Capítulo 3


Mulher inconveniente

Quatro e meia da manhã. Falta pouco tempo pro sol aparecer, mas pra quem neste momento estava em Villa Verde mais parecia uma eternidade. Os convidados da frustrada festa da casa do senhor Matias estavam quietos, reflexivos. Afinal eles não tinham muito que fazer.

Próximo à escada que dava acesso a varanda, encostado na parede, estava Clovis. Ele prestava atenção em uma coisa que achava interessante. Ele notara que volta e meia Matilda tentava se aproximar de Adilsom, este por fim só fazia se esquivar da moça. Seu irmão não queria mesmo conversa com sua ex. Duvidas pairavam na cabeça de Clovis ao ver aquela cena. Ele sempre soube que Matilda era louca pelo seu irmão, o fato dela estar ali naquela noite comprovava isso. No entanto uma coisa não fazia sentido. Em uma situação estranha como essa quem iria se preocupar em reatar o namoro com um antigo namorado? Incomodado por não saber a resposta daquela pergunta, Clovis resolveu ir até a moça e ver qual era a dela.

- Matilda? O que tu quer com Adilsom, em?

- É coisa nossa.

- "Nossa" o caralho! Estamos todos incrivelmente fodidos aqui e você amolando meu irmão para ele voltar a namorar com você?! Porra! Se toca, guria!

- Não é nada disso.

- É o quê então.

- Seu irmão corre perigo.

- Puff! Todos nós estamos correndo perigo, se é que não percebeu.

Matilda faz um sorriso amarelo antes de continuar a falar. – Ele corre perigo não por estar em Villa Verde, mas por ser o que é.

- Como assim?

- Qual é, Clovis? Você é o irmão mais achegado dele. Vai me dizer que você nunca desconfiou que ele nunca foi normal?

Clovis não respondeu. Ao invés disso pensou. Ele estava se lembrando de uma história que seu pai, Matias, havia contado a ele já faz alguns anos. Há muito tempo atrás, quando Adilsom devia ter uns 4 ou 5 anos, ele foi levado pra visitar o tio Alencar, que tinha como passatempo dar jeito em televisões quebradas. Certa vez, Alencar estava consertando uma TV, Adilsom estava do seu lado, o menino ficava olhando vidrado pro trabalho do tio, que achava graça no inusitado interesse do moleque. No meio do trabalho, Alencar teve que sair pra ir ao banheiro. Quase enfartou quando, ao voltar do banheiro, percebeu que seu sobrinho tinha acabado de consertar a TV sozinho. Desde muito cedo Adilsom tinha uma facilidade sobrenatural de entender tudo o que estava a sua volta.

- Exatamente. O que você acha que meu irmão é?

- Um...

- UAAAAAHHH!!! – O grito de Ana interrompeu a conversa. Além de deixar o clima naquela casa ainda mais tenso.

- O que foi menina? – Perguntou Clovis.

- Um homem. Tem um homem parado na frente da casa!

- Eu já não falei pra você não ficar na janela, porra?!

Ana estava espionando a rua através das frestas da janela. Ela acreditava ter visto uma figura sinistra parada na frente da casa. Deus benza a visão daquela garota. Depois que Ana fez 12 anos sua visão melhorou muito. Tanto é que ela não tem dificuldade nenhuma em enxergar na escuridão total.

Engolindo em seco. Clovis vai até a rua para assegurar que a menina só estava imaginando coisas. Com a ajuda de uma pequena lanterna, que encontrou faz algumas horas perdida no quarto de seu pai, Adilsom vai para frente da casa para iluminar a rua. Queria mostrar a sua irmã que ela estava imaginando coisas. Conseguiu obter sucesso no que queria fazer. Não havia nada na frente da casa. A pequena Ana aceitou a idéia de que estava deixando sua mente lhe pregar peças. Mas infelizmente esse não era o caso.


Onde estou?

