Após a ofensiva, Aaron percebeu que o transporte estava sendo ativado. Ficou imóvel, esperando retornar a nave da Federação. Mas no instante seguinte percebeu que ele e Bannik não haviam sido focalizados e continuaram na nave ferengi. Não conseguiu controlar sua frustração.

- Maldição, Bannik! Nós ficamos! - olhando para o oficial. "São dois contra um, já que conseguimos derrubar um deles." Redobrou a atenção.

A criatura que ainda estava de pé caminhou até o companheiro atingido. Por alguns instantes fitou o ser ainda em agonia e depois tocou alguns controles. Em seguida uma suave luz verde envolveu o alienígena ferido, e este já não estava mais presente na ponte. A criatura voltou-se na direção deles.

- Sua atitude foi inútil. Deponham suas armas. - a voz da criatura era completamente sem emoção.

- Caçador, se nos quiser comer, esteja à vontade para tentar... mas não espere que esta refeição espere calmamente a primeira dentada. - retrucou o Alferes, com o alienígena na mira de seu phaser. Aaron admirou a coragem de seu assistente. Mas a criatura ficou novamente em posição ereta, apontando a garra esquerda para Bannik. Um zunido suave, que ia do grave para o agudo, partiu da prótese mecânica do estranho ser. Assemelhava-se a um phaser em sobrecarga. "Parece que o Bannik irritou o bicho feio." Olhou para o alienígena, apontando o phaser, e disse para seu assistente:

- Bannik, vamos sair daqui!

E qual não foi sua surpresa quando Bannik, num gesto súbito, o agarrou pelo pescoço, num "abraço" do qual não havia chance de sair. Aaron só sentiu o cano frio do phaser em sua têmpora.

- O que você está fazendo, Alferes? Ficou maluco? - Aaron sussurrou entre dentes, num misto de intrigado e assustado. Bannik o ignorou, e virou-se para o Caçador, dizendo em voz alta.

- Muito bem, Caçador... deixe-nos sair daqui vivos de volta à nossa nave senão eu desintegro-nos a ambos, e você fica sem comida para a sua prole. !

"Esperto, muito esperto, Bannik. Tomara que eles caiam."

A criatura olhou para o tyrriano e respondeu logo.

- Isso não importa... há muita mais carne de onde vocês vieram. - de repente, o Caçador, como Bannik o havia chamado, calou-se de repente, olhando fixamente o teto da ponte de comando por segundos. Depois, sem dizer mais nada saiu da ponte, deixando Bannik e Aaron a sós. Bannik soltou o pescoço de Aaron, que o esfregou. "Não sabia que tyrrianos eram tão fortes." Os dois oficiais olharam-se intrigados. Olhou o seu tricorder.

- Há uma nave de configuração estranha acoplada a esta. - disse. Bannik, olhando para o monitor de leituras de sensores. - Oh-oh...

- Como assim, "oh-oh"?

- Se ela sai dali, ficamos com 30 segundos de ar antes do sistema de suporte de vida falhar.

- "Oh-oh" é pouco, Bannik. - "Pense rápido, Aaron... Como iremos sair daqui?" De repente uma saída apareceu em sua mente.

- Vamos embora daqui, Alferes. - disse. - Talvez as cápsulas de suporte de vida estejam funcionando.

Ambos saíram correndo da ponte para o corredor, sem dar importância para as substancias internas e partes ferengi em que pisavam. Aaron parou e olhou o esquema da nave, pintado em uma das laterais do corredor.

- Maldição, tudo o que precisávamos... Não há cápsulas neste convés. - enquanto Aaron olhava desesperado, tentando achar uma outra saída, sentiu-se sendo erguido do chão. Bannik agarrou-o e continuou a correr pelos corredores até um orifício no teto onde, colado ao metal da nave, se encontrava uma substância biomecânica, muito semelhante à couraça que revestia os Caçadores. O orifício estava fechando devagar.

- Mas... mas isso é... - ele olhou incrédulo para o Alferes.

O tyrriano acenou com a cabeça.

- É sim. Não há outra solução, senhor. Vamos, suba, antes que feche. - meio a contragosto, Aaron concordou em subir. Depois que os dois passaram, a passagem se fechou. "Agora não tem volta. Endeavour, não demore!"

Bannik e Aaron caminhavam devagar pelo corredor da estranha nave, tentando investigar cada centímetro das paredes ao seu redor. Tudo era estranhamente silencioso, e o tyrriano começava a se sentir angustiado. E o fato de estar preso na nave de uma raça estranha e hostil não ajudava. Tentou quebrar o silêncio, falando com seu companheiro.

- E agora, o que faremos, senhor? - nesse instante, atravessaram um portal, entrando em um novo corredor. Aaron simplesmente balançou a cabeça, e prosseguiram no mesmo silêncio angustiante de antes.

Nesse corredor, as paredes laterais formavam apêndices paralelos à direção do corredor, dois metros a frente e atrás dos oficiais, que ficaram parados, perplexos. Enquanto tentavam entender aonde tinham chegado, os prolongamentos se juntaram, unindo-se, e se expandiram, formando um recinto hermeticamente fechado. Bannik passou as mãos pelas paredes, tentando achar um ponto fraco, mas sem sucesso. Estavam em um beco sem saída, e Bannik tinha a sensação que estava em uma ratoeira.

- Estamos presos! - exclamou Aaron, soando tão frustrado quanto o próprio Bannik se sentia.

- Parece que estas paredes tem olhos e ouvidos, senhor - respondeu.

- Sim. - o Chefe de Segurança olhou para cima, analisando o teto, procurando alguma falha. - O sistema de segurança desta nave parece agir como um organismo vivo, e ao perceber nossa presença, nos isolou como uma possível ameaça.

- Irá nos eliminar? - um arrepio subiu pela coluna de Bannik ao fazer essa pergunta.

- Ou assimilar. Mais provável que só esteja nos retendo aqui até que alguém, ou algo, venha ver o que está acontecendo.

Perderam alguns minutos analisando com seus tricorders. Nada de conclusivo, apenas leituras confusas de sinais tecnorgânicos. Para tentar afastar o silêncio que cobria o corredor, Bannik puxou conversa.

- Bem, sempre poderia ser pior.

Heavyside fez um grunhido, sem levantar a cabeça do seu tricorder. Interpretando isso como sinal para continuar a conversa, Bannik prosseguiu.

- A T'mir poderia ter ficado também, aí teríamos que nos preocupar com ela.

O outro homem levantou a cabeça e olhou na direção do Alferes.

- Uma coisa que você vai ter que me explicar quando voltarmos é por que essa implicância com ela. Não dá para entender. A Alferes é boa pessoa, nem parece que tem sangue vulcano. Além de ser bem bonita. E que eu saiba nunca fez nada contra você...- Bannik virou a cabeça para o outro lado e voltou a olhar para o seu tricorder. Também não saberia explicar ao seu superior o porque da meio-vulcana o afetar tanto. Ficaram em silêncio, até que passado um tempo, Heavyside falou.

- Por causa do tipo de ruído que detectamos na nave ferengi, é bem provável que aquele corte nas comunicações tenha sido causado pela abertura de um wormhole. E como wormholes tendem a estabilização ou fechamento, talvez possamos restabelecer contato com nossa nave...

- É uma idéia, senhor.

O humano tentou, batendo no seu comunicador.

- Aaron para Endeavour.

{...ssss#sssh...}

Ele olhou desolado para Bannik, balançando a cabeça.

- Apenas estática...

Mas mal ele terminara de falar, as paredes do recinto recém-formado começaram a desprender um líquido com brilho e consistência semelhante ao mercúrio. Formava-se vagarosamente, escorrendo para o chão. Imediatamente, ambos verificaram os tricorders. Era algum tipo de substância formada por nanoestruturas.

- Temos que sair daqui logo, não gostaria de ter contato com... essa coisa. - exclamou Aaron.

Bannik concordava plenamente e ajustou seu rifle phaser. Apontou para uma das paredes recém formadas e atirou persistentemente por um minuto. Conseguiu abrir uma abertura que não se fechou, porém era pequena demais para a fuga. Sentiam o calor da energia desprendida pelo phaser no ambiente e Bannik sentiu-se perder as esperanças. No mesmo instante, ambos receberam um fraco sinal em seus comunicadores.

{Heavyside, Bannik, aqui é a Endeavour. Respondam.}

Os dois se entreolharam. Bannik sentia a esperança ressurgir. Reconheceu a voz como sendo da meio-vulcana. Heavyside sorriu.

- Endeavour? Nossa, estou feliz em ouvir vocês!

Bannik, a voz expressando todo o alívio que sentia, também respondeu.

- T'mir, é bom ouvi-la. Mas tire-nos daqui. - naquela situação, ouvir qualquer voz conhecida seria um alívio, mas Bannik mal disfarçara o quanto havia sido reconfortante a voz preocupada da jovem oficial de Operações. Os dois ficaram imóveis por algum tempo, esperando pelo teletransporte. Mas nada aconteceu. Bannik tentou, então, entrar novamente em contato com a nave.

- T'mir, aqui é Bannik... Responda. Vamos, T'mir, por favor...- mas não teve resposta. "Não conseguiram travar no nosso sinal."

Foi quando o buraco feito por Bannik começou a fechar. O Alferes pegou o rifle e atirou, mantendo o diâmetro. Mas passados alguns minutos, percebeu que não adiantaria manter por mais tempo o phaser disparando contra a parede. Até porque a arma já estava quase descarregada. De repente, as paredes cederam por completo. Bannik olhou para Heavyside, mostrando um sorriso de vitória. Estavam saindo pelo corredor quando depararam-se com um grupo de cinco criaturas iguais às que haviam encontrado na nave ferengi.

- Criaturas... - iniciou a maior delas, que deveria ser o líder do grupo. - Baixem suas armas e acompanhem-nos. Vocês estão sob nossa custódia.

Bannik tentava mostrar uma cara impassível para não demostrar o terror que sentia das criaturas. Nem olhou para Aaron para que a fina linha do seu autocontrole não quebrasse. "Tenho de ser firme, tenho de ser corajoso, tenho de... me lembrar que tinha um bom emprego em Tyrria e estaria muito melhor lá,... hey hey hey: lembre-se onde está, homem. Você já foi um embaixador, um diplomata. Use as suas habilidades como se isto fosse um primeiro contato." Ele respirou fundo e começou a falar.

- Caçador... Bem-vindo ao Quadrante Alfa. Em nome da Federação Unida de Planetas, a qual esta região está aliada, quero dizer que estamos aqui em paz e sem alguma intenção de sermos hostis para convosco.

O Caçador olhou-o de alto a baixo. Bannik não podia dizer com certeza, mas algo no gesto indicava desprezo.

- Hostis? Humano, nós somos...

- Hum, perdão... Humano não... Humano é o Tenente Heavyside, aqui ao meu lado. Eu sou tyrriano, por favor.

Agora o Caçador parecia quase irritado.

- Que seja, tyrriano. Nós praticamente destruímos a sua nave. Quão hostis vocês poderão ser?

