.

Mas não era exatamente a isso que seu marido se referia. Nessa altura do campeonato, todos já estavam cansados de saber que se ela parecia estar segurando a mão de Harry durante uma coletiva de imprensa, era com a intenção de evitar que o mesmo saísse distribuindo furúnculos para todos os jornalistas que faziam perguntas desagradáveis.

Era claro que o nervosismo de Ron era por conta do bruxo prostrado ao seu lado esquerdo, cuja cabeça na foto, virava-se rapidamente para observar Hermione e depois lançava um dos seus típicos olhares de desprezo na direção de Pucey.

Ela havia esquecido completamente que o marido ainda não sabia que Draco Malfoy estava trabalhando na força-tarefa.

- Ele está trabalhando conosco - explicou, tentando não dar mais atenção que o fato merecia - É o nosso consultor de Alquimia.

- Então, quer dizer que vocês estão trabalhando juntos? - Ron não parecia estar pronto para deixar esse assunto para lá com tanta facilidade.

- Sim, ele está trabalhando com toda a força-tarefa - Hermione desejou que sua voz sonolenta tivesse feito um bom trabalho ao frisar a palavra "toda".

- Bem, então Draco Malfoy oficialmente passa mais tempo com a minha esposa do que eu.

Hermione revirou os olhos, conhecendo o marido, ela já poderia prever o que viria a seguir.

- Ron, eu realmente sinto muito por ter cancelado os nossos planos ontem - desculpou-se, sentando ao lado dele na cama - Você pelo menos leu a matéria? Nós recebemos uma ameaça séria por parte da Sociedade. Isso não tem nada a ver com Draco Malfoy.

- Eu só estou bravo, ok? - o ruivo bufou - Estou bravo porque há meses eu não te vejo em horários decentes e saber que de todas as pessoas do mundo, esse infeliz pode passar mais tempo ao seu lado do que eu? Isso me deixa furioso.

- Esse é meu trabalho - Hermione respirou profundamente, esfregando os olhos para afastar o sono - Eu trocaria todo o tempo que você acha que eu tenho ao lado dele para passar uns minutos a mais com você.

- Bem, mas essa não é a realidade, não é? - perguntou cheio de ressentimento - Você sempre terá trabalho e o seu trabalho sempre tem o melhor de você. O que sobra para mim?

Os lábios da bruxa movimentaram-se em silêncio por alguns segundos. Justamente ela, a pessoa mais eloquente presente naquele cômodo, parecia incapaz de formar uma resposta que fosse capaz de acalmar o marido. Pensou em reafirmar o quanto o amava, mas sabia que não era exatamente essa a resposta que Ron procurava. Infelizmente, ela não tinha nada para oferecer além do amor que sempre sentiu e naquele momento isso parecia não ser suficiente.

- Eu preciso trabalhar - Ron levantou-se sem nem ao menos encará-la - Não precisa esperar por mim essa noite.

Hermione queria impedi-lo de partir sem esclarecer a situação, todavia, as suas palavras ainda estavam aprisionadas em sua garganta. O marido aparatou do cômodo sem nem ao menos uma despedida apropriada e isso fez com que seu coração diminuísse de tamanho em sua caixa torácica.

Ela encostou a cabeça no travesseiro que pertencia a Ron, inalando o cheiro dos cabelos dele e deixando que seu cansaço e preocupações vertessem em lágrimas silenciosas. Como em menos de um ano eles passaram de "prontos para renovar os votos de casamento" para isso?


Não havia absolutamente nada errado em trabalhar de madrugada. Essa frase tornou-se o mantra que Hermione repetia mentalmente há pelo menos duas semanas, tentando convencer-se de que não havia nada anormal em fazer tantas horas extras.

Para princípio de conversa, o Ministério era bem menos movimentado durante esse período. Na madrugada, eram raros os bruxos que adentravam seu gabinete com demandas estapafúrdias e perguntas às quais ela nem ao menos sabia responder.

Hermione aproveitava a calmaria para reler os relatórios de progresso que Draco entregava diariamente (ele parecia encarar o preenchimento de papelada burocrática com tanta seriedade quanto ela) e os estudava com o foco que aqueles documentos mereciam.

Ela ainda não estava pronta para admitir tal fato em voz alta, mas a verdade é que o lado intelectual do bruxo a surpreendia constantemente. Suas observações minuciosas, cheias de notas de rodapé e referências bibliográficas eram como uma droga extremamente viciante. Será que ele sempre foi tão aplicado assim? Como os professores de Hogwarts nunca incentivaram as ideias brilhantes dele?

A Ministra sentiu remorso ao pensar na possibilidade de que a sua carreira acadêmica estelar, havia de alguma forma obscurecido as conquistas escolares do sonserino. Era muito complicado se destacar quando alguém como ela estava por perto.