Mateus acordou com uma enxaqueca dos infernos. Seus olhos ardiam um pouco, pois eles ainda não estavam adaptados a forte iluminação do local a qual se encontrava. Aquela situação era estranha. Suas roupas haviam sido trocadas. Parecia que haviam lhe dado banho também. Aquilo era muito estranho. Pra piorar a cama na qual estava deitado não pertencia a nenhum quarto, mas sim a uma cela de cadeia. Mateus estava preso. Pra piorar não sabia qual o motivo nem a razão dele estar ali. Olhando para o lado de fora de sua cela, no corredor, Mateus percebeu que não estava sozinho. Alguém também estava preso naquele lugar, só que em uma distante cela. Percebendo a presença de Mateus, o outro prisioneiro se interessa em começar um dialogo. Como os dois estavam um pouco distantes um do outro, para a conversa prosseguir eles teriam que se espremer nas grades e falar um pouco alto.

- Então, novato. O que você faz?

- O que eu faço? Eu não fiz nada! Não sou nenhum criminoso!

- Sim, isso eu sei. Ninguém que está preso aqui é criminoso.

- Está tirando onda com minha cara?

- Não, porra! Só quero saber quais são suas habilidades.

Mateus não entendeu o que o homem da outra cela queria dizer com aquilo. "Quais são suas habilidades?". – Mas que pergunta sem propósito!- Pensou Mateus. – Por acaso isso é uma entrevista de emprego?- Apesar de achar a pergunta estranha, o rapaz a respondeu assim mesmo.

- Bom. Eu estudo jornalismo.

- Ahh. Vá se foder, porra. Vai tirar onda com a cara da tua mãe!

O outro prisioneiro voltou para o fundo da sua cela. Não queria mais conversa. Mateus, seguindo o exemplo do "colega", saiu de perto da grade. O futuro jornalista não conseguia entender o porquê da revolta do homem com sua resposta. – Será que deixei passar alguma coisa? – Pensava Mateus.


Quando o capeta bate na sua porta.

Clovis chama seu irmão pra ir com ele até a cozinha. Adilsom então o segue. Fica bem irritado ao perceber que Matilda o esperava por lá. O rapaz entendeu que seu irmão queria que ele conversasse com sua ex.

- O que é isso? Não vai me dizer que agora você quer que eu converse com "essazinha", né? – Ainda bem que estava escuro, pois se não a cara de ódio que Matilda fez seria bem evidente.

- Escuta o que ela tem a dizer. É importante.

- O que é? Vai me dizer que não se roçou com Fernando pela enésima vez?- SLAPT! A moça não agüentou ouvir aquela grosseria e dá um tapa em Adilsom. -Dane-se.- Pensava ela. Já tinha se humilhado demais por aquele homem. Ele que fique por sua própria conta e risco a partir de agora. Andando rápido como uma flecha, a moça foi até a porta da frente da casa e, pra surpresa de todos, foi embora. Alguns tentaram impedi-la de sair. Mas ela corria muito rápida. Além de ninguém ter coragem de ir atrás dela naquela escuridão toda, claro. Se bem que Clovis tentou acompanhar a guria, mas quando saiu da casa ela já tinha sumido de vista.

- Mas que porra, Adilsom!

- O que é? Você é que me traiu se juntando a ela.

- Na boa, você não existe.

Adilsom havia saído da casa. A discussão ocorria no meio da rua. Os dois começariam a brigar ali mesmo.

- Do jeito que tu é cavalo, não é de se estranhar que ela tenha te trocado.

- Seu...

Sock! Pow! Tuf! Os dois irmãos começaram a trocar socos e pontapés ali mesmo, na rua. Pareciam até se esquecer da perigosa situação em que se encontravam. Os convidados, a maioria deles pelo menos, saíram da casa também. Alguns tentavam apartar a briga, mas a maioria só queria estar em uma posição privilegiada para melhor acompanhar a briga.

- UAAAAAAAHHH! – Mais uma vez Ana berra. Chamando a atenção de todos. Mas pra alguma coisa isso serviu. Pelo menos fez com que a briga dos dois irmãos acabasse.