Bannik olhou Aaron e disse-lhe, ignorando a pergunta do Caçador:

- Estratégia 5. Bem pensado da parte do Capitão. - Aaron olhou Bannik com espanto. Temendo que seu superior pudesse dizer algo que estragasse o seu plano, Bannik deu lhe um pisão no pé.

- AAAAAAHHHHH... Claro, a estratégia número 5...com certeza. Quer dizer que agora vem o... - Heavyside olhou para Bannik, dando a deixa para que ele continuasse.

- Exato.

O Caçador observou esta troca de impressões em silêncio. Depois falou.

- O que é a estratégia número 5?

- A manobra da Corbomite. - respondeu Bannik.

O Caçador olhou-os fixamente por alguns instantes, e acabou por falar.

- Acompanhem-nos. Esta conversa já durou tempo demais.

- Também acho... tempo suficiente para o Capitão ativar a Corbomite, Caçador. Você e os seus irão destruir naves ferengi no que quer que passe por uma vida além da morte para vocês...

- Isso é uma ameaça...tyrriano? - o Caçador parecia ter saído de sua apatia, e ficado realmente irritado. Bannik pode ouvir Heavyside murmurar algo como "Agora ferrou", mas se manteve impassível.

- Não, um aviso. Há mais... a não ser que você nos mate, claro. Aí não diga que não avisei...

O Caçador olhou-os e arrancou os comunicadores dos dois, atirando-os ao chão. Agarrando o phaser de Bannik, apontou para os pequenos dispositivos e disparou. Os comunicadores eram agora algo negro e derretido no chão. A criatura olhou para Bannik, visivelmente satisfeita.

- Nada de truques, tyrriano. Acompanhem-nos agora!

E assim, enquanto Bannik e Aaron caminhavam pelo corredor, à frente dos Caçadores, Bannik sorria para si mesmo, pensando que no Caçador fizera: os comunicadores padrão da Frota Estelar eram programados para emitir um sinal fortíssimo quando destruídos, para facilitar a localização dos corpos dos oficiais por eventuais equipes de salvamento. O sinal conjunto dos dois comunicadores seria mais que suficiente para que a Endeavour captasse, e seguisse a nave dos Caçadores. Agora, era só esperar que desse certo. E foi com essa esperança que o tyrriano seguiu a criatura.

Spencer olhava o monte de detritos que um dia foram uma nave ferengi. Assim que a nave desatracara, a compressão havia feito o resto. Com seus oficiais de segurança lá dentro. Se sentia frustado e impotente. A ponte estava em silêncio desde que a nave sumira. O único som era o do trabalho contínuo dos sistemas da nave.

- Senhor, alguns dos tripulantes faltantes se encontram na nave alienígena. - falou a Tenente Wills. Se a Oficial de Ciências não fosse tão fria, Spencer poderia dizer que ela gostava de cortar o silêncio com notícias ruins. Antes mesmo que o Capitão pudesse responder, ouviu Adachi reportar, visivelmente triste e preocupada, por trás de sua fachada séria:

- Senhor, acabo de receber um sinal fortíssimo proveniente dos comunicadores do Tenente Aaron e do Alferes Bannik. - a jovem oriental encarou o capitão com tristeza no olhar. - Eles foram destruídos.

A raiva e a frustração dele só aumentaram. Nos últimos três meses, aprendera a confiar nos dois oficiais. O simpático Aaron e o sério Bannik, agora mortos. Ouviu novamente a voz de Wills, que o tirou de seus pensamentos.

- Senhor, a informação da Tenente está confirmada. Realmente o sinal é proveniente dos comunicadores de ambos. - Wills rapidamente pressionou uma dúzia de botões em seu painel. - Também confirmo o sinal de vida de ambos, senhor.

O Capitão, muito tenso, voltou-se para Wills em um tom muito sério.

- Baseada em que informações pode afirmar algo assim, Tenente?

- Analisando o espectro normal do comunicador quando destruído e comparando com o acréscimos dos espectros biológicos de cada um deles, utilizando informações das fichas médicas, senhor.

- Impressionante! - disse T'mir. A meio-vulcana se virou para Spencer. - Senhor, eu posso fazer uma sugestão?

- Sim, Alferes T'mir, diga. - Spencer olhou para a meio-vulcana.

- Se rastrearmos o sinal dos comunicadores, mais os vestígios deixados pela dobra, talvez consigamos localizar os...

A Oficial de Ciências a interrompeu bruscamente.

- Nossos sensores não tem essa capacidade, Alferes. - a voz era fria e incisiva. - Qualquer cadete saberia disso. O sinal dos comunicadores só chegou até nós porque foram programados para isso.

Mas a mestiça não se deixou abater. Spencer simpatizava com a moça, justamente por isso. Ela não ligava para a opinião dos outros, ainda mais quando sabia que estava certa.

- Mas e se calibrássemos novamente os sensores? Temos uma boa chance de conseguir... E assim poderíamos resgatar os tripulantes, o que, como qualquer cadete do primeiro ano sabe, é uma das prioridades de uma nave da Frota. - Wills não respondeu, mas o Primeiro Oficial se intrometeu.

- Senhor, permissão para ajudar na Engenharia. Possuo alguns conhecimentos que podem ser úteis na recuperação da nave, e eles vão precisar de mais gente, quando redirecionarem uma parte da equipe para recalibrar os sensores.

Spencer se virou para seu primeiro oficial, sorrindo. T'Gar resolvera o impasse do jeito dele

- Permissão concedida, Número Um. Veja o que pode fazer por lá. - o meio-klingon se virou a caminho do turbolift, mas Spencer lhe dirigiu mais algumas palavras.

- Ah, Número Um, veja se nos coloca com capacidade de dobra o mais rápido possível. Depois de encontrá-los, ainda precisaremos resgatá-los.

Tami não se sentia muito bem. Tentava ficar concentrada em seu trabalho, mas aquela dor de cabeça estava se tornando insuportável. "Droga... Acho que o balanço da nave não me caiu bem... Não Tami. Você não tem nada. Concentre-se em seu trabalho..." Como sempre, Tami estava sendo muito exigente consigo. Seus pensamentos e sua tentativa de concentração foram quebrados pela voz do Capitão, que estava acompanhando os reparos ali mesmo na ponte.

- Srta. Adachi, como estão os reparos?

- O Comandante T'Gar está progredindo, Capitão. Mas ainda é muito cedo. Acredito que dentro de meia hora poderemos ter uma maior certeza. Mas os sensores já foram recalibrados e estamos fixos no sinal de Bannik e Heavyside.

- Muito bem, continue monitorando. - disse o Capitão, tornando sua atenção para a oficial de ciências. Enquanto falava com a oficial, o comunicador de Spencer foi acionado.

{T'Gar para Spencer!}

- O que foi, Número Um?

{Consegui traçar um plano contra os Caçadores, junto com o Alferes Welker.}

Tami tentou se concentrar no que T'Gar e o Capitão diziam, mas não conseguia. A dor de cabeça aumentava. Olhou para o lado e viu a face de T'mir, preocupada, a olhando. Tentou não transparecer mais o seu incômodo.

Não mais que quinze minutos se passaram quando o Capitão se dirigiu a ela.

- Tenente Adachi, eu vou para a minha sala. Continue monitorando os reparos e me informe qualquer mudança.

- Sim, senhor.

Tami continuava a não se sentir bem. Tentava ao máximo manter os olhos nos controles, mas sentia-se cada vez mais fraca. Quando estava prestes a apagar, sentiu uma mão em seus ombros, e uma voz calma e conhecida falou.

- Senhorita Tami? Não me parece nada bem. - disse Chaz, visivelmente preocupado. A oficial tentou se recompor.

- Não, Conselheiro. Eu estou bem. Não há com o que se preocupar. - disse isso levando uma mão à testa.

- Não, Tenente. Você não está bem. Você vai para a Enfermaria por vontade própria, ou serei obrigado a reportar ao Capitão e arrastar um enfermeiro até aqui? - apesar de estar sorrindo, os olhos do Conselheiro mostravam a seriedade das suas palavras.

- Não acredito que será necessário, Conselheiro. Obrigada. - Tami estava no comando da ponte. O Primeiro Oficial estava na engenharia, ajudando com os reparos, e o Capitão estava em sua sala. Ela precisava ficar.

- Tenente. Se o seu problema é o comando da ponte, eu chamo o Capitão e me entendo com ele. Por favor. Precisa ver o que tem... Por favor?

Tami olhou impassivelmente para Chaz durante os segundos que se passaram. Mas baixou os olhos, e sem dizer absolutamente nada, tocou em seu comunicador.

- Capitão.

{Spencer falando.}

- Não me estou me sentindo muito bem. Poderia ficar, mas o senhor Chaz acha melhor que eu faça uma visita à Enfermaria.

{Ele tem toda a razão. Precisamos aproveitar esse momento de espera para fazer qualquer reparo, seja físico ou material. Dispensada, Tenente. Estarei indo para ponte em alguns minutos. O Conselheiro está aí?}

- Sim, Capitão.

{O comando é dele até a minha volta. Estarei ai logo. Spencer desliga}

- Ouviu o Capitão, Tenente. Enfermaria.

- Alferes T'mir. O leme é seu. - disse Tami para sua assistente. E batendo em seu comunicador, comunicou ao Alferes Möller para voltar ao posto que ela estava deixando.

- Vejo você mais tarde, Tenente Adachi.

- Obrigado conselheiro. Mas não devo demorar.

- Demore o tempo que precisar. Dispensada.

Tami sabia que Chaz nunca diria "dispensada" para ela. Mas ele provavelmente havia dito isso para manter o protocolo, e seguir aquilo que tinham combinado, desde que se reencontraram a bordo da Endeavour. Tami gostava disso, e Chaz sabia que estava agradando sua velha amiga de Academia. Tami se retirou da ponte, seguindo para a Enfermaria.

Chaz viu Tami sair da ponte, e se sentiu satisfeito por ter conseguido convencê-la a fazer algo sensato.

- É uma pessoa difícil e forte... Duvido que se eu falasse, ela iria para a Enfermaria por vontade própria. - disse o Conselheiro, sorrindo pela vitória, para T'mir.

- Realmente, é uma pessoa forte, Conselheiro. - Chaz viu T'mir dar um pequeno sorriso. Na psicologia, aprendeu o quanto a mente pode se libertar de um vínculo, não importando o quão profundo ele fosse, mesmo que fosse genético. Sempre que via a Alferes T'mir sorrindo, era a prova de que quaisquer vínculos podiam ser realmente quebrados. - Senhor, quando tempo ainda ficaremos nessa situação?

- Estamos numa situação bastante complicada, Alferes. Qualquer especulação agora seria inútil. Só nos resta esperar. Eu só espero que os Caçadores também esperem por nós...

- Não sei... Quando eu encarei um deles na nave ferengi, senti uma sensação tão estranha... De fome e ódio.

Chaz viu T'mir voltar ao seu console, enquanto a ponte permanecia em silêncio. Mentalmente, tomou nota das palavras da Alferes. Apenas o barulho dos computadores funcionando, sendo recolocados em ordem, quebrava o estranho silêncio da ponte.

