Caleidoscópio
(Paralamas do Sucesso)

Não é preciso apagar a luz
Eu fecho os olhos e tudo vem
Num caleidoscópio sem lógica

Gina se sentou em frente à lareira, com as chamas azuis em suas costas diminuindo cada vez mais. Estava desesperada, aflita, afoita; mas parecia que tudo isso não existia com a felicidade que se apoderava dela como bolhas de champagne, tomando seu cérebro e embaralhando seus sentidos.

"Vamos lá, se levante e se arrume..." disse para si mesma, levantando e largando a mala em um canto vazio na sala. Arrumou o vestido creme e as mechas do cabelo, sem saber exatamente o motivo; não tinha nenhum plano de sair naquela noite.

Harry não queria ir com ela naquela noite, e ela até compreendia. Na verdade, também ficaria mais um tempo se não fosse o desespero para voltar para casa e colocar o turbilhão de sentimentos em ordem.

Ela se deitou no chão e fechou os olhos, confusa.

Harry ficou em silêncio por um longo tempo.

"Eu te amo." murmurou ele.

Ela o encarou. Estava brincando?

"Te amo, e há dois meses atrás, quando fui embora com aquele avião, também te amava."

Ele conjurou uma rosa vermelha, que ela pegou.

"Mas isso não faz sentido..." disse Gina, confusa.

- E precisa fazer sentido? - disse ele, sorrindo, brincalhão.

Eles ficaram quietos, iluminados pela lua.

"Eu também... te amo..." murmurou Gina, e ele não esperou. A abraçou e eles se beijaram.

Eu quase posso ouvir a tua voz
E sinto tua mão me aliviar
Pela noite a caminho de casa

Quando acordou, ainda estava deitada no chão e a campainha de sua casa tocava sem parar. Obrigou-se a se levantar e foi abrir a porta.

"Bill?" disse ela, sem conseguir se mexer.

"Olá Gi." disse o homem de cabelos castanho-claros encaracolados e olhos azul-celeste. "Foi à algum baile ontem à noite?"

Ela olhou para baixo, arrumando o vestido.

"Fui no casamento do meu irmão, em Londres."

"Hum... nem preciso perguntar como chegou lá." ele olhou para a lareira e piscou. "Poderia entrar? Tenho muito a contar." disse, dando um grande sorriso. Gina sentiu um calor estranho nas mãos; havia se esquecido como gostava do sorriso dele.

"É claro, pode entrar."

Billy entrou no grande apartamento, e ela fechou a porta. Eles se encararam por alguns segundos, e uma faísca de compreensão surgiu entre eles.

"Eu estava com saudade." comentou ela, fazendo ele se sentar em uma poltrona confortável, e ela própria se sentando no sofá.

"Também estava. Com muita saudade, na verdade. Não tinha noção como poderia sentir sua falta." disse ele, sorrindo com sinceridade. Ela sorriu, concordando com a cabeça.

"E como é a Austrália?"

"Um lugar maravilhoso. Fiz tantas coisas, especialmente quando fui para a Nova Zelândia. Trouxe algumas coisas para você..." ele tirou três pacotes de dentro das vestes, dois pequenos e um médio. "Acho que você vai gostar."

Ela abriu um dos pacotes menores, que era uma prancha de surf em miniatura. Com um sorriso, abriu o segundo pacote: dois cordões pretos, um com uma chave e outro com um coração com fechadura.

"Gostei desse..." disse ela, e uma nova faísca de compreensão surgiu entre eles. Ela abriu o coração e encontrou uma foto dele e outra dela. Sorrindo, fechou o coração, colocou a corrente no pescoço e entregou a ele a corrente com a chave. Abriu o último pacote, e encontrou uma bata rosa, diferente das que ela encontraria em Nova York.

Ela se levantou e entrou em seu quarto. Tirou o vestido, e colocou uma calça jeans capri, a bata e uma sandália rosa de salto. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo, tirou a maquiagem já meio borrada e finalmente voltou para a sala.

"Pensei que não ia voltar mais." disse ele, em tom de brincadeira. "Prefiro você assim do que com aquele vestido. Mas agora eu quero que você conte tudo o que aconteceu nesses quatro meses que estive fora."

Ele se sentou ao lado dela no sofá, e ela começou a contar a partir do momento em que ele lhe deu um beijo de despedida no aeroporto e foi embora. Quando terminou a história, que havia chegado na parte do beijo de Harry na noite anterior, já era hora do almoço.

"E então você vai ficar com o tal de Harry?" disse ele, tentando parecer feliz mas sem esconder a pontinha de tristeza.

