Capítulo III – A isca
O percurso de volta para casa foi silencioso, Sherlock não soltou um único pio desde o momento que analisaram o arranjo encontrado no corpo da médica residente do São Bartolomeu. Não adiantou Lestrade insistir para o moreno desembuchar o que havia deduzido do caso até ali, o detetive simplesmente se fechou em sua concha de pensamentos. John pediu paciência ao inspetor e prometeu convencer o amigo a dizer alguma coisa depois.
A chegada ao 221B foi silenciosa, nem o "boa noite" animado proferido pela Sra. Hudson recebeu resposta por parte de Sherlock.
– Ele está com a mente cheia, Sra. Hudson, a senhora sabe como ele fica. – Justificou o médico subindo as escadas logo atrás do detetive.
– Ah, sim, fique tranquilo querido, eu sei como é. – A senhora respondeu sem perder o sorriso. – Dê carinho a ele e isso passará logo, tenho certeza. – Disse com um risinho maroto.
– O quê? – John virou-se visivelmente desconfortável. – Sra. Hudson, eu e o Sherlock...
– Ah, não, não precisa me dizer nada...
– Eu não sou gay! Pare de insinuar que eu e o Sherlock somos um casal, porque nós não somos!
– Não vejo problema nenhum nisso, meu jovem.
– É claro que não há problema! Quero dizer... Não há problema nenhum em dois homens quererem ser um casal, eu não tenho preconceito com isso. Mas entenda que eu não sou o par amoroso do Sherlock, será que alguém pode entender isso pelo menos uma vez?
– Se você diz... – A mulher respondeu olhando-o de modo bastante expressivo.
John respirou fundo, deu boa noite e subiu meio irritado. Sherlock estava de costas encarando a rua pela janela esquerda da sala, parecia bastante apreensivo, o que deixou o médico mais apreensivo ainda, pois aquele tipo de reação era bem rara no amigo e significava coisas muito ruins.
– A mensagem, John... – sussurrou sem virar para encarar o amigo. – ou melhor, a ameaça. – Agora John era encarado por um olhar temeroso que parecia o universo se contraindo e sugando-o para o dono daqueles olhos.
– A-ameaça? Era... Era uma ameaça? – John engoliu em seco sem desviar os olhos do olhar do amigo.
– Sim, a ameaça se completou hoje.
– Qual era o significado daquele arranjo, Sherlock? Por que você não quis me dizer lá no hospital?
– Heliotrópio, "lealdade", folhas de louro "mudarei apenas com a morte". – Sherlock sussurrou mais para si do que para John.
– A assassina quer dizer que será fiel a você até a morte?
– Não, John. Você não notou de quem era o crachá por baixo das flores no peito da médica?
– O de Victória, não? Afinal, ela não usaria o crachá de outra pessoa.
– Exatamente! O de Victória estava ao lado do corpo, bem à mostra. Ela não usaria outra identificação, apenas a assassina iria colocar o seu crachá por baixo das flores no peito da morta. – disse retirando do bolso do sobretudo o crachá com a foto e identificação do Dr. Watson, jogando-o em seguida na direção do médico que o pegou no ar.
– Mas... mas como? Por quê? Era para me incriminar? – John parecia muito confuso.
– Claro que não. Não seja tolo.
– Então...
– Era para deixar claro que a frase final da ameaça se referia a você e não a assassina, e que o a tradução correta seria "a lealdade de John Watson terminará com a morte". Ela está claramente dizendo que vai dar fim à sua vida, para me atingir. Você será a próxima vítima, tenha cuidado, John. – o detetive concluiu mexendo nervosamente os dedos das mãos unidas à altura dos lábios pálidos.
John ficou parado, olhando o amigo que parecia ligeiramente assustado com o fato de alguém querer atingi-lo através do médico. Tudo bem, alguém estava doido para matá-lo, mas perceber que isso teria forte impacto no amigo, trouxe à alma de Watson uma agradável onda de calor. Recriminou-se por isso, claro, mas não conseguiu deixar de sentir um pouco de felicidade por perceber que o amigo se importava realmente com o seu bem estar. Ou será que na verdade ele se importava mesmo era com a possibilidade de ficar sem alguém para substituir o crânio da lareira e fazer seu chá? Esse pensamento congelou seu coração. Tais hipóteses não pareciam absurdas quando se falava de Sherlock Holmes.
– Temos que construir uma estratégia de proteção para você. Chegou a hora de passar algumas informações para o Lestrade, posso conseguir com ele uma escolta para manter sua proteção. – Divagou o detetive andando de um lado para o outro da sala.