Foi quando se deu conta da situação. Ele estava no comando. Na USS Algol tinha ficado no comando por diversas vezes. Recebera ótimo treinamento de comando de seu grande mestre, o Capitão Steve Harris. Mas desta vez, ele estava no comando da USS Endeavour. Sabia que a situação de comando era temporária. Mas naquele momento, Chaz começou a realmente se sentir em casa. Sabia que tinha a confiança e as habilidades necessárias para exercer aquela tarefa, mesmo naquela situação. Não se entrega o comando de uma nave estelar, em situação alguma, as mãos de qualquer um. E Chaz recebia este privilégio. Olhando para o profundo espaço a sua frente, com suas milhões de estrelas, sentiu que ali era o lugar onde sempre quisera estar, mesmo perseguindo 'caçadores' alienígenas. Sorriu.

Segundos depois, acordou. Não podia ficar parado, perdido em devaneios. Se dirigiu a Oficial de Ciências Wills:

- Alferes Williams. Como está o sinal dos nossos oficiais?

- Estou conseguindo manter um bom contato, senhor. Mas eu realmente não sei por quanto tempo.

Chaz pensou por instantes antes de falar.

- Faça registros periódicos da última posição, de dez em dez minutos. Caso percamos o sinal, vamos precisar de qualquer rastro dele.

A jovem ergueu uma sobrancelha e respondeu, no tom seco que Chaz já conhecia como característico dela.

- Isso está sendo feito desde o primeiro sinal recebido, senhor.

Neste momento, antes que Chaz pudesse respondê-la, o Alferes Möller chegou a ponte. Ele parecia um pouco desorientado e sem rumo. Chaz foi até seu encontro, aliviado por não ter que responder a Oficial de Ciências.

- Assuma seu posto, Alferes Möller. Auxilie a Alferes T'mir no que for necessário.

- Sim, senhor Conselheiro, senhor. - respondeu o gorducho Alferes. Chaz voltou para o meio da ponte mais uma vez. Após poucos minutos, o Capitão Spencer retornou à ponte e se dirigiu a ele.

- Conselheiro, preciso que elabore um plano de ação para lidarmos com os Caçadores quando os encontrarmos novamente. E não creio que possamos contar com a diplomacia.

Chaz pensou por alguns instantes.

- Capitão, esta caçada parece ser algo natural deles. E pelo tom de voz com que o Caçador se manifestava, ele parecia gostar do que estava fazendo. São como os nobres da Terra da época medieval. Os senhores na frente caçando pelo puro prazer. Mas atrás deles, vem os soldados e os cachorros, pegando carne fresca para alimentar toda a corte. Ou como um leopardo caçando um coelho, não é só instinto, é prazer. Estamos no território deles. E como tal, somos como alces ou coelhos para eles, somente esperando para sermos devorados... E qual era a única coisa que os coelhos podiam fazer quando encontravam um leopardo?

- Fugir? - respondeu um atencioso e intrigado Capitão.

- Não, precisamos usar de esperteza. Falar com eles não pareceu adiantar muito. E lutar, muito menos. Já vimos o que as armas deles nos causam. Precisamos de uma estratégia "fazer e fugir". Como brincar de "polícia e ladrão". Se eles não puderem nos pegar, não poderão fazer nada. Se conseguirmos restituir os motores de dobra, e se os sensores de transporte estiverem em ordem, podemos despistá-los até que ganhemos tempo para alguma outra atitude. É um plano arriscado, eu sei, mas fazer o jogo de caça e caçador me parece ser nossa única saída.

O Capitão ficou calado por alguns instantes, antes de dar sua opinião.

- Muito bem, Sr. Chaz, acho que entendo sua idéia. Vamos ver se conseguimos implementar.

Chaz sorriu mais uma vez, vendo sua opinião ser aceita tão facilmente.

- Capitão...

- Sim Conselheiro?

- Gostaria de ir até a Enfermaria para ver como está a Tenente Adachi.

Erguendo uma sobrancelha entre intrigado e divertido, Spencer liberou o seu Conselheiro.

- Fique a vontade, Conselheiro.

- Obrigado Capitão - Chaz se retirou em direção a Enfermaria.

Os dois tripulantes da USS Endeavour foram conduzidos em silêncio até uma ala da nave onde sentiram um forte cheiro de material orgânico no ar. No caminho, Bannik e Aaron observavam os corredores da nave. Ao contrário dos corredores das naves Borg, esses eram muito bem acabados, com paredes perfeitamente lisas, de linhas quase orgânicas. Arcos em distância regular pareciam compor uma estrutura de corredores. Aaron anotava mentalmente o caminho, para saber em que direção estavam indo. Ainda não perdera as esperanças de fugir.

- Prisioneiros, estes são os seu alojamentos. - o alienígena apontava para algo que se parecia com uma cela. Ele se virou para o responsável pela cela - Prepare os outros para a retirada.

"Retirada". O tom de voz do Caçador dizia a Bannik e Aaron que algo não estava bem. Bannik olhou com atenção para dentro da cela, e percebeu alguns rostos conhecidos.

- Aaron, olhe! É o Tenente Salek, e outros tripulantes da Endeavour! - o tyrriano parecia contente em rever os oficiais. Aaron olhou com atenção e realmente viu os seus companheiros de nave.

- Silêncio, gado. Vocês não devem ficar contentes com esse reencontro. - o Caçador que parecia ser o responsável pela seção disse em um tom quase sarcástico. Mal acabou de dizer essa frase, entrou na cela para sair logo depois, puxando o engenheiro vulcano pelo braço. Ao passarem por ele, Aaron percebeu que tanto Salek parecia estar estranhamente dopado. Os dois oficiais de segurança foram colocados junto com os restantes, que também pareciam sedados, mas não houve tempo para conversas. Logo em seguida, apareceram mais dois caçadores e levaram os outros tripulantes, deixando-os a sós. Seguiram-se minutos de silêncio e agonia para Aaron, que via Bannik tão agoniado quanto. De repente, ouviram um grito seco e curto, originado por uma voz bem conhecida deles.

"Salek... Meu Deus, o que estará acontecendo?" Aaron olhou assustado para Bannik. Logo em seguida, ouviram-se mais gritos, todos iguais. Todos cheios de uma agonia dopada, para não sentir os horrores da morte. E no fim, nada mais, só o silêncio. Depois de longos minutos naquela atmosfera opressora e sufocante, surgiu uma criatura, igual as outras, apenas com a garra levemente modificada. Segurava algo parecido com uma seringa hipodérmica, cheia com um líquido de cor amarelada, espesso e de aparência assustadoramente letal.

- Nós somos "caçadores", porém somos piedosos para com nossas presas... - disse a criatura que entrava na cela. - Isto irá reduzir o nível de consciência de vocês, para que sintam menos dor. Assim, sua dor não atrapalhará o processo de assimilação.

Bannik e Aaron se entreolharam. Aaron tomou coragem e perguntou à criatura:

- O que é isto? Se vamos morrer, pelo menos gostaria de saber o que estão me aplicando.

- O que vamos lhe aplicar é uma mistura de um sedativo regular, com o que vocês chamariam de "nano-probes", programadas para desativação e purificação de seus órgãos internos. Nós retiraremos todos os órgãos internos, pele e queratina para provisão de nossos próprios corpos. O restante será reciclado e transformado em ração para nossas crias. Alguns corpos irão ser reservados vivos para dar suporte de vida as larvas. - ignorando os protestos e a relutância dos dois, como se fosse meros insetos, injetou o líquido amarelo em ambos.

- Descansem, gado. Em breve estarão na sala de reciclagem. - a criatura olhou pela última vez para os dois, antes de seguir seu caminho. Seu olhar era frio e desprovido de qualquer sentimento pelo que iria ser feito dos dois. Depois que ela saiu, Aaron se ajoelhou no chão, sentindo o desespero se abater sobre ele, juntamente com os "nano-probes" começando a agir. A mão de Bannik pousou em seu ombro, e antes que o tyrriano dissesse qualquer coisa, ele ergueu a cabeça e encarou os estranhos olhos, inteiramente brancos, de seu assistente.

- Nós vamos morrer, Bannik. Nós vamos morrer. - o outro não disse nada, apenas deixou a mão no ombro de seu chefe. Aaron continuou.

- Se eu não voltar e você sim, prometa que irá tomar conta da Endeavour, como se ela fosse o tesouro mais precioso do mundo. - o tyrriano assentiu com a cabeça. Aaron abaixou a sua e deixou correr uma lágrima, filha do desespero de um homem que sabia estar inexoravelmente condenado.

Enquanto andava pelo corredor que ia levá-lo até o turbolift, Chaz entrou em contato com a Enfermaria.

- Chaz para Doutor Zamblivinsk.

(Zamblivinsk. Pode falar, Conselheiro)

- Como está a Tenente Adachi?

Mesmo pelos filtros do sistema de intercomunicação, Chaz pode perceber o tom divertido da voz do médico.

(Ela está na minha frente neste momento. E teimando em dizer que está bem, e que precisa voltar. Mas não a deixarei voltar ao trabalho, até que ela coma um bom prato de comida!)

- Como assim? Estou indo para aí agora.

(Venha Conselheiro. Acho que o senhor poderá resolver isso. Leonardo desliga)

Chaz apressou o passo. Ao entrar na enfermaria, viu o Doutor, ainda com um tricorder na mão, fazendo alguns últimos exames, insistindo para que Tami continuasse na cama.

- Conselheiro, que bom que veio.

A expressão do médico era a mesma de sempre, jovial e despreocupada.

- Qual o problema, Doutor ? O que ela teve?

Com um gesto que lembrava um professor repreendendo um aluno travesso, o médico olhou desaprovadoramente para Tami.

- Não o que ela teve. Mas o que ela não teve. Ela não fez uma refeição sequer o dia todo!

O Conselheiro deixou transparecer todo o alívio que sentia, ao saber que era somente falta de comida.

- Ela não foi a única, Doutor. Eu estava agora mesmo indo para o Bar do Davis. - sorriu para o médico que balançou a cabeça.

- Pois leve-a junto com o senhor. E não saiam até que ambos comam o suficiente. Não quero mais gente caindo de fome na minha Enfermaria! - disse o doutor, com um tom irônico, porém descontraído.

- Sim, Doutor. Sem problemas. Tenente Adachi? Me dá a honra deste almoço? - disse o Conselheiro, estendendo a mão.

- É... Parece que eu não tenho escolha... - a Tenente respondeu em tom irônico, enquanto levantava da cama tendo a mão do Conselheiro como apoio. Assim, os dois saíram em direção ao Bar do Davis, onde este os recebeu com a habitual festa.

- Ora, mas quanta honra para meu pobre Bar! Tenente Adachi! O que posso trazer para a senhorita?

Antes que ela pudesse abrir a boca para responder, Chaz começou a enumerar uma lista de pratos japoneses. Davis anotou tudo em um PADD, e depois os levou até uma mesa.