"Bill, eu não sei... Meu coração quer, minha mente não quer raciocinar e na verdade eu não esperava que você voltasse tão cedo..."

"Eu também não esperava voltar tão cedo para cá, mas como disse não pensei que você faria tanta falta..."

Eles se encararam.

"Quer almoçar?" Gina perguntou.

"Vamos lá no meu apartamento, eu faço alguma coisa para a gente..."

"Certo." os dois se levantaram e saíram do apartamento.

Quem vai pagar as contas deste amor pagão
Te dar a mão
Me trazer a tona pra respirar
Vai chamar meu nome
Vou te escutar

Billy se se sentou à mesa de duas cadeiras. Gina se sentou também, se servindo da macarronada.

"Você sabe, minha especialidade..." disse ele, com um sorriso.

"Macarronada... pois é, eu sei. Quantas vezes vim na sua casa desfrutar dessa maravilha?"

"Muitas. E também aproveitar o café, o jantar, a ceia..."

"Um lanche à meia noite..."

"Claro." ele sorriu mais uma vez, mas dessa vez deixando a confusão predominar seu gesto.

Eles comeram em silêncio. Gina terminou primeiro, e esperou Billy terminar seu prato também.

"O quê você quer fazer agora? Sair talvez?" perguntou Gina, enquanto ele tirava a louça.

"Lavar a louça, talvez." respondeu ele. Ela balançou a cabeça.

"Você não é bruxo, mas eu sou Bill..." ela fez a louça lavar sozinha com a varinha. "Pronto, o quê gostaria de fazer?"

"Sair..." disse ele, bem humorado, e eles saíram do apartamento.

Caminhavam de mãos dadas, mas sem querer, por já estarem acostumados a fazer isso. Gina, na verdade, pensava em Harry mas ao mesmo tempo pensava em Billy, imaginando que se tivesse que escolher nesse momento - se essa fosse realmente uma situação de escolha -, não saberia o que fazer.

"ocê acha que a gente tem alguma chance?" perguntou Billy, olhando para frente. "Chance de ser o que éramos antes de eu ir para a Austrália?"

"Quer discutir a relação?" perguntou ela, sendo levemente irônica.

"Eu quero sim. Quero uma resposta sensata, e sua. Quero conversar."

Eles se sentaram em um banco na frente de uma fonte.

"Chance de ser o que éramos... acho que exatamente o que éramos não é possível. Você mudou, eu mudei, o Harry apareceu na minha vida." começou ela, tomando fôlego. "Mas ao mesmo tempo eu acho você um porto seguro. E sem você, eu não seria nada."

Ele balançou a cabeça, mantendo a mão dela envolvida na dele.

"Uma coisa que eu nunca duvidei é que você é a coisa mais importante que aconteceu comigo, Gina."

"E você também, Billy. Mas quando eu era criança, eu queria o Harry mais do que tudo, e depois disso... eu não sei o quê pensar. Tudo está me deixando confusa..."

Ele a abraçou, deixando com que descansasse em seu ombro.

"Continuaríamos amigos se eu decidisse pelo Harry?"

"Eu não conseguiria brigar com você, mesmo se quisesse."

Me pedindo para apagar a luz
Amanheceu, é hora de dormir
Nesse nosso relógio sem órbita

Harry surgiu na lareira de Gina, e largou a mala do lado da lareira. As chamas azuis foram diminuindo e finalmente se apagaram.

Ele entrou no quarto dela, mas não achou ninguém. A casa estava vazia, porém já passava da meia-noite. Sabendo que ela não era capaz de o trair, resolveu dormir no sofá para esperá-la.

Gina entrou em sua casa, e Billy estava logo atrás dela.

"Meu Deus, ele veio." Gina murmurou para Billy. Saíram devagar, mas mesmo assim Harry acordou.

"Gina! Você está aí..." disse Harry, se levantando e dando de cara com o segundo homem. "Quem é esse?"

"Ah, Harry, esse é Billy, um amigo..." ela respirou fundo "uma pessoa que tem uma grande importância na minha vida e que coincidentemente mora no 4º andar."

"Olá Billy." disse Harry, se levantando e o cumprimentando. "Eu vim ontem a noite, mas você não estava..."

Gina balançou a cabeça, enquanto Billy ia em direção à porta.

"Espere, só vou abrir a porta para ele." disse ela, se retirando.

"Bill... eu..." começou ela, para o homem que agora a encarava visivelmente ressentido.

