CAPÍTULO III

I

Sakura chegou às vinte horas no apartamento de Naruto. Entrou sem que ninguém percebesse e tomou o máximo de cuidado possível para que permanecesse assim. Também fez questão de que seus alunos voltassem para suas casas com inúmeros arranhões. Aliás, percebeu que os movimentos de Soki, apesar de terem sido ensinados por Naruto, carregavam a suavidade e seriedade típicas de Sasuke. Realmente, o bom filho a casa torna.

A Kunoichi pegou o lençol manchado de sangue e o esfregou bastante na lavanderia. Depois, repetiu o passo com o sofá, limpando-o e tomando cuidado para que se secasse o mais rápido possível. Ao ver que, não importasse o esforço, o sofá continuaria molhado por pelo menos doze horas, rendeu-se e se sentou sobre ele. Bufou ao perceber que tinha muita fome. Não sabia se devia esperar por Naruto ou, quem sabe, preparar algo para ambos comerem. Um leve rubor subiu às suas bochechas, imaginando a cara do rapaz ao chegar em casa e vê-la com um belo jantar.

— Haruno Sakura, você não está agindo como normalmente. — Suspirou levantando-se e indo para o banho. Muitas das cenas da noite passada lhe voltaram à mente assim que chegou ao apartamento. Temeu se render ao calor do corpo e explorar mais de sua sexualidade durante o banho. Mas quis esperar por Naruto. Queria ver como ele se sentia após o dia.

Depois do banho, trajando um vestido azul-marinho, curto e casual, Sakura procurou por alguma coisa que pudesse fazer para o jantar. Ao ver que não tinha nada, decidiu ir até sua casa destruída e pegar algumas coisas. Trouxe consigo miso, carne de porco e arroz. Faria onigiri, carne grelhada e sopa de miso. Imaginou se Naruto iria se agradar com a refeição.

Eram dez horas da noite quando o cheiro da carne se espalhava pelo ambiente. Sakura fez questão de fechar todas as janelas e manter somente a luz da cozinha acesa. Poderia facilmente chamar a atenção se descobrissem que havia alguém cozinhando no antigo apartamento de Uzumaki Naruto. Eis que, de forma inesperada, Sakura ouve a voz rouca do dito cujo:

— Sakura-chan, você está cozinhando? — Perguntou o Shinobi, trajando a capa suja e maltrapilha, mas sem a máscara de raposa que trazia tanta excitação à Sakura.

— Claro. Idiota do jeito que é, imaginei que ficaria sem comer o dia todo. — Sakura resmungou, não desejando olhá-lo diretamente. Temeu que ele visse um rubor nas suas bochechas.

Recebeu como resposta um barulho estranho vindo do estômago dele.

— Se liga, isso parece estar delicioso. — Sakura podia jurar que ele estava salivando. — Eu não acredito que vou comer a comida da Sakura-chan.

Sakura sorriu com aquele comentário.

— É mesmo um idiota. Vá tomar um banho para comer, Naruto. — Sakura se deteve ao dar uma boa olhada na testa dele. — Isso aí é um machucado?

Os olhos da Kunoichi faiscaram com uma raiva singela. Na verdade, era só Haruno Sakura demonstrando preocupação. Imaginou Naruto enfrentando dezenas de inimigos sozinho para adquirir aquele machucado.

— Ah, bem. Se liga, eu estava descansando no alto de uma árvore (agora há pouco, na verdade), e acabei pegando num cochilo e caí. Eu não caí de cara no chão, é claro. Só que raspei a testa num galho da árvore e, bem, aí está. — Ele explicou sem jeito.

Sakura queria rir, mas em vez disso aproximou-se dele e lhe deu um bom cascudo. Como nos velhos tempos.

— Não acredito que você consegue ser idiota assim, mesmo hoje em dia. — Colocou a mão sobre a ferida e aplicou um pouco de seu chakra medicinal. Rapidamente se viu a pele se fechando sobre o machucado.

— Ai, Sakura-chan. Obrigado, mas não precisava me bater por isso. — Naruto sorriu sem-graça. Deixou de lado ao contemplar o belo rosto de Sakura, também sorrindo para ele.

— Vá tomar seu banho. Tenho certeza de que está fedendo por baixo dessas roupas. — Ela se voltou para o fogão. — Considere esse jantar um agradecimento pelo café-da-manhã.

Naruto sorriu e entrou para o banho. Não deixou de reparar no quanto Sakura ficava linda com roupas casuais. Aquele vestido, aliás, ressaltava as curvas que tanto lhe enfeitiçavam. Um suspiro deixou seus lábios ao se lembrar da noite anterior. Quis que tais momentos fossem eternos, mas não poderia viver com ela, como um casal, enquanto ainda guardasse aquelas preocupações. Com o conflito que crescia no entorno da Vila da Folha, a volta repentina de Uzumaki Naruto poderia causar uma mudança drástica de eventos. Era melhor que tudo ficasse por baixo dos panos, sob seu controle. Assim, pelo menos, tinha uma ideia de como as coisas viriam a acontecer.

Ao sair do banho, vestindo uma bermuda laranja e uma camiseta preta, viu que Sakura já punha à comida na mesa. As tigelas encontravam-se dispostas, com hashis e tudo o mais. Como eram adultos, Sakura fez questão de servir-lhes um saquê em vez de outra coisa. Naruto suspirou ao ver aquilo. Como dizer a ela que eu não gosto de saquê?. Rapidamente mudou de ideia e foi colocar a toalha para secar. Quando voltou, Sakura já havia servido sua comida.

— Venha logo, idiota. Vai esfriar. — Riu ao ouvir o estômago barulhento de Uzumaki Naruto.

— Obrigado, Sakura-chan! — Ele riu entusiasmado. — Itadakimasu!

A comida de Sakura estava deliciosa. Naruto gostaria de fazer algo para ela, mas seus dotes culinários se resumiam a dois ou três tipos de lamen, no máximo. Sentiu-se mal por não saber como retribuí-la por aquilo. Na verdade, estava tão feliz que mal conseguia conter seu sorriso. Não conseguia impedir a si mesmo de pensar que aquilo era como ter uma família.

— Não precisa ficar tão feliz. Afinal, eu fiz a janta, então você cuida da louça. — Sakura comentou com um tom jocoso.

Naruto fez menção de se engasgar, mas ele já esperava algo do tipo.

— Sakura-chan — resmungou em tom choroso. — Tudo bem. Afinal, se liga, — o comentário que seguiu fez Sakura corar imensamente — estamos juntos nessa, não é?

Havia toda uma cultura em cima de comentários amorosos. Quando ditos fora de contexto, poderiam soar um tanto mal-educados. Mas esse comentário demonstrou tamanha expectativa de Naruto que Sakura quis fazer parte daquilo. Ela quis formar uma família com ele. A verdade é que ambos não sabiam demonstrar esse desejo em palavras; apenas em gestos. Foi assim com o café-da-manhã, foi assim com a janta, seria assim nos dias seguintes, e por aí vai. O curioso era que, apesar de terem feito amor ontem, o amor de fato se manifestava pouco a pouco na convivência. Apesar do breve reencontro, Naruto e Sakura estavam se descobrindo e redescobrindo, tanto na convivência como no amor.

Depois da refeição, Naruto pôs-se a lavar a louça. Não era uma tarefa com a qual se via acostumado, pois dificilmente fazia isso enquanto viveu na Folha, e também não fez quase nada enquanto permaneceu no exílio. A maior parte das refeições eram tidas em bares ou restaurantes (alguns dos quais fugiu sem pagar a conta). Também conseguia refeições como retribuição quando desempenhava o seu papel de pacificador; quase sempre sem ser identificado.

Sua concentração foi quebrada ao ser abraçado por Sakura. O calor do corpo dela tomou-o desprevenido, de modo que, assim que depositou a última tigela no secador, apoiou-se contra a pia e permaneceu lá, imóvel.

— Sentiu minha falta? — Sakura perguntou, sem deixar claro se se referia ao exílio ou somente a esse dia.

— Se liga, claro que sim. — Naruto disse. — Sempre.

O tom sério dele lhe dava arrepios. Era tão diferente e ao mesmo tempo tão ele. Sakura imaginava se ela também tinha mudado desse jeito. Entrelaçou os dedos das mãos, envoltas no corpo dele, e encostou a testa nas suas costas.

— Que bom que não me esqueceu, seu idiota. Senão eu teria ficado sozinha no fim — o olhar de Sakura era sereno.

— Sakura-chan, — Naruto virou-se para ela, por um momento desvencilhando-se do abraço — eu sempre vou amar você. Sempre.

— Não vai mais desaparecer, vai? — Perguntou ela, com os olhos cheios de expectativa.

Naruto fitou a testa dela. Beijou-a suavemente, deixando-o um pouco corada.

— Se liga, eu sempre quis fazer isso. — Sorriu da carranca de Sakura, tímida e corada. — Sua testa é tão bonita que me dá vontade de beijá-la. E não, Sakura-chan. Não vou mais sumir. É uma promessa.

Sakura suspirou aliviada. Lembrou-se dos tempos de criança, quando Naruto, disfarçado de Sasuke, havia lhe dito aquelas mesmas palavras.

— De fato, você pode ter mudado em muita coisa. — Olhou cautelosamente para o corpo dele e para seu rosto mais maduro. — Mas em muitas ainda é o mesmo Naruto-baka de antes. Ainda bem.

E assim, tornou a beijá-lo com a mesma intensidade aprendida na noite anterior. O beijo com língua estava ficando cada vez mais gostoso. Naruto também havia aprendido que ela adorava ser pega pela cintura. Como Sakura era bem leve, era fácil tirá-la do chão com um simples aperto. Ela adorava aquilo. Também amava usar vestidos provocantes, que marcavam bem a sinuosidade de seu corpo. Ah, como Naruto padecia com aquela feminilidade. Aliás, oculta na maioria das ações de Sakura. Era tida como uma brutamontes, insensível e de pavio curto. Contudo, nos gestos mais íntimos, Sakura era feminina e encantadora. Perfumada como a mais bela das flores.

— Ah, Naruto… — Ela gemeu ao sentir os lábios dele em seu pescoço. — Me leva para a cama.

Aquele era um pedido que não se podia recusar. Naruto ergueu-a no colo, encarando seus olhos verdes e brilhantes, refertos de sensualidade e luxúria. Sakura não escondia seu lado devasso quando se tratava dele. Voltou a beijá-lo por uns breves instantes, até que ele começou a caminhar rumo ao quarto. Não se preocuparam em apagar as luzes. Queriam apenas desfrutar o momento.