Enquanto a comida não chegava, os dois ficaram calados. Mas em cinco minutos, o barman apareceu com mais de oito pratos diferentes, pedindo desculpas pela comida ser do replicador.

- Mas vocês sabem como é difícil ter um bom peixe a bordo de uma nave, só congelado. E aí não tem graça.

Depois que o tagarela Davis se afastou, Chaz olhou impassível para ela, esperando que Tami começasse a comer a quantidade absurda de pratos que haviam sido colocados na frente dela.

- Chaz... eu acho que você exagerou... Um só bastaria...

- Dois. No mínimo. - respondeu em um tom misto de repreensão e brincadeira - Pelo que o Doutor falou você não tomou café. E para ser sincero, eu não vi você aqui de manhã.

O Conselheiro percebeu que sua amiga ficou sem graça.

- Na verdade, eu nem jantei ontem. Estava tão cansada que fui dormir direto. Hoje queria chegar cedo na ponte e acordei um pouco atrasada, então não tomei café para dar tempo de chegar na hora certa... – falou, encarando um prato de udon3. Sentia-se um pouco enjoada, por isso respirou profundamente algumas vezes.

- Itadakimasu4! - disse por fim tomando coragem e começando a comer. Chaz sorriu.

- Muito bem! - disse ele enquanto pegava um prato de tori no mizutaki5 - Vamos ver que gosto tem isso aqui!

Ele fez uma careta, e Tami sorriu de leve, deixando-o satisfeito. Começaram a conversar sobre coisas banais, cuidadosamente evitando falar sobre o que estava acontecendo na nave.

O almoço continuou por mais algum tempo. Logo depois, Tami seguiu para seu alojamento, mais por imposição de Chaz do que por vontade própria. Chaz se dirigiu para a ponte, onde continuaria de vigília, aguardando com os outros.

Um caçador trazia Bannik, o arrastando pelo chão. O Oficial de Segurança já estava praticamente inconsciente, pois o efeito da droga que fora injetada já era bem avançado. Não sabia onde estava Heavyside, só se lembrava que ele havia sido levado na mesma direção dos outros.

Bannik foi jogado no meio de uma sala. O Caçador levou sua garra com um líquido verde nela, até o corpo de Bannik, e injetou o conteúdo. Alguns minutos depois, o Oficial da Frota começava a retomar a consciência. A câmara de regeneração tinha um formato circular, e nas paredes, que tinham a mesma aparência orgânica do resto da nave, havia quatro casulos. Três deles estavam vazios, mas no quarto havia uma criatura parecida com os Caçadores que já ele havia visto. Ela parecia estar morta e tinha o rosto mutilado, talvez por um tiro de um disruptor. Um dos braços parecia ter sido de um Borg pois possuía vários implantes típicos da espécie. Contudo, o outro braço parecia ser de um Vorta. Found'tzar – o tyrriano ouvira outro Caçador se referir a ele dessa forma – retirou Bannik do chão e o colocou em um dos casulos vazios. As paredes do casulo se moldaram ao corpo dele e o envolveram totalmente. Depois que o viu "acomodado", o caçador saiu da sala. Sentiu os membros tomados por uma estranha dormência. Os olhos se tornaram cada vez mais pesados e se fecharam, praticamente sozinhos.

Bannik abriu os olhos, olhando em volta. O cenário era todo branco. Não havia mais nada, senão uma imensa vastidão de branco. Um espaço. Um vazio. Um... vácuo? Não estava mais deitado, mas sim de pé... sobre todo aquele branco. Bannik abaixou-se para tocar o chão branco, se é que realmente havia chão, e reparou que também as suas roupas, o uniforme da Frota Estelar, que estava rasgado, ensangüentado e sujo, estava novamente intacto e também branco. Somente o seu corpo mantinha a sua cor. Bannik sorriu de maneira triste. "Estou morto. Os monstros me mataram e me deram de comer para sua prole. Tudo o que fiz, tudo pelo que lutei... foi em vão..."

- Não está não, Bannik - voltou-se para trás e olhou o homem de meia-idade que o olhava, vestido de túnica branca. Outro tyrriano, como ele. Reconheceu-o.

- Karrig... Embaixador Karrig... mas você está...

- Morto? Sim, estou, de certa forma... mas Embaixador não sou mais, não aqui, pelo menos.

- Mas eu vi o que restava do seu corpo em Deep Space Nine. Eu descobri quem o assassinou... eu resolvi o problema com os Scythianos, e...

- ...ingressou na Frota. Sim, eu sei. - interrompeu Karrig sorrindo. - Boa escolha, Bannik.

Uma outra figura apareceu, também sorrindo. Vestia um uniforme da Frota, mas totalmente branco. Sua expressão era de serenidade.

- Tenente Heavyside?

- Sim, Alferes, sou eu.

Karrig se aproximou mais ainda do tyrriano.

- Você tem um brilhante futuro pela frente.

Bannik fez um gesto com a mão, mostrando a amplidão branca que se espalhava até o infinito. Heavyside respondeu.

- Não, Bannik, seu lugar ainda não é aqui. Lembre-se, você prometeu para mim que iria cuidar da Endeavour.

Karrig assentiu.

- Isso, Bannik, você não pertence ainda a este lugar, seu futuro não é esse, não aqui, não por enquanto... mais tarde, talvez... muito mais tarde... mas agora não...- tendo dito isto, Karrig empurrou Bannik com força, o projetando para trás e para cima, para o ar, enquanto dizia:

- Mas... eu não quero ir...

- Você voltará, Bannik... - ouviu a voz de Karrig ao longe - ...e eu estarei cá. Esperando...

A voz de Heavyside era quase um sussurro.

- Lembre-se da promessa...

Bannik sentiu-se levado pelo ar, pelo ar esverdeado... esverdeado? Onde estava o branco? Ele reconhecera aquele esverdeado, era a cor das paredes da nave dos Caçadores. "Estou de volta..." pensou, antes de fechar os olhos e se perder novamente na inconsciência...

O caçador entrou na câmara de regeneração para encontrar Bannik já acordado, porém ainda preso dentro do casulo. Ao perceber a entrada do Caçador, o oficial se agitou.

- O que vocês fizeram comigo? Onde estou? - indagou furiosamente.

- Acalme-se tyrriano, apenas restabelecemos seus sistemas. Você ainda é o mesmo, talvez até melhorado.

Se aproximou do oficial e passou sua garra pelo casulo. Imediatamente o casulo se abriu e Bannik caiu no chão enfraquecido.

- Você ainda deve estar um pouco fraco mas logo deve melhorar.

Bannik o olhou, tentando imaginar o que ele queria.

- Porque não virei comida para vocês se deliciarem?

- Bem, parece que seu conhecimento é mais importante. – a criatura encostou sua garra no chão, e dois assentos como os da ponte surgiram, sendo formados pelo material orgânico. Caminhou e com apenas um braço colocou Bannik sentado. Ele se virou e sentou-se em frente.

- Vamos, diga-me o que vocês sabem... da espécie 8472 como você s os chamam...

Bannik refletia no que havia de dizer. Tinha que ganhar tempo, isso era indiscutível, mas também tinha de revelar somente o necessário sem pôr em risco a segurança da Federação... e sobretudo tinha de cativar o interesse destes seres para que eles ficassem realmente interessados no que ele dissesse... como um contador de histórias com crianças em seu redor. "Imagine se os Caçadores decidem mesmo ir atrás da espécie 8472... isso não pode acontecer. Tenho de os levar até aos 8472 por uma pista falsa, de qualquer modo..."

- Bem, para começar seria bom saber o seu nome... de outra forma, como me dirijo a você? - "Canalha seria uma boa...", pensou.

- O meu nome é irrelevante, tyrriano. Fale.

- Ora, ora, que desvantagem lhe traria isso? Quer dizer, vejamos: estou na sua nave, na sua cela, com o seu fluido sei-lá-o-quê a curar-me e sob a mira dos seus guardas... o que é que dizer-me o seu nome poderia trazer de vantagem para mim? - "Vamos a ver se psicologia reversiva resulta." Pensou se daria certo, e desejou ter alguém com treinamento adequado ao seu lado. "Conselheiro Hanges, estás fazendo falta..."

- ... ... ... Gaum'tzar.

- Muito prazer. O meu você já sabe.

- Agora fale, tyrriano.

- Espécie 8472... vejamos... cabeça e tronco humanóide (bem, a cabeça nem por isso), Três membros inferiores ou pés. São oriundos de uma dimensão acima da nossa onde o espaço é fluido, líquido. Não há vácuo como no nosso. São também a única espécie a habitar essa dimensão líquida, e segundo creio, nem sequer conheciam outras espécies até os Borg invadirem a sua dimensão. Presumo que... saiba quem são os Borg?

- Os Borg não são páreo para nós, tyrriano. Prossiga.

- Bannik. Chame-me Bannik. Por favor, Gaum'tzar.

A criatura hesitou por instante como ponderando o pedido.

- Continue... Bannik. – o tyrriano sorriu no seu íntimo. Era uma vitória pequena, mas conseguira que o Caçador o tratasse pelo nome.

- Bem, deixa ver mais... têm um sistema de defesa imunitária impressionantemente denso, resistente a várias formas de energia projetada tais como phasers e raios de transporte. A sua matéria orgânica resiste ás nano-sondas Borg, por isso não conseguem ser assimilados, também. Ah, e a sua característica mais importante: São telepatas. Conseguem ver o que vamos fazer na nossa mente antes de o fazermos. - Bannik aproximou a sua cara da de Gaum'tzar e abriu muito os olhos.- ...Adivinham os nossos segredos, forças e defesas antes de podermos reagir.

Gaum'tzar ficou silencioso e parecia refletir nas palavras do oficial. Bannik decidira-se a explorar a dúvida crescente no Caçador, a abrir cada vez mais essa brecha de dúvida e , quem sabe, temor.

- Uma única célula de um 8472 possui mais de cem vezes o D.N.A. que uma célula minha - e possivelmente sua - tem. Regeneram-se muito rápido. Provavelmente, de uma única célula deles, consegue-se fazer aí uns cem clones... suficientes para alimentar muitas das suas crias, não?

- Como é que vocês tiveram conhecimento desta espécie? - Bannik fingiu que não ouviu e continuou.

- Eles são feitos da mesma estrutura biomecânica que as suas naves, que são poderosíssimas, incapazes de serem sondadas por naves Borg. Quando três ou mais naves se juntam e se ligam umas ás outras, criam um canhão de plasma capaz de destruir planetas inteiros, e...

- Como é que vocês tiveram conhecimento desta espécie? - o tom de voz do Caçador subiu. Bannik ignorou-o e continuou.

-...regeneram-se a si mesmas sem precisar de reparações nem nada que se pareça. São praticamente invulneráveis e...

