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Na aula da Susan Boone da terça-feira seguinte aconteceu uma coisa bem estranha: ela não deu nenhuma cuia, nenhum osso, nenhuma fruta para desenharmos, como ela sempre fez. Apenas mandou desenhar o que tinha em nosso coração naquele instante. Meu desenho saiu uma confusão proposital: eu não sabia ao certo o que estava sentindo. Não mesmo. Era uma confusão de sentimentos que eu representei muito bem no papel.

Depois da aula (esse ano eram todas as segundas, terças e quartas-feiras) a Catherine,minha melhor amiga me ligou, já que eu não tinha aparecido na escola, porque o enterro tinha mexido demais comigo, eu não conseguia raciocinar nem nada do gênero.

- Meus pêsames, Sam. Eu não sabia, de verdade. Como você e sua família estão?

- Mal, Cath. Muito mal. Eu não sei ao certo o que estou sentindo. Até o Manet parece triste, só de me ver triste ou algo muito parecido com tristeza.

- Ah, Sam... – ela estava com uma voz bem triste. – Eu não sei o que dizer para você. Talvez não haja o que dizer numa situação dessas.

- É, eu sei. Mas eu não quero ficar nessa fossa. Nos encontramos no parque daqui a 30 minutos? Vou dar um passeio com o Manet, assim nós dois nos animamos um pouquinho.

- Se quiser sair da fossa que está a sua casa, pode vir dormir aqui em casa hoje. Ou então, alugamos um filme, e você só volta depois do jantar. O que acha?

- Alugamos um filme. Até daqui a 30 minutos,Cath.

Foi bem legal a atitude da Catherine de me tirar da fossa que estava a minha casa. Alugamos um filme estrangeiro, super emocionante. Era sobre a I Guerra Mundial, no final tratava de morte também, mas eu não associei tão diretamente com a morte da minha vó. Conversamos bastante, e eu até consegui rir com uma imitação da Cath da Kris Parks, preciso reconhecer que ela tem talento para isso. E devia investir em imitar as pessoas. Assim como eu investi nos desenhos de celebridades (que,por sinal,eu continuo fazendo sem minha mãe ou a Lucy saberem).

- Cath – eu chamei, já na hora de dormir, quando o quarto estava escuro e eu no colchão que estava no chão.

- Fala, Sam. – Catherine estava com voz de sono.

- Hmmm... o que eu faço amanhã? Tipo,quando chegar em casa. Minha mãe ainda vai estar de licença por luto.

- Sam, não há nada para fazer. Sua avó morreu. Ela também está triste e tudo mais. Ela vai se recuperar, você vai ver.

- Eu espero... eu tento não lembrar da minha avó, até porque eu nem tinha muito contato com ela. Mas, quando eu chego em casa e vejo minha mãe, me bate uma tristeza muito grande. Você entende, não?

- Aham... eu lembro de quando minha tia morreu. Ah,foi triste. Também não tínhamos contato com ela. Mas, depois de 2 semanas, todos já estávamos bem melhores.

- Eu espero que seja assim com minha família.

- Eu vou com você na missa de 7º dia, já que o David não vai poder ir.

- Não precisa, Cath... – senti as lágrimas rolarem em meu rosto. E até hoje não sei por quê.

- Eu vou com você. Alguém precisa estar junto.

- Ok, Cath. Obrigada mesmo. Não vai dar, tipo, para consolar minha mãe.

No outro dia, na escola, as coisas foram como sempre foram. Nem deu muito tempo para pensar na minha família. Sabe como é, todas aquelas coisas de sempre. Por exemplo:

Eu tive que defender a Catherine da Kris Parks. Mas eu fui mais delicada do que das outras vezes, já que ela insistia em puxar meu saco ainda por eu ser considerada uma heroína nacional. Mesmo depois de 1 ano.

Meu professor de alemão ainda implicava comigo pelo fato de eu não colocar os substantivos em letra maiúscula. Como se isso fosse mudar em algo a minha vida.

Eu me sentei com todas as outras garotas não-populares da escola, e discutimos superempolgadas sobre a exposição de Van Gogh que vai ter em Nova Iorque daqui a alguns dias.

