Capítulo III

A chuva estava mais forte e Sam continuava sentado na cama, sentindo uma mistura de euforia e nervosismo; fazendo-se a mesma pergunta repetidamente. A pergunta que tanto lhe intrigava e assustava: "O que está acontecendo comigo?".

O barulho da chuva não mais o acalmava, pelo contrário, estava deixando-o mais inquieto. Sempre que Sam estava com os pensamentos desorganizados, saía para caminhar; isso sempre ajudava. Porém a chuva não tinha misericórdia e continuava a cair, impedindo-o de dar uma de suas caminhadas noturnas.

Dean estava com os olhos fechados, sentindo a água cair pelo seu corpo; sentia-se muito cansado, seus braços e pernas doíam impiedosamente; passara praticamente 12 horas dirigindo.

A imagem do rosto de Sam, refletido pelo luar, veio-lhe à mente; lembrou-se de afastar seus cabelos e fitá-lo por um longo tempo. Se alguém pedisse a ele que descrevesse o irmão, ele certamente o faria sem dificuldade. Porém, pôde notar, nunca havia reparado em seus traços da forma em que reparou quando estavam no carro. Dean não queria mais pensar naquilo; aquela coisa estranha que ele havia sentido estava voltando e ele preferia afastá-la; não queria enfrentar isso, não agora.

Desligou o chuveiro, se secou, vestiu sua boxer, sua calça de moletom — muito mais confortável do que aquele jeans — e, por último, sua camiseta preta. Passou a mão pelo espelho, pois estava completamente embaçado devido ao vapor; fitou a si mesmo por um tempo, reparando que já não parecia mais abatido e exausto. Pegou a roupa que esteve vestindo e saiu do banheiro; sentou-se na cama, abriu sua mochila e guardou as peças, passando seu perfume em seguida. Só agora notou a expressão de Sam; preocupado, perguntou:

— O que aconteceu, Sammy?

— Nada, não. É só o cansaço. — Falou, sem olhar nos olhos do irmão, que buscavam os seus, e torcendo para que não tivesse deixado sua voz transparecer a confusão de seus pensamentos e sentimentos.

— Tem certeza? — insistiu — Você parece preocupado com alguma coisa...

— Não é nada não, Dean. Não se preocupe, ok? — Falou. Dessa vez já estava com a voz controlada; seu coração voltava aos poucos a bater no ritmo habitual e já não sentia mais suas faces ruborizadas.

Dean levantou da cama, caminhou até Sam e sentou ao seu lado, forçando um contato visual.

Sam encarou o irmão por alguns segundos, mas não conseguia sustentar o olhar, de modo que desviou os olhos ao falar.

— Eu já disse, está tudo certo. Não se preocupe tanto comigo. Eu é que deveria me preocupar com você, passou quase 12 horas dirigindo! — Sam agora sentia o perfume amadeirado de seu irmão, que estava sentado muito próximo a ele.

Dean achou por bem não insistir no assunto; se houvesse algo errado Sam lhe contaria, cedo ou tarde. Tinha plena segurança quanto à relação mútua de confiança que havia entre eles.

— Que nada, maninho. Esse banho tirou boa parte do meu cansaço. — falou, passando o braço pelo ombro de Sam e notando só agora o barulho suave da chuva que caía sem parar.

Sam estremeceu de leve ao toque de seu irmão. Gestos carinhosos como esse eram raros em Dean; o irmão mais velho raramente demonstrava afeto através de ações. Sabia que Dean o amava, mas demonstrava a seu modo. Deduziu que o irmão continuava preocupado com ele e que esperava uma resposta sincera. Dean merecia uma resposta verdadeira, mas, como dá-la se nem mesmo Sam sabia o que estava acontecendo?

E aquele perfume inebriante... Ah, aquele perfume... O braço de Dean passando pelos seus ombros; os olhos dele que procuravam desesperadamente pelos seus...

Seu coração voltou a acelerar e, antes que começasse a ficar ruborizado — o que não demoraria a acontecer, ele sabia — levantou-se de vagar, tentando não demonstrar nervosismo; pegou suas peças de roupa sobre a mochila e encarou o irmão.

— Vou tomar um banho rápido, antes que nos tragam o jantar, ok? — E, olhando demoradamente para ele, acrescentou: — É só o cansaço, Dean, não se preocupe. — Sorriu e entrou no banheiro.

Dean permaneceu sentado na cama de Sam, prestando atenção no barulho da chuva para não ouvir seus próprios pensamentos. Algo estava acontecendo com seu irmão, e algo estava acontecendo com ele também; sabia disso. Seria coincidência? Não, ele não acreditava em coincidências; não conhecendo Sam como conhecia. Tinha certeza de que, de alguma forma, aquele sentimento estranho — definia-o assim — também habitava o coração de Sam.

Deitou-se na cama e imediatamente sentiu o cheiro do perfume de seu irmão; era suave e doce; achou que combinava em todos os aspectos com o temperamento do dono. Fechou os olhos, pretendendo apenas descansar por alguns segundos, mas logo adormeceu.