– Ah, não! De jeito nenhum. Não vou aceitar ser seguido para todos os cantos por policiais prontos para pular sobre qualquer pessoa suspeita que se aproximar de mim. – John reclamou cruzando os braços.
– Uhmmm... Tem razão! Se colocarmos escolta para proteger você isso inibirá a aproximação da assassina. Agora que ela cometeu o erro de nos indicar quem será sua próxima vítima, não podemos perder a chance de chegar até ela através de você! – O moreno concluiu dando uma palma animada no ar.
– Espera um pouco. Eu passei de pessoa a ser protegida a qualquer custo para isca de uma psicopata gamada em você? – John parecia estarrecido.
– Trocando em miúdos, é isso. – Sherlock respondeu atirando-se no sofá ficando na sua habitual posição meditativa.
– Estou chocado.
– Ah, não fique, isso não ajudará a resolver o caso.
– Tá bom... – respondeu o médico sentando-se visivelmente decepcionado com o pouco caso que recebia do amigo agora. Sentia que em breve faria companhia para o crânio na lareira. – A mensagem foi claramente enviada por uma mulher que se sentiu rejeitada por você. Diga-me, Sherlock,você realmente já rejeitou alguma mulher?
– Já.
– Quantas?
– Não lembro.
– Como não lembra, foram tantas assim que não consegue nem contabilizar um número aproximado?
– Não, John, eu simplesmente deletei essas informações por considerá-las inúteis. Apenas tenho um vago registro de que andei sendo indelicado com algumas mulheres que tentaram fazer aproximação indesejada.
– Uhm... Certo. – Fungou o médico se remexendo no assento. – Se você não tivesse deletado esses dados, teríamos seus arquivos mentais para analisar e procurar por mulheres suspeitas sem que eu precisasse ser usado como isca.
– Tem razão.
– Ah, eu tenho razão?
– Tem. Agora que deixamos claro esse ponto sem qualquer utilidade, faça um pouco de chá para mim.
– Chá para você?
– Claro, John. Acredito ter empregado perfeitamente nosso idioma. Se quiser também pode fazer uma xícara para você. Agora eu preciso pensar, não faça barulho.
Nessa hora o médico sentiu vontade de pegar uma trombeta e fazê-la produzir as mais irritantes e longas notas possíveis, só para vingar-se dos momentos em que teve que aturar o amigo agredindo as cordas do violino de madrugada, impossibilitando seu sono. Levantou-se bufando e foi para a cozinha fazer chá, precisava de uma boa dose quentinha para se acalmar, ou então iria matar o amigo com as mãos nuas!
John terminou o chá e fez questão de demorar a levar o do amigo. Tomou calmamente o seu, dando pequenos goles, sentado perto da mesa da cozinha, sentindo o saboroso líquido aquecer seu corpo e lhe trazer paz. Aquilo era muito bom, duvidou inocentemente que algo poderia superar aquele prazer. Subitamente, nos corredores obscuros e perversos de sua mente, surgiu Sherlock envolto em um grande lençol branco, possibilitando deduzir o corpo apetitoso guardado por baixo da trama de linho e algodão. O médico quase engasgou. O amigo nu seria um prazer maior? Ele sorriu amargurado com sua loucura e resolveu finalmente levar o chá do detetive que permanecia deitado no sofá. Deixou a xícara na mesinha e virou-se para ir para seu quarto, mas antes de dar o primeiro passo para longe do amigo, ouviu a reclamação:
– O chá está morno.
– Dane-se.
– Você está irritadiço, precisa de sexo.
– Ah, é? – respondeu o médico visivelmente irritado encarando o detetive que mantinha os olhos fechados e relaxados. – O que o grande gênio propõe?
– Que você faça sexo para aliviar a tensão acumulada por meses.
– Não me diga! – fungou. – E com quem? Com você? – John sentiu vontade de se atirar pela janela por não ter barrado a última frase, mas manteve-se sério.
Holmes abriu lentamente os olhos e o encarou incisivo. Era impossível ler aquele olhar.
– Você quer?
Watson prendeu a respiração por alguns segundos e depois irrompeu:
– Veja bem, Sherlock, decididamente não é a melhor hora para tirar onda com a minha cara, eu estou cansado e ainda por cima descubro que serei a próxima vítima de uma doida que tem o prazer de matar suas vítimas envenenadas com uma toxina que as faz sorrir enquanto sofrem... Eu não estou com espírito para piadas de mau gosto! E, só para constar, é bom que se lembre de que eu não sou gay! Já basta a Sra. Hudson e o Ângelo dono do restaurante, me atazanarem o tempo todo com essas insinuações bobas!