Mas, em casa, foi super estranho. Porque minha mãe já tinha voltado para o trabalho, segundo a Theresa. E todos estavam, tipo, super normais. Até mesmo a Lucy, que tinha chorado tanto nos últimos dias.

- Sua mãe não quer deixar que a tristeza tome conta dela, Samantha. E isso contagiou a Lucy também – me informou Theresa, no carro, quando foi me levar para o ateliê da Susan Boone.

- Ah,ok. Theresa, será que dá para você vir me buscar tipo, uns 15 minutos depois da aula? Eu ganhei um dinheirinho extra, sabe, então quero dar uma passadinha na Static.

- Como você ganhou esse dinheiro, dona Samantha? – Theresa perguntou, toda desconfiada.

- Ah... eu... vendi um CD meu da Gwen. Não estava mais escutando ele, mesmo. – mas é lógico que eu nunca venderia nada da Gwen. Nadinha mesmo. Muito menos um CD. É é claro que eu sabia que o dinheiro era dos retratos de celebridades.

- Eu finjo que acredito em você, dona Samantha. Agora, desce do carro e vai para a aula, antes que se atrase.

Eu desci e subi para o ateliê. Aquele cheiro de terebintina como sempre me deixava com uma sensação tão boa...o que me faz ter mais vontade ainda de desenhar. Mas, quando eu cheguei lá no estúdio, vi que o David não estava lá, no banquinho do lado do meu, como de costume. E a Susan saiu de trás de um biombo.

- Ok, gente. – e colocou um bonsai na nossa frente. – A tarefa de vocês hoje é apenas desenhar esse bonsai. Vejam, há muitos tons de verde aqui, e eu quero que vocês encontrem todos até o final da aula. Bom desenho! – e foi para trás do biombo de novo.

Eu peguei os lápis de cor mesmo. Giz de cera me incomodava demais e tinta não dava um efeito tão legal como lápis. Eu me concentrei demais naquele desenho. Por vezes parava para ver como estava ficando, mas sempre dando um toque a mais nele. Desenhar um bonsai é mais difícil do que eu imaginei, porque são muitos detalhes. Mas, no final, quando colocamos lá no parapeito da janela, uau! Meu desenho ficou, tipo assim, o melhor de todos os que eu já tinha feito na vida. Ficou idêntico ao bonsai que estava ali em cima da mesinha. E eu me senti bastante orgulhosa quando a Susan foi dar a crítica.

- Sam... realmente, foi um trabalho muito bem feito! Eu vejo todos os tons de verde, vejo uma figura idêntica ao bonsai que está na mesa! Meus parabéns, está excelente! Você está progredindo cada dia mais, minha querida! – ela estava com os olhos arregalados. E não sei por quê.

Eu peguei o meu casaco e desci, estava louca para entrar na Static. Quando cheguei lá, adivinha? Estava tocando Hollaback Girl , a minha música favorita da Gwen!! Quase tive um treco ali mesmo, mas entrei para comprar o cd do Less Than Jake que estava querendo há sééééculos. E me senti realizada quando sai da Static com o CD deles na bolsa. Era tudo o que eu sempre desejei. E, se eu continuar a vender meus desenhos de celebridades, meu lucro vai aumentar. Eu estava pensando nisso, super concentrada quando a Theresa buzina lá da mini van e eu saio correndo para entrar no carro.

- Eu estou parada aqui há 5 minutos, mocinha. Se viessem guinchar a mini van, você que iria pagar!

- Ok, Theresa. Eu já estou aqui.

- Eu sei que está aqui, dona Samantha!! – Theresa estava irritada. – Temos que ir logo, sua mãe vai chegar mais cedo em casa, está voltando do Tribunal.

Quando chegamos em casa, de fato, minha mãe já estava lá.

- Mãe, está bem?

- Sim, Sam. Aliás, o David acabou de ligar avisando que vai passar 4 dias fora da cidade porque vai acompanhar o pai em uma viagem para Nova Iorque.

- Tudo bem. – foi tudo o que eu consegui dizer, já que estava com a boca cheia de biscoito de chocolate.

Peguei minha bolsa e fui para o quarto, ouvir meu cd novo. Só na primeira música já fiquei viajando, dançando (sou daquele tipo que dança muito nada a ver com o ritmo, sabe como é) e tentando acompanhar a música com a letra que estava no encarte. Quando o cd terminou, algum tempo depois, ouvi a Lucy conversar com alguém no telefone, o que me deixava totalmente livre para usar o computador. E foi o que fiz.