Ao ser colocada na cama, Sakura ajustou-se de forma confortável e sensual. Uma das alças de seu vestido caiu sobre o ombro, fazendo com que Naruto acompanhasse cada um de seus movimentos completamente bestificado. Eis que sua atenção foi desviada para os pés de Sakura, pegando o direito e depositando beijos ao longo dele. A pele é o maior órgão do corpo humano e, sem dúvidas, um dos mais propensos ao prazer. Sakura começou a sentir o coração acelerar ainda mais à medida em que os beijos de Naruto avançavam pela sua perna. Ah, ele amava aquelas coxas grossas e firmes. Sakura dobrou-a sensualmente, fornecendo um vislumbre máximo de sua beleza. Os beijos de Naruto tornaram-se mais úmidos, mais excitantes e necessitados. Conforme se aproximava do quadril de Sakura, mais excitado ele ficava. Havia algo que ele queria muito experimentar com a boca; e Sakura não pestanejaria em lhe oferecer.

O ajuste final foi feito pela própria Kunoichi. Fez um pequeno esforço com as costas e levantou o quadril, apenas para ajustar o vestido e permitir que sua calcinha fosse vista. Era preta, fina, completamente sexual. Naruto se deteve a olhá-la por um tempo, atraindo um rubor para as bochechas de Sakura. Sem qualquer pudor, beijou-lhe a barriga, descendo aos poucos, até que pudesse sentir o cheiro de sua intimidade. Era forte, um pouco ácido, mas tão atraente como o mel era para abelhas. Sakura fechou os olhos e colocou a mão entre os fios de cabelo rosados, mordendo os lábios com bastante expectativa. A esse vislumbre, contudo, Naruto não teve direito. Estava focado em seu desejo, mais alto do que qualquer outro, e ao passar a língua suavemente sobre o tecido da calcinha de Sakura, decidiu ali mesmo que não teria mais volta.

Puxou a calcinha da Kunoichi até abaixo do joelho, arrancando dela um suspiro exacerbado. Contemplou uma intimidade úmida e desejável, na qual começou a depositar intensas carícias com a língua. Sakura, a princípio, quis evitar todo e qualquer ruído com a voz; mas não demorou muito para que se rendesse aos gemidos de prazer. Naruto queria descobrir aquele novo território. O sexo oral com Sakura era sobretudo magnífico, mais excitante do que havia premeditado (em situações bem íntimas, é importante reputar). Queria ir além, por isso não se deteve a passar a língua: penetrou-a, sentindo os gostos mais intensos que havia por ali. Quis simular os beijos que experimentou com Sakura, com leves chupões e outras carícias, e obteve altos gemidos em resposta. Descobriu-se um amante daquela vertente do sexo, e agora, talvez, estava tão viciado em provar Sakura com a boca que nunca mais ficaria sem aquilo.

— Naruto, — ela chamou entre gemidos e suspiros — use os dedos. Por favor.

Uma nova Sakura, frágil e um pouco submissa, acabava de surgir na cama. Um bom amante deveria satisfazer os desejos de sua companheira, por isso ele a obedeceu sem delongas: tão breve sua língua se encontrava dentro dela, substituiu-a por dois dedos; concentrou os chupões e outras carícias orais na região do clitóris. Os dois movimentos eram constantes, sincronizados e intensos. Sakura amassava o próprio cabelo, e noutra hora, bagunçava a colcha da cama. Abriu as pernas para dar maior liberdade a Naruto, temendo que aquilo se tornasse mais do que um hábito: uma necessidade.

— Meu Deus. Ah… — Abriu os olhos por um instante, vendo o que parecia raios iluminando o teto.

Suas mãos passaram da cama e de seu próprio cabelo para a cabeça de Naruto. Sua respiração e seus gemidos intensificaram de um modo imprevisto, assim como sua umidade. Eis que, num ápice de prazer, Sakura começou a tremer em cima da cama. Naruto envolveu-lhe a intimidade com a boca, recebendo aquela erupção de prazer com bom grado.

— Naruto… — Ela seguiu gemendo, durante alguns segundos.

Não era novidade para Sakura que o orgasmo feminino durava mais tempo que o masculino. Também era mais difícil de se alcançar; mas uma vez atingido, a intensidade era surreal.

Naruto subiu até ela, dando-lhe um beijo com um gosto levemente engraçado.

— Você me vicia, Sakura-chan.

Aquele comentário fora mais do que inesperado. Sakura ruborizou intensamente, levando algum tempo para recuperar a compostura. Era a segunda noite consecutiva em que faziam sexo. Imaginou se as coisas continuariam desse jeito. Na verdade, preferia isso a ter seu relacionamento estagnado; preso a uma rotina constante e chata. É claro que a saudade era um combustível e tanto, e com certeza fariam menos sexo a partir de um tempo, mas o importante não era a quantidade, e sim a qualidade.

Assim que sua respiração voltou ao normal, Sakura selou seus lábios no dele.

— Não fique se achando, idiota. — Estava ofegante, com um sorriso entortando seus lábios.

Naruto beijou-a novamente, dando a ela mais um pouco do próprio sabor. Sakura já havia se acostumado, mas agora queria brincar de revanche. Não conseguia mais segurar sua curiosidade de ver como Naruto era. Assim, tornou a se erguer sobre ele, ajoelhada sobre a cama e imponentemente lhe mordendo o pescoço. Não conseguiu se mover com tanta liberdade, pois sua calcinha ainda estava logo abaixo do joelho. Ainda assim, fez o que pode para provocá-lo. Estava substancialmente mais fácil de fazê-lo, já que Naruto estava tão excitado que mal seria capaz de pronunciar alguma vontade. Sakura era quem o dominava agora; e ele também amava isso.

Tirou a camiseta dele, apreciando o perfeito estado de seus músculos e a cor da sua pele. Era bronzeada e radiante, como o pôr-do-sol. Sakura fê-lo tombar para trás, sentando-se novamente em cima dele, como fez na noite anterior. A calcinha lhe impedia de abrir bem as pernas, e por um momento se viu muito incomodada. Por isso ajoelhou-se, sem deixar que Naruto tirasse os olhos dela, e subiu a peça de roupa de volta à sua posição inicial. Pronto. Agora podia sentar-se livremente sobre ele.

— O que mais Uzumaki Naruto esconde para Haruno Sakura? — Ela perguntou, quase num sussurro, trajando um sorriso repleto de desejo.

O coração de Naruto disparou sob aquelas palavras. Dessa vez, era Sakura quem depositava beijos ao longo de seu pescoço, úmidos e macios… nossa, como os lábios dela eram capazes de enlouquecê-lo. Para Sakura, o mais impressionante era o corpo de seu companheiro. Era tão robusto e sensual, bem diferente do que uma vez imaginou. Na verdade, ela já havia reparado em seus músculos há muito tempo. Desde os 16 Naruto já dispunha de ombros largos, peitoral bem formado, abdome de tanquinho, braços grossos, pele bronzeada etc. Mas naquela época, não queria prender-se àquilo. Encarou o corpo dele por uns segundos, como se refletisse sobre suas escolhas do passado e sobre o agora.

— Como eu pude ter deixado isso de lado por tanto tempo? — Seu pensamento acabou sendo manifestado na voz. Sentiu o corpo de Naruto arquear em resposta, tirando-lhe mais um sorriso.

Podia jurar que ele estava envergonhado com aquele comentário. Sakura não se importou; mordeu-lhe bem na região do umbigo. Se Naruto concentrasse um pouco de chakra, rapidamente o selo da Kyuubi apareceria naquela região. Sakura pensou se aquilo seria um pouco… sensual. Contudo, havia algo mais interessante para explorar. Um feedback, para ser mais exato.

Ela fez movimentos circulares com a língua na região do umbigo. Suas mãos se agarraram ao cós da bermuda, onde uma força bruta empurrou-a para baixo. Naruto, de forma desengonçada, ajudou-a a se despir. Sobrou uma cueca branca, nada mal para os gostos de Sakura. O volume presente sob a peça íntima não era nada modesto. Sakura pensou se aquilo estaria acima ou exatamente na média de tamanho. Nunca procurou informações acerca desse assunto.

Ainda movida pela curiosidade, quis prová-lo sobre a cueca, assim como Naruto havia feito com ela. Sentiu o corpo dele tremer sob o fugaz contato com a língua, mesmo que impedido por uma fina camada de tecido. Um fogo cruel faiscou nos olhos de Sakura, de uma forma que Naruto nunca havia visto. O estômago da Kunoichi pareceu flamejar numa vontade intensa, e sem qualquer pudor arrancou a cueca do Herói.

Sakura queria analisar bem o que lhe era exposto. Era rígido, grande para seus padrões, tão bronzeado quanto o próprio Naruto e com um cheiro intenso de masculinidade. Seu primeiro ato, comedido pela timidez, foi tocá-lo suavemente. Era como conhecer uma coisa nova, então requeria todo tipo de atenção e cuidado. Ao senti-lo pulsando sob o mínimo toque, uma estranha excitação cresceu no âmago de Sakura. Então, envolveu-o com a mão direita e começou a massageá-lo, testando os diferentes limites que Naruto poderia suportar. Pressionou-o com mais força, notando que a respiração de Naruto também se intensificava, e começou a movê-la para cima e para baixo. Quando estudou as diferentes formas de expressão da sexualidade, também estudou a masturbação masculina. Atentou-se à respiração de Naruto, que parecia acelerar a cada movimento, então começou a fazê-lo mais rapidamente. Havia algo de muito excitante em tudo aquilo, e Sakura não mensuraria os métodos necessários para descobrir o que era.

Antes que percebesse, Sakura já utilizava a língua ao redor da glande, sem interromper o movimento com a mão. Naruto arfou incessantemente, fechando os olhos e crispando os lábios, como se temesse soltar qualquer gemido. Suas bochechas estavam coradas, e mesmo que evitasse, alguns ruídos escapavam de seus lábios. Sakura se cansou desse orgulho masculino imbecil. Queria-o ver gemendo livremente, sem que se preocupasse com qualquer coisa. Então, no ápice de sua provocação, parou de masturbá-lo com a mão e envolveu-o completamente com a boca; foi até o fundo, até onde aguentava. Naruto não resistiu e soltou um longo e grave gemido, agarrando a cabeça de Sakura, tentando e não tentando detê-la. Sua confusão foi motivada pela surpresa; e, naturalmente, o prazer foi o que sobressaiu. As mãos que uma vez tentaram detê-la, agora pareciam pedir que ela ficasse ali, ou fizesse mais do que havia proposto. Sakura recebeu aquilo com muito bom grado. Foi levantando a cabeça, aliviando a pressão das mãos de Naruto sobre si, mas repetiu tudo de novo, tentando chegar ainda mais fundo do que antes. Outra vez, Naruto deu um longo e grave gemido. Mas Sakura ainda não estava satisfeita.

Já havia realizado algumas de suas fantasias: perdeu a virgindade numa noite intensa e romântica, viu-o nu em sua completude, e agora provava-o com tudo o que tinha. Queria, sobretudo, que ele demonstrasse o quanto estava amando aquilo. E que queria que ela, e somente ela, fizesse aquelas coisas com ele. Queria vê-lo tão desesperado de desejo por ela que sequer pensaria que existe outra mulher no mundo. Naquele momento, ela foi a pessoa mais egoísta da face da Terra. Mas o amor é, e há quem diga que isso é verdade, a manifestação dos nossos desejos mais egoístas em relação às pessoas que amamos.

