Olá quem chegou até aqui! Está gostando? *-*
Mais curiosidades:: no jogo Guertena é descrito como uma pessoa que não saía de sua casa e todas as suas pinturas eram inspiradas em coisas que ele via de dentro de seu ateliê. Imagino que ele sofra de Agorafobia,transtornos de ansiedade onde ele não conseguia ficar em um lugar aglomerado de pessoas, também com Síndrome de Asperger, um tipo de autismo onde as pessoas que a possuem encaram as coisas de forma muito literal e lógica, situações consideradas comuns para nós vistas como o caos para eles (se estiver falando besteira podem me corrigir). Um filme muito legal que mostra o comportamento do Asperger é "Mary e Max - Uma amizade Diferente" que eu com certeza recomendo!
Novamente, boa leitura!
Parte III
Edelina Wagner chegou ao local em sua carruagem, o outono germânico tão gelado que a obrigou se agasalhar mais do que de costume. Já não sustentava o corado do sol em seu rosto, a pele revelando-se de uma palidez amarelada pelos cuidados nobres os quais agora tinha o privilégio de realizar. A jovem viúva saiu de Munique, onde vivia desde seu casamento, para Colônia, apenas para prestigiar a exposição intitulada de "Morte Individual" por um excêntrico artista chamado Weiss Guertena. Sua fama recente correu por toda Alemanha, o austríaco ganhando notoriedade por toda Europa e a senhora Wagner não deixaria de conhecer as obras de seu conterrâneo, mesmo que todos soubessem que ele não abandonaria sua casa de verão na cidade devido seu comportamento um tanto fora do comum.
Era por esse motivo que Edelina estava lá; a segurança de não poder vê-lo.
- Senhora Wagner, seja bem vinda! - alguém lhe cumprimentou quando apontou na escadaria do salão, logo que vieram em sua direção lhe ajudar com o casaco de peles. - E trouxe milady Mary também!
A menina sorriu e se escondeu atrás da saia da mãe, que pousou a mão sobre sua cabeça, afagando os fios loiros.
- É um prazer, senhor. - e antes que aquele homem se estendesse ela entrou no salão com a pequena Mary aos seus cuidados.
A nostalgia que todos aqueles quadros e esculturas lhe causaram foi tamanha que Edelina sentiu as paredes girarem por um momento. Eram tão familiares e estranhas ao mesmo tempo... Sua pele arrepiava mesmo por debaixo do pesado vestido azul.
- Eu posso andar sozinha pela exposição, mamãe?
Edelina olhou a sua volta. Mesmo sabendo que Weiss não estaria por lá se sentiu incomodada, como se os olhos, orelhas e bocas pintadas em diversas molduras pudessem ouvi-la e sair por aí contando seus segredos. Suspirou e decidiu autorizar, afinal Mary nunca saía ou brincava com outras crianças devido seu problema de arritmia cardíaca.
- Se prometer se comportar e não incomodar os outros convidados... - ela sorriu para a filha e seus olhos azuis faiscaram de alegria.
Caminhou com discrição entre as pessoas, torcendo algumas mechas do longo cabelo loiro entre seus dedos, um sinal de seu nervosismo. Não gostou muito das estátuas chamadas de "Morte Individual", responsável pelo título da exposição, e não conseguiu entender o que significava a coleção dos "Mentirosos". Miou baixinho para "Sua Figura Obscura", com a esperança de que ele a respondesse, não esperando isso acontecer quando seus olhos capturaram uma escultura gigantesca para seus padrões de magnitude. Era uma rosa vermelha, tão alta quanto sua mãe ou ainda maior.
- A Personificação do Espírito... - balbuciou atenta ao título da obra.
- Gostou? - um homem se aproximou, também analisando a obra.
- É meio triste, mas bonita. - respondeu em sua ingenuidade infantil. - Eu gosto.
- Ah é? - ele riu. Crianças pareciam tão puras, ainda não corrompidas pela maldade do mundo.
- Sim! Eu gosto de vermelho! E de rosa, amarelo... - listou contando nos dedos tópicos imaginários. - Ah, e azul! Mas azul é a cor da mamãe...
Antes que pudesse perguntar onde estava a mãe dela, passos apressados ecoaram até onde estavam e Weiss olhou para o responsável pelo ruído que quebrava a harmonia perfeita do clima de sua exposição, a qual ele com muito esforço compareceu.