Eu sempre entro no MSN, sabe como é, para conversar com amigos virtuais, com a Cath e com o Jack, que esse ano está na faculdade e quase não vem pra cá. E eu gosto de conversar com ele.

Jack diz:

E aí, Sam? Como vão as coisas?

Sam diz:

Bem. Tipo, tirando toda aquela coisa da morte da minha vó, sabe como é.

Jack diz:

É, a lucy me contou.

Sam diz:

Então. É isso. Mas, você tem alguma novidade para me contar?

Jack diz:

Sam, desde que eu entrei aqui na faculdade eu estive pensando bem e... bem, eu cheguei numa conclusão. Isso pode mudar nossas vidas, Sam.

Sam diz:

Uau! E o que é? Para ser "nossas vidas"...

Jack diz:

Sam, é o seguinte. Eu só estou com a Lucy até hoje, para ficar mais perto de você.

Sam diz:

Como assim, Jack? Tipo, isso nem tem nexo. Você e a Lucy se amam, se merecem. O que eu tenho a ver com isso?

Nesse momento, aconteceu uma coisa que eu queria que acontecesse ano passado. Não esse ano. O Jack queria ficar comigo, é isso? Não, isso não, por favor!!! Eu amo o David. Sim, eu estou certa disso. Bastante certa.

Jack diz:
sam, eu te amo. Dá para entender? Eu estou com a Lucy para ficar perto de você. Eu sempre senti isso. Mas nunca tinha me ligado...Sam, larga do David! Fica comigo, Sam!!

Eu estava atônita. Sabe, não tinha muito para fazer. Aliás, eu nem tinha o que fazer. Apenas mandei uma mensagem tosca:

Sam diz:

Jack,eu nem sei o que te dizer.

Foi o meu máximo.

Jack diz:

Sam, fica comigo! Não faça de mim um pobre coitado!

Caramba, o Jack estava implorando pelo meu amor! Não acho isso legal, mas em todo o caso... era fofo. Principalmente vindo de um garoto fofo feito o Jack. E, quando eu me peguei pensando aquilo: meu Merlin! Eu amo o David. E como posso estar pensando uma coisa dessas do Jack?

Sam diz:
Mas eu não posso simplesmente terminar com o David. E eu também não quero te fazer sofrer, Jack. E, me implorando meu amor, nem parece que é você Tem certeza de que está bem?

Jack diz:
estou, Sam. Eu apenas te amo. E quero terminar com Lucy o mais rápido possível. Tem como chamá-la para um papo aqui no MSN?

Demorou para eu processar a informação. Eu estava assustada. Parecia um sonho. Aliás, um pesadelo. Porque eu não sabia o que fazer. Eu estava martelando tudo aquilo na cabeça quando fui chamar a Lucy e depois fui pro quarto. Fiquei pensando durante muito tempo... cara, impossível isso estar acontecendo comigo. Eu sempre gostei muito do Jack. Muito mesmo. Mas, eu estou com o David e eu o amo. Ou será que não? Quando isso me passou pela cabeça, me veio a imagem do Jack. Sempre tão lindo...Mas,e David? Eu o amo. Não dá para negar. Mas, já fazia alguns dias que eu não sentia todo aquele frisson pelo David. E, também, não estava com saudades dele. Será que isso era só passageiro? Jack ou David? David, sem dúvida.

- Saaaam! Telefone para você! – ouvi minha mãe berrar lá de baixo.

- Já vou.

Eu ainda estava atordoada quando ouvi uma voz muito conhecida:
- Oi, minha heroína. – dãh, é lógico que era o David. Para me chamar assim, só ele.

- David?! Oi...hmmm... tudo bem?

- Sim. Eu liguei para avisar que irei ficar por aqui até sábado. E também, para matar a saudade. Como foi a aula de desenho hoje?

- Legal. Desenhamos um bonsai. E...hmmm...sábado eu vou para a missa de 7º dia da minha avó. Esqueceu? A Cath vai comigo, não se preocupe.

- Tudo bem. Agora eu preciso desligar, vou acompanhar meu pai a uma visita ao Central Park. Querem fazer uma entrevista com minha família. Assiste o Jornal da Noite de amanhã. Vai me ver.