Sakura arranhou a perna dele, agora movimentando sua cabeça para cima e para baixo com certa agilidade. Queria certificar-se de que estava úmido o bastante, sentindo-o deslizando e preenchendo a sua boca. Naruto apertou a cabeça dela, como se estivesse relutante pelo que estava por vir. Sakura não se importou, e como se fosse para demonstrar isso, repetiu o movimento de antes: foi até o mais fundo que podia, e permaneceu parada lá por um tempo, envolvendo-o com a língua e até girando um pouco a cabeça. Naruto vibrou intensamente sob esse movimento. Sakura pode senti-lo pulsar, como se estivesse prestes a explodir. Queria isso mais do que qualquer coisa, então ajustou a cabeça numa altura média, que deixasse espaço para ela também utilizar a mão. Fez os dois movimentos juntos e sincronizados, fazendo com que Naruto se retorcesse na cama.

— Sakura-chan… Eu… — Ele gemeu alto.

O Herói apertou firmemente a cabeça de Sakura, e não demorou muito para que o mais longo e mais grave dos gemidos saísse de sua boca. Aquele orgasmo fora intenso, volumoso e longo, e Sakura recebia-o com muito bom grado. Queria ter certeza de que nada sobraria, por isso continuou seus movimentos mesmo enquanto Naruto gozava. Esse gesto fez com que o pobre tremesse, como num ataque de convulsão, debatendo-se futilmente sob a enorme descarga de prazer.

Foi pouco tempo depois que Sakura percebeu que não havia mais nada. Naruto estava arfando, quase sentindo dor pelo excesso de prazer, e ela ainda mal se dizia satisfeita. Como num ímpeto de maldade, continuou-o sugando lentamente até que tirasse a boca dele. Naruto debateu-se mais um pouco, limpando o suor de sua testa. Sakura deu-se por satisfeita ao ver que nada havia sobrado.

Naruto custosamente se levantou, ajustando a bermuda no corpo. Estava muito envergonhado para contemplar a expressão jocosa de Sakura, que parecia divertir-se com tudo o que fora vivenciado. No entanto, não havia muito tempo para discutir. Puderam ouvir, repentinamente, uma batida furiosa na porta.

— Que droga! O que fazemos agora? — Sakura olhou para os lados, reparando que havia muitas luzes acesas. Além disso, olhou para a cama, percebendo como estava bagunçada. Tinha muita coisa fora do lugar.

— Se liga, Sakura-chan. Ninguém pode saber que eu estou aqui! — Naruto resmungou, caindo da cama e se propondo a esconder ali.

— Fique quieto, Naruto. Eu… — Sakura fechou os olhos para pensar em alguma coisa. — Eu acho que sei o que fazer.

Jogou a camisa para Naruto e correu para o banheiro. Fez alguns ajustes no cabelo desgrenhado, jogou água fria no rosto e tentou reorganizar o vestido. Agora teria que despertar a atriz dentro de si. Tentou caminhar calmamente até a porta, onde viu, pelo olho mágico, que o Tsukasa-jii-sama, dono da propriedade, carregava um olhar inquisitivo para dentro do apartamento.

— Boa noite, Tsukasa-jii-sama. — Saudou Sakura, abrindo a porta com um sorriso preocupado.

— Haruno-san? O que faz aqui? — Seu olhar encontrava-se repleto de surpresa.

— Bem… — Sakura suspirou, assumindo um semblante triste e tímido. — É que eu senti um pouco de falta do… Bem… Você sabe.

Tsukasa assentiu com suavidade. Estava comprando toda aquela encenação. Contudo, não sem reparar no quanto Sakura estava estranha.

— Está tudo bem, Haruno-san? Precisa de alguma coisa? — Ele perguntou ternamente.

— Sim, claro. Não preciso de nada. — Ela passou a mão pelo rosto, como se estivesse cansada. Havia um leve rubor nas bochechas.

— Tem certeza? Parece-me que está com febre. Devem haver alguns remédios no armário, deixados pelo próprio Naruto-kun. Se quiser, eu mesmo entro e… — O proprietário foi barrado com um sobressalto.

— Não! Não precisa! Não precisa! — O grito estridente de Sakura assustou ao velho. — Está tudo bem. Na mais perfeita ordem. Eu só precisava ficar aqui um pouco. Entende?

Assim que a respiração da jovem voltou ao normal, Tsukasa deu um suspiro aliviado.

— Tudo bem, então. Já que insiste. — Surgiu um sorriso nos lábios do velho. — Enfim, já que é a senhorita que veio outra vez, tenho certeza de que Naruto-kun não se importaria. Precisando de qualquer coisa me avise!

A simpatia do proprietário tornou Sakura a sentir-se levemente arrependida. Contudo, o outra vez fê-la tremer de súbito.

— Obrigada, Tsukasa-jii-sama. Uma boa-noite ao senhor e à sua família. — Curvou-se numa breve reverência.

Com um sorriso de despedida, o velho Tsukasa deixou a soleira rumo ao seu próprio apartamento. Sakura fechou a porta com muito cuidado, encostando-se sobre ela e suspirando aliviada.

Outra vez? — Perguntou Naruto com um tom jocoso. — Se liga, Sakura-chan, já havia invadido minha casa outras vezes?

Sakura sentiu as bochechas ferverem.

— Ele deve ter se confundido, seu idiota. Eu não faria isso. — Resmungou com um bico.

Naruto passou parte do tempo seguinte dando gargalhadas. Imaginou o quanto a situação era perigosa. Perguntou-se se não seria melhor ter ficado no apartamento de Sakura, mas, afinal, isso não tinha mais importância. Os dois estavam juntos, no fim das contas.

— Então, quais são os planos para amanhã? — Sakura perguntou, caminhando lentamente para a cozinha, ainda envergonhada.

— Se liga, eu não acho que preciso sair amanhã. Já obtive muitas informações por hoje, então está tudo bem. Resta saber o que Shikamaru e Kakashi-sensei farão a seguir. — Essa fala despertou a curiosidade de Sakura.

— O que você descobriu? — Perguntou depois de beber dois goles de água. Seu coração ainda estava disparado.

— Que Orochimaru não reuniu um grupo pequeno, afinal. Isso não era surpresa, mas saber que ele está pronto para uma guerra já é um salto e tanto. — Naruto suspirou, notando a expressão preocupada de Sakura. — Não se preocupe, Sakura-chan. Tudo vai ficar bem.

Sakura assentiu com certo remorso.

— Não é com você que fico preocupada, seu idiota.

— Eu sei. Mas eu também me referia a Soki. — Sakura olhou-o com ternura. — Não vou permitir que nada lhe aconteça. É uma promessa.

— Que bom que você não mudou em algumas coisas, seu idiota. — Sakura deu um grande suspiro e o abraçou. Colocou tanta força quanto pode, como se para acreditar novamente que ele havia voltado. — Amanhã é seu dia de folga, então? Que curioso, porque também é o meu.

— Eu sei. Se liga, eu perguntei para o Kakashi-sensei. — Naruto retribuiu o abraço de Sakura.

A Kunoichi corou sob a expectativa.

— Então… O que você pretende fazer amanhã? — Sakura não teve coragem de encará-lo.

— Se liga, eu queria saber se… — Naruto estava muito corado. Seu coração quase tão disparado quando esteve há poucos minutos. — Se você não quer ir a um encontro comigo.

Sakura assentiu com cuidado. Lembrou-se de seus tempos de criança e adolescentes, onde o recursou tantas vezes quanto fosse possível. Curiosamente, cá estava ele lhe fazendo a mesma oferta. Mais maduro, mais forte (mais forte do que qualquer um, aliás), e ainda assim, ele. Sakura perguntou-se o que fez para merecer um amor tão dedicado, antes que ela mesma se lembrasse do quão dedicado havia sido para Sasuke. Notou que é uma coisa idiota mensurar o amor, principalmente quando ele surge sem razão alguma. Cá estava ela, nos braços de Naruto, e assim queria ficar para sempre.

— Eu aceito. — Ela murmurou, logo pigarreou e disse: — Só que é por sua conta.

Naruto gargalhou.

— Se liga, eu não tenho nenhuma grana. Mas eu quero te levar para algum lugar onde não precisaremos de dinheiro. E eu quero muito que você goste do passeio. — Sakura corou com aquele comentário. Aliás, não esperava que Naruto tivesse dinheiro consigo. Esteve tantos anos afastado da sociedade, afinal.

Depois daquele susto, os dois não sentiram mais vontade de fazer sexo. Já tinham atingido o ápice, de qualquer forma, e a nova descoberta havia sido por demais satisfatória. Conversaram mais um pouco antes de dormirem.

II

Contudo, Kakashi e Shikamaru permaneceram trabalhando até tarde da noite. Kakashi folheava e analisava os relatórios trazidos por Naruto. Claro, Shikamaru não havia se encontrado diretamente com o velho amigo, apenas deduzira brilhantemente que toda aquela informação só poderia vir dele.

— Então, toda a busca que fizemos no País do Som foi inútil. Era óbvio que Orochimaru não voltaria para lá. Mesmo Kabuto-san não tinha esperanças de que isso acontecesse. — Kakashi murmurou, massageando o próprio pescoço.

— O problema não é encontrar Orochimaru, mas saber o tamanho da sua força atualmente. — Shikamaru suspirou, batendo a ponta da caneta sobre o papel à sua frente. — Alguma hora ele certamente virá para cá. Disso nós temos certeza. O problema é estarmos devidamente preparados.

Kakashi olhou para o teto. Queria ter certeza de que a força da Folha não poderia ser vencida. Mas as palavras de Tsunade ficavam presas à sua mente, como uma lembrança cruel de que a segurança é a armadilha para os fracos.

— Shikamaru-kun, Naruto não buscará mais informações amanhã. Creio que já tenhamos o bastante para movermos nossas próprias forças. Avise Sai para infiltrar a ANBU no País dos Rios e na fronteira norte do País do Arroz. Segundo o que obtivemos, é por ali que as forças vêm se unindo em frentes distintas. — Kakashi murmurou. — Que tipo de Shinobi Orochimaru deve ter treinado nesses 13 anos?

— Isso é mesmo preocupante. Fiquei sabendo que Jiraiya-sama gastou muito menos do que isso para treinar Pain. E olha só o estrago. — O brilhante Jounin riu de forma sarcástica. — Esses Sannin e suas habilidades fora do comum. Que problemático.

Kakashi concordou com o auxiliar.

— Sobre a defesa, você conseguiu planejar algo? — Kakashi olhou-o de canto.

— Bem, desde o último ataque, toda a informação que colhemos mostra que Orochimaru é excepcional em disfarces. Todos os nossos ninjas de elite já possuem códigos exclusivos que validam sua afiliação. São códigos simples, como respostas para caça-palavras ou funções matemáticas aleatórias. — Shikamaru mostrou dois livros: um de cálculo e outro de caça-palavras. — Os livros de matemática são muito específicos e não tratam da função que escolhemos. Duvido que Orochimaru consiga alguma informação vinda daqui. Já o caça-palavras é um exemplar que ainda não se encontra no mercado.

