Capítulo Três

Sentado naquela cadeira, amarrado, ele não sentia mais dor. Seu corpo entorpecera de tal forma que, as torturas que se seguiam, não lhe faziam sentir nada.

As tiras marrons de couro apertavam seus pulsos, estrangulando-os e cortando-os. O sangue escorria até o chão, sujando o azulejo branco e impecável. Os seus pés, negros de tão sujos, foram pisados fortemente tantas vezes, que ele não imaginava que ainda estavam ali. Tinha vários cortes que sangravam abundantemente, e sempre que outro lhe era infligido, sentia uma fisgada na barriga, mas a dor não aparecia.

Sua cabeça rodava a cada vez que o punho de um dos anjos torturadores lhe batia, mas seu maxilar já não respondia. Seu corpo inteiro parecia ter-se desligado, deixando apenas uma casca vazia. Podiam bater-lhe e cortá-lo o quanto quisessem, destruir seu corpo, mas seu espírito ninguém iria conseguir quebrar.

Seus pensamentos revolucionários – como descrevera Elemiah – o haviam colocado em problema, e o tirariam dali, tinha certeza. Mas agora estava tão cansado! Sua cabeça pendia no pescoço, molemente. Seus olhos azuis esconderam-se daquela feiúra toda, não os abria mais. O sorriso de Omael lhe incomodava profundamente, então ele simplesmente se fechara. Completamente.

De quando em quando, em um intervalo entre uma pisada e outra, entre uma facada e outra, entre um soco forte e outro, Elemiah perguntava-lhe se não era melhor simplesmente desistir daquela ideia de avisar Dean sobre os planos angelicais, e seguir servindo aos Céus.

A cada vez que negava, Omael vinha com mais força. Ele chegara a gargalhar nos primeiros momentos em que Castiel gemia pateticamente. Agora começava a aborrecer-se de novo, por não ter reação nenhuma.

- Castiel? – a voz de Elemiah soou em seus ouvidos – Você desiste agora?

Castiel não conseguia responder. Sua garganta estava ferida pelos gritos, gemidos e resmungos. Sua língua cansara de ser mordida. Sua boca inteira rebelou-se, assim como o resto do corpo, desligando-se de tudo aquilo que lhe acontecia. Nem mesmo seu cérebro parecia disposto a formular uma resposta. Ele só queria dormir. Só isso.

- Acho que já chega por hoje. Ele não sente mais nada.

- Certo. – Castiel sentiu sua cabeça mexer-se de um lado para outro, insensível. A voz de Omael soou novamente – Quê? Só uma saideira.

As tiras que envolviam seus pulsos e pernas foram soltas. Castiel conseguiu sentir a dificuldade em destacá-los do seu corpo. O sangue seco não ajudava em nada, parecia uma cola. Alguém – provavelmente Omael, o mais forte – levantou seu corpo da cadeira, sem cuidado nenhum, virando-o e depositando-o bruscamente no chão.

Cada um de seus irmãos pegou um braço, e saiu arrastando-o pela sala, e através do corredor áspero. Castiel não podia ver, mas tinha certeza que seu sangue ficava para trás, num rastro de horror a ser limpo mais tarde, por outros anjos obedientes. Zacharias ficaria contente se visse a quantidade de sangue derramado. Elemiah e principalmente Omael capricharam na tortura de agora.

O trajeto até a sua cela pareceu mais longo do que o normal. Ele nem soube quanto tempo se passou, antes de ser jogado de qualquer jeito no chão frio e deixado para trás. Ainda ouviu a porta ranger, antes de se deixar afundar completamente pelo torpor.

Ele acordou instantes depois, com alguém passando solução de ervas em seus hematomas, para deixá-los menos feios. Seus ferimentos graves tinham sido curados. Ninguém queria que ele morresse no meio da festa e perdesse toda a diversão, não é mesmo?

Conhecia aquelas mãos suaves, e aprendeu a reconhecer a respiração entrecortada de indignação a cada hematoma novo descoberto. Quis sorrir, mas sua boca protestava fortemente contra isso. Queria abrir os olhos, mas eles estavam pesados demais, sensíveis demais.

- Shh, fique parado, Castiel. – a voz de Lela soou bem próximo ao seu ouvido. – Você está seriamente machucado, precisa de descanso.

Cass tentou passar, via pensamento mesmo, por falta de um instrumento melhor, o quanto sentia por ter desconfiado de Lela aquela tarde. Que não queria magoar-lhe os sentimentos. E que lhe perdoasse e entendesse que sua situação pedia para que desconfiasse de todos.

