Duas horas haviam se passado e o afilhado finalmente havia decidido voltar para a cama. Angeline Joyhart suspirou aliviada quando subiu as escadas, depois de lavar as canecas de chocolate, e, viu Harry embrulhado nos cobertores, a face tranqüila. A mulher de cabelos cacheados rapidamente subiu as escadas que levavam ao terceiro andar, onde ficava não só o seu quarto com o marido, e o quarto de visitas, mas, seu escritório. Uma sala ampla e soturna decorada com madeira escura; nas paredes se estendiam estantes e armários com portas de vidro. Ange segurou a maçaneta enfeitiçada da entrada do cômodo, ela era a única pessoa que poderia passar pela porta, os outros precisavam lhe pedir permissão. Entrou no quarto ainda escuro, mesmo já sendo sete horas da manhã, e, batendo a porta atrás de si, apontou a varinha para o enorme lustre de vidro branco e verde pendurado no teto, fazendo com que as velas nele se acendessem.

Finalmente, fez o que queria fazer desde o momento em que Harry a encontrara nas escadas. Correu até a escrivaninha, instintivamente fazendo com que a gaveta desejada se abrisse, antes de chegar nela. Levantou as cartas cuidadosamente arranjadas dentro dela e tateou o fundo da gaveta até encontrar a pequena caixinha que continha uma chave velha e prateada. Com a chave em mãos, rumou para o último armário de madeira da parede na sua frente. Dentro dele, na parte mais baixa estava um enorme baú, ele era escuro e tinha detalhados desenhos em prata; na lateral enormes arvores podiam ser vistas, um olhar mais atento mostraria que aquelas eram as mesmas arvores que cresciam na floresta proibida, em cima, dois braços se estendiam, braços de homens em vestes de bruxos, na mão de cada um havia uma varinha, no centro as varinhas se cruzavam.

Ange pegou cuidadosamente o baú e o levou para o chão no centro do quarto, sentando-se na frente dele. Respirou fundo, fazia muito tempo que não mexia ali, pelo menos 10 anos. Conseguia se lembrar com clareza quando, 12 anos antes, pedira ao pai a caixa. O pai olhou-a num misto de surpresa, angústia e nostalgia, antes de subir as escadas que levavam ao sótão e descer com o, então, bagunçado baú. Dentro dele estavam todas as lembranças que diziam respeito ao seu antigo melhor amigo, Tom Riddle, um homem de quem ele se afastara ainda jovem, no quinto ano de Hogwarts. Desde pequena ela ouvira contar de Tom nas histórias do pai, um jovem bonito, talentoso e tímido, que tinha quase o apelo de um deus, mas, ela ouvira, também, de um homem cruel, Voldemort, seu pai o chamava, um bruxo talentoso que ele conhecera na juventude e se desvirtuara, tornara-se um assassino, e que maculara de sangue toda a raça bruxa. Ambos eram bem reais, ela sabia, o engraçado era que enquanto um se consagrara como o herói da sua infância, o outro se tornara seu maior medo. Não foi uma ou duas vezes em que perguntara a seu pai o que acontecera com o incrível Tom, aquele a quem o pai, John M. Joyhart, homenageara no nome de seu filho mais novo. Nessas vezes, o pai fazia um cara triste e saudosa, algo que Angeline custara a entender, e respondia que as pessoas mudam. Anos mais tarde ela conheceria Tom e, não muito depois, Voldemort. Quando a guerra viera, ela e Alby haviam se lançado em uma missão de conhecer seu inimigo melhor que ele mesmo. Juntos, coletaram memórias de mais de um bruxo e de uma bruxa, percorreram o passado de novo Lord das trevas; e, talvez por aquilo parecer tão pessoal, ela correra pelas lembranças físicas do pai sozinha, organizando as cartas, lendo os diários, até mesmo montando um álbum com as fotos soltas. O pai nunca mais quisera ver o baú.

Agora, ela abria a caixa mágica com sua chave prata correspondente. Sorriu sobre a ironia deste mesmo baú ser um presente de Tom Riddle, o último que ele dera ao seu pai. Dentro, sua mão voou para o enorme caderno de capa creme, a primeira página mostrava dois meninos em seu primeiro ano de Hogwarts. A foto era gasta e as cores tendiam a um sépia. Se deixou sorrir, os dois meninos de Sonserina chegavam a ser parecidos fisicamente, o mais alto deles tinha uma cara carrancuda e olhos mais velhos do que sua idade, e, embora ele tentasse segurar o sorriso, mediante ao abraço do garoto ao seu lado, não conseguia. No último minuto era possível ver, um sorriso, um sorriso bonito e inocente. Angeline encostou-se na porta de um dos armários, os olhos fixos na foto, deixou seus dedos correrem sobre os traços delicados do menino de onze anos.

Como essa criança crescera e se tornara um dos seres mais cruéis e desprezíveis que já cruzaram a superfície da terra ela não sabia. Só que naquele momento, naquela foto, ele parecia doce. Ainda assim, ele fora capaz de matar James, seu irmão, seu melhor amigo e tantos mais. Ainda assim, a própria existência dele colocava em risco a vida de Harry, de Sirius, de Raven, de Alie, de Aurora, de Alby, de sua mãe, de Remy, de Severus... de todos que ela amava. E, se o que Harry vira fosse verdade, e ela tinha cada vez mais certeza de que era, então dessa vez ela não falharia com aqueles que precisavam dela. Não se permitiria perder a chance de matá-lo, da última vez em que decidira poupar sua vida, acordara três dias depois com a morte de Lily e James. A culpa tinha sido dela. Um erro pelo qual Angeline nunca se perdoaria.

Engoliu as lágrimas que ameaçavam cair, não, não choraria, não de novo, chorara já muitas vezes desde aquela fatídica noite tantos anos atrás. Nenhuma lágrima de tristeza rolaria de seus olhos por isso, nem hoje, nem nunca. Colocando o caderno de lado convocou pena, tinta e pergaminho.

"Querido Tio,

Sei que já conversamos sobre isso muitas vezes ao longo dos anos e, sei que você nunca parou de tentar entendê-lo, de conhecer seus segredos, para quando ele voltasse. Infelizmente, acho que esse dia não está longe; Harry teve um pesadelo, provavelmente fruto da maldição.

Ele não deve contar nada a mais ninguém, pedi que não o fizesse, mas, precisamos nos encontrar. O mais cedo possível.
Temo pelos dias que virão.

Sua,
Angie."

Com a carta rabiscada, a mulher dobrou o papel e selou-o com a cera vermelha que escorreu de sua varinha. Na frente escreveu o nome do destinatário: Albus Dumbledore.