— Entendo, mesmo se ele quisesse não conseguiria encontrar as respostas. Afinal, por que alguém contrabandearia um caça-palavras? Além de que encontrar uma função matemática tão específica seria mais custoso do que encontrar uma estrela no universo, analisando todas… uma por uma. Certo. Assumo que as invasões internas são nossa última preocupação. — Kakashi continuou tamborilando os dedos nervosamente sobre a mesa.

— O treinamento foi bem simples, na verdade. — Shikamaru sorriu orgulhoso. — Simplesmente dei a eles qual era a função que deveriam avaliar e qual o intervalo analisado. Qualquer resposta dentro do intervalo é, automaticamente, uma resposta correta. Já o caça-palavras é um conjunto de quatro posições, abcissas e ordenadas, que devem ser dadas para localizar quatro palavras distintas em páginas aleatórias do livro. São duas perguntas diferentes, às quais cada um deve responder com as assertivas possíveis. "Qual foi a função que o Hokage-sama lhe deu? Um ou dois ou três ou quatro?" é o mesmo que "Qual o valor da função para x = 1,25 ou x = 2,45 ou x = 7,84 oux = 6,22?". A outra pergunta é "Ei?/ Tudo bem?/ Tudo bem com você?/ Está tudo bem por aqui?", cada uma das frases representa qual o identificador, mais precisamente o número, da palavra no caça-palavras cujas coordenadas devem ser informadas. Naturalmente, a quantidade de palavras que compõe a pergunta é o identificador desejado. As palavras, de 1 a 4, foram selecionadas aleatoriamente no livro. Portanto, não se encontram em nenhuma ordem específica.

— Não achou isso um tanto complicado? — Kakashi tossiu um pouco. Só pensar em decorar tudo aquilo lhe dava preguiça.

— Não se preocupe, Hokage-sama. — Shikamaru continuou sorrindo. — Pode parecer complicado, mas a verdade é que é bem simples decorar tudo isso. Aliás, é um código bem difícil de ser quebrado.

Que complicado. — Kakashi disse antes de rir. Shikamaru sentiu-se um pouco ofendido.

O Hokage brincou com o chapéu em cima da mesa. Havia outras tantas questões a serem tratadas.

— E as crianças, civis e outros Shinobi? Quero dizer, os que permanecerão na Vila o tempo todo? — Perguntou, como se o assunto tivesse brotado em sua mente várias vezes.

Shikamaru pareceu um pouco preocupado. Não uma preocupação do tipo "não conseguimos resolver o problema", mas uma daquelas "vai ser bastante trabalhoso".

— Yamato-san está distribuindo suas pílulas todo dia na rede de água da Vila da Folha. — Kakashi arregalou os olhos. — Desculpe-me, mas tivemos que tomar medidas rápidas para garantir a efetividade.

— E pretendiam me avisar sobre isso quando? — O Hokage parecia mais surpreso do que preocupado.

— Pretendíamos avisar quando desse certo. Foi um tanto problemático, — Shikamaru crispou os lábios sob o som de sua frase emblemática — mas deu tudo certo. Conseguimos rastrear qualquer cidadão da Folha no período de 24 horas. Só precisamos fazer isso todos os dias.

Kakashi pensou se aquela solução não parecia um tanto custosa. Contudo, como o próprio Shikamaru disse, a efetividade viria antes da comodidade.

— Bem, foi um tanto trabalhoso, mas parece que está indo tudo bem. O seu sistema de códigos parece bastante robusto quanto a infiltrações. Aliás, posso dizer que é um tanto estranho. As respostas me parecem muito simples. A função, por exemplo, se por acaso o indivíduo responder corretamente para a pergunta "Qual a função que o Hokage-sama lhe deu? Um?", que, pelo que vejo da formulação matemática, obviamente a resposta é dois, trata-se de uma solução bem simples. — Kakashi juntou as mãos em cima da mesa, indagando de forma perspicaz um problema sobre o qual Shikamaru já havia meditado.

— Perdão, Hokage-sama. Eu lhe disse que essa pergunta é equivalente a "Qual o valor da função para x = 1,25 ou x= 2,45 ou x = 7,84 oux = 6,22?", mas não é a avaliação da função que importa. — Kakashi deu um riso. — O indivíduo deve responder x, não f(x). Lembre-se: eu disse que a assertiva deve ser dada no intervalo indicado.

Kakashi deu um leve sorriso.

— Boa. Muito interessante. O que importa não é a resposta, mas a pergunta. — Kakashi permaneceu assentindo por um tempo. — Desse modo, o caminho é tortuoso. Mas fica fácil à medida que o indivíduo associa a pergunta à própria pergunta. Se alguém porventura ler através do código, pode se perder facilmente e acabar focando na função (o que, por si só, já é muito difícil). Brilhante dedução, Shikamaru. — O jovem Jounin acenou orgulhoso.

— Bem, devo dizer que não foi tudo responsabilidade minha. Eu me inspirei bastante no livro que Kurotsuki lia, sobre criptografia. É uma arte bem interessante. Creio que podemos investir em Shinobi dessa categoria na Folha. — Kakashi sorriu ao se lembrar do excepcional Exame Chuunin desempenhado por Nara Kurotsuki.

— De fato, Shikamaru-kun. Mas eu já estou velho demais para esse cargo. Veja só: estou por volta dos 40, mas tenho rugas debaixo dos olhos. Isso não é coisa para minha idade. — Kakashi deu um leve sorriso. — O que mais pretendo é me aposentar; e estou bastante satisfeito ao dizer que isso está bem próximo de acontecer.

Shikamaru também sorriu.

— Não me leve a mal, Kakashi-sensei, mas eu também estou esperando que isso aconteça. — O brilhante Jounin fazia o uso dos honoríficos mais comuns quando a conversa atingia um cunho mais informal.

Kakashi era, afinal, um dos velhos professores dos times novatos. Era da mesma época em que o antigo time Ino-Shika-Cho havia se formado. Agora esse mesmo time, integrado pela filha de Shikamaru e Temari, o filho de Ino e Sai e o filho de Chouji e Ohara (uma moça muito, mas muito magra), era tutelado por Hyuuga Hinata. Considerando a nova seleção de professores: Haruno Sakura, Sarutobi Konohamaru, Akimichi Chouji, Yamanaka Ino e Aburame Shino, Hinata era um anjo na Terra. Todos diziam o quanto seus professores eram excêntricos; mas Hinata era um doce. Shikamaru agradeceu em silêncio por ter sido ela a professora de sua filha. Rock Lee estava ocupado treinando a Divisão da Lótus, um grupo de Shinobi que não conseguiam transformar o chakra em Ninjutsu; e Kiba e Tenten haviam se tornado membros da ANBU. Sai era o novo líder da Raiz.

— Vá para sua família, Shikamaru-kun. Vocẽ merece um bom descanso. — Kakashi sorriu sob a máscara.

Shikamaru assentiu.

— Sim, Hokage-sama. Boa noite.

Kakashi levantou-se com um cansaço estrondoso. Com muita frequência se sentia assim, principalmente nos últimos anos. O cargo de Hokage lhe tirava muitas liberdades, como as aventuras, o contato íntimo com as pessoas, a possibilidade de formar uma família, entre outros. No entanto, quando ele se via sem a a capa e o chapéu, voltava a ser simplesmente o Hatake Kakashi, filho do Canino Branco da Folha. Suspirou ao deixar a vestimenta em cima da mesa, o que certamente traria uma censura de Shizune no dia seguinte. Mas Kakashi não se importava; precisava muito ver duas pessoas neste momento.

Caminhou pela Avenida Principal da Folha, atraindo a atenção de muitas pessoas, como de costume. Todos o saudavam com bastante respeito. "Hokage-sama! Boa noite!", "Bom trabalho, Hokage-sama", e outras coisas do tipo. Kakashi podia jurar que seu turno de trabalho durava muito mais do que o de qualquer um. Foi para leste e depois para sul, onde encontrou uma casa grande, bem pouco modesta. Era a mansão de um dos grandes heróis de guerra, um daqueles que são esquecidos das honrarias do povo, mas lembrados com grande significância política. Não que o indivíduo em questão se importasse com isso, pois suas ações eram motivadas especialmente pela juventude. Mesmo que perdesse a vida numa guerra, se os jovens pudessem seguir em frente, então ele estaria feliz.

— Ô de casa! — Chamou Kakashi no portão. Carregava o mesmo tom monótono de antes.

A porta se abriu e saiu de lá uma bela moça. Não era quem Kakashi esperava (na verdade, havia se esquecido de que ela estava morando com ele).

— Hokage-sama, é uma honra recebê-lo. — Disse polidamente, correndo para abrir o enorme portão de ferro.

— Não se preocupe, Mayuri-san. O seu marido está bem? — Perguntou com um sorriso.

— Oh, ele está esplendoroso. Com aquela mesma energia, se me permite dizer. — Mayuri corou.

Era uma moça alta, com seios fartos, pele bronzeada e fios de cabelo tão negros quanto ônix. Fora uma Kunoichi da Vila da Pedra, que abandonou seu lar para se juntar àquele que admirava.

— Tsunade-sama veio para a sessão de fisioterapia. — Ela disse enquanto abria a porta da mansão.

— Oh, é sério? Que pessoa importante ele tem como médica particular, não? — Mayuri riu do comentário.

Kakashi caminhou ao longo de um amplo corredor, completamente iluminado e enfeitado do chão ao teto. Havia lustres em toda a extensão da casa, com armaduras de Samurai do País do Ferro enfeitando pilastras e outros cantos. Ao final do corredor, havia uma armadura de ouro, prostrada ante a uma grande espada de ferro. Já na metade do corredor, Kakashi podia ouvir os gemidos de dor daquela pessoa.

— Oi, oi, é assim que um homem deveria se comportar na fisioterapia? Até mesmo um herói de guerra como você, Gai? — Kakashi apareceu.

— Oh, Kakashi! Você veio! — O homem sacudiu a cabeça com grande felicidade, embora logo tenha derrubado uma lágrima quando Tsunade empurrou novamente a sua perna. — Ai, meu Deus! Que dor! Que dor!

Kakashi riu. Não gostava de vê-lo numa cadeira de rodas; mas ficou muito feliz ao saber que certas coisas ainda funcionavam.

— Papai, está tudo bem com você? — O menino astuto, de quatro anos, perguntava com dificuldade.

— Ora, Sakumo-kun. Não se preocupe comigo, he, he. — Gai riu de forma excêntrica. O filho, com um estilo de cabelo similar ao dele, olhou-o com admiração. — Essa é apenas uma fase do meu teste para a juventude eterna! Ai… Meu Deus!

— Juventude? — Tsunade riu. Se alguém poderia falar sobre juventude eterna, provavelmente essa pessoa seria ela. — Você ainda fala coisas engraçadas, Maito Gai.