Sherlock permanecia olhando-o como se analisasse atentamente sua linguagem verbal e corporal. John não gostou nada daquilo.
– Eu preciso dormir, esse sábado foi longo demais. Boa noite. – disse tomando o rumo do seu quarto.
– Se masturbar não vai resolver, John.
O médico ouviu a provocação, mas não quis responder, entrou no quarto e fechou a porta apoiando as costas à madeira. Suspirou fundo pensando na conversa esquisita que acabara de ter com o companheiro de apartamento. Sherlock estava caçoando dele, decididamente o homem não tinha noção de hora e momento para brincadeiras. Afastou-se da porta e sentiu um calor crescer no seu baixo ventre fazendo-o olhar para aquele ponto do seu corpo.
– Maldito. – Xingou, percebendo que a conversa havia mexido com sua libido. – Preciso resolver isso.
John pegou sua toalha e entrou no banheiro. Tirou a roupa, abriu o chuveiro e encarou sua ereção. "Se masturbar não vai resolver, John". A voz do moreno voltou provocando um aumento na excitação do seu membro.
– Maldito. – John reclamou novamente, disposto a, pelo menos, se aliviar.
O médico não privou o pênis ereto do consolo pelo qual implorava, tocou-o com lentidão soltando um suspiro tranquilo, quase infantil. Alisou-o da base para a ponta repetindo o movimento várias vezes, ganhando lentamente mais velocidade e vigor. Seus quadris começaram a dançar, sinuosos, sua boca jazia entreaberta buscando ar, os olhos fechados faziam a mente se concentrar no engolfo de sensações que agora rastejavam pelo seu corpo, concentrando-se como lava vulcânica no ponto entre as virilhas, numa clara antecipação da erupção de sensações acumuladas.
– Eu disse que isso não iria resolver, mas devo admitir que pode aliviar um pouco o seu problema, John.
– Deus do céu! Sherlock! – John gritou largando o pênis às portas do orgasmo. – O que diabo está fazendo aqui? – o coração do médico galopava prestes a arrebentar suas costelas enquanto era analisado pelos olhos metálicos do detetive que parecia um falcão avaliando uma presa. John decididamente sentia-se um coelho no meio do descampado, totalmente sem defesa.
– Vim chamar você para a sala, Mycroft está aqui e nós precisamos de um favor dele, mas precisamente: você.
– Como assim?
– Proteção discreta, John, meu irmão pode providenciar pessoas para ficar de olho em você e em pessoas suspeitas que se aproximarem, sem atrapalhar a sua rotina ou deixá-lo desconfortável. Não era isso que desejava?
– Está se esquecendo que isso tem a ver com você também. A doida das flores quer você e não eu.
– Isso é só um detalhe.
– Sei. Por que não bateu na porta?
– Eu fiz isso, mas você estava meio... fora do ar, não me ouviu. – respondeu dando uma olhada expressiva para o baixo ventre do amigo. A ereção ainda estava lá e o médico sentiu o rosto arder de vergonha. – Não me diga que estava fantasiando com a médica residente.
– C-como?! – a ereção do ex-militar desapareceu totalmente depois da pergunta feita pelo amigo que parecia se divertir com a situação. – Que tipo de homem pensa que eu sou, Sherlock? Um necrófilo?
– Não. Eu não perguntei se estava fantasiando com o cadáver dela, perguntei se estava fantasiando com ela, neste caso, viva e nua na cama, satisfazendo você. – respondeu como se estivesse dando uma receita de bolo.
Watson fechou os olhos contando mentalmente até dez, tentava se acalmar a todo custo, caso contrário, encheria o amigo de porrada ali mesmo. Depois de sentir os ímpetos de esganar o outro, amenizar, abriu os olhos e rosnou de uma forma que faria seus comandados no tempo de Exército, fugirem desesperados para as trincheiras levantando altas cercas de arame para se proteger.
– Saia daqui. Agora!
– Tudo bem, espero você na sala. – respondeu o outro em tom casual.
John encostou a testa no azulejo frio do banheiro se perguntando o que ele teria feito para merecer um castigo dessa categoria: odiar e amar perdidamente o melhor amigo. Qualquer dia desses ia acabar sendo internado num asilo para loucos.
Continua...
