Capítulo 2
— Respire, Hermione. Respire. Inspire, expire... pronto.
Hermione tentava normalizar a respiração, mas estava tendo bastante dificuldade, pois sua irmã lhe dava tapas nas costas sempre que ela abria a boca.
— Passe o saco de papel. — Hermione arrancou o saco das mãos da irmã e começou a respirar ali dentro, devagar. Finalmente, depois de dois minutos pensando que fosse morrer, o ataque de pânico passou.
— Melhor? — sussurrou Luna.
— Não. — Hermione mordeu o lábio e olhou para o corredor. O mesmíssimo corredor por onde, minutos antes, Rony Potter passara. Ele chegara a olhar para ela e abrir um sorriso educado antes de continuar o caminho até seu assento.
Um sorriso.
Era tudo o que ela merecia. Um sorriso educado. O fato de o avião ter escolhido aquele exato momento para passar pela maior turbulência da história só piorou as coisas.
Mas a cereja do bolo, o que realmente fez com que aquele fosse o pior dia de sua vida, foi quando os peitos da comissária de bordo acidentalmente — até parece! — pularam da blusa e bateram bem na cara de Rony.
Aquele homem precisava ser castrado. Ele era a encarnação do sexo, e todos ao seu redor ficavam cientes disso. Mesmo Rony não sendo uma celebridade, as mulheres se sentiam atraídas para ele como ratos para o queijo.
E ela já tinha sido um desses ratos.
— Babaca! — murmurou para si mesma, cerrando os punhos.
Mas aquilo fora anos atrás. Ela já estava calejada. Além de mais forte e mais sábia.
Sim, mais forte. Era uma figura pública, pelo amor de Deus! Tinha capacidade de agir como se estivesse tudo bem, e era exatamente isso que iria fazer.
E estava mesmo tudo bem.
Tudo muito, muito, muito bem.
— Mione? — Luna a cutucou. — Você está se balançando para a frente e para trás de novo. Quer que eu pegue o saco?
— Não precisa. — Hermione sentiu os lábios se abrirem em um sorriso. — Já volto.
Luna estendeu o braço para bloquear a saída da irmã.
— Não. Não mesmo. Você está com aquela cara de louca. E eu realmente não quero que você seja presa. Como sua irmã e futura dama de honra, não vou me perdoar se eu deixar que você passe.
— Compro uma bolsa Louis Vuitton para você.
— Por outro lado... você é adulta e pode tomar as próprias decisões. Pode ir!— Luna ergueu o braço. — Preta. Vou querer a preta.
Hermione revirou os olhos e andou até o assento de Rony.
O aviso de AFIVELAR OS CINTOS não estava mais aceso, então Hermione estava liberada. Tinha praticado aquele discurso desde o encontro fatal no ano anterior. Ela queria mais que um casinho de uma noite, e Rony... Bem, ele queria um casinho de uma noite e um "obrigada!". Hermione nunca contou nada a Gina, a amiga em comum, e jurou que levaria o segredo para o túmulo. Quer dizer, a não ser que visse Rony outra vez, o que mudaria tudo.
Ela já tinha se perguntado o que diria se o encontrasse de novo. Como ele reagiria? Será que pediria desculpas por ter sido um babaca? Ou que nem mesmo se lembraria dela? Parecia que ele nem a tinha reconhecido! Tudo bem que ela estava com o cabelo mais comprido, mas rostos não mudam.
Infelizmente.
Ela teria mesmo era de pedir a mudança a Deus. Rony, porém, precisava de mais que uma cara nova: precisava era de um coração naquele corpo musculoso!
Hermione olhou os passageiros que estavam sentados algumas fileiras atrás dele. Havia um copo d'água na mesinha reclinável em frente a uma garota.
— Oi, querida, posso pegar isto aqui?
— Ah, meu Deus! — A garota, que parecia ter uns 12 anos, começou a bater palmas, animada. — Você não é aquela mulher do noticiário?
— Sou, sim. — Hermione costumava adorar quando era reconhecida, mas não naquele momento. Precisava passar despercebida. Tentou ignorar o sorriso animado no rosto da garota, mas falhou. Aceitando o destino, puxou conversa. — Você deve assistir bastante ao noticiário, hem?
— Não. — A garota soltou um suspiro. — Mas mamãe e papai riram bastante naquela vez que você caiu da cadeira. Disseram que aquilo tinha acontecido por causa de bebida.
Ah, que maravilha! Será que todo o mundo tinha visto aquele vídeo no YouTube? A gravação fora na noite seguinte ao encontro com Rony. Os dois só saíram porque ela ficara com pena dele, o que tinha sido a primeira decisão ruim, logo sucedida pela segunda: levar uma garrafa de tequila e acordar em um quarto de hotel sem nada além de um bilhete de agradecimento e uma ressaca pavorosa. Por sorte conseguira chegar ao trabalho na hora certa.
