- Rizzoli & Isles, infelizmente, não me pertence. Direitos reservados a TNT, JTam e Tess Gerritsen.


Chapter 3

Boston, 1999.

"Janie! Traga sua bunda magra um pouco mais perto! Vem cá!" – A voz do alto e sorridente Mathiew Stevens chamou atenção da italiana que estava dispersa naquele primeiro dia de retorno as aulas.

"Ugh, Stevens! Não me chame de Janie! E..." – Olhou em volta, deu de ombros e voltou a encostar-se à parede vazia. - "Eu estou bem aqui." – Disse imponente, olhando em volta para os novos rostos.

Era a parte preferida de Rizzoli e ela só teria uma chance a cada ano de passar por isso. Gostava de mudanças e notar a falta de alunos anteriores e novos estudantes era interessante o suficiente para ser uma pequena distração. Pensou em Frost e em como sua amizade havia se desfeito. Não houve briga, apenas se afastaram gradativamente. Sentia falta de gastar algum tempo com o garoto, mas haviam ficado tão distantes um do outro que raramente se cumprimentavam. Não havia nenhum culpado, apenas envolveram-se em outras atividades e outras pessoas distintas. Outros grupos de amizade e interesses.

"Dyke..." - Um sussurro próximo ao seu ouvido a atingiu quando um grupo de garotas passou ao seu lado. As risadinhas maliciosas as acompanharam até que se misturassem com outras pessoas.

"Bitches.." – Jane murmurou enquanto balançava a cabeça. A primeira vez que havia sido chamada de dyke ela não havia reagido, por não saber do que se tratava, até que procurou entender. Riu quando soube exatamente o que significava e relaxou. Rizzoli sabia exatamente o que era, independente do que as pessoas pudessem rotular. Mesmo que elas pudessem comentar sobre quem ela dorme ou simplesmente as razões pelas qual Jane usa luvas negras em ambas as mãos.

Naquela altura as pessoas sabiam ou desconfiavam. Qualquer um que lhe perguntasse, ela não negaria. Tinha interesse em garotas. Porque não?! Mas não era algo restrito. Havia ido a encontros com garotos também. Poucos, na verdade. Mais por conta de sua personalidade forte e por ser uma pessoa extremamente reservada.

"Janie!" – Ellis Sulivan, uma garota de curvas - com uma bela bunda, aproximou-se saltitante. Deus, o sorriso da garota era tão espontâneo que enjoava. – "Senti saudades!" – Disse, levando os braços ao redor da morena.

"Uh, não. Sem abraços." – Jane afastou-se e procurou desviar os olhos do decote imenso da garota. – "E não me chame de Janie." – Disse entredentes ainda sem poder encarar os olhos azuis claros de Ellis.

"Bem, você não reclamou quando estava com a boca entre minhas pernas, Rizzoli." – A voz não poderia ser menos irritante naquele momento.

"Geez! Ellis!" – Jane balançou a cabeça e, antes que pudesse pensar em algo, o sinal soou.

"Como caralhos eu pude dormir com Ellis Sulivan?"

Enquanto a figura alta e morena caminhava até uma das carteiras, Maura Isles mantinha os olhos no chão, cuidadosamente. Suspirava baixo desejando permanecer invisível o máximo de tempo possível. Odiava mudanças e, sair da França para morar com seu pai na capital de Massachusetts não fazia parte de seus planos. Aprendera, no entanto, a não criar expectativas cada vez que sua vida tomava cursos novos. Havia aprendido o suficiente para não mais esperar algo das pessoas que nunca terá. Calada, sorriu internamente ao conseguir um lugar entre as primeiras cadeiras das filas. Depositou os livros por ali e esperou pacientemente até que a aula finalmente pudesse começar. Não se deu o trabalho de olhar os rostos das pessoas que compartilharia um terço de seu tempo durante os próximos anos e suspirou aliviada quando a professora adentrou o local antes que qualquer um percebesse sua presença. Por sorte, não havia apresentações de novos alunos e assim pôde permanecer em anonimato.

As duas figuras contrastantes não se cruzaram durante meses. Não que não haviam se notado. Pelo contrário! Jane havia visto na pequena loira de olhos esverdeados uma sensibilidade distinta. Era gostoso acompanhar de longe o andar firme de Isles e seus seios apertados naquelas roupas que cobriam perfeitamente cada pedaço de pele. A admiração durou pouco, no entanto. Jane não julgava as pessoas pelo que ouvia, mas Maura certamente não causava boas impressões para os outros. O que chegava aos seus ouvidos era que a garota rica havia crescido em uma cidade na França e que era genuinamente rude e esnobe; Que fazia questão de esbanjar riqueza nas roupas de grife que usava e bancar a inteligente usando uma linguagem que ninguém entendia. Não, Jane nunca havia trocado uma palavra com a garota, mas havia abraçado a ideia de que a menina simplesmente não valia a pena.