— Tsunade-sama, isso é doloroso. Doloroso. — Gai chorava.

— Papai, você vai ficar bem? — O pequenino Sakumo correu para perto do pai, apertando-lhe a mão com força. — Tome, papai. Pode pegar um pouco da minha juventude para você.

Kakashi emocionou-se com a cena. Imaginou-se tendo uma família, vendo seu filho agindo dessa mesma forma. Se bem que, caso tivesse mesmo uma criança, provavelmente ela seria tão desagradável quanto o pai. Decidiu que, ao menos por enquanto, tudo estava bem daquele jeito.

— Obrigado, meu amado filho. — Gai respondeu com os olhos marejados. — Mas o papai deve aproveitar a juventude dele. Você deve cuidar da sua, que em breve vai florescer mais do que a de qualquer um.

O pequeno Sakumo sorriu e acenou com veemência. Logo aparecia Mayuri, com o mesmo sorriso polido de antes.

— Vamos, Sakumo-kun. O papai precisa terminar sua fisioterapia. Vamos ajudar a mamãe com o jantar. — Disse, quando educadamente arrastou o garoto para fora do salão.

— Até mais, papai. Lute com bastante força! — Rugiu o pequenino herói.

Gai tentou não gemer de dor durante o restante da sessão.

— Você criou uma peça rara à sua imagem, Gai. — Kakashi murmurou com a voz grave.

— Não adianta se admirar pela minha família agora, Kakashi. — O pobre homem gaguejou devido à dor. — Nós apostamos quem ia conseguir uma mulher primeiro. Você estava tão confiante em possuir duas pernas, que acabou se esquecendo de que sou muito bom de correr com as mãos. Quando deu por si, eu já estava no topo do monte Hokage, e você ainda estava na entrada da Vila. — Tsunade apertou sua perna com força. — Ai, meu Deus! Por que dói tanto assim? Por quê?

— Porque as extremidades do seu corpo ainda estão destruídas, Gai. Céus. É um milagre que ao menos esteja vivo. E ainda por cima teve um filho. — Como ele conseguiu nessas condições?, esse último pensamento Tsunade manteve em silêncio.

— Há males que vêm para o bem. Com o dinheiro que ganhou do seguro Shinobi foi possível adquirir um monte de coisas. Olha só essa casa, por exemplo. — Kakashi passou o olho por todo o salão.

Gai produziu uma risada maléfica.

— Kakashi, seu tolo. Sabe muito bem que essa casa é só uma fachada. O ilustríssimo eu não se entrega às armadilhas do luxo. Sou apenas um milionário feliz que investe perdidamente nos Shinobi que, assim como Lee e eu, não podem transformar chakra em Ninjutsu. — Gai soltou uma gargalhada. — Estamos mudando o mundo!

— É, eu sei. E foi uma das melhores coisas que a Aliança Shinobi propiciou. — Kakashi ajoelhou-se perto de Tsunade e Gai. — Preciso que faça um favor para mim, Gai.

A Quinta Hokage largou a perna direita da Fera da Juventude da Folha. Olhou para os dois com bastante atenção.

— Tem algo a ver com interromper o intercâmbio dos alunos da Divisão de Lótus pelos próximos dias, certo? — Gai suspirou. — Tudo bem. Eu imaginei que isso seria necessário.

— Tudo tem que parecer o mais natural possível. Nenhuma notícia desnecessária pode escapar. — Kakashi franziu o cenho, apresentando uma preocupação pesarosa.

— Eu entendo, eu entendo. Na verdade, sinto-me honrado que o Hokage-sama tenha vindo me dar esse aviso em pessoa. Ainda mais tão tarde. — Gai olhou para o relógio. — Sério, isso são horas de estar trabalhando, Kakashi?

Tsunade sorriu.

— Hoje até que terminou cedo, não foi? — Disse com um tom desgostoso.

— É, pode-se dizer que sim. Mas eu não vim aqui somente para dar essa notícia. Senti falta do meu antigo rival. — Kakashi fechou o olho enquanto dispôs seu novo sorriso.

— Oh, esse sim é um bom sentimento. Mayuri-chan, traga saquê para nós, por favor. Sirva-se, também. Temos uma boa prosa para colocar em dia!

— Sim, querido. — Mayuri respondeu do quarto. Aparentemente, o pequeno Sakumo havia caído no sono.

Os quatro beberam saquê por pelo menos uma hora e meia. Kakashi falou sobre os grupos de revoltosos que surgiram ao longo do País do Fogo e nas terras além. A situação do País do Ferro era um pouco mais dramática, pois muitos entre os Samurai foram enlouquecidos pela Árvore. Mifune travava uma árdua luta, todos os dias, contra esses problemas. Gaara e Darui investiram em programas avançados de estudos de psicologia, dos quais muitos Yamanaka faziam parte. Ainda assim, dizia-se que a influência da Árvore superava a mente. Kakashi supôs que havia uma ligação com a transformação dos corpos em Zetsu após certo tempo. Contudo, não chegaram a uma conclusão precisa. A sorte é que as coisas pareciam ir bem: os grupos estavam contidos, não havia pobreza nem fome, as guerras cessaram desde a última ocorrência, e a única ameaça plausível era o ataque de Orochimaru à Vila da Folha. O problema era o preparo contra o tempo: o ataque ia ocorrer, só não se sabia quando. Os gastos com a segurança iam aumentar substancialmente nesse tempo, o que porventura ia requerer mais missões para balancear as finanças. Contudo, as missões mais numerosas eram as de Rank D, destinada somente aos times de Genin, liderados por professores Jounin ou um Chuunin recém-graduado. Sendo assim, pela ordem instaurada de não fornecer missões Rank D fora da Vila, a fim de evitar o vazamento de quaisquer informações ou a captura de Shinobi mais fracos, uma grande parte das missões não seriam realizadas em uma data prevista. Kakashi suspirou preocupado. O impacto financeiro certamente seria alto, pois mesmo missões Rank S, que geravam uma alta aquisição, estavam muito pouco numerosas nos dias de hoje.

— Ser Shinobi é muito difícil. — Disse Gai. — Ser Hokage deve ser ainda pior, não é? Porque você tem responsabilidade sobre tudo isso. Sobre o emprego das pessoas, sobre a comida na nossa mesa, sobre nossas vidas, etc. e tal. Imagino que esteja sendo muito difícil, Kakashi, mas você sabe que está prestes a acabar. Logo alguém mais jovem irá lhe suceder, e com isso tempos ainda melhores virão. — Gai bebeu mais um pouco de saquê, já apresentando as bochechas ruborizadas. — Assim como eu dei tudo de mim para que a juventude florescesse, você deu tudo de si para que a Vila prosperasse. Cumpriu bem o seu papel, não foi?

— Não diga coisas assim, Gai. Kakashi vai ficar emocionado. — Tsunade sorriu. — Como sua conselheira, devo dizer que fez um excelente trabalho. Nunca se viu essa Vila tão rica em toda sua existência. Não se preocupe com os problemas, pois é para isso que o preparo existe. Não fosse pelos doze anos de sua administração, não poderíamos manter essa segurança invisível sobre nossos cidadãos.

— Acho que o preço a se pagar será muito amargo para o meu sucessor. — Kakashi suspirou. — Vou deixar um rombo financeiro para ele tratar.

— Ora, não se preocupe. Seja lá quem for, tenho certeza de que estará preparado para isso. — Gai rugiu com bastante confiança. — Agora vá, meu velho rival. Vá descansar esses olhos cansados. Você não parece mais o mesmo.

— Vou aproveitar a deixa para me retirar, também. Muito obrigada pela recepção, Gai e Mayuri-san. — Tsunade cumprimentou docemente à mulher. — Continuem o excelente trabalho.

— Nós é que lhe devemos agradecimentos, Tsunade-sama. Por favor, não deixe de aparecer. — Mayuri curvou-se numa breve reverência. — E obrigada por vir, também, Hokage-sama. Esperamos recebê-lo outras vezes.

Kakashi saudou-os com bastante educação. Observar o sorriso confiante de Gai, mesmo ele estando preso a uma cadeira de rodas, era um impacto necessário para se colocar em movimento. Tsunade colocou o manto verde, estampado com kake, ao redor do corpo. Contudo, era muito difícil esconder os seios volumosos. Deram um novo adeus aos donos da casa e se embrumaram na noite fria.

— Kakashi, posso lhe fazer uma pergunta? — Tsunade suspirou após alguns minutos de caminhada.

— Sim, Tsunade-sama. Por favor. — Ele respondeu sem encará-la.

— Por acaso, compareceu aqui por medo de que Orochimaru tentasse seduzir Gai, quero dizer, com propostas sobre voltar a andar e coisas do tipo? — A voz dela era grave, com um sincero alerta de preocupação.

Kakashi ponderou algum tempo.

— De forma alguma. Se Gai recebesse uma oferta dessas, ele certamente tentaria matar Orochimaru. Minha preocupação seria com a vida dele, não com uma possível sedução. — A voz do Hokage era grave e temerosa.

— Compreendo. Faz sentido o que você disse. — Tsunade deu um longo suspiro.

— Apenas quis ver um velho amigo. Às vezes imagino se algo trágico acompanha o cargo de Hokage, Tsunade-sama. Talvez você seja a pessoa mais indicada para me dizer. — Kakashi vacilou na última frase.

— Quer dizer em que aspecto? Ah, pode-se dizer que cada um com suas tragédias. O Primeiro matou o melhor amigo. O Segundo morreu numa emboscada fatal. O Terceiro foi assassinado pelo estudante prodígio (que, pelo visto, não toma jeito na vida). O Quarto perdeu a esposa e a própria vida no ataque da Kyuubi (aliás, esta crise foi provocada pela Akatsuki, não foi?). Eu perdi muitas coisas, antes e depois de ser Hokage. Meu maior arrependimento foi a morte de Jiraiya. — Tsunade deu um longo suspiro. — Por que a apreensão?

Kakashi se perguntou se deveria mesmo conversar sobre esse tipo de coisa. Decidiu que não havia problema, afinal ambos estavam levemente entorpecidos pelo saquê.

— Quando eu vejo Gai casado, com um filho e uma vida normal, apesar de todas as dificuldades, sinto um pouco de inveja. — Disse com uma pitada de vergonha.

— Não seja estúpido, Kakashi. Não é o cargo de Hokage que traz a solidão. Você já era assim antes de assumi-lo, não é verdade? — O Hokage concordou com um sorriso tímido. — Ora, eu também era azarada com apostas antes de me tornar a Quinta. Não é o cargo que faz a pessoa, é a pessoa que faz o cargo. Tenho certeza de que Naruto ficará bem. Não precisa se preocupar com ele.

Kakashi se deteve por um passo, mas logo retomou a caminhada.

— Realmente, não há nada que escape dos mais sábios. — Tsunade riu com esse comentário.

— Logo será você que ocupará esse patamar. Está pronto para isso? — A mulher com aparência jovial encarou as estrelas, imaginando que tipo de vida lhe aguardava depois da aposentadoria.