- COMO É QUE VOCÊS SOUBERAM DELES ? - o Caçador levantou-se da cadeira e fitava Bannik nos olhos fixamente. Bannik ignorou-o e acabou de falar, gritando tanto como o Caçador:

- ...E VOCÊS SÃO CARNE PARA CANHÃO QUANDO ELES VOS ENCONTRAREM! VOCÊS VÃO SER MASSACRADOS, CHACINADOS, ESPEZINHADOS, EXTINTOS, ENTENDEU? E TUDO PORQUE QUISERAM TOMAR O QUE NÃO É VOSSO EM NOME DA PRESERVAÇÃO DA SUA ESPÉCIE SEM SEQUER SE DAREM AO TRABALHO DE PEDIREM AJUDA! ORGULHO! TUDO POR CAUSA DE ORGULHO BESTA! EU ODEIO VOCÊS! ODEIO!

Bannik recostou-se na cadeira arfando. Queria descontrolar o Caçador, mas acabara por se descontrolar. Dissera tudo o que pensava da sua raça. E agora o Caçador fitava-o, uma expressão que parecia ser de surpresa. Com certeza não pensara que o tyrriano pudesse ser capaz daquele ato de fúria. Uma raça de seres cordatos e pacíficos, os habitantes de Tyrria I eram conhecidos por toda a Frota por sua temperança. Mas Bannik não era exatamente um tyrriano típico. Tomou fôlego e falou, desta vez calma e pausadamente, como se nada daquilo tivesse acontecido.

- Gaum'Tzar... se vocês precisavam de comida... por que é que não pediram a nossa ajuda? A Federação de boa vontade vos ajudaria, sem brigas, sem conflitos. Todas as espécies já enfrentaram o espectro da extinção alguma vez na sua existência e sabemos o que isso é: é algo que nunca desejaríamos ao nosso pior inimigo, por mais cruel que fosse. - Bannik posou a mão no ombro do Caçador para dar ênfase e continuou - Está nas suas mãos agora, Gaum... continuar a proceder erradamente como está e passar o resto da vida a contar os dias até a sua espécie extinguir-se... isto é, se os 8472 não chegarem e abreviarem a vossa extinção... ou engolir o orgulho, pedirem ajuda à Federação, e preservarem a vossa espécie sem recorrer a conflitos. Lembre-se: uma mão aberta pode agarrar... uma mão fechada num punho, não agarra nada. Está nas suas mãos o futuro da sua espécie, Gaum'Tzar...

Terminou de falar e recostou-se na cadeira. O Caçador fez o mesmo, imerso em seus pensamentos e nas palavras de Bannik. De súbito um outro Caçador entrou e falou-lhe.

- Gaum'Tzar, a nave da Federação está dentro do alcance dos sensores... estará ao alcance das nossas armas em 36 segundos... Atacamos?

O tyrriano olhou Gaum'Tzar e disse:

- 36 segundos é quanto você tem, Gaum'Tzar, para decidir qual dos caminhos a sua espécie inteira vai percorrer: o da extinção... ou o da proliferação?

Bannik jogava tudo nesta frase. Se Gaum'Tzar ordenasse o ataque, tudo o que ele fizera tinha sido em vão e... bom, pelo menos veria Karrig de novo... Bannik rezava para que o Caçador ordenasse abrir as freqüências de saudação: assim saberia que o seu estratagema dera resultado.

"Diário pessoal do Primeiro-Oficial. Data estelar 23790206.1715. Mais de quatro horas se passaram desde o nosso primeiro encontro com a nave hostil. Foi um golpe de sorte eles terem nos deixado para trás. Talvez tenham feito isso pela emoção da caçada. Talvez...Junto com a equipe de Engenharia, conseguimos determinar que a freqüência de transmissão de energia dos condutores EPS pudesse ser variada aleatoriamente. Os testes foram um sucesso. Além disso, recuperamos 90% da capacidade de dobra. Em nosso próximo encontro com eles, creio que a história será diferente! Fim do diário"

T'Gar fechou seu PADD e bateu em seu comunicador. Queria dar logo as boas notícias a seu Capitão.

- T'Gar para Capitão.

{Fala Spencer.}

- Estou indo para a ponte, senhor. Tenho boas notícias.

E se dirigiu para lá o mais rápido possível. Ao entrar na ponte, o Capitão lhe disse:

- E então, Número Um?

T'Gar se empertigou antes de fazer seu relatório.

- Conseguimos variar a freqüência dos EPS com sucesso, senhor. Teremos dez minutos de "proteção" contra a drenagem. Também recuperamos 90% da capacidade de dobra.

- Muito bem, Comandante, já era hora.

- Capitão, também analisei as gravações de nossa batalha e determinei o ponto de emissão do raio de drenagem. Ele aparenta ser o único existente naquela nave. Sugiro que, em nosso próximo encontro com eles, ataquemos tal emissor para destruí-lo. Desta forma, eles não terão como aplicar a mesma tática.

Spencer pareceu refletir sobre a estratégia apresentada por seu Primeiro Oficial.

- Me parece adequado... vamos até eles então. Tenente Williams, forneça a localização do sinal da nave para a Alferes T'mir. Curso de interceptação, dobra máxima.

Ele viu a fria humana assentir com a cabeça, antes de responder ao Capitão.

- Informações sendo transferidas para o console da Alferes T'mir agora, senhor. - enquanto a meio-vulcana recebia as informações e se preparava para seguir suas ordens, Wills voltou-se ao Capitão e disse:

- Senhor, as coordenadas enviadas a Alferes T'mir são a origem mais precisa possível do sinal de destruição dos comunicadores. A margem de erro está em 0,1%. Porém não há como garantir que a nave alienígena esteja nesta localização neste momento.

"Arrogante como um vulcano." Pensou T'Gar. T'mir sorriu e falou, em tom de gracejo.

- Se eles não estiverem lá, Capitão, é porque provavelmente evaporaram. Acho que foi um dos melhores cálculos que já vi.

Spencer sorriu de leve ao ouvir a brincadeira de T'mir, e deu o sinal para T'Gar. Aproveitando a deixa, o Primeiro Oficial deu as ordens.

- Alerta Amarelo, todos em seus postos! Muito bem, Alferes T'mir! Marque o curso 289 marco 4. Prepare para sairmos com dobra máxima.

- Aguardando comando, senhor.

T'Gar bateu em seu comunicador.

- Engenharia! Quero força máxima nos motores. Dez segundos antes de sairmos de dobra quero os escudos levantados e todos os sistemas EPS da nave prontos para oscilar conforme as simulações!

{Sim Comandante.}

T´Gar olhou para o Capitão que disse, com a voz firme e cheia de alguém acostumado a liderar uma nave da Federação.

- Acionar!

Os dedos de T'mir dançaram no console, e as estrelas que se viam na tela viraram borrões. A Endeavour estava caçando os Caçadores.

A tensão era visível no rosto de todos. Bem, quase todos. A Alferes Wills e o Comandante T'Gar estavam impassíveis, como se estivessem se dirigindo a uma base da Frota para uma licença. "Quanto dessa impassividade será fachada?" T'mir se sentia absolutamente exausta. Assim que tudo terminasse, iria para seus aposentos e tomaria uma boa e demorada ducha, sem se importar com a água reciclada. A Tenente Adachi parecia bem melhor depois que comera, e já estava de volta, no console de operações. T'mir olhou para o seu próprio console e informou:

- Dez segundos para sairmos de dobra, senhor.

- Muito bem. - respondeu o meio-klingon. - Engenharia! Preparem os EPS agora! Quero todos os sistemas defensivos com oferta máxima de energia!

Todos os olhares na ponte se viraram para o Capitão, esperando a sua resposta. Levantando de sua cadeira, Spencer falou:

- Vamos para meio impulso. - enquanto T'mir reduzia a velocidade da nave, o Capitão se voltou para Wills. - Srta. Williams, sensores ao máximo quero varredura completa da área.

- Fazendo varredura agora, Capitão. - depois de alguns instantes, continuou. - Senhor, os sensores mostram traços de partículas de dobra na área. Esse tipo de partícula de dobra é a mesma que a nave dos alienígenas expele. Os sensores também detectaram a seqüência em que foram dispersadas, senhor. Como pegadas em uma trilha.

Spencer se virou para Adachi.

- Você confirma, Tenente?

A jovem confirmou.

- Sim senhor, a definição da Tenente é absolutamente precisa, podemos seguir o rastro deles como se fossem mesmo pegadas: o caminho está todo aqui.

T'mir se sentia intranqüila. Um arrepio percorreu sua espinha. Estavam cada vez mais próximos da nave alienígena. Como se tivesse lido seus pensamentos, a Oficial de Ciências falou.

- Senhor! Localizei a nave alienígena!

A tensão dos tripulantes era quase palpável.

- Eles já nos localizaram, senhor - acrescentou Adachi. - E estão voltando a nave em nossa direção.

Instintivamente, T'mir voltou-se para o Capitão, esperando sua decisão. Confiava nele. Tinha que confiar.

Desde que ouvira a Oficial de Ciências anunciar a nave alienígena, Spencer se sentia tenso, na eminência dos acontecimentos. Era finalmente chegado o momento do confronto.

- Estão em alcance visual?

Ele quase podia sentir todos os olhares na ponte virados para ele. Não podia decepcionar sua tripulação.

- Em cinco segundos, senhor.

- Tenente Adachi, tente contatá-los em todas as freqüências! Srta. T'mir, curso de interceptação, máximo impulso. - Spencer se virou para o console de segurança. - Alferes Pepe, carregue os phasers.

As duas Oficiais de Operações executaram um silencioso balé sobre seus consoles. A tensão aumentava, e Spencer se levantou, caminhando até próximo os consoles a frente. Viu as costas de Adachi, tão controlada, e as de T'mir, tão emotiva, e pôde ver que ambas estavam igualmente tensas. "Elas confiam em mim, todos confiam. Não posso decepcioná-los."

- Alcance visual! - Wills anunciou.

- Na tela.

A imagem da nave dos Caçadores apareceu na tela principal. Spencer olhava para a tela. A nave dos caçadores se aproximava. Era pequena, mas mostrou que podia destruí-los facilmente. "Será que a idéia de T'Gar vai funcionar?"

- Senhor, eles estão respondendo a nossa comunicação.

Spencer se forçou a sorrir e olhou para Chaz e T'Gar.

- Hora da diplomacia! - voltou-se para a oficial de operações - Abra o canal, Tenente.

Respirou fundo e começou.

- Aqui é o Capitão Spencer da USS Endeavour. Vocês estão com nossos tripulantes a bordo, pedimos que vocês os devolvam.

{Humano. Diga o que tem a oferecer em troca.}

Spencer ouviu aquilo e imediatamente fez o gesto para Adachi interromper a comunicação.

- Canal interrompido.

Virando-se para Chaz, Spencer indagou.

- Troca? Mas o que é isto? O que você me diz, Conselheiro?

- Capitão. Parece que para eles somos somente mercadoria. Talvez nós não sejamos uma mercadoria tão valiosa... Talvez tenhamos algo melhor para eles do que nós mesmos...Espero.

Spencer refletiu sobre essas palavras por alguns breves instantes.

- Concordo, vamos ver até onde eles vão... Abra novamente o canal.

Novamente a figura hedionda do Caçador apareceu na tela.

- No que você estaria interessado?