- O que foi, menina? – Perguntou Clovis.

- Eu vi. Eu sei que vi! Tem um homem esquisito na varanda!

Todos olharam pra cima, na direção da varanda. Estava tão escuro que não dava pra ver era nada. Como a menina poderia então identificar uma pessoa ali? De qualquer modo a maioria estava começando a dar credito pra menina. O pessoal ficou assustado.

- Vem cá, meu bem, vem cá.

Eliana, que estava próxima a garota, chegou perto dela e a abraçou para acalmá-la. Eliana era uma das pessoas que achava que a menina estava vendo coisas. Dando um abraço forte na guria, Eliana ficou preocupada, pois percebeu que ela tremia muito. Aquela noite não estava fazendo bem pra menina.

POW! POW! POW! As pancadas ritmadas voltaram. O que for que seja que tivesse assustado o povo momentos atrás estava de volta. –AAAAAHHH! – As 12 pessoas que estavam do lado de fora agora se acotovelaram em um agoniado regresso a casa. Foi um sapeca ia, ia retado. Alguns acabaram ficando com arranhões ou pequenos hematomas. Coisas insignificantes para quem estava nessa situação.

-Fecha tudo, fecha tudo. – A porta da frente foi trancada. Novamente queriam dar a impressão de que a casa estava vazia. Um truque que não ia funcionar novamente devido à algazarra que acabaram de fazer no lado de fora.

POW! POW! POW! O som das batidas estava alto e próximo. A coisa estava novamente na frente da casa, só que desta vez o barulho não foi se afastando. TRUM! Um som de trovão. Um forte clarão iluminou por alguns segundos a sala deixando as pessoas ainda mais assustadas. – É obra do Cão! – Dizia a beata que estava por ali.

CRASH! POW! TRUM! Sons estridentes de batida, trovões e de coisas pesadas se chocando se misturavam aos rápidos brilhos de relâmpagos. Parecia que uma batalha épica estava sendo travada na rua.

POW! Todos estavam apreensivos dentro daquela sala, os olhos esbugalhados de todos estavam mirando a parte da frente da casa. POW! O último som de batida chamou ainda mais a atenção. Era muito mais próximo do que qualquer outro ouvido anteriormente. SCRUCTH! Som de alguma coisa sendo esmagada. Silêncio. Os raios, os barulhos. Tudo sumiu. Parecia que a rua estava em paz. Eu disse "parecia".

Alguma coisa estava caindo na cabeça de Clovis. Ele tentou olhar pra cima para ver o que era, mas naquela escuridão toda não conseguiu identificar nada. Clovis mexe em seu cabelo. Sua mão estava suja. Ele então percebe que um pozinho estranho estava "chovendo" em seus cabelos. O pó na verdade era pedaço de reboco de parede. O teto estava rachando.

POW! O último impacto aconteceu no teto da casa. O teto não resiste e cai. Pedaços enormes de reboco e tijolo começam a cair dentro da sala. Algumas pessoas são soterradas, algumas delas morrem. Os que conseguiram se proteger indo para a cozinha saíram intactos. Essas pessoas foram Clovis, Ana e mais uns três ou quatro gatos pingados.

Através da enorme broca feita no teto da casa uma mão colossal entra e apanha um convidado. – AAAAAHHHH! – Rivailtom grita. Foi pego pela monstruosidade. SCRUCTH!. Rivailtom acaba tendo uma morte terrível.

POW! POW! POW! O som das pisadas agora ia se afastando. O colosso estava indo embora. Ele deixou para trás um cenário de destruição, morte e dor. Clovis olhava para a sala desesperado. Sua namorada e seu pai não haviam conseguido fugir para a cozinha. Estão soterrados, talvez até mortos. Adilsom também não estava ali. Clovis deduziu então que ele estava na mesma situação, no entanto ele não estava. O garoto prodígio estava na rua. Interessado em entender algo que lhe chamou atenção.