— Bom, será um tanto trabalhoso, tenho certeza. Mas acredito que sim. — Kakashi colocou as mãos nos bolsos da calça.

Os dois seguiram adiante, mergulhando nas ruas iluminadas da Vila Oculta da Folha. Um vento frio soprou até o término da madrugada.

III

— Naruto, acorde. — Sakura chamou pela segunda vez.

O homem permanecia dormindo. Sakura arqueou a sobrancelha para a baba que escorria no canto da boca dele.

— Ei, Naruto. Essa é a última chamada. — Balançou-o mais uma vez pelo ombro. Naruto apenas se virou de lado e resmungou algumas palavras inaudíveis. — Como pode ele se atrasar se foi ele quem me chamou para o encontro?

Sakura sentiu uma veia saltar na testa. Então, com o punho fechado, desferiu-lhe um golpe numa região bem frágil, logo abaixo da axila.

— Acorde, seu idiota!

Naruto urrou de dor, olhando para os lados em estado de alerta. Quando viu que estava em "perfeita segurança", coçou a nuca e encarou Sakura.

— Se liga, que horas são? — Bocejou.

— Você não tem jeito. Idiota. São seis horas, e você mesmo combinou de acordarmos dez para as seis. Como pode ser tão desleixado? — A ênfase de Sakura assustou Naruto.

— Foi mal, Sakura-chan. Se liga, fazia tempo que eu não dormia tão… Em segurança… — Ele corou e coçou a nuca.

Sakura não era do tipo que sentia pena.

— Dane-se. Seja homem e cumpra com sua palavra. Vamos. O café está quase pronto. — Sakura puxou a coberta dele e fez questão para que ele se levantasse.

Quando Naruto foi à sala, descobriu que ela estava empesteada com delicioso aroma de café. Amava aquele cheiro na parte de manhã. Também distinguiu um cheiro gorduroso, o que mais parecia ovos mexidos com bacon.

— Que café-da-manhã sensacional, Sakura-chan. Muito obrigado! — Naruto disse com um sorriso iluminado.

— Que bom que gostou. Anda e coma a sua parte. Quero sair logo para que não cheguemos muito tarde. Tenho que trabalhar amanhã cedo, afinal. — O tom mandante de Sakura havia voltado, embora Naruto não se importasse.

A Kunoichi gostava de viver dessa forma. A bem da verdade, ela se imaginou vivendo assim muitas vezes. Divagava sobre poder ter essa mesma liberdade com Sasuke, mas sempre soube que não. Sasuke não era o tipo de homem comunicativo e afável. Naruto era ambos, em excesso. Sakura espiou-o se alimentando no café-da-manhã, e metade das palavras que dizia era o nome dela, com aquele mesmo tratamento carinhoso de sempre.

— Quando foi que eu passei a desejar que o Sasuke-kun fosse mais como você, Naruto? — Ela se perguntou em voz alta.

— O quê? — Naruto interrogou com a boca cheia.

— Nada. Termine de comer.

Ainda bem que ele não tinha entendido. Ia ser bem vergonhoso se ouvisse. Não queria trazer o nome de Sasuke à tona, mais pelo sofrimento que aquilo poderia trazer a eles do que por qualquer razão particular. Sakura havia superado muito bem o seu primeiro amor, só não queria que ele fosse um fantasma na sua nova vida. Um dia, os dois conseguiriam olhar para Uchiha Sasuke como o amigo que ele era, de forma que o seu tempo em vida fosse mais importante do que a sua morte.

— Então, o que pretende fazer? Não quer ir muito longe, ou quer? — Sakura perguntou com as pernas cruzadas, apoiando os cotovelos na mesa e o rosto sobre as mãos.

— Bem… — Naruto suspirou, enquanto tragava um pouco do café. Forte, do jeitinho que eu gosto, pensou. E assim, prosseguiu: — Na verdade, eu quero ir a uns dois países diferentes.

— O quê? — Sakura gaguejou. — Como pretende fazer isso?

— Se liga, o Hiraishin no Jutsu. — Naruto respondeu com casualidade.

— Dominou a técnica a esse nível? Aliás, — Sakura ponderou — como ela funciona? Nunca procurei a fundo.

Naruto desapareceu por um instante e, rapidamente, repareceu num canto da sala.

— Oi, Sakura-chan. — Saudou-a, aproximando-se novamente da mesa.

— É realmente bem rápido. Mas como fez isso? — Observou-o depositar uma estranha kunai em cima da mesa. — Que forma estranha. Tem alguma utilidade especial? — Palpou a kunai, com três pontas e um estranho selo na sua base. Analisou-a com bastante cuidado.

— Se liga, é só uma das artimanhas para utilizar o Hiraishin no Jutsu. Quando aprendi os fundamentos foi no Myobokuzan. Os Sapos continham muitos documentos escritos pelo papai. Neles, vinha descrito exatamente o ponto central da técnica: esse selo estranho que você está vendo. — Naruto apontou para a escritura. — Papai chamou isso de marca, que é, basicamente, um selo para invocação. Só que é tão rápido, sofisticado e eficiente, em termos de gastos de chakra, que eu passo pelo espaço-tempo quase que instantaneamente. Se liga, eu coloquei selos desses por todos os lugares por onde vamos passar. O tempo de viagem é o de menos.

— Eu lembro de seu pai comentando na guerra que qualquer coisa que o chakra dele estivesse tocando poderia ser transportada, não é? — Naruto assentiu. — Incrível. O funcionamento da técnica é bem simples, embora ela seja tão avançada.

— Está admirada por mim, Sakura-chan? — Naruto cantarolou essa frase.

— Não fique se achando, idiota. — Sakura sorriu. Não precisava dizer sim para que ele soubesse.

— Mas o fato é que eu não dominei a técnica tão bem. O papai ou o Segundo conseguiam marcar um destino com muita facilidade. Eu ainda não desenvolvi essa parte. Requer um controle de chakra muito avançado. Na verdade, — Naruto pensou por um tempo — creio que você se daria muito bem com essa técnica.

Sakura corou violentamente.

— Eu não sei se sou capaz de aprendê-la. — Bebericou mais um pouco do café.

— Se liga, Sakura-chan, não é coisa do outro mundo. O bom dessa técnica é o fato de ela poder ser aprendida por qualquer pessoa. Embora isso não seja uma coisa necessariamente boa, se for olhar pelo aspecto do bem e do mal. — Naruto coçou a nuca.

Sakura terminou sua xícara de café e levantou-se da cadeira, indo em direção à pia.

— Outro dia a gente conversa sobre isso, tudo bem? — Ela coçou o a cabeça sem jeito.

— Tudo bem. — Naruto confirmou, terminando sua xícara logo em seguida.

Os dois foram checar as coisas necessárias para a viagem. Naruto havia frisado o quanto era importante que Sakura levasse uma yukata.

— Eu já estou com a minha. — Naruto mencionou, colocando a mochila nas costas.

Sakura também pegou uma, preta e com flores de cerejeira brotando sinuosamente por toda a extensão. A de Naruto, segundo o próprio, era branca com alguns detalhes vermelhos. Sakura ficou curiosa para vê-la, mas se ele insistiu para que se levasse as yukata, então é porque estariam vestidos com elas em algum momento.

— Segure-se em mim, Sakura-chan. — Ele chamou ao perceber que tudo estava preparado.

Sakura segurou o braço dele, apreciando o contato íntimo matinal. Seu coração palpitava com a curiosidade que crescia sobre o dia com Uzumaki Naruto. A passagem pelo espaço-tempo era instantânea: não se tinha um vislumbre sobre a dimensão pela qual passavam. Contudo, assim que Sakura afinou a visão, percebeu que se encontravam num monte esverdeado, com som de cachoeiras crescendo nos arredores. O piar dos pássaros poderia ser transcrito numa belíssima canção, e o sol, calmo e brilhante, ainda guardava seus raios furiosos para o meio-dia. Ao contrário de alguns países, o verão naquelas regiões ocorria entre novembro e fevereiro, da mesma forma que no centro-sul do País do Fogo.

— E aí? Já tinha viajado assim antes? — Naruto perguntou.

— Não me lembro bem. Acho que teve uma ou duas vezes. — Sakura estava muito concentrada na sua observação do lugar. Abriu um sorriso ao constatar o quanto era belo.

— Sakura-chan, queira vestir sua yukata, por favor. — Naruto convidou-a para o que mais parecia uma abertura numa rocha.

Sakura olhou o local com muita suspeita. Se fosse para vestirem a yukata tão rápido, por que já não tinham chegado com ela? Naruto corou por um instante, e logo Sakura percebeu do que se tratava.

— Você quer me ver pelada, não é? — Ele assentiu, logo recebendo um cascudo. — Você não presta, Uzumaki Naruto.

Não foi dessa vez que Naruto teve outro vislumbre do corpo sinuoso e belo de Sakura. Logo que estavam prontos, Naruto apontou para noroeste e explicou:

— Naquela região tem uma pequena aldeia. Por ali — apontou o Norte —, encontramos o oceano e, posteriormente, o País dos Redemoinhos. Eu descobri algo muito interessante nessas terras. — Naruto reparou no olhar inquisitivo de Sakura. — Ah, se liga, estamos no País do Pântano nesse momento. Basicamente, o que mais temos por aqui são florestas e pântanos.

Sakura assentiu. Então, assim que Naruto começou a caminhar, pôs-se a segui-lo com bastante atenção. Em certo momento, Naruto lhe estendeu o braço. Sakura o apanhou com deleite, sentindo-se num verdadeiro encontro romântico… Embora esteja num país desconhecido… No meio do mato.

Não levou muito tempo para que surgissem umas poucas casas e uma modesta estrada de pedras. Era muito bonitinha, com flores crescendo nas beiradas e brotando caminho acima. A estrada se dividia em diferentes alturas, fazendo com que novos caminhos fossem trilhados ao longo da aldeia. Sakura se perguntou aonde estariam, afinal.

— Sakura-chan, repare bem nas vestimentas do povo daqui. — Naruto cochichou em certo ponto.

Sakura obedeceu, e logo reparou que todos usavam yukata. Sempre muito enfeitadas e gritantes. Algo também a incomodou: os aldeões eram, em grande maioria, ruivos. Não um ruivo leve, como é de se esperar, mas um vermelho intenso, como o de Karin. Logo a realização caiu sobre a Kunoichi.

— Naruto, esses são sobreviventes do Clã Uzumaki? — Perguntou incrédula.

— Na grande maioria, sim. Mas nenhum deles é Shinobi. Por isso sofreram muito com a Árvore. — Naruto explicou. — Eu percebi que a atuação do Mugen Tsukiyomi foi mais intensa em alguns lugares. Aqueles com sangue Senju, por exemplo, tiveram surtos muito severos. Esse lugar é um pouco importante para mim. Vim lhe mostrar algo.

Sakura corou um pouco. Nunca havia compartilhado um desejo tão íntimo com alguém, principalmente com alguém que gostasse. Naruto virou numa certa ruela, e seguiram caminhando entre as flores e árvores que os cercavam. Naruto se deteve em frente a uma grande casa, da qual saía muitos ruídos de conversa e choques de diferentes objetos.