Enquanto seu irmão adormecia em sua cama, Sam tentava entender tudo o que estava se passando em seu coração. Sentia-se como uma criança querendo ler um texto em latim, tamanha a complexidade de seus pensamentos.

O chuveiro estava ligado, mas ele mal sentia as gotas descendo pelo seu corpo; estava lembrando de quando Dean passou o braço pelos seus ombros. Era impressão sua ou havia mesmo percebido algo diferente no olhar de seu irmão?

Não, era impressão; tinha que ser; o que mais seria? — pensou Sam, dando uma risada breve, porém sem achar graça.

Desligou o chuveiro mas ficou algum tempo parado, pensativo. Quando finalmente saiu de seus devaneios, pegou uma toalha no armário do banheiro e se secou; vestiu-se e passou um pouco do seu perfume, deixando-o no armário da pia sem notar; pegou suas roupas e saiu do banheiro.

Quando abriu a porta, parou de chofre ao avistar Dean deitado em sua cama. Notou que ele dormia profundamente, mas a despeito disso, caminhou com passos leves até sua mochila e abriu o zíper de vagar, para não fazer barulho e acordar seu irmão; guardou as roupas na mochila com cuidado e tornou a fechá-la.

Sentou-se no chão e olhou para Dean, completamente adormecido. Chegou mais perto, sentindo a respiração quente do mais velho em seu rosto. A despeito do seu jeito de durão habitual, Dean parecia completamente desarmado e inofensivo quando estava adormecido. Sam reparou e sorriu, passando a mão distraidamente pelos cabelos de seu irmão. O pensamento de que Dean poderia acordar de súbito fê-lo tirar a mão dos cabelos do mais velho e levantar-se.

Como não tinha outra opção, foi até a outra cama e sentou-se, continuando a fitar Dean.

Nesse momento Sam ouviu batidas na porta; levantou-se de súbito e foi abrir a porta apressado. Era Molly, uma senhora com um rosto que, mesmo marcado pelo tempo, transparecia bondade e calma; aquela calma que a maioria das pessoas de idade transmitiam.

— Boa noite. Vim trazer-lhes o jantar. Como puderam notar, o motel é simples, mas asseguro-lhe que a comida é saborosa. — Falou a senhora, entregando-lhe uma grande bandeja de madeira.

Sam retribuiu o sorriso, abriu mais a porta e segurou a bandeja com cuidado.

— Tenho certeza disso, senhora. — Falou, olhando de relance para Dean e constatando que ainda dormia.

— Vocês são irmãos? — Perguntou Molly ao notar o olhar de Sam.

— É, somos sim. Eu e ele somos o que restou da nossa família.

— Oh, sinto muito. — A voz da senhora ganhou um tom pesaroso assim como sua expressão.

Sam sorriu e sacudiu a cabeça.

—Tudo bem, foi há muito tempo.

— De qualquer forma é um assunto delicado. Estão só de passagem ou ficarão alguns dias por aqui?

— Pretendemos partir amanhã, logo após o almoço.

— Ah sim, entendo. Deixe-me ir agora; preciso levar o jantar a outro quarto; Desculpe-me pela curiosidade. — Falou Molly, voltando a sorrir.

— Tenha uma boa noite, senhora.

Sam sorriu e fechou a porta assim que Molly se retirou. Levou a bandeja até o aparador ao lado da porta. Havia duas cadeiras próximas ao aparador, de modo que Sam, ao olhar o conjunto notou que aquela seria a "mesa de jantar"; Não podia reclamar; um motel de beira de estrada que servia refeições era raríssimo.

Olhou para Dean, ainda adormecido em sua cama e dirigiu-se até lá. Sentou na beirada da cama e voltou a olhar para seu irmão. O perfume, aquele perfume novamente...

Fechou os olhos e respirou fundo; tornou a abri-los e levou a mão até o braço de seu irmão; sentiu o calor da pele dele contra a sua. Relutante, sacudiu seu braço de vagar e o chamou.

Dean acordou lentamente assim que Sam sacudiu seu braço, olhou-o e sentou-se na cama.

— Desculpe, Sammy. Só queria descansar os olhos um pouco e acabei dormindo aqui.

—Não tem problema, Dean. Nosso jantar chegou. — Falou, maneando a cabeça para a bandeja que se encontrava sobre o aparador.

— Finalmente! Sinto meu estômago colado às costas.

Os irmãos se levantaram e foram até o aparador, sentando-se nas cadeiras.

O jantar estava realmente delicioso. Eles conversaram animadamente durante o jantar e depois foram dormir, pois não havia televisão no quarto e o almoço era servido ao meio-dia. Como eles não queriam cair na estrada sem almoçar, precisavam acordar cedo.

Devido à conversa animada do jantar, não tiveram tempo para pensar nas dúvidas que enchiam suas cabeças há meia hora; porém o quarto estava silencioso agora — exceto pelo som da chuva torrencial que caía lá fora — e o silêncio da madrugada pode trazer muitas coisas à tona...