- Eu sei. Não levei a sério. – ela passou a água em seu braço. Ele podia sentir agora. A dor também voltara, como sempre. Ela tirou o pedaço de trapo que tinha restado de sua camiseta, e soltou um murmúrio de espanto. – Deus! O que eles fizeram com você?

Castiel sentiu a dor em seu estômago puxar-lhe forte do abismo. Ele arregalou os olhos, soltando um grito desesperado, quando ela colocou a mão delicada em cima do ferimento. De longe o mais grave. Fechado, mas deixado ali para lembrar-lhe do que ainda estava por vir.

Lela colocou a mão sobre ele, fechando os olhos brevemente, fazendo uma oração, baixinho, curando o ferimento. Castiel conseguiu respirar de novo, e voltou os olhos em direção ao anjo.

- Obrigado. – ele disse, num fio de voz – Mas você pode se meter em encrenca por isso.

- Pode deixar, eu me cuido. – ela sorriu. Castiel gostou daquele sorriso. Era o primeiro sorriso caloroso que ele via em muito tempo. – Eu invento uma desculpa qualquer.

- Um anjo que mente? Isso eu quero ver.

Ela sorriu mais ainda, um brilho travesso brincando em seus olhos. Castiel tentou imaginar o que ele significava, mas não conseguiu. Estava além de sua compreensão, e não é como se pudesse analisar melhor, com aquele enjoo indo e vindo na boca do seu estômago.

- Aqui. Tome isto. – ela apoiou Cass em seu colo, segurando fortemente sua cabeça e encostando um copo em sua boca. Ela entornou o líquido amargo lentamente, sorrindo diante da careta que o anjo fez ao sentir o gosto. – Eu sei que não é bom, mas vai ajudar no seu enjoo.

- Obrigado, Lela. Você é a única por aqui que não parece querer me estripar toda vez que me vê.

- Só parece? – ela levantou a sobrancelha, divertida, lembrando Castiel imediatamente de Dean. Ela parou de sorrir, os olhos brilhando de curiosidade agora. – Você ainda não me contou sobre ele.

Castiel encarou os olhos verdes, seguindo cada linha acobreada que via dentro daquelas íris, seguindo cada traço que os fazia serem únicos, como nada que Cass já tivesse visto antes. Ele lhe devia isso, depois de todo o cuidado que ela tinha lhe dispensado naquelas horas intermináveis de dor.

Mas como começar a explicar Dean? Como dizer, sem parecer obcecado, que ele tinha um jeito leve e divertido de encarar a vida que atordoava Cass? Como explicar que apesar de tudo o que passaram, ele ainda conseguia sorrir e fazer piada com as situações mais perigosas e estressantes?

Como explicar o sujeito altruísta que era, capaz de abdicar da própria felicidade para que a felicidade do próximo se concretizasse? Como narrar a relação dele com Sam, desde pequeno até agora? Como explicar que, mesmo discordando das atitudes do mais novo, e querendo socá-lo até ver seu sangue, ainda assim ficava ao seu lado, protegendo-o a todo custo?

Como explicar a Lela que Dean Winchester era tudo o que Cass queria ser?

- Um humano, melhor do que um anjo? – ela espantou-se, abrindo levemente a boca – Melhor do que você, Cass?

- Dean é melhor do que qualquer um. Anjos, demônios, deuses. Dean Winchester é um ser único. Eu nunca encontrei exemplo melhor a ser seguido do que ele.

- Parece ser incrível.

- E é. – Cass ficou pensando em Dean. Nas coisas que o vira fazer, nas escolhas difíceis que ele tivera de tomar até agora. Em tudo o que passara no inferno. Castiel ainda se surpreendia com o fato de aquilo não ter mudado Dean drasticamente, que não para melhor. Qualquer outro teria alucinado com tanta dor e angústia.

- Agora entendo finalmente o porquê dessa sua desobediência, Cass. – ela passou o lenço umedecido em sua testa. Aquele tratamento cuidadoso fazia bem a ele. Fechou os olhos, apreciando a leveza dos toques do anjo. – Você o ama, não é?

Cas abriu os olhos. Azuis encararam profundamente os verdes. Ela perguntava se Castiel, um anjo do Senhor, amava Dean Winchester, um humano aparentemente sem nada de especial?

Sim. Com toda a devoção que ele possuía.