"Entendo Gina. Eu não teria como competir com ele, nem nada do gênero. Ele é seu sonho, não? Sonho de criança..."

"Sim, mas você foi, é, e sempre será meu sonho de adulta, e a coisa mais importante que eu conquistei aqui em Nova York." ela mexia nervosamente as mãos. "Entenda, não é exatamente culpa minha... Ele só surgiu..."

"Eu estou lá em cima, se precisar de mim."

"Mas Bill... por favor..."

"Até, Gi." ele deu um beijo no rosto dela e fechou a porta. Ela voltou arrasada para a sala.

Harry olhava os porta-retratos em cima da lareira, na maioria fotos de Billy e dos Weasley. Mas a foto que ele olhava era uma de quando eles ainda estavam em Hogwarts. Harry, Rony e Hermione, com 17 anos, abraçavam Gina, com 16.

"Bonita essa foto, não?" comentou ela, enxugando as lágrimas disfarçadamente.

"Linda. Sinto saudade dessa época..." ele se virou para ela, tomando-a nos braços.

"Por que veio tão cedo? Pensei que ia ficar na Toca até Ron e Mione voltarem da lua-de-mel."

"Percebi que agora não posso ficar longe de você."

Ela sorriu, enquanto ele se aproximava para beijá-la.

"Você e o Billy não tem nada, né?" disse ele próximo aos lábios dela.

"Não." respondeu ela, mentindo com cada fibra de seu corpo.

"Mas você dormiu na casa dele."

"Nós estávamos só conversando, e eu acabei dormindo. Nada de mais." disse ela, sabendo que aquilo não era inteiramente uma mentira.

Ele a beijou, e ela acabou esquecendo de tudo.

Se tudo tem que terminar assim
Que pelo menos seja até o fim
Pra gente não ter nunca mais que terminar

Harry olhava algumas fotos da época de Hogwarts. Gina estava sentada do lado dele, o remorso ganhando da felicidade pelo moreno estar ali.

"Você está bem?" perguntou ele, olhando para a mulher em silêncio ao seu lado.

"Sim, você está aqui, não?" disse ela, com a voz fraca.

Pela primeira vez em muito tempo ele não riu nem a olhou com alguma expressão marota. Parecia extremamente enfurecido.

"Isso quer dizer que só porque eu estou aqui você se obriga a ficar feliz?"

"Não, não é isso!" disse ela, assustada. "Não adianta tentar explicar. Nem eu entendo o quê estou sentindo agora. Estou feliz, estou triste, estou tudo..."

Ele afagou carinhosamente os cabelos vermelhos dela.

"Mas eu estou feliz. Você acha que eu esqueci tudo o quê aconteceu com a gente no casamento do Rony?"

Ele sorriu.

"Bem, e você? Veio..." ela fez um gesto nervoso para a mala dele, que descansava do lado da lareira.

"Bem... eu vim, se você deixar, morar aqui."

Ela derrubou o porta retrato que estava segurando, fazendo os Weasley da foto berrarem com o vidro se quebrando.

"Você está falando sério?" exclamou ela, consertando o vidro com a varinha.

"Sim, estou. Você se importaria?"

"Oh! Claro que não, nunca..." disse ela, o abraçando com força. "Vai ser maravilhoso ter você morando aqui."

"Ótimo lindinha. Eu vou buscar o resto das minhas malas."

"Certo."

Eles se beijaram e ele aparatou do sofá mesmo.

Se tudo tem que terminar assim
Que pelo menos seja até o fim
Para a gente não ter nunca mais que terminar

Gina se levantou, e começou a arrumar sua casa. A campainha tocou, e ela largou a varinha que a estava ajudando.

"Bill." murmurou ela, olhando para ele e para as duas malas ao lado. "Onde?..."

"Eu vou voltar para Austrália."

"Por quê? Bill..." ela estendeu a mão direita mas parou no meio do gesto.

"Eu achei que você estava sozinha aqui em Nova York. Por isso que eu saí de lá. Mas agora você tem o Harry e..."

Ela balançou negativamente a cabeça e ele parou.

"Tchau anjo. Até algum dia, talvez."

Ele fechou a porta. Harry aparatou na sala alguns segundos depois e encontrou Gina parada na frente da porta, com a mão direita na maçaneta.

"Gina! O quê foi?"

"Ele... ele foi embora. Austrália. De novo..."

Harry a abraçou, enquanto ela chorava.

"Eu vou preparar o almoço para a gente, fique calma... e nós podemos sair depois... de repente você até vá se despedir dele... se o vôo não sair agora." disse ele a levando para a cozinha.