— Isso parece um hospital. — Sakura comentou.

— Se liga, é quase isso. — Naruto confirmou. A seguir, encheu o peito de ar e gritou: — Ei, Satoru! Venha aqui fora!

De repente, um jovem de cabelo ruivo, aparentando uns 16 anos, deixou a casa e pôs os olhos sobre Naruto. Um sorriso enorme entortou seus lábios.

— Ruto-sensei! Que bom que voltou! — Abriu os braços em alegria. — Por onde esteve todo esse tempo?

— Ruto… Sensei? — Sakura murmurou.

— Eu voltei à minha Vila, se é que me entende. Havia coisas que eu não podia mais deixar para depois. — Explicou, cumprimentando o aparente pupilo. — E você? Tem cumprido com o cronograma de treinamento? Como andam os pacientes?

Satoru acenou com bastante animação.

— Estão apresentando grande melhora. Graças, é claro, aos esforços de Yamanaka-san. — Satoru pôs os olhos sobre Sakura. — Ora, quem é essa moça bonita? É sua namorada?

— Se liga, claro que sim. — Naruto confirmou. Sakura apresentou um intenso rubor nas bochechas.

— Mitsunari Satoru. É um prazer conhecê-la. — Satoru curvou-se numa longa reverência.

— Haruno… — Sakura virou o olhar para Naruto. Queria saber se estava seguro utilizar seu nome verdadeiro. Ao notar que ele assentia com um sorriso, ela prosseguiu, curvando-se noutra reverência: — Haruno Sakura.

A expressão no rosto de Satoru mudou bastante.

— Sensei, ela sabe quem é você, então. — Cochichou. Naruto sorriu. — Ora, Naruto-sensei, bem que achei estranho aparecer com uma namorada do nada.

Sakura começou a olhar para toda a situação com bastante suspeita.

— Enfim, vamos até minha casa. Imagino que Sakura-san esteja um tanto confusa sobre quem somos nós e o que aconteceu por aqui, certo? Venham. Eu vou servir um chá. — Satoru começou a correr empolgado.

Naruto e Sakura o seguiram até uma pequena casa, dois quarterões para frente. Satoru tirou os chinelos antes de entrar, logo os convidados fizeram o mesmo. Dando uma boa olhada, era fácil concluir que o rapaz vivia sozinho, sabe-se lá por quanto tempo. Rapidamente a água fora posta para ferver, e Satoru já os tinha posto sentados sob uma pequena mesa.

— Então, você é a famigerada Haruno Sakura-san. Não há alguém que desconheça a senhorita por essas terras. Quero dizer, não depois da sua luta incrível na guerra. Dizem que se tornou a legítima herdeira de Tsunade-sama, não é? — Sakura novamente corou. — Ora, você é bem diferente do que eu havia imaginado. Dizem que você é alta, musculosa, feia e muito brava.

— Que tipo de coisa andam dizendo sobre mim por aí? — Sakura agravou a voz, apresentando uma veia alterada na testa.

— Ah, sim. Aí está a sua personalidade assustadora. — Satoru riu.

— Se liga, Satoru, é melhor tomar cuidado com o que diz. — Naruto coçou a nuca. Não levou muito tempo para que Satoru parasse de rir.

— De onde vocês dois se conhecem? — O humor de Sakura já havia mudado.

— Ah, bem. Percebo que realmente tem o pavio curto, Sakura-san. Não me leve a mal, é que eu costumo falar as coisas que penso sem qualquer pudor. Enfim, o Naruto-sensei veio a essa Vila há mais ou menos dois anos. Ninguém o conhecia de aparência, então ele se denominou Ruto. Ajudou muito as pessoas daqui, trabalhou com bastante empenho, mas continuou disfarçado o tempo todo. — Satoru levantou-se e foi buscar o chá. Não deixava de contar a história conforme terminava os preparativos. — A situação aqui estava catastrófica quando ele chegou. O líder da nossa aldeia acreditava que este mundo era um grande sonho, e todos nós estávamos presos nele. Algumas pessoas formaram facções contrárias ao líder, querendo retirá-lo do poder. Contudo, tirar alguém do poder pode surtir um impacto muito negativo. Ficaram surpresos ao saberem que nem precisariam de muito esforço. — Serviu Naruto e Sakura com o chá. — O líder cometeu suicídio poucas semanas depois. Naruto-sensei não se envolveu nessas coisas. Ele me explicou depois que as pessoas não pensam direito no momento da raiva. Podiam se virar contra ele, um estrangeiro, que ficava metendo o dedo onde não fora chamado.

Sakura provou do chá, notando que aquela história não lhe era de todo estranha. Percebeu que o chá estava delicioso.

— Infelizmente, é preciso que as pessoas de dentro da aldeia é que façam a diferença. A situação não estava muito melhor porque tinha muita gente, que assim como o líder, estavam alucinadas por causa da Árvore. Por isso as diferentes facções queriam assumir o poder ao mesmo tempo. Queimaram casas de muitas pessoas, mataram outras, algumas fugiram, etc. e tal. A situação ficou realmente ruim. — Satoru suspirou. — Os meus pais foram um dos mortos. Eles não ficaram alucinados pela Árvore, então queriam que a aldeia votasse nos seus próprios líderes. Mas as pessoas foram tomadas com um estranho sentimento de ódio. Eu também fui tomado por isso depois que meus pais morreram. — Satoru olhou para a foto de sua família, que ficava acima de uma estante, bem em frente a entrada da casa. Sakura abaixou a cabeça em respeito, sentindo-se triste pelo rapaz. — No entanto, Naruto-sensei apareceu e disse que ia me ensinar coisas legais. Disse que via em mim algo capaz de mudar a realidade. Eu fui tolo a princípio e pensei em usar o que ele me ensinava para controlar os outros; sobrepor a minha vontade à deles. Nessa época, eu não sabia que ele era Uzumaki Naruto, sabia apenas que ele era Ruto. Bem, depois de um acidente, uma criança morreu no meio desses conflitos. Eu vi tudo. Percebi que as pessoas estavam perdendo a cabeça para o ódio. Eu não queria fazer parte daquilo. Ouvi toda a história do Naruto-sensei, então fui motivado a aprender Ninjutsu para unir as pessoas. — Sakura olhou para o rapaz com admiração. — Ele me ensinou quase tudo que pode em seis meses. Desde então, venho treinando por conta própria, com pergaminhos e com os Sapos do Myobokuzan. Certa vez, eu impedi um massacre que estava ocorrendo, e disse que se fosse para matarem uns aos outros, então que me tornassem o líder deles. Que se fosse para se acovardarem e não encarar a realidade ao redor, que deixassem que eu fizesse isso por eles. Enfim, acabou que isso se tornou verdade. Eu sou o líder dessa aldeia, e agora quero guiá-los para a paz. Está tudo indo bem. Aquela casa onde eu estava era o centro de recuperação erguido pelo instituto de pesquisa. Fui eu quem contatei o Hokage, o Kazekage e o Raikage para que enviassem suporte. Desde então, a situação está sob controle.

Sakura olhou para o jovem Satoru com admiração e para Naruto com certa suspeita. Aquela história era muito parecida com o que ocorreu no País das Ondas, há mais de quinze anos. Além disso, o próprio Naruto havia lhe contado esse fato logo após seu retorno, só que fez parecer com que Satoru havia lhe salvado, quando, na verdade, algo muito próximo do contrário foi o que aconteceu.

— Sakura-chan, esse Satoru é incrível ou não é? — Naruto riu com gosto. — E como anda seu Ninjutsu depois de tanto tempo?

— Não se iluda, Naruto-sensei. Minha meta é fazer dessa aldeia uma Vila Oculta, assim como as das grandes nações. Assim como você me ensinou, quero ensinar o Ninjutsu como forma de unir as pessoas. — O garoto ruivo sorriu intensamente.

Sakura viu nos olhos do rapaz um reflexo da personalidade de Naruto.

— Olha só, Naruto. Parece que você tem uma tendência a treinar indivíduos pernósticos. — A Kunoichi sorriu, cruzando os braços.

— Ora, ora, que ofensa, Sakura-san. — O garoto riu bastante. — Não diga essas coisas. Eu prefiro assumir que sou ambicioso.

— É uma boa forma de enxergar o futuro, Satoru-kun. Meus parabéns pela sua força. Meus parabéns pelo chá, também. — Sakura bebeu a última gota. — Estava delicioso.

Satoru sorriu admirado.

— Olha só, Naruto-sensei. Bem que você me disse que ela era linda. — Bateu nas costas do Herói, deixando-o corado. — Realmente, é uma moça admirável.

Sakura corou violentamente. Nunca imaginou que Naruto falasse dela no meio de suas andanças.

— Ele falava de mim para você? — Perguntou.

— Não com muita frequência. Mas uma vez que começasse a falar, dificilmente parava. Só que você há de concordar comigo, Sakura-san, que não importa o quanto se fala de alguém, mas sim o que se fala. — Sakura assentiu. — Ele dizia para mim que…

— Chega, Satoru! — Naruto bradou com uma nítida expressão envergonhada.

— Ah, agora que a conversa estava ficando boa. — Sakura começou a rir.

Os três permaneceram conversando até a hora do almoço, onde Satoru se ofereceu para preparar uma farta refeição. Naruto e Sakura aceitaram com muito bom grado. Satoru era um rapaz com grandes habilidades domésticas, bem diferente de seu professor. Foram servidos com lamen de porco e vegetais, e dois pratos bem enfeitados com diferentes tipos de sushi. Sakura amou a segunda opção, tendo comido um deles sozinha. Satoru e Naruto focaram-se com mais ênfase no lamen.

— Que delícia o seu sushi, Satoru-kun. — Sakura mencionou, satisfeita. — Mas é impressionante. Apesar de serem diferentes, são parecidos em outras coisas.

Nunca imaginou que Naruto acharia, assim como ele, outro viciado em lamen. Os dois rapazes riram envergonhados.

— Satoru, muito obrigado por tudo. Sinto muito por visitá-lo sem aviso prévio. — Naruto disse.

— Não seja tolo, sensei. Você é sempre bem-vindo aqui, assim como seus amigos. E namorada. — Piscou para os dois, que ficaram instantaneamente corados.

— Imagino que tenha muito o que fazer, Lider-sama. — Sakura brincou. — Naruto e eu vamos dar mais uma volta pela sua aldeia, ou melhor, futura Vila Oculta. Já tem algum nome em mente?

Satoru pensou por um tempo.

— Talvez… Vila Oculta do Lamen. — Naruto pareceu bastante admirado, mas logo riram. — É brincadeira. Eu prefiro Vila Oculta do Redemoinho.

Os dois homens assumiram uma expressão plácida e cúmplice. Sakura ponderou sobre o que aquilo significava. Não reparou no caminho, ou ao redor da Vila, qualquer coisa que remetesse a redemoinhos. A não ser, é claro, pelo sobrenome de Naruto. Uzumaki, ela pensou, e fez nota sobre confrontá-lo a respeito disso posteriormente.