Maura havia encontrado em Jane Rizzoli uma beleza fascinante. Sim, era de sua graça observar as pessoas e seus comportamentos sociais, já que nisso ela era falha. Com olhos perspicazes, a pequena loira não pôde deixar de notar os traços fortes do rosto da italiana e a voz profundamente rouca que saía dos lábios finos. Havia aquela curiosidade sobre o motivo da garota esconder as mãos debaixo de luvas. Era um quê de mistério que lhe caía extremamente bem como par de olhos castanhos, profundos. Não desejou estar íntima, não ainda. Mas olhar Jane secretamente era como estar em um dos museus da França; Como um belo desfile de moda ou uma nova descoberta na ciência. Era simplesmente inspirador. A sensação fora quebrada quando, sem querer, ouviu a conversa do grupo de amigos de Rizzoli.

"Jane, sério! Eu me aproximei dela por curiosidade. Ela parecia um bichinho assustado desde que entrou na nossa turma e, como eu sempre tenho boas intenções..." – Era a voz de Samantha Fields.

"Boas intenções, Sam?!" – Mathiew interrompeu, fazendo todos rirem.

"Continuando..." – Samantha revirou os olhos e voltou a ficar séria. - "Ela é estranha. Eu falo sério. Não estranha normal. É esquisita. Esnobe! O que? Ela acha que só porque veio da França e que pode comprar toda a cidade ela tem direito de esfregar isso na nossa cara?" – Balançou a cabeça e fez um bico nojento. – "Sem contar que a cada dez palavras, vinte são termos estranhos biológicos. Metida a culta! Pff!"

"Uh, ela parece ser estranha mesmo." – Jane comentou, dando de ombros. – "Esses tipos de garotas... Tsc, tsc." – Balançou a cabeça negativamente e riu fraco, lembrando-se de Ellis. – "Já tive experiência com esse tipo de pessoa por essa e por todas minhas próximas vidas, ugh!" – Todos riram sabendo exatamente de quem se tratava.

Sentindo seu interior apertar, como um pressentimento ruim, Jane desviou os olhos para o lugar exato onde dois orbes intensos a fitavam. Engoliu seco e viu o corpo de Maura se afastar sorrateiramente.

Com a respiração pesada, Maura caminhou rapidamente por entre os corredores da escola. A mente trabalhava em volta das palavras que acabara de ouvir. Já havia passado por pior, claro. Xingamentos e pequenas surras haviam lhe custado o sono uma dúzia de vezes. Procurou racionalizar tudo, como sempre fazia. Não havia motivo de sentir-se mal. Era comum causar aquelas reações e impressões nas pessoas.

Maura saiu do torpor quando chocou-se com o corpo do franzino Barry Frost, que a ajudou a se recompor.

"Me desculpe, Isles." – A voz saiu fraca, porém num tom preocupado e sincero.

Maura sorriu - um daqueles raros sorrisos que ela nunca dividia com qualquer pessoa. Assentiu rapidamente com a cabeça e passou as mãos pela roupa, ajustando-a.

"Uh.. Tudo bem?" – Frost limpou a garganta, envergonhado. – "Não que seja da minha conta." – Pressionou os lábios e desviou os olhos negros para o chão, pondo as mãos nos bolsos por nervosismo.

A pequena abriu a boca algumas vezes, incapaz de mentir. Suspirou inquieta após uns segundos e balançou a cabeça, negando.

"Mas eu vou ficar, Frost. Obrigada." – Tornou a sorrir, tocando o ombro magro do jovem a sua frente.

Trocaram um olhar cumplice por algum tempo e sorriram entre si. Com um pequeno aceno, Barry pediu para acompanha-la e ela prontamente aceitou.

Não trocaram muitas palavras. Maura ainda estava um tanto receosa de deixar-se falar demais e acabar por afastar a primeira pessoa que realmente havia agido tão bem consigo. Não tinham nada em comum e então restringiram a conversa apenas sobre alguns professores e matérias pendentes. Maura descobriu que Frost era bolsista, esforçado, e que trabalhava extremamente bem com computadores e internet. Relaxou aos poucos, sorriu mais vezes e deixou-se ser mais autentica. Pra sua surpresa, o garoto a ouvia atentamente quando ela destacava alguma curiosidade no meio de suas conversas.

"Ei Maura, obrigado pela conversa. Tive um bom tempo contigo." – Frost murmurou enquanto caminhavam lado a lado até a saída do colégio.

"Oh, digo o mesmo Barry." – O tom de Maura soou agradável. – "Até amanhã." – Disse em um tom mais baixo, que fora correspondido com um aceno de mão e um sorriso torto.