- Ok, eu assistirei. Beijos, David. – E fiquei ouvindo aquele "tututu" horrível.

Eu ainda não acreditava que tudo aquilo estava acontecendo justo comigo, Samantha Madison, 16 anos, ruiva, de luto por uma geração, desenhista. Era meio irracional que dois (eu disse dois) garotos estejam apaixonados por mim. E que eu tivesse de escolher apenas um. Mas, parece que eu nunca consigo colocar meus pensamentos em ordem, já que tem sempre alguém da família que me atrapalha. Desta vez foi a Lucy berrando e chorando feito uma louca.

- NÃÃÃÃÃÃÃO...Jack, meu amor... – Lucy estava feito uma daquelas loucas num hospício, alternando fases de puro berro para depois murmurar alguma coisinha bem tosca. – Jack... Jackinho...não me deixe assim meu AMOR!!!!!

- Lucy! – cheguei correndo. Claro, se tratava do Jack. E ela era capaz de se matar por causa dele, tenho certeza. – Lucy, o que aconteceu? – como se eu não soubesse. Mas fiz o máximo para parecer desinformada.

- O... O... O Jack me-me deixou. ELE GOSTA DE VOCÊ, SAM! – e começou a bater a cabeça do chão.

- Lucy!! Pára com isso, ok? Isso não é o fim do mundo, sua tola! – e puxei a cabeça dela para cima, de modo que uma ficou olhando pro olho da outra. Ela tinha os olhos verdes tão mais bonitos do que os meus...

- Sam... ele me deixou. Ele quer ficar com você!!

- Eu sei disso, você já me falou. Agora, será que dá para você se dar o respeito? Vai ficar chorando por causa de garotos? Quem foi que me ensinou a não fazer isso? Você! Garotos não sabem nos dar valor! Quem me ensinou isso? Você!

- Mas agora é diferente...ARRRRGH! EU ME ODEIOOOO! – e recomeçou a bater a cabeça no chão.

- LUCY! – e dei boas bofetadas na cara dela. – Será que dá para parar de drama? Dá?! Que ótimo. Vai lavar esse rosto, vai ao shopping, vai paquerar e vai esquecer o Jack! Eu não perco mais meu tempo com você desse jeito. Não mesmo. – e simplesmente sai andando. Eu não queria ficar resolvendo os problemas dela, ainda mais agora que eu tenho o meu. Não que ele seja assim grande e de importância, como a fome e a miséria na África.

Então, fui no banheiro, já que a Lucy ainda estava em estado de choque para usá-lo para retocar a maquiagem ou simplesmente lavar o rosto. E foi isso o que fiz: lavar o rosto. Fiquei olhando para a minha imagem refletida durante um tempo, tentando entender a coisa toda. Mas eu não conseguia. Por isso resolvi deixar as coisas rolarem. Meu coração não ia se decidir naquele momento, tão atordoado. Ele ia se decidir aos poucos. E eu só tinha que esperar.

- Cath, eu sei lá o que eu vou fazer. Já disse que vou esperar. – Catherine tinha ido me visitar em casa, para pegar a matéria de biologia, já que ela foi embora mais cedo da escola por conta de uma dor de cabeça.

- Mas você sempre quis que ele terminasse com a Lucy para você poder ficar com ele!

- Eu sei, Cath. Mas meu namorado é o David, e eu o amo. – e fiquei com aquela cara pensativa...até porque, eu estava pensando bem no caso.

- Sei, sei... Sam, eu te conheço desde a 3ª série. No fundo, você ainda gosta do Jack.

- Cath, eu já te expliquei no ano passado. Eu nunca amei o Jack. Lembra-se? Eu nunca senti frisson por ele, nem nada do tipo! Meu coração nunca disparou por causa da figura dele. Jamais. Eu amo o David. E não amo o Jack. Está claro demais isso.

- Tudo bem, Sam. Depois não diga que eu não avisei. Aliás, eu preciso ir embora, meu pai hoje vai chegar mais cedo, é o aniversário do meu irmão mais velho.

- Dê os parabéns em meu nome. Até amanhã, Catherine.

E fiquei lá, sozinha. Mais uma vez, tentando entender toda aquela coisa.