Hermione estava relendo uma passagem muito interessante sobre como alguns dos artefatos roubados pela Sociedade, poderiam ser utilizados para a criação de uma nova pedra filosofal. Ela parou por um momento para poder escrever essa nova teoria em seu bloco de anotações, sem nem ao menos perceber que o autor da mesma havia adentrado o seu gabinete há pelo menos um minuto.

- Draco! - Hermione exclamou em um sobressalto ao perceber a presença do bruxo - O que você ainda está fazendo aqui?

- Eu estava com Potter no Quartel-General dos Aurores - explicou o rapaz, seus olhos acinzentados a fitando com curiosidade - Nós estávamos revendo algumas atividades recentes que podem ser obras da Sociedade.

Hermione sorriu satisfeita. Sem sombra de dúvidas, ela poderia assumir a responsabilidade por esse pequeno progresso. É verdade que ela precisou ameaçá-los de inúmeras formas, tal como garantir que nunca mais subissem em uma vassoura ou que não hesitaria em encher seus corpos com pústulas, mas ambos finalmente pareciam se tolerar ao ponto de colaborar um com o trabalho do outro.

- Harry ainda está aqui?

- Não. Ele foi embora há uma meia hora atrás. A esposa enviou um berrador falando que se ele não aparatasse a bunda em casa dentro de dez minutos, ela viria até aqui e garantiria que ele nunca mais fosse capaz de usar certas partes do corpo - Draco deu de ombos - Ele pediu que eu viesse ver se você ainda estava trabalhando.

- Estou relendo seu relatório - ela esclareceu, um sorriso formou-se no canto de seus lábios - Draco, eu preciso dizer que sua linha de pensamento é fascinante. Isso sem contar o cuidado e a atenção aos detalhes que você tem com os seus relatórios. Estou pensando em usar todo esse material em uma palestra para os outros funcionários de como espero que todos os documentos sejam preenchidos de agora em diante...

O rosto de Draco assumiu uma estranha tonalidade rosada e ele devolveu o sorriso para a bruxa com timidez. Pela sua reação, era bem apropriado assumir que ele não estava acostumado a receber tantos elogios de uma só vez.

- Obrigado! - ele agradeceu, e sem cerimônias depositou uma sacola de papel pardo em cima de toda bagunça de pergaminhos e livros na mesa.

Os olhos de Hermione fitaram a sacola por alguns segundos, esperando que alguma explicação para a sua existência fosse dada, porém, desistiu ao perceber que o bruxo continuava calado.

- O que é isso? - ela finalmente perguntou, apontando para o objeto intruso.

- Salada de camarão do Witch's Kitchen - Draco explicou, sentando-se na cadeira à frente dela - Você precisa se alimentar.

Somente a menção de seu prato favorito fez com que o estômago (vazio) de Hermione protestasse em alto volume. Sua última refeição foi um bolinho de abóbora há exatas dez horas atrás. Sua mente estava tão ocupada que não era incomum que ela esquecesse dos horários para se alimentar.

Entretanto, isso ainda não explicava o motivo pelo qual, entre todas as pessoas, Draco Malfoy parecia ser o único que percebia essa pequena irregularidade em seu cronograma.

- Por quê? - Hermione perguntou.

- Para que você não desmaie.

- Não! - exclamou irritada com a resposta genérica - Por que você se importa se eu estou me alimentando ou não? Por que você se importa comigo?

- Granger, há duas semanas eu estava me sentindo perdido e você me deu um novo senso de propósito - Draco explicou, enquanto pegava para folhear o exemplar de Os Alquimistas Que Marcaram o Século XX que estava perdido na zona da mesa - Não faça uma tempestade no copo d'água. Eu só me oponho à ideia de deixar que você morra de inanição.

Hermione precisou desviar o rosto momentaneamente, agradecendo que o bruxo parecia distraído demais com a sua nova leitura, para perceber que seus olhos estavam cheios de lágrimas. Nada estava sendo muito fácil nos últimos tempos: a mídia continuava a massacrá-la e duvidar constantemente de sua capacidade para o cargo que ocupava, a força-tarefa não havia feito nenhum progresso significativo em suas investigações e todos viviam com o medo iminente que a Sociedade cumprisse sua promessa quanto às crianças bruxas. Para completar o cenário, seu marido, que ainda estava muito magoado com a sua ausência, não lhe dirigia muitas palavras e parecia fazer um grande esforço para nunca estar em casa ao mesmo tempo que a esposa.

Tudo à sua volta estava ruindo e ninguém se importava. E ali estava aquele homem que sempre odiou tudo o que ela representava, se importando o bastante para garantir que ela ao menos não morresse de fome.