{Queremos informações.}

Spencer sinalizou de novo e o canal foi interrompido.

- Informações? Alferes Pepe, como estão os phasers?

O jovem Alferes respondeu prontamente. Parecia ansioso em mostrar serviço.

- Prontos para disparo, Capitão...

- Não faça isso! - interveio Chaz rapidamente - Atirar neles só ia causar um conflito prematuro! Vamos ver exatamente o que eles querem. Temos uma chance de sair disso sem um combate estelar!

- Muito bem, Conselheiro. Vou continuar com isso... Tenente Wills, algum sinal dos nossos?

- Sim senhor. - afirmou Wills, no seu tom de voz usual, logo após ter pressionado alguns botões rapidamente seu console de ciências. - Há um sinal bem forte do Alferes Bannik, Capitão.

- E os demais, Wills? - "Será que os perdemos?"

- Consigo somente sinais fracos e espaçados dos demais tripulantes seqüestrados... Estão mesclados. - respirou e prosseguiu. - Posso somente afirmar um sinal fraco do Tenente Salek, Capitão.

- Menos mal. - Spencer sinalizou para Adachi que abriu o canal novamente.

- Que tipo de informações?

{Informações sobre a espécie 8472... como vocês os chamam.}

Spencer cortou novamente as comunicações.

- 8472? Como eles sabem...

Num rápido flashback, Chaz lembrou-se de todos os relatórios que já recebeu sobre raças desde a sua época de burocrata da Frota.

- É isso, Capitão ! Se o que eles querem é "carne", ou melhor, matéria orgânica, o que melhor que do que matéria orgânica regenerativa? Talvez algum de nossos tripulantes tenha entendido o real sentido da existência deles, e tenha jogado a idéia de que nós conhecemos uma espécie que é mais interessante para eles do que nós mesmos ! Esta é a troca. Talvez a nossa raça para eles seja somente alimento pequeno... Eles imaginam que os 8472 sejam mais úteis para eles. Acho que algumas informações como localização, ou algo assim, não irá fazer mal a ninguém. Além do mais, sabemos o quão poderosas ambas as raças são.

Sentindo um novo alento, uma esperança de conseguir sair dali com sua nave e sua tripulação quase inteiras, Spencer quase sorriu.

- Certo Conselheiro. Vou dar o que eles querem, mas vamos nos concentrar em recuperar nosso pessoal. - sinalizou para Adachi.

- Podemos lhe dar essas informações, mas queremos nossos tripulantes de volta.

{Primeiro as informações.}

Mais uma vez Spencer interrompeu.

- O que ele acha que somos? Ferengis?

- Eles se acham uma raça superior. É de imaginar que eles tentem estar sempre um passo a nossa frente. Mas isso é apenas uma ilusão de grandeza. Eles já mostraram que tem real interesse pelas nossas informações. Eles sabem que se nos destruírem, a Frota Estelar inteira estará aqui amanhã para ficar no pé deles, e que não irão conseguir as informações que desejam.

- Certo, vamos fazer o jogo dele. Srta. T'mir, temos o transporte funcional?

A meio-vulcana executou alguns comandos, entrando em contato com a Engenharia, para depois responder ao Capitão.

- Não senhor. Toda a energia disponível está focalizada nos sistemas de defesa da nave, e disponibilizá-la para os transportes demoraria tempo demais.

Desanimado, Spencer sinalizou.

- Como você quer que entreguemos essas informações? Nossos sistemas não são compatíveis.

{Vocês nos trarão as informações.}

Ele sentiu os olhares de seus oficiais. Parecia que seus ombros sustentavam o peso da nave.

- Muito bem, enviaremos uma nave pequena até vocês.

{Aceito. Quando chegarem perto, os traremos para dentro de nossa nave.}

- Endeavour desliga. - depois que a imagem da criatura desapareceu da tela, Spencer se virou para os oficiais, que esperavam ansiosos. - Conselheiro, prepare um pequeno dossiê sobre os 8472, obviamente tirando as partes mais interessantes.

- Sim, Capitão. - Chaz se dirigiu ao turbolift.

- Número Um, vá com a Alferes Wills, Pepe e um médico. T'mir, você irá pilotar a nave auxiliar. Mantenha contato no sinal deles, qualquer problema nos contate. Como vccê estará mais perto, a distorção que a nave dos caçadores causa será menor..

Impressão sua, ou os olhos da meio-vulcana se arregalaram? Por um momento, pensou que T'mir ia pedir para ficar, mas a jovem não disse nada, somente assentiu. Todos se movimentaram, seguindo suas ordens.

Found'tzar estava em pé, observando Bannik. O oficial da Frota estava sentado, parecia estar se recuperando ainda. Fazia apenas alguns minutos que havia saído da inconsciência causada pela droga que o alienígena havia lhe injetado. Por uns instantes, o Caçador apenas piscou seus olhos rapidamente. Em seguida, quando achou que já havia esperado demais, caminhou em direção a Bannik.

- Venha comigo, tyrriano. - pegou Bannik pelo braço e o forçou a caminhar. Quando iam saindo da sala, ouviram um barulho, vindo do casulo que continha um caçador. O casulo se abriu. O ser começou a caminhar em direção ao dois.

- Seja bem-vinda de volta, Vrumi'tzar. - disse Found'tzar fazendo um gesto de reverência. Algo no jeito da criatura e de como Found'tzar a tratava fazia Bannik achar que era uma fêmea, e superior a ele.

- É bom estar de volta. - respondeu Vrumi'tzar com uma voz familiar a Bannik. Ele a encarou e se espantou ao ver o rosto de Salek na face daquela Caçadora.

- Vamos à ponte, Gaum'tzar precisa lhe falar. - Found'tzar caminhou em direção ao corredor, arrastando Bannik, e sendo seguido por Vrumi'tzar. O tyrriano ainda estava tonto, mas a lucidez voltava aos poucos. O que aqueles monstros haviam feito com o vulcano?

Leonard Zamblivinsk estava debruçado sobre uma interessante amostra de tecido coletado por Durden na nave ferengi quando o seu comunicador tocou.

- Zamblivinsk na escuta.

Ouviu a voz do Primeiro Oficial.

{Doutor, precisamos de um Oficial Médico para acompanhar um grupo de Oficiais na nave dos Caçadores.}

- Entendido, vou ver se arranjo um "voluntário". Zamblivinsk desliga. - refletiu alguns instantes sobre quem poderia ir, sem correr riscos demais. Foi quando lembrou-se de um de sus assistente, o Alferes Durden. Ele tinha tido sérios problemas no passado e havia recebido "nanotechs". Era muito provável que isso o resguardasse dos seres, de acordo com as leituras e os dados que o próprio Durden havia conseguido na nave ferengi. Chamou-o .

- Alferes Durden.

Ele veio rapidamente. O Doutor o olhou com ar paternal.

- O Capitão precisa de um oficial médico para acompanhar o grupo de oficiais a bordo da nave dos Caçadores. E eu pensei em você.

O Alferes concordou e saiu rapidamente. Leonard olhou para a porta por onde seu assistente acabara de sair. Não gostava de mandar seus subordinados em missões perigosas, mas eram oficiais como ele, e sabiam dos riscos e sacrifícios da profissão. Resignado, voltou para a sua amostra.

Welker caminhava apressado em direção ao hangar. Precisava entregar um tricorder melhorado ao grupo avançado. Por ele, teria ficado na Engenharia, mas ninguém mais havia se voluntariado para o encargo. E o motivo para isso era simples: o tricorder deveria ser entregue à Oficial Chefe de Ciências. E a opinião na Engenharia sobre Wills era unânime: "brrrrrr".

Quando chegou no hangar, encontrou um oficial médico, Alferes como ele.

- Olá. - estendeu a mão. - Sou Johnny Welker, Engenheiro Chefe Interino.

O médico apertou a mão que lhe foi estendida.

- Sou o Alferes Tyler Durden, Oficial Médico Assistente.

Welker puxou assunto com o médico, e conversaram amenidades, sobre a Academia, sobre a nave e seus tripulantes.

Quatro oficiais chegaram por um tuboelevador. Welker reconheceu o Primeiro Oficial, a Oficial Chefe de Ciências e a meio-vulcana de Operações. O quarto oficial era um Alferes da Segurança.

- Comandante. - apresentou-se e depois voltou-se aos demais - Tenente... - deu um passo a frente em direção à bela moça vestida com uniforme azul.

- Tenente Wills, acrescentamos neste tricorder uma maior capacidade de localização dos tripulantes que estão na nave alienígena, espero que seja bem útil. - estendeu o tricorder para ela, enquanto sorria.

A resposta de Wills foi calorosa como o inverno de Plutão.

- Obrigada, senhor Welker, mas não é necessário. Eu fiz o mesmo com este tricorder aqui. - Welker se sentiu um pouco constrangido com a frieza da mulher, e não conseguiu pensar em nenhuma resposta.

Foi quando a Alferes T'mir se aproximou deles, depois de ter se dirigido a um console de computador na entrada do hangar.

- Wills, se você já tiver terminado a sua paquera, podemos ir.

Welker não conseguiu segurar o riso, principalmente ao ver a cara de Wills. Despediu-se dos demais, e voltou para a Engenharia. Mas no íntimo, torcia para seus colegas voltarem logo, inteiros e bem.

O caçador que levava Bannik foi saudado pelos demais Caçadores na ponte com um leve aceno de cabeça. Vrumi'tzar surgiu por detrás dele e os dois voltaram a sua atenção para ela.

- Bom vê-la inteira novamente.

A fêmea pareceu considerar a afirmação de Gaum'tzar e, meio rosnando, meio sorrindo, disse:

- Ilógico, Gaum'tzar. Nunca estive em pedaços. Somente ferida.

Bannik voltou-se para ela. A face de Salek estava estampada no corpo da Caçadora. Teve uma idéia, mas tinha que agir rápido e pegá-los de surpresa. Correu para a caçadora e abraçou-a, quase chorando.

- Salek... Meu Deus... eu não vou deixar você ir com estes animais... você está me ouvindo aí dentro?

Bannik agarrava a cabeça da Caçadora nas suas mãos com força, parecendo dominado pela emoção triste que lhe crispava o rosto. A Caçadora agarrou a sua cabeça com ambas as mãos também e procurava afastá-lo.

- Afaste-se de mim, gado!

De repente, o mundo ao redor do tyrriano se dissolveu.

... ... ... E Bannik agora estava num espaço largo, um templo com colunas de arenito vermelho no alto de uma montanha. O oficial reconheceria aquela montanha e aquele planeta de olhos fechados, mesmo sem nunca ter estado lá: Vulcano. "Mas... ainda agora estava na nave dos..."

- Bannik?

Bannik voltou-se e encarou Salek, de pé e vestido com o uniforme da Frota...inteiro e de volta ao normal. E, para seu maior assombro, sorrindo.

- Mas... ainda agora você estava... e eu estava...

- Não há tempo para perguntas. A minha mente não irá durar muito mais tempo neste corpo alienígena, pois a mente da Caçadora vai aos poucos tomando o controle. Assim, todos os segundos são preciosos. Aproveitei esta sua explosão emocional para estabelecer uma fusão mental entre nós para... para lhe pedir um favor e esclarecer o meu plano.

