Dezembro de 795 UC. 485 IC.

A Brunhild singrava majestosa o mar de estrelas. Naquele dia, o Comodoro Macklinger era o oficial designado para cumprir a escala da madrugada, enquanto seguiam caminho pelo corredor de Phezzan, com o intuito de fazer uma ofensiva militar contra os rebeldes da Aliança. Por enquanto, tudo estava na mais perfeita tranquilidade naquela zona estelar. Respirou fundo, saindo da ponte superior, descendo alguns lances de escada e andando até o fim da proa acarpetada. Tocou com as pontas dos dedos o vidro blindado e cristalino, olhando para as incontáveis naves a perder de vista que rodeavam e seguiam seu caminho junto daquela primorosa joia da engenharia imperial. Naquela missão, a frota subordinada ao Alto Almirante Lohengramm tinha em torno de vinte mil naves. Todas posicionadas em linhas, como se tivessem sido colocadas, uma a uma por Odin. Sentia-se orgulhoso de ser o chefe do staff do mais brilhante Almirante que o Império já vira desde Rudolph von Goldenbaum.

Seus pensamentos se dirigiram ao seu superior. A história de vida dele era épica por si só. Era apenas uma criança quando sua irmã fora literalmente vendida como cortesã para o atual Imperador. Inconformado com a atitude do pai, o então Reinhard Von Müsel, na tenra idade, fez daquilo o combustível para chegar onde estava, quebrando ao longo da vida, um a um, todos os preconceitos e os tabus que sofrera. Muitos figurões do Império tiveram que engolir a contragosto a boa fama e as boas táticas do "pivete loiro" que agora era um prestigiado Alto Almirante Imperial. Sem sombra de dúvidas seu superior era uma pessoa cuja normalidade era ser extraordinário. Porém, para Mecklinger, Reinhard von Lohengramm era ainda mais: era a pura arte viva em todo o seu esplendor.. Nas feições, nos gestos, nas ordens, nas estratégias.

Eis que Mecklinger viu sua inspiração se aproximando. Estranhou a ausência de Kircheis. Virou-se, curvando-se respeitosamente a ele.

- Excelência...

- A preparação para batalhas me deixa um tanto insone. Também gosto de ver as coisas daqui. Parece que podemos estar um pouco mais perto das estrelas e alcança-las. E você, o que tanto olha Mecklinger?

- A formação das tropas sob sua liderança Excelência. Todas milimetricamente ajustadas na formação. Me parece um grande ballet.

- E o espaço seria o grande palco... Até o presente momento, nunca havia me passado pela cabeça as batalhas sob este ponto de vista Comodoro Mecklinger. Só mesmo um homem que respira arte poderia ter tanta sensibilidade. Mas um ballet só é belo se há movimento, algo que modéstia a parte, faço com competência ao reger esses... cruzadores-bailarinos por assim dizer, que me acompanham nesta jornada. Sabe, eu queria ter talentos tão bonitos quanto a arte da guerra. Como os seus. É um exímio pintor e pianista. Sei que não é muito apropriado fazer esse pedido, mas... se importaria de tocar um pouco para mim antes de se retirar? Gosto muito de te ver tocar. Me acalma. Por favor. – Nunca ouvira Reinhard pedir um favor. Os olhos azuis eram a mais pura ternura. Deixou-se levar pelo pedido dele.

- Seria uma honra Excelência... – Seguiram para o bar, onde um piano de cauda os esperava.

No caminho feito em silêncio, Mecklinger pensava no que poderia tocar, afinal fora pego de surpresa pelo pedido. O moreno abriu a porta com cuidado e adentraram ao recinto.

- O que deseja ouvir Excelência?

- Algo com movimento, leve... Mas nada muito dramático. Já nos bastam as guerras.

- Uma sonata de Mozart. Acho que será do seu agrado. Sonata número 11 em Lá Maior. Eu particularmente gosto muito. – O Comodoro respirou fundo e começou a tocar, fazendo as notas ecoarem na solidão do recinto vazio àquela hora da madrugada. Reinhard sentou-se numa poltrona próxima e fechou os olhos, dando um pequeno sorriso. Adorava ouvir piano, pois aquilo lhe remontava as suas mais doces e preciosas lembranças, quando sua querida irmã tirava lindas melodias com suas mãos gentis. Sentia a mente desanuviar, viajar para o seu infinito particular.

Assim que terminara de executar a peça musical, que não tinha mais que 15 minutos, viu o Alto Almirante adormecido na poltrona, como uma criança. Sorriu. O anjo caído mais encantador que já vira. Ficou em dúvida se contatava Kircheis ou se velava o sono dele ali. Teve uma idéia. Pegou um punhado de guardanapos da bancada do bar, uma caneta do bolso e começou a fazer um esboço daquele anjo. Torcia para que o loiro não acordasse. Minutos depois, a porta se abre e Kircheis aparece. Mecklinger pede silêncio e Kircheis se aproxima e sorri ao ver o amigo dormindo. Automaticamente lhe vieram as lembranças da infância e um dos poucos segredos que Reinhard nunca saberia: gostava de vê-lo dormir. Quando dividiam o quarto, na época da Academia Militar, esperava ouvir o leve ressonar de Reinhard para sorrateiramente se levantar e se aproximar do leito para apreciar a vista daquele anjo. Apenas pelo prazer em fitá-lo.

- O primeiro-imediato do capitão Steinmetz me informou que Reinhard-sama e você estariam aqui.

- O Alto Almirante Lohengramm disse que estava insone e me pediu para tocar piano. Quando terminei, ele adormeceu. Não sabia que o ele gostava de piano.

- Te ver tocar deve tê-lo lembrando de quando Annerose-sama tocava para ele. É uma das lembranças mais preciosas de Reinhard-sama. - Mecklinger sabia da trágica história da irmã de Reinhard, mas desconhecia este detalhe. Sentiu-se feliz por dar aquela pequena alegria a ele. Kircheis pegou o loiro nos braços com a destreza que lhe era peculiar e ambos saíram do recinto em silêncio. O Comodoro fez questão de acompanhar Kircheis até os aposentos privativos de Reinhard. – Prometo manter segredo dos seus esboços. Sei que irá eternizá-lo de maneira sublime. Ele é o nosso anjo sem sombra de dúvidas. Muito obrigado por tocar para Reinhard-sama, Comodoro Mecklinger. Ele sempre vive preocupado e atolado em estratégias que esquece que precisa de um pouco de distração. Boa noite. – O moreno assentiu e seguiu pelo corredor para os seus aposentos, feliz, porque tinha um fã muito especial.