Mas não fora por sorte que tivera dois milhões de visualizações no YouTube e recebera convite para participar do programa Today, apresentado por Kathie Lee e Hoda, que, em vez do vinho habitual, educadamente serviram a Hermione shots de tequila, em homenagem à noite de horrores de sua convidada.
— Eu não estava bêbada — explicou ela. — Eu estava... cansada, estressada com o trabalho e... — Meu Deus! Ela ia mesmo perder a cabeça diante de uma garota de 12 anos? — Quer saber? Não importa. Que tal ganhar cinco pratas?
— Cinco pratas?
— Me dê essa água que eu lhe dou cinco pratas.
— Quero dez.
Hermione a olhou feio.
A garota retribuiu o olhar. Certo. Dez dólares pela chance de se sentir melhor quanto ao fato de Rony ter sido um babaca? Feito. Negócio fechado!
Enfiou a mão no bolso de trás e retirou uma nota de vinte. Droga.
A garota arrancou a nota de suas mãos antes que ela tivesse a chance de fazer qualquer coisa. Resmungando, Hermione pegou o copo e foi até o assento de Rony.
Mais duas fileiras.
Finalmente. Hermione parou ao lado de Rony e pigarreou.
Ele não olhou para cima.
Ela pigarreou outra vez.
Enfim ele levantou a cabeça, bem devagar. Ficou de queixo caído.
— Hermione?
— Rony — ronronou ela.
— Como vai? Quer dizer, faz tanto tempo! — O sorriso de Rony não chegou aos olhos.
Na verdade, fazia onze meses, uma semana e cinco dias. Mas quem é que estava contando? Não ela.
— Faz mesmo, não é? — Ela se apoiou no assento.
— A gente devia sair e botar o papo em dia! — Ele a olhou de cima a baixo antes de tossir e desviar o olhar.
— Devia mesmo — concordou ela e, antes de perder a coragem, derramou toda a água do copo bem na calça dele. — Mas não saio com idiotas que me abandonam depois do sexo.
— Mas que...
Ele começou a se levantar bem no momento em que Hermione apertava o botão para chamar um comissário de bordo.
— Oi, desculpe-me. Parece que Rony Potter acabou de fazer xixi nas calças. Você poderia nos ajudar?
Ao redor dos dois, era possível ouvir risadinhas abafadas, e Hermione sorriu para Rony, que estava boquiaberto. Ele estendeu a mão na direção de uma senhora distinta que estava sentada ao seu lado.
— Ora, ora! — Hermione se apoiou na poltrona e sussurrou: — Parece que hoje em dia você vai atrás de todo tipo de mulher, não é mesmo?
— Ah, vai mesmo — concordou a senhora. — Sabia que ele teve coragem de levar uma vagabunda à festa de noivado do irmão?
Deus queira que essa senhora esteja falando de outra pessoa, não de si mesma!
— Eu, hã... — Hermione precisou de um momento para se recuperar. — Na verdade, acredito sim.
— E sabe o que mais? — A mulher se inclinou sobre a poltrona do neto, desvencilhando-se de sua mão. Rony revirou os olhos, mas ficou em silêncio.
— O quê? — Quem quer que fosse aquela louca, Hermione gostava dela. Muito. Pena que Rony fosse partir seu coração. Sem querer julgar, mas... sério que ele saía com mulheres com mais que o dobro da idade dele?
— A namoradinha dos tempos de escola vai se casar com o irmão dele. Ele tenta fingir que não liga, mas uma avó percebe a verdade. — Ela deu um tapinha na mão de Rony.
Ah... avó? Espere aí. Aquela era a famosa vovó Nadine, de quem Gina sempre falava? Mesmo tendo crescido relativamente próxima da família Potter, Hermione nunca chegara a conhecer a senhora... até então.
— Então... — Vovó se recostou na poltrona. — Vou dar um jeito nele.
Rony gemeu.
— Quer dizer que vai castrá-lo?
— Ah, querida. — Vovó quase engasgou de tanto rir. — Castração é a melhor coisa que poderia acontecer a esse garoto. Sabia que até já procurei um cinto de castidade?
Rony gemeu outra vez.
— Meu Deus, salve-me do sexo feminino!
— Sexo. — Hermione bufou com desdém. — Foi isso que o deixou nesta situação, não foi?
E neste exato momento a comissária de bordo escolheu se aproximar.
— Onde está o rapazinho que molhou as calças? — Ela trazia nas mãos um belo par de fraldas.
Vovó e Hermione apontaram para Rony.