Bannik sorriu. Sua idéia dera certo.

- Na verdade, eu estava contando com isso. Sabia que a mente de um vulcanóide era forte demais para ser subjugada assim tão fácil. Só tinha de lhe tocar para ver se você estabelecia contato.

- Ouça agora. Em outras circunstâncias, lhe pediria que tomasse o meu Katra no seu corpo e o levasse a Vulcano, onde seria depositado. Contudo, fiquei ciente que os Caçadores não pretendem a paz, mas sim aniquilá-los. Mesmo depois de conseguirem o que querem. Portanto, o lógico é ficar aqui, tentar tomar o controle desta Caçadora e sabotá-los por dentro. Tentarei explodir as naves, assim que for possível. Era isso que queria esclarecer. Diga ao Capitão Spencer ou ao Primeiro Oficial T'Gar que não têm que se preocupar mais com os Caçadores.

Bannik percebeu a extensão dos planos do Engenheiro.

- Mas... assim você sacrifica-se para que eles morram. Isso não é lógico.

- As necessidades de muitos sobrepujam a necessidade de uma minoria... Ou de um só. E já estou morto, de qualquer modo. Peço-lhe que viaje até Vulcano, se puder, e transmita aos meus pais e à minha prometida que... os amo muito. Deixe-os fazer uma fusão mental, se possível... eles saberão tudo, então.

Mesmo triste, Bannik se conformou em abandonar o companheiro. Ele tinha razão.

- Boa sorte, Salek. Farei o que você pede.

O vulcano sorriu, e ergueu a mão na saudação vulcana.

- Vida longa e próspera.

... ... ...Bannik abriu os olhos e viu a cara de Vrumi'tzar sobre a sua. Estava deitado no chão.

- Estes seres são demasiados frágeis, Gaum'tzar. Arremessei-o com o mínimo de força e ele desmaiou assim que caiu.

Bannik ergueu-se e encarou Vrumi'tzar e depois Gaum'tzar. Este falou-lhe.

- Os seus... colegas... estão a caminho daqui. Chegaram agora e vêm trazer a informação sobre os 8472 em troca de sua vida.

Bannik tremeu por dentro. O que iria acontecer agora?

Estavam entrando na pequena nave auxiliar. T'mir e T'Gar, como iriam na frente, entravam por último. Foi quando o Conselheiro chegou esbaforido com o dossiê em suas mãos. O entregou para T'Gar e saiu do hangar, não sem antes desejar "boa sorte" para eles. T'mir entrou e se sentou na cadeira do piloto. Olhou para o meio-klingon ao seu lado e invejou sua frieza. Rezou mentalmente uma pequena oração terráquea que sua mãe lhe havia ensinado e suspirou fundo.

- Muito bem, senhores e senhorita. Esta é sua comandante falando. Vôo sem escalas com destino à nave dos Caçadores alienígenas. Por favor apertem os cintos e mantenham seus phasers à mão caso haja alguma eventualidade.

T'mir sorriu. "Aqueles filmes terrestres antigos sobre desastres aéreos que vi durante a Academia não me fizeram bem." Depois da piadinha, T'mir começou a trabalhar sério. Ajustou os níveis de energia e calibrou os sensores. Checou o sistema de suporte de vida e o teletransporte. "Tudo OK"

- Comando do hangar, Alferes T'mir no comando da Hawking pedindo autorização para decolagem.

{Aqui é o Alferes Jonhson. Autorização concedida, T'mir. Boa sorte e tragam nossos rapazes de volta.}

- Faremos o possível, Jonhson, obrigado. Hawking desliga.

T'Gar estava "distribuindo tarefas" aos demais. O alarme de abertura das portas externas soou e T'mir pode ver o brilho das estrelas contornando a silhueta da nave alienígena quando elas abriram totalmente. Manobrou a nave com perfeição. Os próximos momentos foram de tensão. Era algo quase palpável. Até mesmo no Primeiro Oficial. T'Gar parecia impassível, mas T'mir podia sentir ondas de tensão também nele.

- Leve-nos para a distância de 5 km da nave, T'mir.

- Sim, senhor. - manobrou até o limite imposto. Ao chegar lá, a nave abriu comunicações.

{Atenção nave da Federação. Preparem-se para transporte.}

Logo se viu um brilho estranho quando o teletransporte era acionado. Vendo seus colegas sumirem, T'mir se virou preocupada com eles.

- Boa sorte, pessoal. Se cuidem. - "E voltem todos, por favor..."

O grupo fora transportado para um sala de transporte de paredes em uma cor verde musgo. Pepe ficou visivelmente enojado com a aparência e o cheiro do lugar, enquanto Wills quase que imediatamente sacou seu tricorder e começou a fazer leituras. T'Gar ia falar algo para seus companheiros, quando ouviu um som gutural.

Virou-se, e arregalou os olhos ao ver um dos Caçadores em posição bem ameaçadora. Sabia o que um deles era capaz de fazer. Mantendo a frieza e o auto-controle, ergueu a voz de maneira nada cordial.

- Onde estão nossos amigos, Caçador?

A resposta do alienígena foi automática.

- Venham comigo.

A nave era composta de uma espécie de tecido tecnorgânico. Um misto de metal e tecido vivo. Inclusive, em alguns pontos, ela parecia pulsar. O ambiente era um pouco mais escuro e sombrio que um cubo Borg. Quando entraram na ponte de comando, viram Gaum'tzar, Found'tzar e Bannik, que lhes falou em um tom um tanto descontraído para a situação.

- A pizza chegou?

T´Gar teve vontade de rir, mas conseguiu se conter.

- Como você está, Bannik?

- Esfomeado, mas bem, diante das circunstâncias. Eu comeria até mesmo a comida do Davis com prazer.

T'Gar se sentiu aliviado ao ver que o tyrriano mantivera o bom humor. Um dos Caçadores se impacientou.

- Nos dêem as informações, klingon! - ordenou Gaum'tzar.

Se havia algo que T'Gar odiava, era que lhe chamassem de klingon. Ele era humano demais para isso. Respondeu ao caçador calmamente.

- Primeiro eu tenho que saber onde estão os outros.

- Estão bem, mas você só os verá quando tivermos as informações.

Insatisfeito com a resposta, T´Gar voltou-se para Pepe, quando um dos Caçadores que estava de costas se virou. Ele possuí-a o rosto de Salek.

- Salek?

Bannik aproximou-se de T'Gar e falou-lhe em voz baixa.

- Senhor, esse não é mais o Salek. Eu sou o único sobrevivente de todos os seqüestrados. Parece que eles tomam os corpos de outros seres vivos e vão assimilando os tecidos para os seus aos poucos.

Bannik olhou T'Gar nos olhos e agarrou-lhe o antebraço, como que mandando uma mensagem só com o olhar. T'Gar olhou por alguns instantes os estranhos olhos sem pupila do Oficial de Segurança. "Ele quer que saiamos daqui o mais depressa possível."

- Vamos embora, senhor. Não temos nada a fazer aqui.

T'Gar concordou com um aceno de cabeça.

- Certo, Alferes Bannik.

Entregou a informação a Gaum'tzar, que os ignorou completamente, voltando a sua atenção para os monitores, ficando de costas para eles. Decerto queria checar a informação. Quando teve certeza que nenhuma das criaturas estava prestando atenção nele, T'Gar pressionou o seu comunicador.

- T'Gar para a Hawking: cinco para transportar.

A visão da ponte da nave dos Caçadores foi substituída pelo interior da Hawking. T'mir ergueu-se da cadeira. Olhou-os, visivelmente aliviada, e caminhou até Bannik.

- Você está bem, Bannik?

- Bem, eu... - Bannik foi abraçado por T'mir e não falou mais. T'Gar queria sair dali o mais depressa possível, mas não disse nada. O tyrriano havia passado momentos difíceis, e provavelmente estava precisando de ser reconfortado.

Assim que eles sumiram, T'mir abriu comunicação com a Endeavour.

- Endeavour, Alferes T'mir falando. O grupo acaba de ser transportado para a nave alienígena. Alguma ordem?

{Não, Alferes. Mantenha a sua posição e esteja preparada para transportá-los assim que puder.}

- Entendido, Endeavour. T'mir desliga.

Faziam quinze minutos e nada de sinal dos outros. "Calma T'mir, onde é que já se viu uma meio-vulcana ansiosa? Bom, você sempre está... Eles estão bem, você sabe disso...Todos eles. Aaron, Salek...Bannik..." Mal acabara de pensar isso quando ouve um sinal no comunicador.

{T'Gar para a Hawking: cinco para transportar.}

T'mir sorriu aliviada. Eles conseguiram. Tranportou-os de volta. Quando os viu se ergueu da cadeira e foi até Bannik.

- Você está bem, Bannik?

- Bem, eu... - Não esperou que ele respondesse. Podia sentir a solidão e a necessidade de contato do tyrriano mesmo através de seus sentidos empáticos tão fracos. Era quase como se fossem seus próprios sentimentos. Abraçou-o forte, o apertando contra si, e lhe pareceu que os outros haviam sumido da pequena nave. Sentiu o calor do corpo dele, seu cheiro. Queria ficar nos braços dele para sempre. Sentia-se tonta e leve ao mesmo tempo. E nunca havia se sentido assim antes. Não soube dizer quanto tempo havia passado, quando se deu conta do que estava fazendo.

- Minha nossa, como eu estava preocupada. - largou-o, sorrindo, um pouco constrangida. Mas segurou as mãos dele entre as suas. Por algum motivo, não conseguia se afastar dele. - E Aaron e os outros? O que houve?

A tristeza dele era visível ao responder.

- Os outros... morreram. Sou o único sobrevivente. Salek... bem, Salek é uma outra história, algo que você, como meio-vulcana vai entender quando eu lhe contar, T'mir.

Ela apertou as mãos dele, tentando confortá-lo.

- Sim, você irá me contar o que houve com Salek. - quase desejou que estivessem em outro lugar, a sós, onde ela pudesse tirar aquela tristeza dos olhos dele, tão estranhos e tão fascinantes. Por que a tristeza dele a incomodava tanto? - Bom, já que estamos juntos de novo, acho que devemos sair de perto desses caras o mais rápido possível, não concordam?

Reparou que os outros os olhavam. Tentando disfarçar seu constrangimento, sentou-se na cadeira de piloto e ligou o comunicador.

- Endeavour, aqui é a Hawking comunicando que estamos voltando.

T'mir manobrava tranqüilamente para chegar a Endeavour, tentando recuperar a calma, quando um dos sensores do console lhe indicou que a nave havia levantado seus escudos. Pensou rápido. "Os Caçadores devem estar para atacar."

- É bom se segurarem, por que tenho que sair da linha de fogo. Apertem os cintos que lá vamos nós!

Fez uma manobra repentina, jogando a pequena nave toda para a esquerda. Mas foi tarde demais. T'mir só sentiu o impacto, antes mesmo de perceber que haviam sido atingidos. Um gemido veio dos assentos atrás.