Cinco horas da manhã. O céu começava a ficar iluminado. As ruas não estavam mais assim tão escuras. Do lado de fora da casa, Adilsom olha para dois defuntos. Ambos parecendo que haviam sido esmagados. Estavam jogados no meio da estrada, como lixo. Apesar da aparência dos cadáveres estarem horrenda, dava pra perceber que aqueles amontoados de carnes e ossos já foram homens um dia. Um deles Adilsom percebeu, pela roupa, que era Rivailtom, o outro ele não sabia identificar quem era. Com certeza não foi um dos convidados da festa. O que fazia aqui então?

Usando sua habilidade sobrenatural de entender tudo o que estava a sua volta, Adilsom chega à conclusão que este cadáver poderia muito bem ser a do homem misterioso que tinha assustado Aninha duas vezes naquela noite. Adilsom se agacha e fica bem próximo do cadáver. O cérebro do homem estava exposto, mas Adilsom não tinha asco. Ao contrário, ficou interessado em entender como aquele cérebro funcionava. Alguma coisa dizia que aquele cucurute não era de uma pessoa normal.

Sem se fazer de rogado, Adilsom mete a mão no cérebro jogado na estrada e começa a prestar atenção nele. O seu dom sobrenatural começava a agir. Era quase como uma vozinha dentro de sua cabeça que ia juntando as peças de quebra cabeças impossíveis de um humano normal entender. Não havia nada na Terra que Adilsom não fosse capaz de entender. Esse era seu dom.

- Mão Gigante? Pertencem a um gigante. Céu não parecia estar propenso a tempestades. Os raios não eram naturais? O gigante fez os raios? Sons com certo ritmo. Briga? Embate? Quem enfrentou o gigante? Raios? Pra quê um gigante precisa soltar raios? Não bastaria esmagar as pessoas com seu tamanho? Raios? Raios? Não foram feitos pelo gigante. Artificiais. Humano. Humano que solta raios. Esse humano soltava raios?

A voz na cabeça de Adilsom estava trabalhando como nunca. Em poucos minutos ele entenderia tudo o que estava acontecendo.

- Deus? Anjo? Sobrenatural? Algo como eu? Dom? Poderes? De onde?

Adilsom demorou cerca de três minutos para entender o que estava acontecendo. Algo que nunca aconteceu antes. Geralmente ele entendia tudo em uma velocidade de milésimos de segundos. Esse problema era um desafio para sua mente avançada.

- Gene? Poderes genéticos? Cérebro? Ativar poderes. X? Fator X? Mutação genética? Aleatória? Impossível! O que estava fazendo aqui? Não parecia preocupado com a festa. Gigante andando pela cidade? Andando? Procurando? Caçando! O que estava fazendo aqui? Poderes? Ana vê um homem perto da casa. Na frente da casa. Na varanda. Vigiando? Espionando? Brigou com o gigante. Defendendo? Protegendo alguém do gigante? Quem? Não conhecia ninguém da festa. Por que se interessaria em proteger alguém? Caçado? Caça as bruxas. Bruxas se protegem. Ele protegia um igual? Ele protegia um igual.

Adilsom já sabia o que aquele homem e o gigante estavam fazendo na cidade. Agora ele iria descobrir que seu dom de entender tudo o que estava a sua volta era ainda maior do que ele imaginava.

- Elétrico? Dons genéticos? Controle. Ativados. Comando cerebral. Área do cérebro responsável. Enzimas. Hormônios. RNA. DNA. Entendi como se faz.

TRUM! Adilsom apontou sua mão para uma latinha de cerveja que estava jogada no chão. Prontamente um relâmpago saiu de seus dedos e carbonizou a latinha. Adilsom agora era capaz de controlar eletricidade. Tinha adquirido um novo dom. Na verdade não foi bem assim. Adquirido. Na verdade ele entendeu como o defunto fazia para poder usá-lo. O que na pratica era a mesma coisa.