Reverenciaram Satoru após a despedida, dando ênfase a um breve reencontro no futuro. Chamaram-no para conhecer a Vila Oculta da Folha em breve, embora Sakura tenha ficado preocupada com o ataque iminente de Orochimaru. Mas se Naruto dizia que não havia problema, então ela confiaria nele.

Caminharam ao longo da aldeia, com Naruto sendo frequentemente saudado como Ruto. Ele respondia de um jeito torpe, como se estivesse atuando. Reparou que as meninas não davam em cima dele, mesmo sendo muito bonito. Logo descobriu que era porque ele se fingia de muito bobo na frente de todos. Acho que garotas não gostam de caras idiotas, afinal, Sakura pensou. Logo, sentiu-se a única a amar um tolo. Deu grande valor, contudo, ao fato de que aquele tolo a amava.

Depois de conhecerem melhor a aldeia, Sakura reparou que a estrada principal fazia curvas o tempo todo, como um caracol. Continuou seguindo Naruto, até perceber, pelo caminho de volta, que a aldeia tinha forma semelhante a um redemoinho. Por isso, Vila Oculta do Redemoinho. Os cabelos ruivos daquela aldeia deixavam claro que todos ali eram descendentes do Clã Uzumaki, provavelmente fugidos do País dos Redemoinhos durante a Segunda Guerra. Esconderam-se por sabe-se lá quanto tempo, ao ponto de perderem o conhecimento de suas artes ninja, de modo que logo se tornaram invisíveis no Mundo Shinobi. Contudo, isso era verdade até um certo ponto: Uzumaki Naruto havia encontrado aquele lugar, e junto com Mitsunari Satoru, era possível retomar a glória do antigo Clã Uzumaki.

Quando já deixavam a aldeia, por volta das três horas da tarde, Sakura encarou o redemoinho com outros olhos. Foi então que Naruto lhe disse:

— Satoru tem a mesma habilidade que a Karin. Ele fingiu não detectar nosso chakra porque ele e eu havíamos combinado dessa forma. — Naruto explicou. — Ele ainda tem um papel muito importante a desempenhar nisso tudo, Sakura-chan.

— Eu sei, Naruto. — Sakura sorriu para ele, logo depois o olhou de cima a baixo. — Sabe, você fica muito bem de yukata.

— Se liga, — ele corou violentamente — você mais ainda.

Novamente, deram os braços um ao outro. Foram instantaneamente transportados para um local escuro, mesmo que ainda fosse de dia. Fazia muito mais frio do que o esperado, mas quando Sakura contemplou aonde estava, não havia qualquer reclamação que pudesse fazer. O local era rodeado por imensas cascatas, de pelo menos trinta metros de altura cada, e era amplo, cercado por árvores gigantescas em cada canto. Qualquer um que olhasse de cima não poderia enxergar o que ocorria lá embaixo. De cada cachoeira um fluxo d'água seguia até um ponto comum, curiosamente localizado no centro daquela região. Formava meio que uma piscina, embora houvesse uma estrutura em ruínas construída ao redor dele. Só depois de reparar bem que Sakura percebeu que havia ruínas de pedras ao redor de cada cachoeira, e que os campos, verdes e úmidos, se estendiam ininterruptamente até o topo dos vários montes que cercavam aquele lugar. Aquilo era uma depressão; um sulco formado pelo encontro de vários montes. E as cachoeiras vinham de rios que brotavam em diferentes regiões daquela terra.

— Sakura-chan, seja bem-vinda ao País dos Redemoinhos. — Naruto disse com grande pompa.

Sakura voltou o olhar para o alto, onde as folhas das árvores impediam o alcance de todos os raios do sol. Era belo como elas farfalhavam sob o uivo do vento, e em como as águas das cachoeiras cintilavam diferentes cores sob a luz.

— Naruto, que lugar fantástico. Que impressionante. — Ela não conseguia uma melhor descrição para o que via. — O que são aquelas ruínas?

— São as antigas casas do Clã Uzumaki. Foi daqui que minha mãe saiu há mais de quarenta anos. — Naruto suspirou, com um sorriso orgulhoso nos lábios.

Sakura pensou que tipo de pessoa seria a mãe de Naruto. Sabia o quanto era bonita e forte, embora não tivesse um relance da sua personalidade. Quando o acompanhante se pôs a caminhar, Sakura seguiu-o com cuidado. Estava bastante surpresa pela beleza do lugar.

— Aonde vamos agora? Tem alguém para vermos aqui? — Perguntou incrédula.

— Não. Este lugar está vazio há décadas. — Naruto respondeu. — Mas não quer dizer que não tenham coisas legais para se ver. Eu mesmo fiquei aqui por muitos dias quando o encontrei.

Sakura queria saber como Naruto descobriu aquilo. Era um lugar simplesmente incrível. Não se importaria em viver ali, tendo como canção constante o bater das cachoeiras sobre a terra.

Adentraram uma das ruínas que ficava a leste. Sakura reparou que o lugar era úmido e cheio de goteiras, mas não havia qualquer animal nojento. Atentou-se a isso com surpresa, como se os bichos evitassem aquele lugar. Fez menção de perguntar a Naruto a respeito disso, mas logo atravessaram por uma pesada porta de madeira. Deu-se de cara com uma grande biblioteca.

— O que é isso, Naruto? — Perguntou surpresa.

— Sakura-chan, esse lugar não é acessível por qualquer um. Que eu saiba, apenas Orochimaru conseguiu atravessar esse lugar. — Sakura queria se sentir incomodada por isso, mas notou que isso deve ter ocorrido há muito tempo. — Foi nesse lugar que ele conseguiu quebrar o Shiki Fujin para invocar o meu pai pelo Edo Tensei. Há um poderoso selamento nessas terras, de modo que assim que a pessoa entre aqui, é presa num Genjutsu muito forte. Rapidamente é guiada para fora, sem saber o que de fato ocorreu. A coisa é tão sinistra que mesmo animais não entram aqui. Surpresa? — Naruto perguntou-a com um sorriso. Sakura assentiu com calma. — Digamos que há apenas uma condição para visualizar o material daqui.

Sakura podia prever o que se tratava.

— Ser um Uzumaki, não é? — Naruto concordou. A perspicácia da amiga ainda o assustava. — Então você fez uma marcação aqui dentro para que eu entrasse.

— Se liga, é isso mesmo. Caramba, não tem graça conversar com você. — Naruto riu.

Sakura folheou diversos livros que estavam ali. Falavam sobre a longevidade dos Uzumaki, sobre suas avançadas técnicas de selamento, registros sobre guerras da antiguidade, etc. Era incrível como o Clã era mais antigo do que se esperava.

— Ei, Naruto. Há algum registro sobre sua família aqui? — Sakura perguntou, sem tirar a atenção de um pesado livro de medicina.

Antes que desse conta, Naruto já trazia um álbum de retratos.

— Está quase tudo aqui. Minha mãe é essa gorduchinha, com cara de tomate. — Apontou para uma garota bonitinha e com expressão carrancuda.

— Céus. Isso é forma de falar da sua mãe? Ela era uma gracinha. — Sakura corou, tendo uma vontade súbita de conhecer a sogra.

— Se liga, ela era uma brutamontes. Vivia batendo nos caras que tiravam onda com ela. — Ele riu conforme contava essa história.

Sakura sentiu algo peculiar… Algo próximo a identidade.

— Ela sabia como se proteger, hein? Sabe como ela conheceu o Quarto? — A Kunoichi perguntou com expectativa.

Naruto assentiu. Contou a história do jeito que sua mãe havia lhe contado. Sakura dava suspiros, achando tudo incrivelmente romântico.

— Ora, não sabia que o Quarto era uma pessoa tão… Tão… Diferente. — Ela riu.

— É, às vezes eu penso que mamãe era mais masculina que o papai. Pelo menos foi a impressão que tive deles. — Naruto gargalhou, olhando para as fotos com saudade.

Sakura imaginou se aquilo não trazia tristeza ao coração de Naruto. Olhando-o bem, pode vê-lo sorrir com muita facilidade. Ainda assim, era da sua família que estavam falando. Será que não lhe trazia nenhum sofrimento? Pensando nisso, Sakura se moveu para perto dele, atraindo para si um olhar curioso.

— O que foi, Sakura-chan?

Os olhos dele arregalaram ao receber um beijo surpresa. Era um pouco diferente do que haviam experimentado até agora, tudo muito intenso e caloroso. Este era bem romântico, calmo e gostoso. Naruto logo fechou os olhos, apreciando o perfume e o sabor de Sakura.

— Só tive vontade de fazer isso — ela disse, logo após encerrar o beijo, com um leve rubor nas bochechas e nenhum sorriso à mostra.

Naruto, por outro lado, sorriu intensamente. Segurou as mãos da namorada, que passou a encarar os olhos dele, azuis e intensos, com a mesma expressão alegre e sábia que havia readquirido nos últimos tempos.

— Sakura-chan, você aceita se casar comigo?

Aquela pergunta a pegou de surpresa mais do que qualquer outra. Sakura sentiu o coração acelerar, o sangue aquecer as bochechas e a mente perder-se numa tela branca. Não sabia o que dizer, embora seu coração parecesse completamente seguro da resposta.

— Sim — as palavras saíram como um suspiro.

Novamente, os dois se abraçaram e se perderam num beijo. Um longo, doce e intenso beijo de amor. Sakura nunca havia pensado que a sua vida poderia terminar daquela forma. Por um instante, percebeu que nem ao menos queria que sua vida terminasse. Se possível, reviveria aquele mesmo momento para sempre, presa num loop temporal. De repente, lágrimas brotaram de seus olhos, e Naruto assumiu um semblante preocupado.

— O que foi, Sakura-chan? Não gostou disso?

— Não é isso, seu idiota. — Ela murmurou, limpando as lágrimas e tentando manter a compostura. — É só que eu estou muito feliz.

Naruto sentiu que seu dever estava realizado. Aliás, não apenas seu dever, mas um de seus sonhos mais antigos.

Depois daquele pedido inesperado, exploraram mais um pouco das ruínas do Clã Uzumaki. Sakura queria entrar naquele lugar outras vezes. Havia um aspecto atemporal muito importante, que merecia ser apreciado. Quando voltaram à Vila da Folha, aproveitaram o resto do dia para jantarem juntos, como um casal. Afinal, no dia seguinte voltariam a trabalhar.

Deitados juntos na cama, Sakura aconchegada sobre o peito de Naruto, olhava as estrelas brilhando por todo o céu. Era uma noite de lua minguante, sempre um pouco solitária, mas que permitia um vislumbre de todas as galáxias e sóis mais distantes. Ao receber uma carícia de Naruto, seguido por um beijo na testa, Sakura olhou-o de canto e disse, com a voz trêmula e vacilante:

— Eu amo você, sabia?

Naruto sorriu, corado.

— Se liga, eu também amo você.