- Todos bem?

Uma voz desconhecida respondeu, e T'mir demorou a perceber que se tratava do Alferes médico.

- Não, o Alferes Pepe foi atingido. E está morto.

T'mir segurou a respiração. Só agora sentia medo. Olhou novamente os consoles a sua frente. A fuselagem ainda estava inteira mas no ponto de rompimento. Mais um tiro e estariam perdidos. Tentou se comunicar com a Endeavour.

- Endeavour, aqui Alferes T'mir falando. Responda.

Silêncio. "Droga, teve ter avariado o nosso sistema de comunicações." T'mir levou a nave para fora do alcance dos Caçadores. Podiam ver a Endeavour e a nave alienígena brigando. Silenciosamente T'mir disse uma prece, esperando que tudo desse certo.

A nave da Frota estava resistindo bravamente, e parecia levar até uma certa vantagem, quando, de repente, um portal se abriu, e os Caçadores fugiram por ele. T'mir suspirou aliviada quando os sensores mostraram que a Endeavour levantara os escudos.

- Senhores, estamos voltando.

T'mir manobrou e os levou para longe daquela ameaça. Quando todos saíram da navezinha, deixou-se ficar ali e suspirou aliviada. Bannik sentou-se na cadeira atrás dela e encostou a cabeça, ainda digerindo os pormenores da sua estada na nave dos Caçadores... o que vira... os colegas que tinham morrido... a sua experiência de quase "pós-morte"..."Tenho de falar com o Conselheiro assim que fizer um relatório preliminar ao Capitão, tomar um banho e dormir uma semana..."

Foi quando a meio-vulcana se ergueu e o viu ali.

- Bannik? Não percebi que você havia ficado. Está tudo bem?

Ela sentou do lado dele e o encarou com aqueles imensos e doces olhos castanhos que lhe haviam chamado a atenção desde a primeira vez que a vira. A sensação do corpo dela ainda estava em seus braços e ele estava se sentindo estranhamente embaraçado na presença da meio-vulcana.

- Sim, T'mir, está... Só estava a pensar em algumas coisas que ocorreram comigo. Mas está tudo bem.

Ela sorriu, e colocou sua mão sobre a dele.

- Se precisar conversar com alguém, eu estarei aqui. É só chamar. - ela se levantou e saiu da nave auxiliar. Bannik a observou se dirigir para um console na parede e digitar alguma coisa. Lembrou-se de Heavyside perguntando sobre a implicância que ele tinha com T'mir, e que ele não pudera responder.

Spencer estava sentado em sua cadeira, aguardando ansiosamente por notícias do grupo avançado. A espera era inquietante. Às vezes, aquilo parecia ser a pior parte de ser um Capitão.

A Tenente Adachi virou-se para Spencer e comunicou.

- Capitão, a Hawking nos informou que está retornando.

- Muito bem, Tenente. Quantos a bordo?

Tami pressionou alguns botões.

- O grupo avançado e o Alferes Bannik.

"E os outros? Mortos?" Pensou Spencer.

O Alferes que ocupava o console de ciências informou:

- Capitão, estou detectando um aumento de energia na nave dos Caçadores.

Spencer se levantou e bateu em seu comunicador.

- Ponte para Engenharia.

{Engenharia, aqui Welker falando.}

- Sr. Welker, o sistema do EPS está pronto?

{Sim, Capitão.}

- Acione imediatamente. Spencer desliga.

Spencer se voltou para a Tenente Adachi.

- Escudos levantados!

- Mas Capitão, eles não vão poder entrar na nave...

- Do jeito que estamos, Tenente, eles estariam com muita sorte se sequer chegassem aqui. - Spencer esperava que T'mir fosse a piloto que sua ficha na Academia dizia ser.

Nesse mesmo instante, a nave dos Caçadores atirou.

- Um quarto de impulso a frente! Travar phaser na nave dos Caçadores! - Esbravejou Spencer. Mas não era a Endeavour o alvo dos Caçadores. O raio havia atingido a nave auxiliar. O Capitão resolveu aproveitar a vulnerabilidade dos inimigos.

- Fogo!

Os phasers da Endeavour dispararam na nave dos Caçadores.

- Relatório, Tenente Adachi!

A jovem digitou algo em seu console, e relatou ao Capitão.

- Atingimos um setor da Engenharia deles, senhor, mas não causamos dano algum. Não consigo entrar em contato com a Hawking.

- Tenente Adachi, temos transportes?

- Sim e não senhor...

- Como?

- O alcance é muito baixo, eles vão ter que chegar mais perto.

Spencer socou a sua cadeira, tentando dar vazão a sua frustração.

- Vamos chegar mais perto deles, então! - "Porque eles não revidam?"

Vrumi'tzar segurava Gaum'tzar pelo pescoço. Como ela era maior, ele estava sendo sufocado enquanto tentava atingir o chão. Os outros dois olhavam perplexos.

- O q-que... v-você... t-tá.. fa...endo!? - Gaum'tzar tentava falar.

- Você não vai destruí-los! - Respondeu Vrumi'tzar. O seu tom de voz era estranho para eles. Gaum'tzar fazia sinais para Found'tzar, de modo que ele o libertasse. Mas Found'tzar relutava em atacar a fêmea, afinal ela era sua superior, os dominava.

- Va-vamos! N-não é e-ela! - Gritou Gaum'tzar.

Found'tzar finalmente entendeu que havia algo de errado. Levantou-se e enfiou sua garra no torso de Vrumi'tzar, dilacerando seus órgãos internos. Ela imediatamente soltou Gaum'tzar, e agonizando de dor, foi ao chão. Gaum'tzar esfregava a sua garganta.

- Ela ia me matar... Helm'tzar, status?

Helm'tzar retornou sua atenção para seu console.

- A nave grande nos atacou, mas seu raio não nos afetou. Nosso raio apenas conseguiu avariar a nave pequena, e não conseguimos trazer nenhum deles.

- O portal? - indagou Gaum'tzar.

- Em 25 mol'rocs estará aqui. - respondeu Found'tzar. Gaum'tzar refletiu.

- Vamos atacar a nave grande.

- Para que? Eles não são compatíveis... você viu como ficou Vrumi? - retrucou Found'tzar.

- Oras, deve haver algum compatível! Não há raça que não conseguíssemos incorporar até hoje.

- O raio está preparado. - informou Helm'tzar.

Gaum'tzar olhou fixo para o corpo de Vrumi'tzar... A raiva que sentia daquele que a destruíra se dirigia também aos seus congêneres.

- Disparar!

Spencer se levantou de sua cadeira e caminhava até o console de operações, quando a nave sacudiu com um forte impacto.

- Fomos atingidos pelo raio deles! - anunciou Tami.

- Danos?

- Foram mínimos, os escudos estão agüentando.

Spencer sorriu. "A modificação do EPS funcionou..."

- Preparar torpedo quantum. Disparar assim que estiver pronto.

Segundos depois, veio o anúncio do Alferes que estava no console tático.

- Torpedo disparado!

Spencer olhou fixo para a tela, esperando o resultado de seu ataque.

A nave sacudiu bastante. O cheiro de material orgânico queimado era forte. Alarmes soavam.

- Gaum'tzar, o casco está rompido! Fomos atingidos em cheio! - disse Helm'tzar.

- Eles parecem ter boas armas. - disse Found'tzar.

- O portal?! - gritou Gaum'tzar.

- Já está nos nossos sensores.

Gaumt'zar olhou para a tela. Viu a nave da Federação brilhando, resplandecente. Mas por mais que quisesse lutar, sabia que tinha que fugir. Os dados que obtivera deles talvez garantissem o futuro de seu povo. A vingança poderia ficar para outro dia.

- Disparem mais uma vez e vamos a toda velocidade para lá!

Os outros apenas acenaram com a cabeça.

Spencer havia observado o torpedo atingir a nave dos Caçadores. Parecia que eles não estavam preparados para um ataque da nave da Federação.

- Senhor, parece que eles... - Tami foi interrompida antes que completasse a frase pelos solavancos na nave. Outro raio vindo da nave dos Caçadores atingiu a Endeavour.

- Relatório! - indagou Spencer.

- Escudos em 35% mas agüentando. - disse o Alferes no console de segurança. "Estamos conseguindo." Pensou o Capitão.

- Preparem outro torpedo! Disparar ao meu comando. - ordenou o capitão.

O Alferes apertou vários botões rapidamente.

- Torpedo pronto!

- Travar no alvo e... - Spencer interrompeu sua fala, boquiaberto. Na tela principal aparecia a imagem da nave se deslocando para longe da Endeavour. De repente, surgiu nas proximidades da nave alienigéna algo que lembrava um wormhole. A nave desapareceu dentro dele, que em seguida também sumiu dos sensores.

- Mas que diabos foi aquilo?

- Um wormhole, senhor?

Spencer nem respondeu o Alferes da Segurança, se limitando a olhá-lo feio. Retornou sua atenção para a Tenente Adachi.

- Tenente, escudos abaixados, vamos receber nosso grupo avançado.

- Sim, senhor.

Spencer retornou para sua cadeira. Ficou lá sentado, observando a tela que mostrava as estrelas e refletindo sobre os últimos eventos. "Uma raça que domina a tecnologia de wormholes artificiais? Será que teremos como resistir a eles na próxima vez?" A voz da Tenente Adachi interrompeu seus pensamentos.

- Senhor, o grupo avançado já está a bordo.

- Relatório?

- A Alferes T'mir relata que os danos estruturais na nave foram grandes, mas reparáveis. Infelizmente o Alferes Pepe morreu.

Spencer suspirou.

- Muito bem, Tenente. Podemos sair de alerta vermelho. Marque curso para a base estelar mais próxima. Velocidade de cruzeiro. A ponte é sua até T'Gar voltar... Estarei em minha sala. - ordenou Spencer, levantando-se e caminhando para sua sala. Quando chegou lá, caminhou até sua cadeira, e praticamente jogou seu corpo nela.

- Computador, gravar entrada no diário.

Acessando... programa iniciado. 6

- Data estelar 23790206.1954. Parece que nosso conflito com os alienígenas se encerrou com a fuga deles. Infelizmente, dos tripulantes seqüestrados somente conseguimos resgatar o Oficial de Segurança Assistente, Alferes Bannik. Estamos nos dirigindo para a Base 25, onde iremos efetuar reparos. A raça que encontramos pareceu possuir grande conhecimento de tecnologia de viagem estelar, assim como de sistemas de ataque e defesa. Nossas armas pouco surtiram efeito. Talvez tenhamos encontrado mais um povo que não se importa com diplomacia, nem coexistência... apenas a conquista os interessa. Me parece ser mais uma longa jornada a galgarmos... e mais vidas a serem perdidas...

Spencer fez uma pausa.

- Computador, apagar último trecho do diário e gravar.

Processando...

Pode-se ouvir os sons típicos do computador mostrando que a tarefa havia sido completada. Spencer se levantou e saiu do seu escritório a caminho de seus aposentos. Necessitava de um bom banho.