- Mary? - a voz de Edelina saiu falhada e Guertena sentiu como se o chão tivesse escapado de seus pés.
- Mamãe! - ela correu até a mulher que a essa altura havia se esquecido de repreende-la por se alterar. - Não é verdade que sua cor preferida é azul?
- Claro, querida. - Mary sorriu satisfeita. - Sua... Sua exposição é surpreendente senhor Guertena. - ele curvou a cabeça em agradecimento.
- Obrigado, senhora.
- Como fez a rosa? - a menina apontou alegremente para a estrutura colorida. Edelina estremeceu, queria sair daquele lugar imediatamente.
- Eu a esculpi e finalizei os detalhes com esse instrumento... - se ajoelhando na altura da garota tirou um objeto de seu paletó. - É uma faca de paleta. Pode ficar.
- Acho melhor não. - Edelina interviu, afastando a filha. - É muito afiado para servir como brinquedo de criança.
- Tem razão, me perdoe. – murmurou constrangido.
- Não há pelo que se desculpar. - puxando Mary pela mão ela se afastou mais rápido do que planejava. - Vamos, Mary? Você sabe que doutor Fausto disse que nas suas condições é bom dormir cedo. - a garotinha concordou alegremente, quando Weiss chamou pela senhora Wagner.
- Ela está doente Edelina? – a pequena achou graça. O senhor Guertena conhecia o nome de sua mãe?
- "Edelina"? - ela se voltou feroz. - Senhora Wagner, para você, senhor Guertena! Tenha mais respeito com uma senhora viúva! - alguns olhares se voltaram para eles. - E no que interessa a saúde de minha filha? Você nem mesmo sabe quem é seu pai, não é verdade?
Voltou a caminhar para a saída, a pequena Mary acenando para o pintor, que assistia sua amada mais uma vez ir embora. Ele sentia seus olhos arderem pelas lágrimas, sua visão embaçando a ponto de perder o foco. Edelina sentia o mesmo, mas não se permitira chorar, não na frente de Mary. Parou de repente, quase esbarrando em dois grandes quadros, as duas pinturas se destacando das demais. "A Dama de Amarelo" e "A Dama de Verde". Era sua história eternizada em pinturas, forçando-a se lembrar de um passado doloroso.
Virou seu rosto para trás e o viu a observando mais uma vez hesitante. Era sempre assim afinal de contas: ela virava-se, Weiss continuava onde estava, olhando sem reagir como um menino medroso que se escondia do mundo. Não tardou muito para que após a saída de Edelina o homem fizesse o mesmo, seu impulso comentado como loucura, sua excentricidade escapando mais do que deveria. Saiu correndo desde o salão até sua casa e quando alcançou a rua de paralelepípedos tropeçou e foi ao chão, joelhos e palma da mão ralados. Chorou e soluçou sentindo-se a escória do mundo que tanto julgava inferior, sentindo as palpitações frequentes em seu peito que o obrigou a se acalmar ou logo estaria tendo um infarto. Vomitou o pouco que tinha comido durante o dia, a lembrança da pequena Mary lhe sorrindo tão inocente e alheia ao que foi rejeitada e sua Edelina, sua adorada Edelina que tanto o amou... Doía em seu peito imaginar que ela não o fazia mais e essa dor não era sua doença cardíaca.
O restante da semana ele permaneceu trancado, fazendo do seu quarto um ateliê improvisado. Varou as noites pintando e retocando o olhar de tristeza e mágoa lhe questionando o porquê de suas vidas divididas, quem tentava espiar do lado de fora comentando a genialidade do artista, sem ter ideia do inferno pessoal que ele passava.
Quando terminou o quadro caiu exausto aos seus pés, todos os detalhes do rico bordado do vestido requintado perfeitos, quase reais.
Ela estava perfeita.
Sua dama de azul, depois de tantos anos ganhava lugar entre as outras duas. Sentiu algo crescer dentro de si, talvez coragem ou um pouco mais de insanidade e decidiu fazer daquilo um desafio pessoal: ele iria trazer Edelina de volta, iria resgatar sua vida novamente.
No canto da tela ele assinou, rabiscado em tinta dourada, o marco de seu recomeço:
"Guertena, 1885"