- Obrigada - agradeceu com a voz embargada, enquanto retirava o seu prato cuidadosamente embalado de dentro da sacola.

Draco continuou a folhear o tomo em suas mãos, parando vez ou outra em alguma página que chamava a sua atenção e também se certificando de que a bruxa à sua frente realmente estava comendo toda a salada. Hermione fingiu não perceber os olhares discretos que ele lhe lançava esporadicamente. Ela sabia exatamente qual era a intenção dele e ficava grata por ter alguém que ficasse de olho nela.

- Você sabe que isso não é sua culpa, não é? - ele perguntou de repente.

- E o que faz você pensar que eu acredito que isso é minha culpa? - replicou, sem se importar com os bons modos e falando com a boca cheia.

- É exatamente isso que você faz quando se sente culpada - a atenção de Draco ainda estava no livro - Você se priva de sono e não faz absolutamente nada até encontrar uma solução para os problemas.

Hermione arregalou os olhos em sinal de surpresa. Como ele sabia disso?

- Eu poderia ter tomado atitudes mais efetivas contra a Sociedade no momento que eles surgiram - Hermione confessou - Mas por algum motivo idiota, deixei que eles se tornassem mais perigosos e agora eles pretendem até mesmo atacar as nossas crianças.

- Eles ainda não tomaram nenhuma atitude - observou Draco, finalmente parando de fingir que estava interessado no conteúdo do livro - Suas medidas de segurança com certeza assustaram esses bastardos. Todos em Hogwarts estão seguros.

- Bem, eu não deixarei que eles pensem que eu estou cantando vitória antes da hora - ela decidiu, apontando para os pergaminhos desorganizados em sua mesa - Realmente gostei da sua última teoria. Você acha que eles podem estar trabalhando em uma nova pedra filosofal?

- Sim - Draco concordou - Mas isso não é o foco. Criar uma pedra filosofal não justifica todos os assassinatos.

- Ao menos que eles estejam fazendo isso para desviar a atenção - ela ponderou, enquanto caçava com o garfo os últimos camarões em seu prato.

- É uma possibilidade, mas eu não focaria demais nisso. Não podemos esquecer que eles ameaçaram abertamente a segurança das crianças do mundo bruxo.

Hermione limpou os lábios com o guardanapo que encontrou na sacola, pronta para continuar discutindo o que a Sociedade poderia fazer em posse de uma pedra filosofal, quando uma coruja desnorteada irrompeu em seu escritório. Ela já estava acostumada com a visita diária do animal (que sempre estava bem incomodado por precisar realizar entregas no subterrâneo) que sempre trazia consigo o a edição mais recente do Profeta.

Particularmente, ela já estava cansada das matérias alarmistas que a publicação estampava em suas páginas, porém, o jornal mais lido do mundo bruxo era leitura obrigatória para alguém em seu cargo.

- Vamos ver qual é o absurdo do dia - Hermione disse, desdobrando o jornal;

- Aposto dez galeões que é um levantamento de todas as horas que você passou dormindo e não trabalhou na força-tarefa - Draco comentou, arrancando uma deliciosa risada dela.

Entretanto, sua esperança em encontrar mais uma matéria esdrúxula ocupando a capa, esvaiu-se no momento em que seus olhos cansados finalmente conseguiram focar no conteúdo do jornal. A pouca cor existente em suas bochechas desapareceu e sua pressão despencou sem nenhum aviso prévio.

- Eu...eu... - ela gaguejou, encontrando o olhar confuso de Draco - Eu preciso ir para casa.

Hermione levantou-se, deixando cair diversos pergaminhos com o gesto brusco. Sem dizer mais nenhuma palavra, a bruxa caminhou até a lareira de seu gabinete e em poucos segundos desapareceu pela Rede de Flú.

Confuso com a situação que havia acabado de ocorrer, Draco também se levantou e apanhou o jornal que ela havia deixado para trás. Mesmo que ele já estivesse se preparando para o pior, a notícia em destaque ainda conseguiu pegá-lo completamente de surpresa.

- Filho da puta! - o bruxo sibilou entre os dentes.

PROBLEMAS NO PARAÍSO? ENTENDA O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM O CASAMENTO DA MINISTRA DA MAGIA.

Ilustrando a matéria, havia uma foto monocromática de um risonho Ronald Weasley beijando uma bruxa que definitivamente não era a sua esposa.


N/A: E aí, o que vocês acharam da "bomba" do final? Posso garantir que teremos mais cenas Dramione a partir de agora.

Ah! Não esqueçam de deixar os seus comentários - caso contrário, a Sociedade não me deixa liberar o próximo capítulo.

Beijos e até o quarto capítulo!